MARIA APARECIDA FERREIRA DE AGUIAR

PSICOLOGIA APLICADA  ADMINISTRAO
GLOBALIZAO, PENSAMENTO COMPLEXO,
TEORIA CRTICA E A QUESTO TICA NAS ORGANIZAES
3 EDIO

Exceilus Editora Ltda 
2002
Dados de catalogao na Publicao (CIP) Internacional 
(Cmara Brasileira do Livro) 
Aguiar, Maria Aparecida Ferreira de, 
Psicologia aplicada  administrao: teoria 
crtica e a questo tica nas organizaes / 
Maria Aparecida Ferreira de Aguiar. - So 
Paulo: Exceilus Editora, 1992. 
Bibliografia. 
1. Administrao de empresas - Aspectos psicolgicos 
2. tica nas organizaes 1. Ttulo. 
II. Ttulo: Globalizao Pensamento complexo Teoria crtica e a questo tica nas organizaes. 
92-2427                  CDD- 658.0019 
ndices para catlogo sistemtico 
1. Administrao: Aspectos psicolgicos 658.0019 
2. Administrao de empresas: Aspectos psicolgicos 
658.0019 
3. Psicologia aplicada  administrao 658.0019 
4. Psicologia organizacional 
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NDICE 
PREFACIO. 17 
PREFACIO DA SEGUNDA EDIO. 21 
1. A GLOBALIZAO: DIMENSO PSICOSSOCIOLGICA E A QUESTO TICA. 25 
A dimenso econmica. 25 
Dimenso ecolgica. 26 
Dimenso tcnica. 26 
Tecnologia e controvrsias. 26 
Tecnologia e conceito de espao. 27 
Tecnologia da informao e reflexividade intensiva. 27 
Reflexividade intensiva e ao inconsciente. 28 
Conhecimento cientfico disponibilizado e suas distores. 28 
Excluso social. 29 
Conseqncias do processo de globalizao. 29 
Riscos e incertezas. 29 
Conflitos sociais. 30 
Entendendo a modernizao. 30 
Modernizao simples. 30 
Sociedade de risco e modernizao reflexiva. 30 
Modernizao simples e modernizao reflexiva. 31 
Teoria da modernidade reflexiva. 31 
Retomando a modernizao. 32 
A segunda modernidade. 32 
Processo de destradicionalizao. 32 
Poltica de vida. 32 
Poltica gerativa. 33 
Reflexes e consideraes. 33 
Ser inteligente. 33 
Responsabilidade e interdependncia. 34 
Solidariedade. 34 
Solidariedade econmica. 35 
Solidariedade e excluso social. 35 
Solidariedade, autonomia e interdependncia. 35 
Resumo. 36 
Termos e conceitos a serem lembrados. 36 
Questes. 37 
Trabalho prtico. 37 
Trabalho de grupo. 37 
Bibliografia. 37 
5


2. BUSCANDO UM NOVO PARADIGMA DE PENSAMENTO:O PENSAMENTO COMPLEXO. 39 
Componentes do sistema de representao mental. 39 
Paradigma. 40 
Paradigma e a forma de pensar. 40 
Paradigma da era moderna. 41 
O contexto e nossos esquemas pessoais. 41 
Os objetivos e as intenes. 42 
O pensamento simples. 42 
Princpios do pensamento simples: patologias do saber.  43 
Inteligncia cega. 43 
Conjuno do uno e do mltiplo. 44 
Reduo. 44 
Caractersticas do Pensamento Simples. 45 
Contradies do pensamento simples: A ordem e a desordem. .. 45 
A autonomia humana. 46 
Os individuos tambm se auto-produzem. 46 
As foras da dependncia humana e a capacidade de ter liberdade. 47 
Autonomia e sujeito. 47 
Organizaes e auto-produo. 47 
A organizao do conhecimento como fator de mudana de paradigma. 48 
Complexidade. 48 
Complexidade e suas formas. 49 
Princpios que ajudam a pensar a complexidade. 51 
As etapas da complexidade. 52 
Sistema e complexidade. 53 
Razo. 53 
O que  arazo. 53 
Racionalidade. 54 
Racionalizao. 54 
As diferenas entre racionalizao e racionalidade. 55 
A dvida e a razo. 55 
Paradigma de pensamento e o desafio da complexidade. 55 
Termos a serem lembrados. 56 
Questes. 57 
Trabalho prtico. 57 
Bibliografia. 57 
3. A QUESTO TICA NAS ORGANIZAES: 
A TICA DISCURSIVA DE HABERMAS. 59 
Teoria da ao comunicativa. 59 
A teoria da Ao Comunicativa e a linguagem. 59 
Mundo vivido e a ao comunicativa. 60 
Processo argumentativo: discurso. 61 
6 
A tica discursiva de Jrgen Habermas . 63 
A tica Discursiva e seus pressupostos essenciais. 63 
tica Discursiva: universalizao e comunicao. 63 
tica Discursiva e integridade do indivduo. 64 
Condies para a tica Discursiva. 64 
Descentramento. 65 
tica Discursiva e a neutralidade em Kant e Durkheim. 66 
tica Discursiva e natureza humana. 66 
Condies essenciais da tica Discursiva como processo de aprendizagem. 67 
tica Dis.cursiva universal e dialgica. 68 
Kant e a razo prtica. 69 
Sistema de fins. 71 
Durkheim e a moralidade. 73 
Julgamentos morais: Jean Piaget. 75 
Psicologia do desenvolvimento: L. Kohlberg e Selman. 78 
Os estgios morais de Kohlberg. 80 
Perspectivas sociais de Kohlberg. 84 
Aquisio e desenvolvimento dos conceitos e das relaes das pessoas segundo R. Selman. 85 
Ordem 2: Adoo de Perspectiva Auto-Reflexiva na Segunda Pessoa e Recproca (de 7 a 12 anos de idade). 86 
Perspectiva diferenciada e subjetiva. 87 
Perspectiva auto-reflexiva na segunda pessoa e recproca (7 a 12 anos aproximadamente). 87 
Perspectiva da terceira pessoa e mtua (de 10 a 15 anos aproximadamente). 88 
A psicologia organizacional: suas propostas e a questo tica. 88 
A razo instrumental. 88 
Motivao e o processo de induo do indivduo na organizao. 89 
As concepes morais universais e o desenvolvimento psicolgico. 92 
Seqncia cognitiva  Kohlberg. 93 
O compromisso da psicologia aplicada  administrao com a 
moralidade positivista de Durkheim. 94 
A psicologia aplicada  administrao e a tica Discursiva.  94 
Resumo. 96 
Teoria de Ao ComunicativaS. 96 
A tica Discursiva de Habermas. 97 
A moral em Kant. 99 
Termos e conceitos a serem lembrados. 99 
Questes. 103 
Trabalho prtico. 103 
Bibliografia. 104 
7 
4. A ADMINISTRAO E SEU COMPROMISSO IDEOLGICO . 105 
Sociedade. 106 
Reproduo dos tipos de sociedade nas organizaes .109 
Natureza humana. 110 
Ideologia .115 
Administrao .115 
Resumo .117 
Tipos de sociedade. 117 
Termos e conceitos a serem lembrados. 119 
Aplicao. 121 
Questes .121 
Bibliografia. 122 
5. PSICOLOGIA: CINCIA OU BOM SENSO2. 123 
Provrbios e a Psicologia .123 
As idias e opinies de pensadores e a Psicologia. 124 
Bases cientficas da compreenso do comportamento humano.  124 
Definio e evoluo da Psicologia como cincia. 124 
Divergncias na definio de comportamento humano. 125 
Relao entre escolas, tcnicas e mtodos de comprovao de suas hipteses. 126 
Influncia dos resultados de observaes e estudos cientficos. 126 
Psicologia e demais cincias. 127 
Cincia .128 
Etapas do mtodo cientfico. 128 
Funo das teorias psicolgicas. 129 
A Psicologia como cincia e o controle do comportamento humano. 130 
Psicologia e planejamento do comportamento. 131 
Ideologia e Psicologia .131 
Resumo .132 
Termos e conceitos a serem lembrados. 132 
Aplicao. 133 
1. Exemplos de observaes cientficas na psicologia. 133 
Questes .134 
Trabalho prtico .134 
Bibliografia .134 
6. TEORIA PSICANALTICA E SUA APLICAO NAS ORGANIZAES. 137 
Freud e o mtodo cientfico. 137 
Conceitos principais. 138 
Subdivises da personalidade. 139 
As qualidades mentais. 142 
Princpio do Prazer. 143 
Princpio da Realidade. 144 
8 
Processo Primrio e Secundrio. 144 
Instintos. 144 
Desejos .145 
Necessidade. 145 
Recalque. 145 
Sublimao. 146 
Represso .146 
Pulses de morte. 146 
Pulses de vida .146 
Conflito psquico. 146 
Identificao. 147 
Identificao com o agressor .147 
A teoria psicanaltica e o comportamento humano na organizao: 
contribuies e limitaes .147 
Teoria psicanaltica na organizao: a psicodinmica do trabalho .150 
Teoria da psicopatologia do trabalho. 150 
Conceitos bsicos. 151 
Relao do indivduo com a organizao do trabalho. 151 
Estratgias de preservao da sade mental. 152 
Relao entre organizao da personalidade e organizao do trabalho. 152 
A psicopatologia do trabalho: concluses bsicas. 153 
Tipos de organizao e sofrimento no trabalho. 153 
Estratgias defensivas. 153 
Vida psquica e sade fsica. 153 
Sofrimento mental e suas conseqncias. 154 
Defesas contra o sofrimento. 154 
Alienao como fator de sofrimento. 155 
Psicodinmica do trabalho e a teoria psicanaltica. 156 
A epistemofilia. 156 
Ressonncia simblica, histria singular e qualidade do trabalho. 156 
Condio de ressonncia simblica. 157 
Sublimao, reconhecimento e identidade. 157 
Sofrimento e motivao. 157 
Conseqncias da organizao cientfica do trabalho sobre a sade mental. 158 
Sofrimento criativo luta com o operatrio. 158 
Conseqncias do sofrimento patognico no ambiente. 159 
Incidncia do sofrimento patognico sobre a produtividade. 159 
Sofrimento humano nas organizaes: do espao de palavra ao espao pblico. 159 
Espao pblico como um recurso humano. 160 
Sofrimento humano e responsabilidade das organizaes. 160 
Trabalho, sofrimento e sociedade. 161 
Consideraes finais. 161 
9 
Resumo . 162 
Termos e conceitos a serem lembrados. 163 
Aplicao. 165 
Questes. 165 
Exerccios. 166 
Bibliografia. 166 
7. O CONDICIONAMENTO DO COMPORTAMENTO NA ORGANIZAO. 169 
Origens. 169 
Condicionamento dos seres humanos. 171 
Comportamento respondente. 171 
Comportamento operante. 172 
Distino entre comportamento respondente e comportamento operante. 172 
O processo de condicionamento respondente. 172 
Experimento de Pavlov. 172 
Fatores que influenciam o condicionamento. 173 
Condicionamento operante. 174 
Reforo: definio e tipos. 174 
Privao e reforo. 174 
Dispositivos experimentais. 175 
Extino. 176 
Punio. 177 
Por que um estmulo age como reforador. 177 
Fatores que interferem no resultado do condicionamento. 177 
Significado do reforo. 178 
Generalizao de estmulos. 178 
Discriminao de estmulos. 178 
Motivaes (drives): os behavioristas e as motivaes. 179 
Emoes. 179 
Percepo. 179 
A personalidade segundo o behaviorismo. 180 
Tomada de decises. 180 
O controle da tomada de deciso. 180 
Controle das variveis experimentais na situao organizacional. 
Behaviorismo e o comportamento humano 
na organizao .180 
Dificuldade de manipulao de estmulos e reforos adequados a certos comportamentos. 181 
Condicionamento. 181 
O lado tico do reforamento negativo e suas conseqncias. 182 
Reforamento positivo. 182 
Limitaes do behaviorismo. 182 
Resumo. 183 
Termos e conceitos a serem lembrados. 185 
10 
Questes . 187 
Principais representantes das diversas tendncias da escola Behaviorista. 187 
Aplicao. 187 
Bibliografia. 188 
8. TEORIA DE CAMPO E COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL .. 189 
Precursores da Teoria de Campo: Teoria Clssica da Gestalt. 189 
Gestalt .190 
Insight .190 
Isomorfismo. 190 
Figura-fundo. 191 
Conceito de aprendizagem segundo a teoria gestltica. 192 
Desenvolvimento da teoria de campo. 192 
Elaborao e combinao de constructos. 193 
Teoria de campo como mtodo de anlise. 193 
Objeto da Psicologia. 193 
Conceito de comportamento. 194 
Fenmenos psicolgicos como realidades psicolgicas. 194 
Conceitos de comportamento. 195 
Observao cientfica do comportamento. 195 
Comportamento como funo da situao total. 196 
Espao vital. 196 
Interao indivduo-meio ambiente. 197 
Abordagem dinmica. O individuo como sistema. 198 
Principais conceitos da teoria de campo. Espao vital (life space). 198 
Ambiente objetivo. 199 
Ambiente psicolgico. 199 
Pessoa .200 
Dimenso do espao vital. 200 
Diferenciao no nvel realidade-irrealidade. 200 
Presente psicolgico. O comportamento como funo do campo presente. 201 
Princpio da contemporaneidade. 201 
Tempo em Psicologia. 202 
Conceitos estruturais: regio. 204 
Conceitos dinmicos (hodologia). 204 
Conceitos que tratam da mudana no ambiente psicolgico. 207 
Tipos de aprendizagem. 208 
Nvel de aspirao e a aprendizagem. 208 
Mudanas induzidas socialmente. 209 
Lewin e a Psicologia social Pesquisa-ao. 210 
Dinmica de grupo. 210 
Teoria de campo e comportamento organizacional. 211 
Resumo. 213 
Termos e conceitos a serem lembrados .215 
Aplicao. 216 
11 
Questes.217 
Bibliografia. 218 
9. A ORGANIZAO COMO CONTEXTO 
SOCIAL E O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO. 219 
Desenvolvimento cognitivo. 220 
Perodo sensrio-motor. 220 
Esquema e conceito prtico. 221 
Caractersticas do perodo sensrio-motor. 221 
Perodo pr-operatrio ou desenvolvimento do pensamento simblico. 221 
Resumindo, o nvel pr-operatrio se caracteriza: 222 
Reversibilidade .222 
Operao mental. 222 
Nvel operatrio formal e suas caractersticas. 223 
Hereditariedade e meio ambiente .223 
Back-ground biolgico do comportamento humano-hereditariedade. 224 
Transmissores da hereditariedade .224 
Processo de maturao. 224 
Condies ambientais. 225 
Reflexos e instintos. 225 
A hereditariedade e as diferenas nos seres humanos. 225 
Jerkes e Klineberg e o estudo das condies ambientais. 226 
Margaret Mead e as influncias culturais. 226 
Classes sociais e diferenas individuais. 226 
Determinismo hereditrio. 227 
Meio psicolgico .228 
Sociedade e transmisso de padres de comportamento. 228 
Cultura e desenvolvimento de caractersticas individuais. 228 
Percepo e cultura .228 
lnterao dos fatores hereditariedade e meio ambiente. 230 
Processo de interao dos fatores hereditariedade e meio. 230 
A organizao como meio social. 230 
Tipos de influncia como meio social. 230 
A inteligncia. 231 
QI. 231 
Contradies e dificuldades. 233 
Seleo de pessoal e os pressupostos dos testes psicolgicos .234 
Contradies e dilemas no uso dos testes psicolgicos. 234 
Resumo. 236 
Termos e conceitos a serem lembrados. 238 
Trabalho prtico. 240 
Questes. 241 
Bibliografia. 242 
12 
LO. PERSONALIDADE E FALSA CONSCINCIA NAS ORGANIZAES .. 245 
Personalidade. 245 
Caractersticas da personalidade. 246 
Desenvolvimento e ajustamento da personalidade. 246 
Tipos ou dimenses de personalidade. 248 
Personalidade e organizao .249 
Avaliao da personalidade .250 
Inventrio de personalidade (entrevistas e questionrios). 251 
Avaliao psicolgica na organizao. 253 
Resumo. 253 
Termos e conceitos a serem lembrados. 255 
Aplicao. 255 
Questes .256 
Trabalho prtico. 257 
Bibliografia .257 
11. PROCESSO PERCEPTIVO E O CONTEXTO ORGANIZACIONAL. 259 
Hipteses sobre a percepo. 259 
Importncia do contexto dos estmulos percebidos. 260 
Conceito ou categoria. 261 
A experincia passada e a percepo presente. 262 
A projeo e sua influncia no processo de percepo. 262 
Contraste e a percepo. 263 
Ampliao do limite de ateno. 263 
Constncia. 266 
Constncia e distoro visual. 266 
Motivao e sua influncia na percepo. 266 
Decodificao. 267 
Percepo social. 268 
lnterao social e percepo social .268 
Problemas da pessoa que percebe e da que  percebida. 268 
Interao de fatores intra e extrapessoais no processo de percepo social. 269 
Ptocessos cognitivos. 271 
O pensainTAr o rito. 272 
Operaes mentais .273 
Desenvolvimento cognitivo. 273 
Soluo de problemas .274 
Influncia dos fatores individuais. 275 
Criatividade .275 
Os processos cognitivos e o comportamento humano na organizao. 276 
Presses grupais e percepo .276 
Diviso do trabalho e percepo .277 
Caractersticas individuais e percepo. 277 
13 
A organizao, a maturidade psquica e o desenvolvimento mental. 278 
Organizao como meio social e sua funo .278 
Mecanismos de represso. 279 
Caractersticas da organizao. 280 
Conseqncias para o indivduo .280 
Conseqncias para a organizao. 280 
Percepo e falsificao da conscincia .280 
Mecanismo de facilitao. 281 
Condies econmicas e desenvolvimento cognitivo. 282 
Falsificao da percepo .282 
Resumo .283 
Termos e conceitos a serem lembrados .284 
Trabalho prtico .286 
Questes .287 
Bibliografia .288 
12. MOTIVAO E A ORGANIZAO. 291 
A motivao como problema individual .292 
Comportamento motivado, comportamento no motivado. 293 
Motivao e hedonismo .293 
Os behavioristas e a motivao. 294 
Os cognitivistas e a motivao. 294 
Kurt Lewin .294 
A abordagem de Freud .294 
Freud e o inconsciente .295 
Teoria psicanaltica e determinismo biolgico .295 
Comportamento como forma de liberao de tenses. 295 
Comportamento direcio nado .296 
Teoria da motivao humana de Maslow. 296 
Hierarquia das necessidades humanas. 296 
Predominncia das necessidades fisiolgicas .296 
Interdependncia das necessidades humanas .297 
Necessidades de segurana .297 
Necessidades de afiliao e amor. 297 
Necessidade de estima .298 
Necessidade de auto-atualizao. 298 
Necessidades estticas .298 
Abordagem humanista .299 
Necessidade de realizao (N-achievement, Mcclelland) .299 
Constelaes de necessidades psicolgicas .300 
Necessidade psicolgica predominante e integrao na organizao. 301 
Auto-realizao e motivao .301 
Condies higinicas e satisfao no trabalho. 302 
14 
Motivao e produtividade . 302 
Produtividade versus integrao .302 
Conformismo versus produtividade. 303 
Avaliao do grau de integrao ou adeso ao sistema versus produtividade. 304 
Sistemas de incentivos e manipulao de comportamento na organizao .304 
interao indivduo-organizao .304 
Motivao e problemas emocionais. 304 
Problemas emocionais e autocracia .305 
Graus diferentes das necessidades bsicas. 305 
Diferena entre doena mental e problemas emocionais. 305 
Motivao e chefia  o papel do chefe .306 
Reflexes e consideraes. 307 
Resumo. 308 
Termos e conceitos a serem lembrados .308 
Aplicao .309 
Ficha de avaliao. 310 
Questes. 311 
Bibliografia. 312 
13. LIDERANA: PROCESSOS GRUPAIS E O COMPORTAMENTO 
ORGANIZACIONAL .315 
Processos grupais e a organizao. 315 
Dinmica de grupo .316 
Orientaes tericas .316 
Processos grupais: liderana. 318 
Aceitao da liderana .318 
A liderana como caracterstica de um individuo. 320 
A liderana como propriedade de um grupo .320 
Poder social .323 
Efeitos de liderana. 324 
Experimentos .326 
Diferenas entre as vrias formas de liderana. 327 
Estilo de liderana na organizao .331 
A liderana na organizao .333 
Definir liderana .334 
Resumo .335 
Termos e conceitos a serem lembrados .336 
Aplicao .337 
Trabalho de campo. 340 
Trabalho prtico .340 
Questes .341 
Trabalho de pesquisa. 341 
Bibliografia .342 
15 



PREFCIO DA SEGUNDA EDIO 
Psicologia Aplicada  Administrao: teoria crtica e a questo tica nas organizaes 
tem como proposta repensar a organizao a partir da Psicologia resgatando a pessoa 
humana e a sua capacidade de vir a ser livre, de ser sujeito num mundo onde 
predominam as regras, as normas e as coeres, especialmente as psicolgicas. 
Desenvolvi uma reflexo crtica, apoiando-me na Teoria Crtica e na tica Discursiva de 
Jrgen Habermas e na Teoria do Desenvolvimento do Pensamento de Jean Piaget. 
O aluno, como sujeito do seu processo de aprendizagem,  colocado no centro da 
problematizao da teoria e da prtica. Parto do pressuposto de que ele, o aluno, tem a 
competncia de vir a ser livre e de conquistar sua autonomia humana, desenvolver sua 
competncia reflexiva, formar sua conscincia crtica e conscincia moral buscando a 
cidadania e os valores ticos. Enfim, desenvolver o Eu-sujeito no decorrer de seu 
processo de aprendizagem. Estes so desafios que se colocam para o aluno e tambm 
para o professor como co-responsvel nesta caminhada da busca da cidadania, pois os 
professores so aqueles e aquelas compromissados com valores ticos que exigem 
deles competncia e responsabilidade social como atores criadores das condies para 
o outro vir a ser sujeito. 
Foi comprometida com estes pressupostos que introduzi os captulos 
Globalizao: dimenso psicossociolgica e a questo tica e Buscando um novo 
paradigma de pensamento: o pensamento complexo. 
No primeiro captulo, desta nova edio retomo as questes da modernidade e da 
modernizao colocadas a partir da globalizao, aqui entendida como um processo de 
modernizao sem controle, que rompe com as bases institucionais da sociedade.  um 
processo que gera riscos, incertezas e provoca efeitos colaterais contraditrios e 
imprevisveis nas diversas dimenses da vida das pessoas e da sociedade. 
Esta modernizao, tambm conceituada por Giddens e Beck como modernizao 
reflexiva, tem como caracterstica principal a reflexividade intensiva, isto , o intenso e 
macio processo de informaes a que as pessoas, em
21 



todas as esferas da sociedade, esto submetidas, levando-as a abandonar valores 
morais e ticos, crenas, hbitos e costumes de forma inconsciente.  um processo de 
modernizao que pode ter como conseqncia o auto-confronto e a autodestruio da 
sociedade, uma vez que as bases institucionais os valores e ticos foram abolidos. 
Na sociedade de risco, com a quebra das bases institucionais, com a destruio da 
tradio, dos princpios morais e da tica nas relaes individuais e institucionais, as 
pessoas esto expostas a riscos e so facilmente envolvidas e destrudas pelas ciladas 
do processo de globalizao. 
A destradicionalizao da sociedade, proposta por Giddens, e a reflexividade social 
intensiva, proposta por Beck, so caminhos para a construo da nova modernidade que, 
em conseqncia do dinamismo da globalizao, dever estar permanentemente num 
processo de construo.  a modernidade inacabada de Habermas. 
Na destradicionalizao o indivduo repensa valores, crenas e hbitos de forma 
consciente e assume com responsabilidade as conseqncias das suas decises tanto 
no plano individual quanto no social; na reflexividade social intensiva ele atua na criao 
de espao pblico para o debate das questes que envolvem o re-ordenamento da vida 
social, questes como a pobreza, o desemprego, a violncia, a corrupo, a educao, 
entre outras.  sujeito e ator na construo da nova modernidade tanto no processo de 
destradicionalizao quanto no processo de reflexividade social intensiva;  o 
reconhecimento da individualidade e da exigncia do ser sujeito. 
A discusso da globalizao, enquanto processo complexo que integra diferentes 
dimenses, tem como objetivo criar condies para a compreenso de suas implicaes 
para os indivduos, para as organizaes e para a sociedade, bem como para 
compreender os desafios por ela colocados. 
No segundo captulo enfoco a busca da compreenso da realidade complexa, por outro 
lado, exige uma aprendizagem de reflexo que no pode ter o paradigma do pensamento 
simples como base. Vivemos num mundo que a cada dia se torna mais complexo e 
aprendemos a pens-lo a partir do paradigma da simplicidade, do reducionismo.  
necessrio aprendermos a pensar a realidade complexa, pois o mundo globalizado  
complexo, predominando as incertezas, os riscos e as mudanas rpidas. 
No terceiro captulo so colocados, a partir da Teoria Crtica e da Teoria da tica 
Discursiva de Habermas, os fundamentos para o repensar a Psicologia e sua aplicao 
na esfera das organizaes e o processo de globalizao e de modernizao reflexiva. 
Os conceitos ai discutidos so retomados em diferentes captulos. 
No captulo quarto a Administrao  analisada considerando-se o seu comprometimento 
ideolgico, e os seus pressupostos acerca da natureza humana so problematizados. 
No captulo quinto a Psicologia, como cincia aplicada  Administrao,  objeto de 
anlise. O seu compromisso tico  colocado em discusso. 
Nos captulos seguintes so discutidas as principais teorias psicolgicas e amplamente 
problematizada sua aplicao ao contexto organizacional. 
22



As questes e exerccios, cruzando teorias, problematizando sua aplicao prtica e suas 
conseqncias, juntamente com a busca pelo aluno de alternativas de ao coerentes 
com o compromisso tico, fazem parte da pedagogia compromissada com a formao 
do Eu-sujeito, proposta pela autora. 
Quero agradecer a todos os professores que, no decorrer das quatro tiragens deste livro, 
enviaram suas crticas e sugestes, sem as quais no teria conseguido revisa-lo e 
aprimora-lo. Ao professor Alfredo Dib Abdul Nour o meu reconhecimento pelo sua 
participao na discusso dos conceitos bsicos referentes  globalizao e na 
colaborao da redao do capitulo 2. 
 professora Mnica Maria Martins de Souza o meu reconhecimento pelo seu competente 
trabalho de reviso tcnica desta edio e o meu muito obrigada pela sua presena 
amiga no rduo trabalho de reviso. Agradeo tambm  Priscilia Geraldo, minha 
secretria, que participou das minhas dificuldades no medindo sacrifcios para ajudar-
me transpo-las. No posso deixar de mencionar a presena de Irm Percilia Aguiar Ssp. a 
quem agradeo por seu trabalho de reviso e a sua torcida junto ao meu Anjo da Guarda 
para que eu pudesse chegar ao fim deste trabalho. 
A Autora 
So Paulo, fevereiro de 2000 
23 



PREFCIO 
Este livro tem como proposta fundamental a reflexo critica da Administrao na era da 
modernidade, tendo como objeto a Psicologia aplicada  Administrao. 
Entendendo-se por era da modernidade aquelas sociedades contemporneas que 
admitem a institucionalizao e a autonomizao de esferas (mundo cultural) que tm 
como funo central a reflexo critica e o questionamento permanente, por parte de todos 
os membros da sociedade, dos processos de transformao como um todo e das 
instituies societrias (Estado, economia, igreja, escola etc.). Na modernidade, o culto 
da razo comunicativa no interior do mundo vivido, como conceituado por Habermas 
(calcada no dilogo da argumentao em contextos interativos e livres de coao), passa 
a ser uma das suas caratersticas essenciais. A razo comunicativa pressupe, como 
essencial, a fundamentao dos indivduos que nela se engajam na justia, na verdade e 
veracidade. O mundo vivido seria, desta forma, esfera da sociedade onde a experincia 
comum de todos os atores se desenrola por meio da lngua, das tradies e da cultura 
partilhada por eles. Portanto, parte da vida social onde se reflete o bvio, do que sempre 
foi inquestionado. O seu reconhecimento  uma caracterstica da modernidade.  pela 
ao comunicativa, calcada na razo comunicativa, que o questionamento dessas 
certezas, do que sempre foi tomado como dado, como verdades a priori 
estabelecidas, passa a ser desenvolvido. 
Na modernidade, com a diferenciao entre mundo do sistema e mundo vivido, as suas 
contradies e patologias so expressadas. 
O mundo do sistema  a esfera da sociedade que se constitui pelo Estado (poder) e pela 
Economia (dinheiro). Nesta esfera da sociedade, a razo instrumental calcada na 
consecuo de fins (eficcia, dominao da natureza e dos indivduos) transforma os 
indivduos e a natureza em meios e os usa dominando-os.  a racionalidade instrumental 
que rege as aes. Nesta esfera da sociedade, regida pela racionalidade instrumental, as 
aes so tambm instrumentais e expulsam a razo comunicativa impedindo a ao 
comunicativa, a argumentao de todos aqueles que sero atingidos pelas aes 
instrumentais. Nesta esfera, predominam as decises tcnicas, a racionalizao, o 
autoritarismo, a dominao.  a esfera da modernizao e no da modernidade que, para 
Habermas, se situa no mundo vivido, na esfera cultural. Portanto, modernizao e 
modernidade no podem ser contraditrias e impeditivas. O que se d na sociedade 
contempornea  a colonizao, a influncia da modernizao, regida pela razo 
instrumental, na modernidade cultural. 
17 



 neste aspecto que a reflexo critica da Psicologia aplicada  Administrao se prope 
a vir a ser objeto do processo discursivo, dialgico, regido pela razo comunicativa. Neste 
sentido, espera-se, aqui, estabelecer um processo dialgico emancipatrio acerca dos 
mecanismos e instrumentos da rea de Recursos Humanos, tais como a mudana de 
cultura, os processos de padronizao de valores, a substituio de necessidades 
individuais pelas necessidades da organizao, a falsificao da conscincia (como 
mecanismo de defesa e ao mesmo tempo de adeso aos objetivos e valores da 
organizao, numa suposta auto-realizao), os mecanismos e instrumentos de 
condicionamento externo pela adoo de recompensas e punies, o treinamento e a 
avaliao de desempenho, entre outros. 
Em outras palavras, esperamos estar conversando com os leitores, assim como 
esperamos obter uma resposta, resultado de uma auto-reflexo, num processo dialgico 
argumentativo, onde, em um primeiro momento, poderamos dizer que a razo discursiva 
seria o discurso interno da alma consigo prpria, como nos diz Plato. 
 uma proposta de buscarmos juntos, num dos nichos de liberdade do mundo vivido, a 
Universidade, a Escola, uma relao dialgica, um processo argumentativo e de 
aprendizagem individual e coletiva que nos permita reverter o processo de racionalizao 
da modernizao e encontrar a modernidade cultural. Modernidade essa, comprometida 
com a captura do fenmeno histrico, que est situada no tempo e no espao; que 
confirma a razo, enquanto razo comunicativa (retira o individuo do seu isolamento 
social, situa-o no contexto social, mas nega a sua transformao em homem 
organizacional, em produto da sociedade, reafirmando o individuo como ser nico dentro 
de um contexto interativo); que resgata a idia de perfectabilidade humana, individual e 
social, pelos mecanismos de descentrao societria e pelos processos de 
aprendizagem coletiva (lgica e moral individual); que defende a liberdade e 
emancipao negociada de cada um, no todo societrio, e estabelece nveis de ao 
comunicativa, cotidiana e discursiva. 
Na leitura de Freitag h uma proposta de teoria da modernidade voltada para a prtica, 
cuja luta traz a caracterstica pacfica, calcada no processo argumentativo e em busca da 
concretizao dos valores que embasam a tica Discursiva em todos os campos e em 
todos os nveis da sociedade.  uma modernidade que traz, no bojo do seu prprio 
processo, a facilitao dos processos de auto-esclarecimento de sujeitos e grupos em 
busca de orientaes para as suas aes. Como Habermas, conclui, esta teoria da 
modernidade precisa ser continuada e no apenas no sistema das cincias, mas na 
formao discursiva das vontades e auto-reflexo daqueles que buscam orientao para 
suas aes. 
Este livro tem embutida, em cada capitulo, a proposta da formao discursiva das 
vontades e da auto-reflexo dos futuros profissionais que atuaro nas organizaes.  
uma proposta de utopia e de esperana. 
Quero agradecer a colaborao da psicloga Esther Cabado Modia nas discusses 
tericas, na pesquisa bibliogrfica e nas sugestes e questionamentos que nos permitam 
vivenciar, no concreto, a relao dialgica, o discurso. 
18 



Quero tambm agradec-la pela sua presena encorajadora e pelo seu apoio amigo. A 
Antnio Carlos Freddo agradeo a colaborao na reviso do texto. 
Expresso tambm a Lourdes, minha irm, a minha gratido pela sua presena fraterna. 
No poderia deixar de expressar os meus agradecimentos  minha irm, Maria Irene, 
colaboradora indispensvel para que eu pudesse concretizar a publicao independente 
deste livro. 
De forma muito carinhosa expresso meu profundo agradecimento a Dirce Umisedo que, 
alm de transformar os meus rascunhos em um pr-livro, deu-me o seu calor humano. 
A todos, agradeo a parte de suas vidas que aqui dedicaram. 
Assumindo, entretanto, integralmente, a responsabilidade pelas idias por mim 
desenvolvidas a partir de minhas vivncias e das leituras de autores como Jrgen 
Habermas, Barbara Freitag, Flvio Beno Siebeneichier, Srgio Paulo Rouanet, Thomas 
McCarthy, Max Pags e outros. 
A Autora 
So Paulo, fevereiro de 1992. 
19 



1.A GLOBALIZAO: DIMENSO PSICOSSOCIOLGICA E A QUESTO TICA 
Ao terminar a leitura deste captulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender o processo de globalizao e sua complexidade 
2. Compreender as conseqncias e as contradies do processo de globalizao. 
3. Compreender as questes ticas colocadas pelo processo de globalizao. 
4. Compreender a sociedade de risco 
5. Compreender os conceitos de modernidade e modernizao. 
6. Compreender modernizao reflexiva e modernizao simples. 
A globalizao como um processo no pode ser reduzida  dimenso econmica. 
Globalizao significa a experincia cotidiana da ao sem fronteiras nas dimenses 
da economia, da informao, da ecologia, da tcnica, dos conflitos transculturais e da 
sociedade civil (Beck, 1999: 46). 
Assim entendida a globalizao transforma o cotidiano das naes, das organizaes e 
das pessoas. No h como negar a sua realidade bem como a sua fora e violncia 
enquanto processo gerador de mudanas: o inesperado, o incerto e a ausncia de 
controle e limites fazem dela, a globalizao, uma geradora permanente de incertezas e 
de riscos. 
Na globalizao, como acentua Beck (1999), dinheiro, tecnologia, mercadorias, 
informaes, bem como as pessoas ultrapassam as fronteiras como se elas no 
existissem. A separao dos continentes e das naes torna-se, assim uma questo de 
aparncia. 
A dimenso econmica 
Na esfera econmica, quantias incontrolveis de dinheiro mudam em segundos de um 
pas para o outro, provocando instabilidade econmica de dimenso jamais imaginada. 
As quedas repentinas e bruscas das bolsas de valores ocorridas em vrios pases e 
centros econmicos muitas das vezes provocadas por percepes econmicas, polticas 
ou sociais, nem sempre fundamentadas, so ingredientes explosivos deste processo. A 
transferncia de
25 



negcios de um pas para o outro, sem nenhum impedimento legal, tem sido uma prtica 
comum a nvel nacional, conhecido como guerra fiscal. 
As empresas abandonam pases e/ou regies nacionais instalando-se onde lhes so 
concedidos maiores benefcios fiscais e financeiros aliado  existncia de mo de obra 
mais barata. Nesta guerra desleal o Estado-nao passa a financiar empresas 
multinacionais e/ou grupos econmicos. A aplicao do dinheiro do contribuinte  
desvirtuada. 
O chamado capital especulativo, que entra e sai dos pases sem ao menos ter perdido a 
sua natureza virtual, se soma  conturbao econmica globalizada e o mercado, por sua 
vez, continua sofrendo impactos e se modificando a partir das fuses e mega-fuses 
como a AOL e TIME Warner, maior negcio da histria econmica mundial, considerada 
pela mdia como a inaugurao na internet de uma nova era do capitalismo. As 
privatizaes, por outro lado, no perderam a sua fora, especialmente nas reas 
financeiras e prestao de servios. 
Dimenso ecolgica 

No mundo globalizado, as conseqncias do rpido avano tecnolgico criou uma 
ameaa ambiental at ento no vivenciada pela humanidade, criada pelo prprio 
desenvolvimento tecnolgico, portanto criado pela ao humana. Estas ameaas geram 
incertezas denominadas por Giddens como incerteza artificial. Por outro lado, o cenrio 
de reflexividade social intensiva, cuja caracterstica principal  a disseminao da 
informao, tornou esta ameaa ambiental um fato internacional e de acesso 
indiscriminado a todas as pessoas nas diferentes partes do mundo. Esta informao 
generalizada mobilizou a criao de organizaes de defesa ambiental e de protestos. 
Dimenso tcnica

Na esfera da tecnologia o desenvolvimento se d de forma e rapidez jamais alcanadas: 
diferentes reas so atingidas pelo surgimento de novas tecnologias, tendo como marco 
de radicalizao de mudana a tecnologia da informao que provocou uma profunda 
revoluo no cenrio do mundo, na esfera social, econmica, industrial e poltica, bem 
como na vida das pessoas. 
Tecnologia e controvrsias 

A robtica permite a rapidez, a qualidade e a exatido, trazendo contribuies 
importantes aos vrios campos e setores como industrial, pesquisas 
espaciais e medicina, entre outros. 
A tecnologia da informao  colocada ao alcance de todos, independendo de onde se 
encontram. E o fenmeno da mundializao da informao. Por outro lado, tanto a 
robtica quanto a tecnologia da informao apresentam seu lado controverso. A robtica 
 responsvel pelo desemprego artificial ou seja, o desemprego criado pelo avano 
tecnolgico. As exigncias de competitividade,
26



envolvendo a melhoria da qualidade, custos e produtividade, so, em grande parte, 
fatores que levam  substituio do trabalho humano pela robtica. 
 certo que apesar da drstica reduo de postos de trabalho, tanto a robotizao quanto 
a informatizao criou novos postos de trabaiho. Todavia  importante ter presente que 
estes postos de trabalho impem qualificao profissional cujas exigncias de 
conhecimento nem sempre podem ser alcanadas pelas pessoas. Entre o nmero de 
desempregados encontra-se um alto percentual de profissionais desqualificados, ou seja, 
pessoas que no possuem os conhecimentos necessrios  realizao das tarefas que 
integram os novos postos de trabalho. 
A tecnologia dos alimentos  outra rea que tem trazido controvrsias quanto s suas 
implicaes e conseqncias. 
H estudos que colocam sob suspeita os alimentos transgnicos imputando a eles efeitos 
negativos  sade humana. Esta discusso tem atingido nveis de verdadeira guerra entre 
cientistas e grupos econmicos. No Brasil, a empresa norte americana Monsanto  uma 
das protagonistas e briga pelo cultivo da soja transgnica. O duelo entre ela e os 
cientistas brasileiros mais se assemelha ao duelo que foi travado entre David e Golias.  
o poder econmico com sua fora se sobrepondo ao compromisso tico do cientista com 
a sociedade brasileira. 
Tecnologia e conceito de espao

A tecnologia vem provocando mudanas radicais no conceito de espao. As distncias se 
encurtaram, as pessoas transitam livremente atravessando continentes e pases. O 
deslocamento intenso de grupos de pessoas de diferentes nacionalidades  um 
fenmeno do mundo globalizado. Isto facilita o contato com diferentes culturas, tradies, 
idiomas, hbitos, crenas, religiosas e polticas. Hoje  possvel morar em uma localidade 
(cidade, estado ou pas) e trabalhar em outra, mesmo sendo em um pas de dimenso 
continental como o Brasil. A intensificao do deslocamento das pessoas facilita tambm 
o trfico de drogas, aumentando a violncia e a corrupo. 
Todavia as dificuldades encontradas pelos governos locais para impedir o deslocamento 
de pessoas como traficantes, assassinos, terroristas, lderes e seguidores de seitas, 
consideradas como ameaas  comunidade, tornaram-se maiores com o avano 
tecnolgico no setor de transportes. Pela mesma causa, os governos, inclusive dos pases 
industrializados, encontram dificuldades no controle da imigrao clandestina. 
Tecnologia da informao e reflexividade intensiva 
O desenvolvimento da tecnologia da informao e a do transporte de massa 
assassinaram, como afirma Beck (1999), a distncia e mudaram o conceito de tempo. A 
informao de forma contnua e indiscriminada provoca conseqncias desestruturadoras 
tanto para os indivduos quanto para a sociedade.
27



Neste processo as pessoas esto expostas a conhecimentos, crenas, hbitos, valores, 
tradies e culturas diferenciadas e so atingidas e contagiadas por eles. 
A internet e a televiso a cabo, somados aos meios de comunicao escrita e falada, 
especialmente a telefonia celular, so os veculos que ampliaram o alcance da 
reflexividade intensiva como fenmeno da globalizao. Por sua vez  um processo sem 
fronteiras e sem controle. Valores contraditrios, crenas, ideologias diversas, hbitos e 
culturas diferentes so ndiscriminadamente divulgadas, inclusive a cultura da violncia, a 
partir dos jogos virtuais e de filmes. Nova forma de organizao familiar, de 
relacionamento sexual e questes do gnero se misturam a valores morais e ticos.
Reflexividade intensiva e ao inconsciente 
A reflexividade intensiva, como acentuam Beck e Giddens (1997),  um processo 
desestruturante tanto para os individuos quanto para a sociedade, demolindo crenas e 
tradies e levando as pessoas a fazerem escolhas que apenas aparentemente foram 
decididas por elas. 
A globalizao  uma fator de colonizao dos indivduos. Muda-se de crenas e de 
valores. Abandonam-se tradies sem uma tomada de conscincia das suas 
conseqncias e, at mesmo, do que elas representam ou dos seus pressupostos morais 
e ticos. Faz-se, nestas situaes, escolhas. No se decide, no se  dono da prpria 
histria de vida. Algum, que no se sabe quem  e quais intenes tm, decidiu. As 
pessoas pensam que so livres, mas no o so. Foram escravizadas e colonizadas por 
entidades virtuais globalizadas e globalizantes. 
A reflexividade intensiva, atua no nvel inconsciente dos indivduos, o que explica sua ao 
desestruturante e sem controle. O abandono de valores morais, ticos e tradies 
culturais se d sem que seja percebido. Os apelos ao consumo, ao prazer, s aventuras e 
ao sucesso se fazem presentes e induzem mudanas de hbitos no vesturio, na 
alimentao, nas relaes familiares e afetivas, nas crenas e credos religiosos. Na 
retaguarda destas mudanas esto os grupos econmicos e a ideologia da dominao. 
Conhecimento cientifico disponibiizado e suas distores 
No interior da reflexividade intensiva destaca-se a disponibilizao do conhecimento 
cientifico que rompe o elitismo e a segregao especialmente quando divulgado em larga 
escala via internet, em publicaes e na mdia escrita e falada. A democratizao do 
conhecimento, todavia, sofre falsificaes no seu processo de mundializao. A 
proliferao de pseudo-cincias e de teorias tidas como revolucionrias e capazes de 
conduzir ao xito, ao sucesso e  felicidade proliferaram nestas ltimas dcadas, 
especialmente nas reas das cincias humanas e da administrao: as terapias de cunho 
espiritualista, os
28



manuais de auto ajuda e os credos que garantem o sucesso empresarial aos indivduos, 
so best sellers que atraem seguidores e consumidores. 
A simplicidade destas teorias e a praticidade de seus conselhos contribuem para a 
deformao do conhecimento e enraizamento de patologias de pensamento (Morin, 1990) 
como o reducionismo e a simplificao. 
Excluso social

O processo de globalizao  duplamente perverso s populaes j excludas. Provoca 
uma dupla e injusta excluso de grande nmero de pessoas, especialmente em pases 
emergentes. Estas pessoas so inicialmente excludas dos benefcios gerados pela 
sociedade: no tm acesso  moradia,  sade,  educao e ao trabalho. 
Com a globalizao estas pessoas so novamente excludas por no apresentarem as 
condies educacionais e econmicas que lhes possibilitariam as portas para a 
integrao na sociedade como atores. 
CONSEQNCIAS DO PROCESSO DE GLOBALIZAO 
Riscos e incertezas 
Na sociedade globalizada ps-industrial (Giddens, 1996) negociam-se os malefcios e 
no mais os beneficios. Est mudana pode ser observada nas polticas de negociao 
sindical onde o problema central era o aumento salarial. Portanto a redistribuio de 
riquezas, que era o foco inicial,  abandonada pela manuteno e o aumento de postos 
de trabalho que passam a ser a preocupao fundamental. Estas negociaes vm 
envolvendo inclusive a reduo salarial. 
No plano internacional as negociaes entre pases tambm mostram este deslocamento. 
A criao de mercados comuns regionais como o mercado comum Europeu e o Mercosul 
se caracterizam a estncias de negociao de riscos e de proteo mtua. 
Todavia, integrar os riscos e as incertezas no cotidiano exige a mudana de paradigma 
de pensamento (Morin, 1999; Giddens, 1996). Pensar o complexo pressupe o avano do 
pensamento reducionista e simplificador da causa-efeito. Giddens (1997) quando afirma 
que uma sociedade de reflexividade intensiva exige pessoas inteligentes est colocando 
a questo da competncia reflexiva e da maturidade emocional dos indivduos como 
exigncias fundamentais para a sobrevivncia e autonomia no somente delas, mas das 
organizaes e do pas enquanto Estado-nao com identidade prpria. Como ressaltam 
os autores, as pessoas com competncia reflexiva e com conscincia crtica sero 
capazes de escrever seu prprio destino. Em outras palavras, somente aquelas pessoas 
que apostarem no desenvolvimento da sua competncia de pensar, de refletir, e na sua 
maturidade emocional, sero capazes de, dentro deste emara-
29


 
nhado de informaes e crenas distorcidas, realizar a grande aventura humana da 
cidadania, da auto determinao e da liberdade, liberdade esta, que  sinnimo de 
autonomia, de idias e de sentimentos. 
Na vida pessoal a democracia dialgica trabalha com o ordenamento das relaes por 
meio de dialogo e no por meio de poder arraigado. 
Conflitos sociais 

O desemprego no mundo globalizado tem assumido propores alucinantes e est entre 
os problemas sociais mais graves. 
O desemprego virtual, ocasionado pela substituio da mo-de-obra pela 
tecnologia, e o desemprego por falta de qualificao profissional se somam e 
contribuem para o aumento da violncia, do trfico de drogas, da corrupo e 
do contrabando. 
ENTENDENDO A MODERNIZAO 
Modernizao simples 
Nas palavras de Beck (1997) modernizao simples significa primeiro a desincorporao 
e, segundo a reincorporao das formas sociais tradicionais pelas formas sociais 
industriais. Na realidade neste processo de reincorporao o paradigma de pensamento 
 mantido bem como os postulados morais de natureza obrigatria. A modernizao 
simples  o paradigma da sociedade moderna industrial. 
Sociedade de risco e modernizao reflexiva 
A modernizao (Beck, 1997)  o processo de inovao autnoma que provoca a 
obsolescncia da sociedade industrial e a emergncia da sociedade de risco, riscos 
sociais, polticos, econmicos e individuais. Estes riscos tendem, cada vez mais serem 
incontrolados pela sociedade moderna industrial. Como acentua Beck, (1997) os 
processos de modernizao autnoma so cegos e surdos a seus prprios efeitos e 
avanos. 
Produzem, de maneira latente e cumulativa, ameaas que questionam e destrem as 
bases da sociedade industrial. 
Para este autor, modernizao reflexiva significa auto-confrontao com os efeitos da 
sociedade de risco, efeitos estes que no podem ser tratados e assimilados no sistema 
da sociedade industrial. Em outras palavras, a sociedade industrial no possui 
instrumentos, regras e mecanismos de ordem econmica, poltica, social e jurdica para 
resolv-los e/ou impedir seu aparecimento. 
Esta nova realidade, a sociedade de risco,  uma realidade totalmente diferente daquela 
conhecida e vivenciada pelas pessoas. As pessoas saem da sociedade industrial para a 
turbulncia da sociedade de risco total, tendo que
30 



conviver com amplos e variados riscos globais e pessoais diferentes e mutuamente 
contraditrios. 
A ausncia do respaldo que as pessoas esperavam encontrar nas instituies formais 
responsveis pela manuteno da ordem social as levam a question-las. Este descrdito 
poder, na sociedade de risco, se tomar uma das ameaas latentes de auto-confronto e 
autodestruio da prpria sociedade. 
Modernizao simples e modernizao reflexiva 
Para entender o processo de modernizao no mundo globalizado  importante fazer 
distino entre modernizao simples e modernizao reflexiva. A modernizao simples 
ou ortodoxa busca atravs do conhecimento o controle e a ordem, considera a realidade a 
partir de sua reduo  causa-efeito, e introduz mecanismos de controle na tentativa de 
garantir a ordem alcanada.  uma estratgia onde se buscam solues para problemas 
novos atravs de formas e tcnicas antigas. 
Teoria da modernidade reflexiva 
Entende Beck (1997) que o processo da globalizao  o marco da segunda 
modernidade. As bases da sociedade industrial moderna, na medida que a modernidade 
se desenvolve, vo sendo destrudas. Os efeitos colaterais da globalizao no pensados, 
no conhecidos, mas externalizados, provocam mudanas. Os possveis efeitos colaterais 
como, a escassez da gua e a generalizao da violncia, podem ser objetos de reflexo 
e de reformulaes. Assim, formas de relaes sociais e de trabalho, de solidariedade, 
formas de relaes de negcios e mecanismos de relaes entre naes so 
introduzidos no decorrer deste processo de reconstruo da sociedade. Todavia, quando 
no o so, podem corroer as bases da modernidade e levar a sociedade a um colapso 
total e  auto destruio. Porm a ambivalncia da modernidade pode conduzir  reflexo 
sobre a auto-dissoluo e auto-risco da sociedade industrial, mas no necessariamente. 
Em outras palavras, o processo de globalizao e seus efeitos colaterais podem vir a ser 
objeto de anlise e de discusses e, a partir destas, mudanas e correes podem ser 
introduzidas na sociedade. O risco (Beck, 1999) potencial e o poder de seus efeitos 
colaterais so fatores poderosos de motivao das pessoas e da sociedade, levando-as 
a aes. As mudanas decorrentes dos efeitos colaterais podem ocorrer deforma 
inconsciente, no planejada e no analisada. Assim sendo podem provocar uma crise 
institucional fundamental e mais intensivamente profunda. Nesta crise todas as 
instituies fundamentais (como partidos polticos, sindicatos, mas tambm os 
princpios que garantem a responsabilidade no campo da cincia e do direito, as 
fronteiras nacionais, a tica da responsabilidade no individual, a ordem familiar nuclear 
e outros) perdem suas bases de legitimao histrica (Beck, 1997: 211-2). 
31 

RETOMANDO A MODERNIZAO: 
A segunda modernidade 
A globalizao e seus efeitos colaterais marcam o surgimento da desordem, do caos e 
contraditoriamente, tambm do progresso. A quebra de uma ordem estabelecida no 
mundo e com ela as bases institucionais que a garantiam.
A questo que se coloca : como a partir da crescente desordem provocada pelo 
processo de globalizao, buscar uma nova modernidade? 
Gddens (1997) se apoia no resgate da individualidade da pessoa humana e na fora do 
exerccio da cidadania responsvel. Para ele, no h alternativa para a sociedade 
humana nesta virada de milnio que obrigatoriamente no passe pelo resgate do ser 
humano, cidado e cidad reflexivos e emocional- mente competentes e responsveis. 
Processo de destradicionalizao 
Tradio  entendida como estrutura normativa de contedo moral obrigatrio ou como 
conjunto de normas morais que devem ser seguidas no exige ser justificada porque 
contm sua prpria verdade, uma verdade ritual afirmada como correta por todos que nela 
crem. 
No processo de destradicionalizao a tradio  questionada e reformulada. 
A competncia reflexiva, a conscincia critica e a capacidade de autocrtica de cada 
indivduo so pressupostos do processo de destradicionalizao. 
As tradies deixam de ser as bases das aes do indivduo. O dever  substitudo pela 
responsabilidade assumida conscientemente por cada um. 
Democracia dialgica 
A democracia dialgica  saber conviver com idias que no so as suas.  respeito a 
integridade do outro. Tem como base a confiana ativa que  criada pelo dialogo.  um 
meio de ordenao das relaes sociais no tempo e no espao. Exige visibilidade e 
responsabilidade de ambos os lados. 
A vida familiar  um exemplo onde a autonomia e a solidariedade devem estar presentes: 
a solidariedade ampliada exige confiana ativa acompanhada de uma renovao de 
responsabilidade pessoal e social em relao aos outros. Confiana que tem que ser 
conquistada. Pressupe autonomia.  uma fonte poderosa de solidariedade social uma 
vez que a transigncia  livremente oferecida em vez de ser imposta. 
Poltica de vida 
A poltica de vida tem como ponto central a emancipao que significa 
liberdade, ou liberdade de diversos tipos: liberdade em relao ao controle 
32



autoritrio da tradio ao poder arbitrrio e s coeres vindas da privao. Poltica 
emancipatria  uma poltica de estilo de vida. Est relacionada  maneira pela qual os 
indivduos e a coletividade deveriam viver num mundo onde aquilo que costumava ser 
fixado pela natureza e/ou pela tradio est atualmente sujeito a decises humanas. 
Poltica gerativa 
A poltica gerativa existe no espao que liga o Estado  mobilizao reflexiva na 
sociedade em geral.  uma poltica que busca permitir aos individuos e grupos fazerem 
as coisas acontecerem e no esperarem que as coisas lhes aconteam, no contexto e 
objetivos sociais totais. Depende da construo de confiana ativa nas instituies ou nas 
agncias que a elas esto ligadas.  o principal meio de abordar com eficincia os 
problemas de pobreza e de excluso social. 
As organizaes de auto-ajuda e movimentos sociais so tambm mobilizadores da 
democracia dialgica. 
Reflexes e consideraes 
A globalizao na sua dinmica apresenta contradies. Atinge as pessoas e as 
organizaes em todos os domnios da sociedade. Transforma a realidade dos pases e 
da vida cotidiana das pessoas. Os antigos fundamentos nos quais a sociedade se 
apoiava perderam sua razo de ser. Diante dessa nova realidade as pessoas tero que 
saber conviver no seu cotidiano com riscos e incertezas, tomar decises individuais, em 
outras palavras, serem responsveis pelas suas prprias vidas. Assim, o ser inteligente 
passa a ser uma exigncia para todas as pessoas no mundo globalizado. 
Ser inteligente 
O deslocamento do cumprimento de normas e do seguimento da tradio pela ao 
consciente das pessoas coloca a questo da individualidade, entendida como 
capacidade de se fazer, de se posicionar frente ao mundo de forma autnoma. A 
liberdade interior do indivduo, o vir a ser sujeito, est, entretanto, alicerada na 
conscincia crtica, na autocrtica e no desenvolvimento de um ego forte que atue como um 
centro ativo e organizador das estncias da personalidade, bem como na construo de 
um mapa cognitivo que facilite a compreenso da multidimensionalidade da vida global 
integram as condies de ser inteligente. 
No mundo globalizado, o conceito de pessoa inteligente significa dizer que ela  capaz de 
ver a complexidade do mundo, seus riscos, incertezas e possveis efeitos colaterais e, a 
partir da, tomar decises de forma consciente
33



e responsvel em todas as instncias da vida, nas relaes afetivas, na escolha da 
profisso, no exerccio de sua atividade profissional, nos estudos, na direo de um carro, 
no uso de bebidas alcolicas e/ou de drogas. 
Responsabilidade e interdependncia 
A responsabilidade social surge como conseqncia do outro tambm ser sujeito e ter 
direito de vir a s-lo. Individualidade no  individualismo, nem se confunde com egosmo. 
O respeito  individualidade e autonomia cio individuo colocam para a sociedade como 
um todo a responsabilidade da construo de uma nova modernidade. 
Todavia, repensar a realidade vai exigir uma mudana de paradigma de pensamento. A 
realidade atual, constituda por mudanas desordenadas, riscos e seus efeitos colaterais 
latentes, no se torna compreensvel a partir do pensamento simples, linear e reducionista. 
O resgate da individualidade e da competncia reflexiva dos individuos,homens e 
mulheres, e a importncia da cidadania e da autonomia humana so a pedra bsica do 
processo de modernizao (destradicionalizao e reconstruo) da nova modernidade 
que passa pela reordenao da vida coletiva e da vida individual. Esta reordenao 
pressupem a individualidade, o eu-sujeito e a construo de novas bases de 
solidariedade social (Giddens, 1996). 
Neste processo os individuos so atores e depender de cada um deles escrever a 
histria de suas vidas bem como marcar os rumos da sociedade. O resgate da 
individualidade do ser humano como responsvel pela sua histria pessoal e pela 
construo da nova modernidade pressupe conscincia crtica, competncia reflexiva, 
autocrtica, formao moral e tica nas relaes com outros indivduos. Coloca como 
fundamento bsico a responsabilidade de cada pessoa no seu ser sujeito que envolve, 
entre outras coisas, a conscincia e responsabilidade pelas conseqncias de decises 
de natureza pessoal e daquelas relativas ao outro. 
E o ser sujeito  tambm exercer a cidadania que lhe confere direitos e deveres. Dever 
de construir e preservar a sua prpria identidade, o seu eu-sujeito e coloca-lo no centro 
do seu mundo interior integrando, neste espao, o outro que tambm  sujeito. Isto 
significa dizer que autonomia e interdependncia no se excluem. A proposta da 
modernizao reflexiva coloca o desafio tico de fazer da solidariedade 
(responsabilidade social) a norteadora do processo de modernizao em todas as 
instncias da sociedade. 
Solidariedade 
A solidariedade com o outro dever se dar em diferentes instncias da vida social: nas 
relaes profissionais, nas empresas, nas escolas e universidades. A competncia e a 
tica traduzem a solidariedade.
34



Solidariedade econmica 
Na esfera econmica as redes de empresas, especialmente, entre as pequenas e mdias 
mostram como a solidariedade toma forma: empresas que corriam o risco de 
desaparecimento se unem para comprar matria prima,para exportar, para modernizao 
tecnolgica especialmente a tecnologia da 
informao e da comunicao. 
As agncias de desenvolvimento econmico sustentado so tambm exemplos de 
solidariedade econmica. Estas agncias, que so um tipo de organizao no 
governamental (Ong), congregam foras locais como governo local, empresrios, 
associaes de classe, para juntos, pensarem os problemas da regio e buscarem suas 
solues e juntos financiarem os mesmos. 
Solidariedade e excluso social 
Na esfera da excluso social a solidariedade se identifica primeiramente com o resgate 
da cidadania e da competncia, de vir a ser sujeito de cada pessoa. Criar a oportunidade 
do resgate do direito de escrever a sua prpria histria de vida e de ser sujeito  a 
misso maior da solidariedade na esfera da excluso social. 
As aes de grupos, especialmente de trabalho voluntrio cujo objetivo  o resgate da 
cidadania, exemplificam esta solidariedade. A profissionalizao, a alfabetizao, o apoio 
 criana e ao adolescente atravs de trabalhos na comunidade esto hoje presentes em 
vrias comunidades da periferia dos grandes 
centros urbanos. O dividir e o compartilhar com o outro o saber, as habilidades e as 
emoes so os pressupostos que do vida e norteiam esta solidariedade. 
 a expresso da responsabilidade implcita no exerccio da cidadania com o outro que 
tambm tem o direito de vir a ser cidado. 
Em sntese  atravs das aes de solidariedade que as pessoas vitimas da excluso 
social encontram os caminhos do resgate de sua cidadania, do seu vir a ser sujeito. 
Solidariedade, autonomia e interdependncia 
A solidariedade deve alcanar um certo nvel de autonomia e interdependncia nas 
diversas esferas da vida social, inclusive na esfera econmica.  atravs do dilogo, ou 
do discurso como entendido por Habermas (1987), que a confiana ativa  construda e 
se torna a base da renovao de uma responsabilidade social em relao ao outro. 
O prprio processo de destradicionalizao cultural, numa realidade de reflexividade 
intensiva, depende da solidariedade. Pois, a competncia reflexiva, a formao da 
conscincia crtica e a maturidade emocional (o estar de bem consigo mesmo) que so 
seus pressupostos essenciais, s podero ser alcanadas pelas pessoas quando 
estiverem presentes a autonomia, a liberdade e a confi- 
35



ana ativa, O aprender a refletir, o ter autonomia para a problematizao de valores, de 
tradio e conhecimentos bem como compreender a realidade complexa passam 
obrigatoriamente pela famlia, pela escola, pelos grupos religiosos e pelas organizaes 
de trabalho e  a que a solidariedade tem que ser vivenciada. 
RESUMO 

O processo da globalizao  analisado a partir de sua definio como uma mistura 
complexa de processos que destroem os fundamentos em que se apoiava a sociedade, 
provocando incertezas e riscos cujos efeitos latentes podem produzir conflitos sociais 
como o auto confronto e auto destruio da sociedade. 
E preciso repensar as relaes no mundo globalizado dominado pelo neoliberalismo 
econmico. 
A globalizao, ao provocar o auto confronto e a auto destruio, recoloca o problema da 
perda da razo de ser, do paradigma do pensamento at ento dominante. 
Repensando o paradigma de pensamento e abandonando a viso reducionista e 
simplificadora do mundo e do ser humano (teoria da causa- efeito, pensamento linear), 
bem como a ideologia do controle como base da modernidade tm sido colocados como 
uma alternativa para o processo de modernizao no contexto do mundo globalizado. 
O processo da globalizao  analisado a partir das dimenses: econmica, tcnica, 
ecolgica e conflitos sociais. As teorias da modernizao reflexiva (Giddens e Lasch), e a 
teoria da modernidade reflexiva foram apresentadas e discutidas, bem como as suas 
abordagens do processo de modernizao, entendida como incio da segunda 
modernidade. 
A modernizao no mundo globalizado pode tomar a forma consciente, onde as pessoas 
em todas as estncias e nveis da sociedade so atores construtores de uma nova 
realidade. Todavia, a modernizao pode se dar de forma inconsciente, no planejada e 
no desejada, o caminho do auto confronto e da auto destruio. O como ver a realidade 
e o ser humano e a forma de lidar com eles so a pedra bsica, que dar a 
fundamentao e direcionar pressupostos e caminhos da modernizao reflexiva na 
construo da segunda modernidade (Giddens e Beck) ou na retomada da modernidade 
inacabada (Habermas). 
A vivncia da solidariedade social, a sua concretizao no cotidiano da vida das pessoas 
e nas vrias dimenses da sociedade so apresentadas e discutidas. 
TERMOS A SEREM LEMBRADOS 
Globalizao; 
Tradio; 
Reflexividade intensiva; 
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Reflexividade social intensiva; 
Modernizao reflexiva; 
Modernizao simples (ortodoxa); 
Democracia dialgica; 
Processo de destradicionalizao; 
Risco; 
Poltica de vida; 
Poltica gerativa; 
Globalismo: ideologia do imprio do mercado mundial da ideologia do neoliberalismo. 
Designa a concepo de que o mercado mundial bane ou substitui, ele mesmo, a ao 
poltica (Beck, 1999: 27). 
Globalidade: Nenhum pas, nenhum grupo pode se isolar dos outros. Desta maneira se 
entrechocam as diversas formas econmicas, culturais e polticas (Beck, 1999: 28). 
Sociedade mundial: o conjunto das relaes sociais, que no esto integradas  poltica 
do Estado Nacional ou que no so determinadas, ou determinveis por ela,  
diversidade sem unidade (Beck, 1999: 29-3 1). 
QUESTES 
1. Explique por que o processo de globalizao no pode ser analisado somente como 
um processo de globalizao econmica. 
2. Explique por que o processo de globalizao  uma fora desestruturante das pessoas, 
das organizaes e da sociedade. 
3. Explique por que, no mundo globalizado, ser inteligente passa a ser uma exigncia? 
4. Explique por que o individuo, como sujeito,  a base do processo de modernizao 
reflexiva. 
5. Analise as questes ticas colocadas pelo processo de globalizao. 
TRABALHO PRTICO 
Trabalho de grupo 
1. Identifique os efeitos colaterais da reflexividade intensiva quanto a valores, crenas e 
hbitos. 
a) na vida das pessoas; 
b) nas organizaes. 
2. Analise a proposta de modernizao reflexiva e proponha estratgias de 
modernizao. 
BIBLIOGRAFIA 
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37 
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BERNSTEIN, J. M. Recovering Ethi cal Life. London: Routledge, 1995. 
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. So Paulo: Paz e Terra,1999. 
__________ O Poder da Identidade. So Paulo: Paz e Terra, 1999. 
__________ Fim de Milnio. So Paulo: Paz e Terra, 1999. 
DE MASI, Domenico. A Sociedade Ps Industrial. So Paulo: Seriac, 1999. 
DOMENACH, Jean Marie. La responsablit. Essai sur lefondement du civisme. Paris: 
Hatier, 1994 
FURTADO, Celso. O capitalismo global. So Paulo: Rio de Janeiro, 1999. 
GENTILI, Pablo. Globalizao Excludente. Petrpolis: Vozes, 1999. 
GIDDENS, Anthony. As Conseqncias da Modernidade. So Paulo: Unesp, 1991. 
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__________ As tecnologias da inteligncia. O futuro do pensamento na era da 
informtica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999. 
TOURAINE, Alain. Crtica da Modernidade. Petrpolis: Vozes, 1995. 
38



2.BUSCANDO UM NOVO PARADIGMA 
DE PENSAMENTO: 
O PENSAMENTO COMPLEXO 
Ao terminar a leitura deste captulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender o que  um paradigma de pensamento. 
2. Compreender as relaes entre paradigma de pensamento e compreenso da 
realidade. 
3. Compreender o paradigma do pensamento simples, suas caractersticas e patologias. 
4. Compreender autonomia e sujeito. 
5. Compreender o paradigma do pensamento complexo e suas caractersticas. 
6. O que se entende por complexidade nas organizaes. 
O grande desafio da humanidade na passagem do milnio  pensar a complexidade. As 
mudanas desordenadas, os riscos e as incertezas provocadas pelo processo de 
globalizao caraterizam uma realidade complexa. Compreende-la e lidar com ela exigem 
uma forma de pensar complexa. A teoria da complexidade desenvolvida por Edgar Morin 
possibilita esse conhecimento e  atravs da sua discusso que iniciaremos a caminhada 
na direo da compreenso da complexidade. 
Todavia, para entender o pensamento complexo  necessrio compreender  questo do 
ato pensar. Pensar  uma atividade especfica do ser cognitivo, o ser humano. Pensar , 
pois, a ao mental de elaborar representaes mentais, de organiza-las e de reorganiza-
las, transformando-as em novas representaes. A representao mental da realidade 
percebida no  uma cpia da realidade como tal. Os seres humanos, selecionam 
aspectos dessa realidade quando formam uma representao mental e criam sua prpria 
imagem de realidade. 
Componentes do sistema de representao mental 
A seletividade do que  percebido, a formao de diferentes sentimentos em relao  
representao mental de uma dada realidade, bem como as dife-
39 



rentes formas de sua organizao na nossa mente sofrem influncias de diferentes 
fatores. H fatores que influenciam a formao das representaes mentais e sobre os 
quais podemos atuar modificando-os tornando, assim, nosso processo mental e o nosso 
pensamento qualitativamente superiores. Estes componentes so: o paradigma, o 
contexto e nossos esquemas pessoais, valores individuais, objetivos e as intenes. 
Paradigma 
Paradigma, como definido por Kuhun (1994),  uma estrutura imaginria, um modelo de 
pensamento, prprio de cada poca da histria e produzido pela experincia de mundo, 
pela linguagem prpria da poca e imposto a todos os domnios do pensamento. Morin 
(1990), ao conceituar o paradigma de pensamento como princpios supra-lgicos de 
organizao de pensamento, retoma o conceito anterior, explicando-o: para ele estes 
princfpios supra-lgicos so constitudos pelos pressupostos filosficos acerca da 
realidade, ou seja, o que ela  e a forma de estuda-la. Como afirma o autor, estes 
princpios so ocultos e governam nossas vises das coisas e do mundo sem que 
tenhamos disso conscincia. 
Na realidade so crenas e conhecimentos que conduzem o nosso pensamento, sem que 
saibamos que o fazem. Estas crenas e conhecimentos so produzidos e transmitidos em 
determinados perodos da histria da humanidade. Cada momento histrico produz 
determinada representao social, isto , uma viso geral do mundo que orienta todos os 
pensamentos e os discursos daquela poca. Em outras palavras, a interpretao e a 
construo da realidade so baseadas nesta viso geral, neste paradigma nesta 
estrutura imaginria que dita a forma e a norma aceitvel, vivel de se pensar. 
Assim, explica-se a importncia da representao social ou paradigma de pensamento 
como um dos elementos bsicos da formao do sistema de representao de cada 
individuo, mas isto no  suficiente para esclarec-lo. O contexto scio econmico e 
cultural no qual o individuo est inserido, seus valores, suas intenes e/ou objetivos 
completam e se somam na compreenso da formao da representao mental ou da 
criao de uma imagem mental de uma situao, coisa ou fenmeno pelo individuo. 
Paradigma e a forma de pensar 
O paradigma (Morin, 1999) estabelece a forma de pensar de certa poca, influenciando 
os conhecimentos cientficos, pelas crenas vigentes ou existentes naquele dado 
momento. Com o desenvolvimento cientfico, somado s mudanas de crena, o 
paradigma de uma determinada poca  modificado. Isto significa dizer que em cada 
poca predomina um determinado paradigma. Essas mudanas, estes avanos, vo 
interagindo com o modo de pensar dominante e com a concepo da realidade. A 
estrutura do pensamento  redirecio
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nada, as premissas so reavaliadas, e os conceitos e suas associaes ou as no 
associaes so revistos. Desta forma a idia daquilo que  possvel e o que no  
possvel transforma-se. Passa-se a adotar uma nova viso geral, uma nova concepo da 
realidade, um novo paradigma. 
Paradigma da era moderna 
O paradigma cartesiano e a concepo de cincia desenvolvida por Newton foram 
predominantes mi era industrial moderna. Isto significa dizer que este paradigma de 
pensamento levava a considerar o mundo como um grande sistema mecnico acabado e 
previsvel, independente do homem. A misso da cincia era descobrir o funcionamento 
deste sistema mecnico e domin-lo. Tratava-se de um paradigma de pensamento que v 
a realidade como esttica. Portanto, como acentua Morin,  compreensvel a 
predominncia do paradigma linear (causa-efeito) como forma de pensamento dos 
indivduos na era moderna. 
No momento atual a humanidade enfrenta um desafio de mudanas de paradigma de 
pensamento. Vivamos num ambiente de causa e efeito, de explicaes simples dos 
fenmenos e da ordem. Entretanto a realidade atual no concebe mais um raciocnio 
linear para o compreenso dos acontecimentos. No mesmo palco atuam a ordem e a 
desordem, os conflitos estocada vez mais inerentes ao nosso cotidiano, a instabilidade e 
a incerteza so figuras que agora fazem parte de nossa tomada de deciso. Nota-se 
assim que, apesar de vivermos num momento histrico diferente, temos ainda, como 
paradigma de pensamento, a realidade de outra poca. 
O contexto e nossos esquemas pessoais 
O contexto no qual ns nos encontramos no momento, tambm chamado, ecologia 
psicolgica (Lewin, 1943),  constitudo pelo nosso ambiente fsico, scio-cultural e 
intelectual. O contexto social e poltico no qual o individuo est inserido e o tipo de 
conhecimento que domina influenciam a forma pela qual o individuo percebe uma 
realidade e, portanto, a representao mental que dela constri. 
A rea de conhecimento do individuo e a posio que ele ocupa influenciam a forma pela 
qual ele percebe o problema. Exemplos podem ser dados confirmando estas diferenas: 
o Ministro da Fazenda, recentemente, quando questionado sobre o ndice de 30% da 
pobreza no pas, declarou que este no era um ndice to dramtico (viso estatstica e 
econmica do fato). Por outro lado, os membros do Conselho Nacional dos Bispos do 
Brasil (CNBB) clamam por mudanas radicais na distribuio de renda alegando que 
30% da populao vive com menos de um salrio mnimo. Para estes, 30% significa que 
milhares de brasileiros sofrem o processo de excluso da sociedade (viso social e tica 
do fato). 
41 



Os objetivos e as intenes 
Objetivos e intenes do indivduo constituem o terceiro componente do sistema de 
representao mental. As intenes do indivduo so o motor da ao humana. O 
comprometimento que o indivduo tem com aquilo que ele deseja alcanar e conseguir vai 
fazer com que ele perceba a situao de uma forma influenciada por este desejo. 
Portanto, quando se quer atingir algo ou se tem determinada inteno, estes fatores 
influenciam a formao da representao mental daquela coisa ou situao. 
A universidade pode ser vista pelas pessoas comprometidas pela educao e formao 
do ser humano como um local de formao de cidados e profissionais competentes. J 
o empresrio poder ver a Universidade como um local onde sero preparados 
profissionais tcnicos capazes de exercer as funes tcnicas de forma competente. 
Portanto, estes trs componentes: o paradigma: ou seja, os pressupostos supra-lgicos 
que fundamentam o nosso pensamento sem que tenhamos conscincia disso, o contexto, 
isto , as condies econmicas, sociais, polticas e culturais nas quais o indivduo est 
inserido, bem como seus conhecimentos e experincias e a inteno (nvel de aspirao 
e/ou objetivos, valores), ou seja, a ligao do indivduo  realidade, em funo do projeto 
que ele tem acerca daquela realidade, influenciam a formao das representaes 
mentais do indivduo, assim como o desenvolvimento do seu pensamento. O indivduo 
tem, portanto, condies de modificar, de transformar, ou seja, de exercer a sua prpria 
influncia sobre estes fatores e, ao faz-lo, em contrapartida estar criando condies 
para uma elaborao mais complexa ou menos complexa das suas representaes 
mentais e, portanto, da sua competncia de pensar. 
O pensamento simples 
Quando fazemos a opo pela busca de idias claras e objetivas no considerando, na 
nossa reflexo, aquelas situaes ou fatores que no temos condies de compreender 
naquele momento, como as contradies e as incertezas, estamos usando o pensamento 
simples ou linear. Este tipo de pensamento  enganoso, uma vez que ele falsifica a 
realidade pois, ao eliminar alguns dos seus elementos, deturpa a prpria realidade, 
levando-nos a concluses e a decises errneas e inadequadas quela situao. 
Algumas situaes, todavia, apresentam caractersticas de simplicidade que possibilitam 
compreender e controlar elementos que as constituem. Porm, outras situaes passam 
pelo processo de simplificao: a administrao cientfica, por exemplo, utiliza 
pensamento simples numa situao complexa. A organizao foi reduzida a um sistema 
fechado onde a hierarquia de funes estabelece a ordem e mantm os controles rgidos 
do processo de trabalho o qual tambm  simplificado atravs da racionalizao e diviso 
de tarefas. 
O indivduo, por sua vez, tambm passa pelo processo reducionista.  visto como uma 
mquina e produto de foras externas. Os incentivos econmicos, aos
42



quais responderia automtica e mecanicamente, so considerados fatores 
condicionantes do seu comportamento. O comportamento humano  considerado uma 
resposta aos incentivos econmicos (recompensas materiais). 
A Teoria da Inteligncia Emocional (Goleman, 1995)  outro exemplo atual das armadilhas 
do pensamento simples: as emoes humanas so reduzidas aos seus aspectos 
fisiolgicos e todo comportamento emocional explicado a partir da fisiologia cerebral. A 
dimenso psicolgica no  considerada. 
Princpios do pensamento simples: patologias do saber 
Inteligncia cega 
A inteligncia torna-se cega quando o indivduo  incapaz de adquirir um conhecimento 
mais verdadeiro e mais complexo da realidade. A realidade  recortada. E esta parte da 
realidade  tomada como sendo a realidade como um todo. Para Morin (1990) esta 
patologia do saber resulta do uso, pelos indivduos, do paradigma da simplificao. Este 
paradigma de pensamento  constitudo pelo conjunto de trs princpios de pensamento, 
ou seja, a disjuno, a abstrao e a reduo. 
Estes princpios, quando usados como lgica de reflexo, so processados da seguinte 
forma: ao abordar a realidade o indivduo elimina elementos desta realidade ignorando-os 
e, em seguida, toma como realidade esta parte da mesma (reduo) e elabora uma nova 
idia acerca da realidade (abstrao) a partir dos dois princpios anteriores (disjuno e 
reduo). 
Para tornar a idia mais compreensvel tomemos o exemplo do ser humano como ser bio-
psico-social j discutido anteriormente. Quando algum diz que o comportamento do 
indivduo  resultante do meio a que pertence ou que a liderana  uma caracterstica 
hereditria, ou ainda, que inteligncia  uma caracterstica que a pessoa nasce com ela 
est usando o paradigma da simplicidade. 
Quando afirma que o comportamento  resultante do meio social, est reduzindo o ser 
humano a um ser social, desconsiderando o biolgico, porque somente as foras sociais 
influenciaram sobre ele e determinaram o seu comportamento. Por outro lado, quando 
afirma que a inteligncia  uma caracterstica hereditria, o reduz ao biolgico. A partir 
desta lgica reducionista, desconsiderou-se o ser humano como ser plural bio-psico-
social, e a realidade, no caso ser humano, foi reduzida. Abstraiu-se e elaborou-se um 
conceito de ser humano incompleto, recortado, simplificado. Em seguida o indivduo  
reduzido a um destes elementos:  visto como um ser biolgico, ou psicolgico ou um ser 
social. Quando reduzido ao biolgico os outros dois elementos so ignorados. A 
abstrao que permanece, a idia de ser humano, privilegia uma parte, ignorando o todo, 
o conjunto de fatores (biolgico, psicolgico e social). A compreenso do ser humano fica 
simplificada. Eliminam-se fatores e no se considera a interdependncia entre eles. A 
hper-especializao  outro exemplo de reducionismo do paradigma de pensamento 
simplificador: recorta o real
43



e define aquele recorte como sendo o prprio real. Na medicina  comum o especialista 
esquecer de ver a pessoa no seu todo, como ser complexo. Como exemplo pode-se citar 
o especialista em gastroenterologia que enfoca o seu diagnstico de lcera gstrica nos 
sintomas fisicos, ignorando os fatores psicolgicos (emocionais) que possam ser 
causadores ou influenciadores da doena (como o stress de trabalho, depresses, etc.). 
Nas organizaes pode-se observar tambm o fenmeno do reducionismo do 
pensamento.  comum observar-se a tendncia de compreender a organizao a partir 
de um nico fator: o especialista de marketing a entende como sendo a imagem que ela 
(organizao) passa para o cliente; o setor financeiro tende a entender a organizao 
exclusivamente a partir dos fatores financeiros, e assim por diante. 
Conjuno do uno e do mltiplo 
A incapacidade de conceber a conjuno do uno e do mltiplo  tambm uma 
caracterstica do pensamento simplificador. Retomando o exemplo do ser humano e 
partindo do princpio de uma natureza humana (unidade) comum a todos os seres 
humanos, mas considerando que cada pessoa  diferente da outra, chegamos a 
concluso que a humanidade  constituda por indivduos com uma natureza comum, 
apresentando, entretanto caractersticas individuais (diversidade). A humanidade como 
unidade integra a diversidade de seus membros. 
No pensamento simples a unidade, ou seja, a natureza humana comum a todos os seres 
humanos,  desconsiderada no processo de disjuno. Considera a diversidade, 
portanto, as caractersticas individuais ou de pessoas que pertencem ao mesmo grupo 
racial. 
Esta disjuno tm conotaes ticas e justifica o tratamento desigual entre pessoas de 
diferentes grupos raciais e/ou tnicos. As chamadas limpezas tnicas so aes 
consideradas justas em defesa da supremacia da raa. Kosovo, na Yuguslvia,  um 
exemplo recente desta patologia de pensamento. Isto porque, se as pessoas no tm 
uma natureza humana comum, podero existir indivduos superiores a outros, justificando 
dar a eles tratamentos diferenciados. 
Reduo 
Quando atua a reduo ignora-se a diversidade e busca-se um padro nico. Nas 
organizaes  comum observarem-se programas de mudana organizacional cujo 
princpio que os fundamenta  o reducionismo. O objetivo  a reduo das diversidades 
de crenas, valores e comportamentos dos individuos s crenas, valores e 
comportamentos estabelecidos pela organizao (empresa). Procura-se criar padres 
que devem ser adotados e seguidos por todos na organizao. 
A diversidade de crenas e valores  considerada um fator de desordem e de turbulncia 
(caos) na organizao por isto deve ser eliminada. Caracterizando assim o pensamento 
simples. 
44



A organizao, ao estabelecer padres de pensamento, de sentimentos e de 
comportamento impede que os indivduos desenvolvam a competncia de criar e inovar. 
Ela impede o desenvolvimento do conhecimento, reduzindo-o a padres de conhecimento 
estabelecidos por uma pequena elite pensante. Em algumas situaes este 
conhecimento, que na linguagem empresarial  denominado capital intelectual, no  
criado na organizao.  importado atravs de modelos organizacionais criados e 
desenvolvidos em outras culturas e em outro cenrio scio-econmico e poltico. 
Caractersticas do Pensamento Simples 
O paradigma da simplicidade pe ordem no mundo e expulsa dele a desordem. Como 
descreve Morin (1990), foi esta vontade de simplificao que levou o conhecimento 
cientfico a dedicar-se  misso de revelar a simplicidade escondida detrs da aparente 
multiplicidade e da aparente desordem dos fenmenos. 
Buscava-se algo de perfeito e eterno  o prprio universo.  importante, entretanto, 
ressaltar (Morin, 1990) que esta busca frentica e teimosa da grande lei que governava o 
universo levou os cientistas a descobrirem leis importantes tais como a gravitao, o 
eletromagnetismo e as interaes nucleares. 
Procurou-se, ento, encontrar a unidade bsica na qual o universo estaria constitudo: a 
molcula foi consagrada a esta unidade bsica. Mais tarde, ela deixou de s-lo surgmdo 
os tomos, uma vez que as molculas eram compostas por eles. 
Os cientistas continuaram buscando as leis cientficas ao mesmo tempo que tentavam 
descobrir como estas leis poderiam ser ligadas umas s outras, pois o seu objetivo era 
encontrar uma lei nica. 
Conseguiram chegar aos tomos, a partir deles descobriram as partculas. E elas (as 
partculas) passaram a ser esta unidade primeira que explicaria a constituio do 
universo. Esta busca da simplicidade esbarrou, finalmente, na descoberta da constituio 
das partculas por quartz os quais so uma entidade vaga, complexa e que no chega a 
isolar-se. A busca cientfica da simplicidade, das leis que regem os fenmenos e da 
ordem levou a descobertas cientficas impossveis de serem concebidas a partir do 
paradigma do pensamento simples (Morin, 1990). 
O pensamento simples, fundamentando-se na busca da ordem, comeou a demonstrar a 
sua incompetncia para explicar a prpria ordem e desordem no universo. 
Contradies do pensamento simples: A ordem e a desordem 
As contradies comearam a surgir quando o segundo princpio da termodinmica 
indicou que o universo tende para a entropia geral ou para desordem total. Todavia, neste 
mesmo universo, as coisas se organizam tornando-se mais complexas e se desenvolvem.
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Morin (1990) discute a forma de soluo desta contradio atravs da separao entre a 
organizao fsica (universo fsico  molculas, astros) e a organizao vida. A 
organizao fsica tenderia para o desaparecimento e a organizao vida para o 
desenvolvimento. Entretanto esta hiptese foi tambm contestada, como conclui: na 
organizao vida  h desordem e no somente ordem. Na evoluo das espcies 
vegetais e animais muitas delas desapareceram (desordem, degradao). Os seres 
humanos reproduzem novos seres humanos, mas envelhecem, degradam-se e morrem. A 
renovao da humanidade  paga com a morte de seus membros. Portanto, esto 
presentes a tanto a ordem e o desenvolvimento quanto a desordem e a degradao.
No mundo fsico a teoria do big-bang coloca a questo da organizao do universo fsico 
a partir de uma grande exploso. Mais uma vez a ordem  estabelecida a partir de uma 
grande desordem.
Da chega-se a concluir que: 
1. A dicotomia ordem/desordem no  verdadeira; 
2. A ordem e a desordem sempre cooperavam uma com a outra. Em certas situaes a 
ordem  precedida por uma grande desordem, pelo caos. 
A desordem contribui para o aumento da ordem; 
3. A aceitao da complexidade  a aceitao de uma contradio impossvel de ser 
ultrapassada. 
A autonomia humana
A autonomia humana se caracteriza pela interao entre individualidade e dependncia. 
Os seres humanos para se tornarem autnomos, independentes ou, em outras palavras, 
emancipados e cidados, dependem antes de mais nada da integridade das suas 
condies biolgicas mas tambm de uma cultura, e de uma linguagem (idioma) com o 
qual se comunicam com os outros seres humanos e se formam como humanos. Portanto, 
cultura e linguagem so fatores essncias para a formao do ser humano.
Os indivduos tambm se auto-produzem
O ser humano nasce num dado contexto socio-econmico, poltico e cultural. As 
caractersticas deste contexto e as possibilidades que ele (o contexto) lhe oferece para 
acesso aos bens culturais, ao saber, ao conhecimento,  educao,  sade e demais 
bens econmicos e sociais criam dependncias  sua autonomia. Ao mesmo tempo o ser 
humano no  um escravo desta dependncia. Ele  capaz de lutar e buscar meios e 
caminhos para se tornar autnomo porque ele tm a capacidade de ter liberdade. Esta 
capacidade  inerente  natureza humana. E  por isto que a histria da humanidade nos 
traz exemplos de verdadeiros heris da liberdade. Pessoas que venceram obstculos de 
diferentes naturezas e se tomaram cidados conscientes, pessoas
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livres. Os ex-deserdados da cidadania, moradores das favelas e dos cortios, os ex-
alcolotras e os ex-drogados so exemplos deste heroismo humano. 
As foras da dependncia humana e a capacidade de ter liberdade
A fora da dependncia gentica, cultural e scio-econmica, como vimos, no  um 
elemento determinante da histria de vida do ser humano. Na realidade somos possuidos 
por parte de ns mesmos, isto , pela nossa constituio gentica, plos nossos valores e 
crenas polticas e religiosas, pelos nossos conhecimentos. Mas a nossa capacidade de 
ter liberdade se constitui como uma fora poderosa, vigorosa, capaz de nos resgatar 
como seres livres e conscientes, desde que queiramos utiliza-la, como bem coloca Morin 
(1990). 
A autonomia humana e o vir a ser sujeito, exigem dos individuos uma dura batalha um 
esforo permanente e progressivo, uma abertura e uma busca sincera e humilde de cada 
individuo. 
As armadilhas do pensamento simples, da inteligncia cega, do ceticismo reducionista, 
das verdades e certezas tericas e ideolgicas esto presentes e se apresentam como 
inimigos permanentes da capacidade de ter liberdade.
Autonomia e sujeito
Autonomia e sujeito esto diretamente relacionados: ser sujeito  ser autnomo. Mas o 
que  ser sujeito? Ser sujeito  colocar-se no centro do seu prprio mundo deforma a 
poder tratar este mundo e a si mesmo e ocupar o lugar do eu (Morin, 1990). 
Ocupar o lugar do eu  ser capaz de compreender o mundo que o rodela e a si prprio. 
E ser capaz de tomar decises por si prprio, consciente de seus riscos e 
conseqncias. Isto significa dizer que o individuo tm a competncia de crtica e 
autocrtica. A competncia crtica o leva a desenvolver um processo de reflexo crtica do 
mundo que o rodela. A competncia de autocrtica possibilita-lhe ver a si prprio, seus 
valores, suas crenas, seus sentimentos, pensamentos e aes. A autocrtica  um 
processo fundamental que permite a cada individuo alcanar a sua autonomia e a sua 
cidadania. Ser sujeito; portanto, envolve a responsabilidade e a conscincia de si e do 
outro. Em outras palavras, significa colocar-se no centro do mundo como sujeito, 
reconhecendo que o outro tambm  sujeito. Esta competncia de reconhecimento do 
outro como sujeito, com o direito de ter liberdade da mesma forma que para si prprio, 
introduz a questo da tica universal no que se refere ao princpio mximo do respeito  
dignidade humana: nenhum individuo pode ser tratado como objeto, ou instrumento para 
se atingir qualquer objetivo ou fim, por mais nobre que este parea ser (Habermas: 1997).
Organizaes e auto-produo 
As organizaes so exemplos de sistemas que se auto-produzem. Os objetivos por ela 
definidos e a serem alcanados levam-na a criar sua forma de
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organizar-se, suas funes, seus processos, suas estratgias. E na medida que caminha 
na busca de alcanar os objetivos, vai se tornaralo mais aatrxoma, ao mesmo tempo em 
que se torna mais complexa. As pequenas empresas no seu processo de 
desenvolvimento, caracterizam bem o fenmeno de auto-organizao seguido do 
processo de maior complexidade. A empresa, na medida que produz alguma coisa, se 
auto-organiza e se torna mais complexa.
A organizao do conhecimento como fator de mudana de paradigma
A organizao do conhecimento pelo individuo, como acentua Morin,  um dos fatores que 
influenciam no processo de mudana de paradigma.
Como todo conhecimento opera pela seleo de dados significativos e rejeio de dados 
no significativos,  fcil compreender que, quando algum considera importante 
determinados dados e outra pessoa considera outros dados, as concluses a que estas 
duas pessoas iro chegar acerca do mesmo fato, coisa ou situao sero diferentes.
Numa primeira etapa haver uma separao na qual o individuo distingue os dados e os 
une, isto , os associa e os identifica. Como segunda etapa  estabelecida uma 
hierarquia de dados, ou seja, os dados principais e os dados secundrios so 
organizados numa ordem. Finalmente, a partir de um ncleo de noes mestras, os dados 
so centralizados.
Como exemplo destas operaes  dado a compreenso do arquiplago de Gulag que 
descreve as atrocidades, os controles exercidos sobre as pessoas e a proibio de 
pensar de forma diferente daquela estabelecida pelo governo comunista. Os membros do 
arquiplago de Gulag que se atrevessem a pensar eram castigados, encarcerados e 
mortos.
Pessoas que leram a obra tiravam diferentes concluses acerca dos fatos ali narrados. 
Para os adeptos do socialismo, Gulag no representavam o verdadeiro socialismo. Era 
uma descrio exagerada do comunismo russo, alm de entenderem ser um livro de 
propaganda do capitalismo contra o socialismo. Outros acreditavam encontrarem Gulag 
fatos reais mas consideravam que estes fatos no representavam o sistema comunista. 
Representavam um desvio cometido pelo comunismo russo.
Por outro lado, aqueles que no tinham um compromisso ideolgico com o socialismo 
entenderam que os fatos narrados no Arquiplago de Gulag retratavam as caractersticas 
autoritrias, desumanas e fascistas do comunismo.
Este exemplo nos mostra que mesmo estas operaes que utilizam a lgica, ou seja, a 
seleo e rejeio de dados significativos, a hierarquizao destes dados e 
centralizao, sofrem tambm a influncia ou, at certo ponto, so conduzidos pelo 
paradigma de pensamento de cada individuo. 
Complexidade 
Complexidade como acentua Morin pode ter duas abordagens que no se 
excluem. Na primeira, a complexidade  um tecido de elementos de natureza
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diferente que esto inseparavelmente associados, colocando a a questo do uno e do 
mltiplo. Em outras palavras, os elementos so unidades especficas com qualidades e 
caractersticas prprias e ao formarem uma outra unidade no so reduzidas  esta nova 
unidade. Grupos e equipes de trabalho so, tambm, exemplos: os indivduos ao 
integrarem o grupo no deixam de ser indivduos. As redes de inteligncia tambm 
caracterizam a complexidade pois, os indivduos que a constituem permanecem com a 
sua individualidade e no deixam de ser um ser humano. Ele no  reduzido  mquina 
que pensa ou a um crebro virtual. Ele participa de um conjunto de pessoas que num 
dado momento, a partir de suas lgicas e conhecimentos, pensam um determinada coisa. 
Na segunda abordagem, a complexidade  o conjunto de acontecimentos, aes, 
interaes, retroaes, determinaes, acasos, que constituem o nosso mundo 
fenomenal (Morin, 1990: 20). A complexidade ai se apresenta, como ressalta Morin, com 
os traos de desordem, da ambigidade, da incerteza. Da, afirma ele, a necessidade de 
por ordem nos fenmenos ao rejeitar a desordem, de afastar o incerto, isto , selecionar 
os elementos de ordem e de certeza, de retirar a ambigidade, de clarificar, de distinguir 
de hierarquizar. 
Todavia, esta necessidade de por ordem no mundo pode levar  eliminao do que 
Morim denomina complexus e com isto deformar a prpria realidade. 
A dificuldade de lidar com a complexidade, como bem ressalta o autor,  que o 
pensamento complexo deve enfrentar a confuso, o jogo infinito das interaes de fatores 
(que se influenciam mutuamente), alm das incertezas e contradies. 
No paradigma do pensamento complexo como acentua Morin, o conflito, a contradio, a 
incerteza, o indeterminado no so elementos a serem eliminados atravs de explicaes 
mas, ao contrrio, so elementos que devem fazer parte da concepo e percepo da 
realidade. 
Assim a complexidade se articula com os contrrios, ao mesmo tempo que interage com 
o ausente. O complexo no  quantitativo. O argumento do pensamento complexo est 
nesta falta de certeza.  justamente na ausncia de respostas corretas que se pode 
encontrar a dificuldade no entendimento do pensamento complexo, mas, para Morin 
(1996) a complexidade procura preencher o desvio e o vazio provocados pelos cortes 
entre disciplinas e tipos de conhecimento. E  ai que se encontra a diferena entre o 
computador e a mente humana: o ser humano  capaz de pensar a partir do incerto, do 
incompleto; por outro lado, o computador obedece ordens bem programadas e no 
trabalha com o incerto. 
Complexidade e suas formas 
A complexidade se apresenta de formas variadas, ou seja, ela apresenta um srie de 
percursos diferentes os quais so, ao mesmo tempo, verdadeiros. Estes trajetos indicam 
a definio, o entendimento e a aplicao da complexidade. Para Morin a complexidade 
pode estar ligada: 
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1)  desordem, ao caos, s incertezas,  impossibilidade de se estar seguro de tudo, de 
se poder formular uma lei que explica aquele fenmeno e/ou situao e, portanto, a 
impossibilidade de se estabelecer uma ordem absoluta. O acaso deixa de ser entendido 
apenas como um acontecimento inexplicavelmente espontneo. A ausncia de explicao 
do acaso  transferida da sua natureza para a nossa impossibilidade intelectual de 
entende-lo naquele momento. 
2) as contradies lgicas, ou seja, quando aparecem contradies num raciocnio isto 
no significa um erro mas que aquela realidade apresenta aspectos mais profundos que 
no podemos entender atravs da nossa lgica. Sabemos que h interao de fatores 
diferentes e que este processo de interaes que se influenciam tornam a compreenso 
da realidade um processo impossvel de ser terminado.  uma compreenso inacabada, 
sempre possvel de ser ampliada e aprofundada.  um saber parcial, nunca um saber 
total. 
3)  complicao que faz parte da complexidade. A complicao, que  diferente de 
complexo, encontra-se em situaes como, por exemplo: 
para se pesquisar as diversas interaes existentes em um ser vivo  preciso estuda-lo 
morto. J aquilo que  entendido como complicado pode revelar um falso entendimento. 
Na medida em que determinado fenmeno se apresenta atravs de uma quantidade 
expressiva de nmeros, de intensos clculos matemticos, de interaes de resultados ou 
at mesmo de grandeza fsica, pode-se denominar complicado porm isto no significa 
dizer que seja complexo. Por exemplo, o entendimento de um submarino  complicado, j 
a compreenso dos sentimentos humano ou de uma abelha  complexo. 
4)  organizao, que se apresenta como um problema lgico na medida em que seu 
sistema  formado por lgicas diferentes. Neste caso o pensamento complexo ensina que 
no se deve impor ao mltiplo o uno, como tambm no se impe ao uno o mltiplo. A 
complexidade das organizaes sociais ou biolgicas  expressa atravs da sua 
capacidade de funcionar com trs estruturas de poder simultaneamente: a anarquia 
atravs das relaes espontneas (acntricas); com numerosos centros de poder 
(policntricas) e com um nico centro de poder cntricas).  interessante observar que as 
empresas, em pleno processo de globalizao, portanto de complexidade, no se deram 
ainda conta da importncia da coexistncia de formas diferentes de ver e analisar 
situaes e problemas. A organizao que permite e respeita as diferentes lgicas de 
seus funcionrios abrem caminhos para uma melhor e mais ampla compreenso da 
realidade complexa, bem como, permitem a inovao e a criao na empresa.  certo 
que estas lgicas diferentes devem ser superadas por uma lgica superior, mas jamais 
rejeitadas. Elas devem contribuir para uma viso mais ampla e complexa do problema. 
Assim, a forma de ver um problema de qualidade do produto  diferente quando feita pelo 
engenheiro de produo ou pelo especialista em marketing ou pelo operrio da rea de 
produo.
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Todavia, estas lgicas diferentes indicam ngulos diferentes de se observar um mesmo 
problema e contribuem para a compreenso mais ampla do problema. 
5)  relao existente entre o observador e o observado. Desta forma ocorre uma 
interferncia na interpretao e compreenso do observador para com o observado. A 
representao mental do observador influencia e direciona as caractersticas e os 
porqus atribuidos ao observado. O pensamento complexo acentua a importncia deste 
elo entre o observador e o observado. Atravs da compreenso da lgica do observador 
chega-se a entender o por que chegou-se a determinada construo da realidade, o 
porque daquela teoria.
Assim, no pensamento complexo ressalta-se a importncia de se conhecer a formao 
acadmica, os compromissos ideolgicos e os objetivos de quem elaborou a teoria como 
um elemento importante para a prpria compreenso da mesma.
6)  localidade,  singularidade e  temporalidade. O paradigma do pensamento 
complexo no substitui estes termos pela universalizao mas sim, a unio dos mesmos 
na construo do pensamento. As recentes pesquisas mostram que a nossa galxia tem 
uma histria singular assim como as espcies. Do mesmo modo que os acontecimentos 
e as medidas existem num certo local, num certo tempo. 
Princpios que ajudam a pensar a complexidade
Os trs princpios propostos por Morn so: dialgico, recurso organizacional e 
hologramtico. 
O primeiro princpio  o dialgico que possibilita a dualidade mantendo a unidade. Este 
princpio zela por uma associao, unio de lgicas diferentes ou complementares desde 
que esta unio no permita que a dualidade se desfaa a favor de uma unidade. A 
dialgica pressupe que os contrrios podem assumir um papel regulador e estimulador. 
Este princpio quebra a dicotomia certo-errado, bom-mau: uma situao pode ter 
aspectos negativos apresentando ao mesmo tempo aspectos positivos; as diferentes 
lgicas podem, apesar de contraditrias, darem contribuio para a compreenso de 
uma dada situao. Portanto, apesar de serem lgicas antagnicas so tambm lgicas 
complementares.
Morin cita o exemplo da ordem e da desordem que so dois inimigos:
onde existe a desordem no existir a ordem. Todavia, em certos casos, a desordem 
colabora com a ordem e produzem organizao e complexidade. O tratamento 
psicanaltico  um exemplo desta colaborao dos contrrios: se no houver dvidas, 
quebras de padres de comportamento, de valores e de certezas no haver uma 
reestruturao da personalidade. Isto , o individuo no alcanar um novo estgio de 
equilbrio e de maturidade emocional. O mesmo pode ser observado na esfera de 
aquisio de conhecimentos e de formao da conscincia crtica: enquanto a pessoa 
estiver presa s suas idias e/ou concei-
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tos pr-formados ela no conseguir atingir um novo patamar de conhecimento e de 
competncia reflexiva. O romper com o pensamento simples vai exigir dela criar a 
desordem e entrar na esfera das incertezas e das dvidas, da autocrtica e do no saber.
O segundo princpio  o da recurso organizacional. A organizao recursiva  
determinada quando a produo e o seu efeito so fundamentais para a sua prpria 
formao. Assim o processo recursivo  identificado quando o produto e o produtor 
formam uma relao recproca. Morin cita o exemplo da reproduo do indivduo. Ns, 
indivduos, somos os produtos de um processo de reproduo que  anterior a ns. Mas 
uma vez que somos produzidos, tornamo-nos os produtores do processo que vai 
continuar. Nota-se que este princpio no possui um elo de ligao com o pensamento 
linear (causa e efeito) na medida que o pensamento complexo baseia-se numa viso 
circular aberta. 
O terceiro princpio dita que a parte est no todo como o todo est na parte .Num 
holograma fsico, o ponto menor da imagem do holograma contm a quase totalidade da 
informao do objeto representado. A este fenmeno chama-se de princpio 
hologramtico. Por exemplo, cada clula do organismo contm a totalidade da informao 
gentica deste organismo. 
 interessante observar que este princpio ressalta a importncia do conhecimento das 
partes como forma de conhecimento do todo. As partes so indicadoras de 
caractersticas do todo e das possveis influencias que podero exercer sobre ele e 
contribuem, assim, para a sua compreenso. Da mesma forma, quando se conhece o 
todo  possvel tirar deste conhecimento elementos que ajudam a conhecer as partes. O 
estudo dos grupos  exemplo esclarecedor do princpio hologramtco: as caractersticas 
de personalidade, os valores, a formao profissional, as condies econmicas so 
fatores individuais dos membros de um grupo. O conhecimento destas caractersticas 
contribui para o conhecimento do grupo como um todo uma vez que atravs delas pode-
se inferir as caracteristicas do grupo como tipos de aces, valores, e outros. Por outro 
lado, quando se parte do grupo (o todo) o conhecimento dos seus objetivos, do estilo de 
liderana predominante e das aes desenvolvidas por ele se constituem em elementos 
que contribuem para o conhecimento dos seus membros (as partes).
As etapas da complexidade 
Morin usa a constituio e o funcionamento de uma tapearia para explicar a 
complexidade e suas etapas como se segue: 
Consideremos uma tapearia contempornea. Comporta fios de linho, de seda, de 
algodo, de l, com cores variadas. Para conhecer esta tapearia, seria interessante 
conhecer as leis e as caractersticas destes tipos de fio. No entanto, a soma dos 
conhecimentos sobre cada um destes tipos de fio que entram na tapearia  
insuficiente, no apenas para conhecer esta realidade nova que  o tecido (quer dizer as 
qualidades e as propriedades prprias para esta textura), mas alm disso,  incapaz de 
nos ajudar a conhecer a sua forma e a sua configurao.
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Primefra etapa da complexidade: temos conhecimentos simples que no ajudam a 
conhecer as propriedades do conjunto. Uma constatao banal que tm conseqncias 
no banais: a tapearia  mais que a soma dos fios que a constituem. Um todo  mais 
do que a soma das partes que o constituem. 
Segunda etapa da complexidade: o fato de que existe uma tapearia faz com que as 
qualidades deste ou daquele tipo de fio no possam todas exprimir- se plenamente. 
Esto inibidas ou virtualizadas. O todo  ento menor que a soma das partes. 
Terceira etapa: isto apresenta dificuldades para o nosso entendimento e 
para a nossa estrutura mental. O todo  simultaneamente mais e menos que a 
soma das partes. 
Nesta tapearia, como na organizao, os fios no esto dispostos ao acaso. Esto 
organizados em funo da talagara, de um unidade snttica em que cada parte 
concorre para o conjunto. E a prpria tapearia  um fenmeno perceptvel e 
cognoscvel, que no pode ser explicado por nenhuma lei simples (Morin 1990: 123-4). 
Sistema e complexidade
Morin faz a distino entre sistemismo e complexidade. No sistemismo se concentra uma 
viso do sistema como um todo, na complexidade o todo e as partes so consideradas, 
alm das relaes das partes entre si, de forma circular aberta portanto, sofrendo 
influncias externas. O sistemismo e o holismo, para Morin, se situam no paradigma do 
pensamento simples: reduzem a realidade a uma viso nica, o todo. 
Segundo Morin (1990) a relao todo-parte compreende as suas interaes e a sua 
organizao. O todo no  constitudo apenas pelas unidades, mas pelas interaes 
mantidas. A organizao, por sua vez, advm deste conjunto de interaes. A organizao 
produz entropia que significa a degradao do sistema, ao mesmo tempo em que produz 
a neguentropia, ou seja, a regenerao do sistema. A organizao, ento, ao mesmo 
tempo que procura deixar de ser uma organizao busca, uma nova forma de organizar-
se. A relao com o ambiente  a terceira caracterstica. O ambiente oferece  
organizao outras organizaes como tambm os modelos potenciais atravs da 
informao. 
E importante ressaltar aqui que, nesta abordagem do sistema, os riscos, as incertezas e 
as contradies, no so ignoradas e/ou eliminadas. Procura-se estabelecer uma nova 
ordem a partir da compreenso da desordem, dos riscos e das incertezas, sabendo-se 
que esta ordem no  definitiva;  instvel uma vez que a realidade  complexa e a 
complexidade traz consigo as incertezas, os riscos e as contradies. 
Razo 
O que  a razo 
A compreenso do pensamento complexo exge instrumentos de natureza 
racional. O conceito de razo  importante para sua compreenso. Razo signifi-
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ca observar e interpretar um fenmeno de forma coerente. A razo  inevitavelmente 
lgica. Razo corresponde a uma vontade de ter uma viso coerente dos fenmenos, das 
coisas e do universo. E  nesta lgica que se identifica uma distino entre racionalidade 
e racionalizao como ressalta Morin. Ambas, racionalidade e racionalizao compem o 
raciocnio e apesar da mesma fonte, possuem caractersticas opostas. 
Racionalidade 
Racionalidade  um dilogo, um jogo envolvendo o nosso entendimento sobre o mundo 
real e a aplicao deste entendimento neste mundo real. Na racionalidade o ser humano 
desenvolve um sistema lgico para dialogar com o mundo real. Todavia nem sempre este 
modelo consegue compreender o mundo, ou seja, nossa lgica no consegue dialogar 
com a lgica do mundo real. No que seja esta sua finalidade, isto , agrupar e reduzir o 
todo a um sistema lgico, mas sim, a racionalidade tem como uma de suas 
caractersticas mestras a de procurar um dilogo, uma compreenso com as lgicas do 
mundo real, especialmente com as que no so as mesmas lgicas do indivduo. Nesta 
relao da lgica e do dilogo entre o mundo real e a nossa criao a questo que se 
coloca : se o que penso no consegue interpretar a realidade no haver alguma coisa 
errada em minha forma de pensar? 
A racionalidade no busca algo acabado, tm sempre dvidas, incertezas. A 
racionalidade no tm a preocupao de encontrar uma realidade formalizada e 
finalizada. Mas a racionalidade nos remete sempre a buscar cada vez mais a 
compreenso da realidade. 
Racionalizao 
Racionalizao enquadra a ao, idia ou sentimento num sistema coerente (lgico) ou 
aceitvel do ponto de vista moral. A racionalizao baseia-se nas ideologias, nas 
religies, na poltica, etc. A racionalizao leva a um entendimento simplista dos 
fenmenos. Anula as contradies, conflitos, incoerncias referentes ao entendimento 
deste mesmo fenmeno. Os contrrios so, simplesmente ignorados, fechando-se a uma 
lgica j pr-determinada. 
Um exemplo dado por Morin  o da parania: a parania  uma forma clssica de 
racionalizao, chamada de racionalizao delirante. O paranico v as pessoas sempre 
com o pensamento de que querem destrui-lo. Ao observar as pessoas com este olhar 
estranho, desperta nestas mesmas pessoas uma certa estranheza. Esta estranheza  
sentida pelo paranico que leva-o a reconfirmar o seu pensamento sobre a inteno das 
pessoas de destru-lo, e assim sucessivamente. 
Neste exemplo, Morin chama a ateno para a linearidade e simplicidade da lgica de 
pensamento da racionalizao. No ocorre um dilogo entre o
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mundo real e mundo criado pelo indivduo, agravando-se ainda mais com a ausncia e 
negao da interpretao dos contrrios. 
As diferenas entre racionalizao e racionalidade 
Racionalizao  o contrrio da racionalidade na medida em que a racionalizao no 
remete a uma interao de lgicas do mundo real com a nossa lgica. Ao contrrio, a 
racionalizao visa anular aquelas lgicas do mundo real que so contrrias a nossa 
lgica. 
Encontra-se nesta diferena fundamental de conceituao entre racionalidade e 
racionalizao, ou seja, em se incluir ou no a contradio na lgica do pensamento, a 
causa da dificuldade em se estabelecer fronteiras entre racionalidade e racionalizao. 
Esta dificuldade baseia-se na nossa tendncia natural e inconsciente de banir ou 
minimizar o inesperado. Em virtude desta tendncia fica, ainda mais difcil, estabelecer os 
limites de quando estamos agindo conforme nossa racionalidade ou racionalizao. 
A dvida e a razo 
A questo da dvida  importante, porque  esta curiosidade uma das alternativas de 
criar, inovar, mudar. Para Morin (1990), faz-se necessrio destruir a deificao da razo. 
 ela a nossa fonte de conhecimento seguro. Todavia este conhecimento precisa passar 
no s por uma critica mas tambm uma autocrtica, ou seja, o indivduo criticando a si 
mesmo a razo olhando a prpria razo. Esta suposio de Morin (1990) vem destruir a 
idia de que posso fazer uma crtica dos outros, mas no fao uma crtica das minhas 
idias nem da minha lgica. A autocrtica rebate esta estratgia e alimenta a idia de 
que a razo deve ser criticada pela prpria razo. 
Para Morin o homem tem duas coisas que so incoerentes: a primeira, a incoerncia total; 
a segunda  a coerncia absoluta considerada um delrio. Como remdio desta ltima h 
duas sadas: a racionalidade-autocrtica e a experincia. 
Paradigma de pensamento e o desafio da complexidade 
O processo intenso de globalizao coloca para a humanidade o grande desafio de 
mudanas de paradigma de pensamento. Vivia-se como enfatiza Genelot (1992) num 
ambiente de causa e efeito, de explicaes simples dos fenmenos e da ordem. 
Entretanto, a realidade atual no concebe mais um raciocnio linear para o entendimento 
dos acontecimentos. No mesmo palco atuam a ordem e a desordem, os conflitos esto 
cada vez mais inerentes no nosso cotidiano, a instabilidade e a incerteza so figuras que 
agora fazem parte na nossa tomada de deciso. Nota-se assim, continua Genelot, que 
apesar de 
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vivermos num momento histrico diferente, temos ainda, como paradigma de 
pensamento a realidade de outra poca. 
Na sociedade industrial moderna o paradigma de pensamento predominante tem como 
pressuposto um ser humano unidimensional, despojado da sua individualidade e 
entendido como objeto, usado como instrumento para realizao de objetivos de outros e 
sujeito a controles de diferentes formas. Hoje, em plena sociedade de risco, com a 
crescente complexidade provocada pelo processo de globalizao o pensar a realidade 
atravs do pensamento complexo torna-se uma questo de sobrevivncia para as 
pessoas, para as organizaes e para o Estado-nao. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Complexidade; 
Paradigma de pensamento; 
Princpios supra-lgico; 
Representao social; 
Representao mental; 
Componentes da representao mental; 
Pensamento simples; 
Patologias do saber; 
Inteligncia cega; 
Caracterstica do pensamento simplificador; 
Conjuno do Uno e do mltiplo, Disjuno, Reduo; 
Caracterstica do pensamento simples; 
Contradies do pensamento simples (ordem e desordem); 
Autonomia e sujeito; 
Sistemas que auto produzem; 
Foras da dependncia humana; 
Capacidade de liberdade; 
Auto produo; 
Organizao do conhecimento; 
Formas de Complexidade; 
Complexo complicado; 
Princpios da complexidade: repercusivo, dialgico e hologramtico; 
Etapas da complexidade; 
Razo; 
Razo racionalidade; 
Racionalizao; 
Conceitos; 
Ordem: tudo que  repetio, constncia, invarincia, tudo que pode ser colocado sob 
proteo de uma relao altamente provvel, enquadrado sob a dependncia de uma lei 
(Morin, 1990: 129).
56



Desordem: tudo que  irregularidade, desvio em relao a uma estrutura dada, aleatrio, 
imprevisibilidade (Morin, 1990: 129). 
QUESTES 
1. Explique porque e como a formao da representao mental pode ser modificado 
pela prpria pessoa. 
2. Identifique os princpios do pensamento simples. 
3. Explique o que Morim entende por paradigma de pensamento. 
4. Explique porque o paradigma do pensamento simples distorce a realidade. 
5. Explique: porque no mundo globalizado, a mudana do paradigma de pensamento 
simples, para o paradigma de pensamento complexo  uma exigncia. 
6. Explique porque as organizaes tm necessidade de ordem e desordem. 
7. Explique porque num mundo de ordem pura no haveria inovao, criao, evoluo. 
TRABALHO PRTICO 
1) a. Identifique um programa de treinamento a sua escolha. 
b. Identifique o paradigma de pensamento que o fundamenta. 
c. Explique porque. 
d. Indique o tipo de modernizao proposta pelo treinamento: modernizao simples ou 
modernizao reflexiva, e justifique sua concluso. 
2) a. Analise o processo de implantao da ISO numa empresa. b. Identifique o 
paradigma de pensamento que o fundamenta. 
c. Analise as conseqncias para os individuos e para a organizao quanto: 
1)  autonomia do sujeito; 
2)  capacidade de pensar a complexidade; 
3)  capacidade de lidar com a complexidade (riscos e incertezas). 
BIBLIOGRAFIA 
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57 
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PIAGET, Jean. Psicologia da Inteligncia. 2a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. 
58



3.A QUESTO TICA NAS ORGANIZAES: 
A TICA DISCURSIVA DE HABERMAS 
Ao terminar a leitura deste capitulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender a Teoria da Ao comunicativa (Habermas). 
2. Compreender a Teoria da tica Discursiva. 
3. Compreender as relaes e distanciamentos entre a tica Discursiva e a Filosofia de 
Kant. 
4. Compreender os pontos comuns e os pontos divergentes entre a sociologia positivista 
de Durlcheim e a tica Discursiva. 
5. Compreender a Teoria de Desenvolvimento Psicogentico de Piaget e de Kohlberg 
como fundamentos cientficos da tica Discursiva. 
6. Rever atitudes e aes no mbito da Organizao a partir da tica Discursiva. 
TEORIA DA AO COMUNICATIVA 
A teoria da Ao Comunicativa  uma teoria comprometida com o interesse 
emancipatrio do indivduo. 
Habermas prope uma nova dimenso dos trs mundos (sociedade): o mundo objetivo 
das coisas, o mundo social das normas e instituies e o mundo subjetivo das vivncias e 
sentimentos. 
Esta proposta situa trs mundos numa nova totalidade permeada por uma ao 
comunicativa capaz de coordenar as diferentes naturezas destes trs mundos. 
A teoria da Ao Comunicativa e a linguagem 
 a partir da totalidade construda pelos trs mundos que na teoria da Ao 
Comunicativa a linguagem, portanto, o ato da fala, a comunicao lingstica, torna-se a 
base desta teoria e do seu interesse emancipatrio do indivduo. 
A estrutura da comunicao lingistica permite que a comunicao entre dois ou mais 
indivduos, seja sobre pessoas, sobre coisas elou sobre processos, possibilite que seja 
estabelecido o sentido e possa explicitar os sentimentos e
59



emoes. Em outras palavras, ela estabelece o tipo de intersubjetividade em cujo 
contexto as coisas que so ditas se desenrolam. 
A linguagem contm sentenas com contedo: prescritivo, constatativo e regulativo, sendo 
neste ltimo onde o indivduo se expressa, se expe na frente do outro, se auto-
representa, manifestando suas intenes particulares e vivncias prprias subjetivas. 
Habermas, a partir dos estudos lingisticos de Austin, conclui que o individuo, enquanto 
exerce o ato de falar,  locutor e ao mesmo tempo ator. Ele transmite uma idia e age ao 
mesmo tempo. O fato de que a ao est vinculada aos verbos que indicam ao, ou 
performticos, que indicam uma atividade, gera um vnculo de comunicao e define a 
prpria natureza dessa comunicao: os verbos podem: a) afirmar, descrever, narrar, 
explicar; b) concordar, condenar, proibir; c) admitir, confessar, negar. Portanto, eles 
exprimem contedos relativos aos fatos ou explicitam por meio de normas o sentido da 
relao entre aquelas pessoas que participam daquele ato de fala e, finalmente, 
explicitam os sentimentos que o interlocutor tem naquele momento, naquela dada relao. 
Na teoria da Ao Comunicativa, a partir de Austin, as caractersticas desses verbos 
envolvem pretenses de validade. Isto quer dizer que, quando o indivduo est utilizando 
uma linguagem constatativa, ele est explicitamente dizendo que aquilo  verdade, que as 
suas afirmaes sobre fatos e acontecimentos so verdadeiras. Quando est usando 
enunciado regulativo, ele est alegando implicitamente que a norma proposta, enunciada 
verbalmente,  justa. E, finalmente, quando ele est no enunciado representativo, ele est 
alegando, sem mesmo explicitar verbalmente estas alegaes, que a expresso dos seus 
sentimentos  veraz. Na leitura de Rouanet, numa comunicao normal, estas trs 
pretenses de validade se entrelaam e se vinculam sempre aos trs mundos (dos fatos, 
das normas, dos sentimentos). A coordenao neste tipo de comunicao entre os 
indivduos que dela participam est fundamentada na possibilidade de que cada um dos 
indivduos poder justificar essas pretenses de validade por meio de provas e 
argumentos. Na relao habitual, no cotidiano, existe sempre a pretenso de validade, 
entretanto, elas no so contestadas ou no so questionadas de uma forma fundamental. 
Mundo vivido e a ao comunicativa 
O mundo vivido  entendido por Habermas como o mundo onde as relaes sociais 
espontneas existem, onde no h questionamento das certezas dadas a priori e que 
estas certezas no fazem parte de um processo de reflexo individual e onde os vnculos 
existentes nunca foram postos em dvida, O mundo vivido  constitudo pela: a) cultura, 
que  o reservatrio de saber da comunidade, as tradies, os papis sociais, as crenas 
e os mitos; b) pela sociedade que  constituda por instrumentos e mecanismos legtimos, 
pelos quais os seus membros regulam as suas relaes; e, finalmente, c) pela 
personalidade 
60 



ue  um conjunto de caractersticas psicolgicas e de competncias que caracterizam a 
individualidade de cada pessoa. No contexto do mundo vivido, quando as pretenses de 
validade so postas em dvida, a confiana poder ser restabelecida na prpria 
comunicao normal. Quando o indivduo provar, pela consistncia entre as suas palavras 
e o seu comportamento, que no estava mentindo. 
Processo argumentativo: discurso 
Habermas, entretanto, afirma que, quando as proposies se pretendem verdadeiras ou 
as normas se pretendem justas, o processo de problematizao, portanto de 
questionamento das mesmas, exige um processo argumentativo a que ele denomina 
discurso. No discurso terico o questionamento  referente  verdade sobre os fatos 
(cincias, conhecimentos do mundo objetivo etc.). Os participantes do discurso terico 
assumem uma atitude de reflexo crtica e de investigao hipottica que deve ser 
imparcial. A argumentao discursiva tem como ponto de partida a suspenso radical da 
crena na realidade daquilo que havia sido afirmado. Busca-se, pelo processo de reflexo 
crtica, um consenso. Consenso este, resultante do processo de discusso que pode levar 
 confirmao, mas tambm  negao dos fatos apresentados como verdadeiros. Neste 
processo de discusso a induo enquanto instrumento do pensamento lgico  o 
princpio denominado mediador por Habermas.  o pensamento indutivo que vai permitir 
a passagem do particular para o geral. Entretanto, na leitura de Rouanet os fatos 
singulares que fazem parte de um sistema terico aceito no podem ser usados para 
justificar essa transio do particular para o geral e, como conclui, no servem para 
realizar hipteses cientificas. 
Discurso prtico e o princpio universal da dignidade humana 
No discurso prtico o objeto de questionamento e de problematizao  a adequao e 
legitimao das normas sociais. Nesse processo argumentativo cada argumentao tem 
de ser justificada, cada julgamento defendido e reafirmada a validade das regras em 
questo. A validade de um novo sistema de normas  aceita e respeitada por todos, 
tendo em vista o principio universal que  a dignidade humana. 
Razo comunicativa como processo 
A razo comunicativa se constitui socialmente nas interaes espontneas no interjor da 
subjetividade, isto , nas relaes sociais, dentro de um contexto em que as bases das 
relaes so o que os outros pensam e o que percebem; os padres culturais existentes, 
as crenas, os fatos e os mitos, como percebidos por todos os envolvidos na relao 
interativa. 
61 



A racionalidade comunicativa  um procedimento argumentativo pelo qual dois ou mais 
sujeitos se pem de acordo sobre questes relacionadas com a justia, a verdade e a 
veracidade. Todas as verdades anteriormente consideradas vlidas podem ser 
questionadas. 
Representa a possibilidade de estabelecer ou restabelecer uma base consensual para a 
interao, sem recorrer  fora em nenhuma de suas formas desde a violncia aberta at 
a manipulao latente. Representa a possibilidade de chegar a um acordo mediante o 
uso da razo, sem violar a humanidade dos indivduos envolvidos. Ela parte do 
pressuposto de que o homem  um ser racional finito, carente, com impulsos, desejos e 
interesses, isto , com necessidades socialmente interpretadas. Essas necessidades so 
passveis de serem satisfeitas consensualmente por um processo argumentativo capaz de 
levar em conta o indivduo e a sua identidade e, ao mesmo tempo, o interesse de todos os 
individuos. 
Na ao comunicativa os indivduos envolvidos tm as suas aes coordenadas em 
funo do alcance da compreenso, de um ponto comum. No esto orientados para o 
seu sucesso pessoal. Eles podem buscar a realizao de seus objetivos pessoais a partir 
do pressuposto de que podem harmonizar seus planos de ao, tendo como base a 
definio comum e compartilhada da situao. 
As negociaes das definies de situaes so um elemento essencial na ao 
comunitria. 
A negociao de uma situao comum , na teoria da Ao Comunicativa, um 
componente essencial da tarefa interpretativa que a ao comunicativa requer. 
No  possvel buscar interesses individuais dentro do respeito aos interesses dos 
demais individuos ou partes que constituem num dado momento uma interao, se no 
houver uma clara e objetiva definio da situao percebida nos seus diferentes ngulos. 
Um exemplo desta falta de definio de uma situao comum  a negociao salarial 
entre sindicato de trabalhadores e Federaes das Indstrias. 
Parte-se, neste tipo de interao, de uma viso unilateral da situao, o que impede o 
estabelecimento de uma relao dialgica, onde as partes buscam o entendimento num 
processo argumentativo baseado na justia, verdade e veracidade. Esta relao  
marcada pelo interesse individual, pela vitria do mais forte e pelo uso da ao 
estratgica em detrimento da razo comunicativa. 
Concluindo, a razo comunicativa como um processo argumentativo se expressa mais 
claramente no discurso terico e no prtico, onde se busca a validao das normas justas 
e das proposies verdadeiras. No discurso, a problemtica das normas ou das 
proposies requer o abandono do contexto interativo espontneo (mundo vivido) e o 
ingresso num tipo de comunicao argumentativa que, como j vimos, Habermas 
denomina relao comunicativa e cujos fundamentos so a justia, a verdade e a 
veracidade, em suma, a dignidade humana. 
62 



A TICA DISCURSWA DE JRGEN HABERMAS 
A tica Discursiva tem como contedo a defesa da integridade da pessoa humana, 
mantendo o imperativo categrico de Kant, mas colocando-o no contexto do grupo por 
meio do discurso prtico o qual orienta o julgamento moral da razo prtica, tendo como 
exigncia que o ser humano jamais deva ser visto ou usado como meio, mas somente 
como fim em si. A tica Discursiva est centrada nos dois princpios que sempre 
constituram o centro da questo da moralidade, a justia e a solidariedade. A tica 
Discursiva no seu principio Universal estabelece que somente podem pretender ter 
validade aquelas normas capazes de obter assentimento de todos os indivduos 
envolvidos como participantes de um discurso prtico. Uma norma tica  vlida, 
justificada, quando puderem ser aceitas consensualmente, sem coao, todas as 
conseqncias que podem advir de sua observncia. Estas conseqncias precisam ser 
antecipadas, analisadas e aceitas por todos que pautarem o seu comportamento por ela. 
A tica Discursiva e seus pressupostos essenciais 
A tica Discursiva ultrapassa a tica Kantiana na medida em que para Kant  o indivduo 
que reflete, que analisa isoladamente, enquanto para Habermas  o indivduo uma relao 
dialgica com outros indivduos, que, atravs de um processo argumentativo 
fundamentado na justia, na verdade e na autenticidade, procura a norma que defenda a 
integridade e a invulnerabilidade da pessoa humana. A tica Discursiva se orienta pelo 
enfoque processual.  mediante um procedimento argumentativo em que prevalece o 
melhor argumento, respeitados todos os demais  luz de sua maior coerncia, justeza e 
adequao. 
A justia (justeza) se obtm, portanto, quando a busca da norma que defenda a 
integridade e a invulnerabilidade  revestida de reciprocidade e s se efetiva no grupo 
social, assegurando o bem-estar de todos. O respeito mtuo e o bem-estar de cada um, 
bem como a autonomia do sujeito, dependem da realizao, da liberdade e da 
solidariedade de todos, num dado contexto grupal. 
O carter universal de uma norma ou principio moral exige que o seu contedo possa ter 
validade geral, portanto, em diferentes grupos sociais e/ ou culturais. 
tica Discursiva: universalizao e comunicao 
Na tica Discursiva, a norma universal que tambm ser a mxima moral de cada um  o 
resultado ltimo de um longo processo argumentativo viabilizado pelo discurso prtico. O 
principio da universalizao da tica Discursiva no apela mais ao simples fato da razo, 
mas introduz os pressupostos gerais da comunicao humana. 
63 



No discurso prtico, que  um processo argumentativo, se d um questionamento das 
aspiraes de validade embutidas na comunicao cotidiana.  um processo 
argumentativo que exige a argumentao e a justificao de cada ato da fala por parte 
dos interlocutores participantes da interao, onde se busca o entendimento. No discurso 
prtico so questionadas a validade e a justeza das normas que regulamentam a vida 
social. O ponto de partida  sempre a situao concreta. Seu contedo  dado, pois, a 
partir de fora, pela vida concreta, no pelo filsofo e nem pela razo inquiridora dos 
participantes. A tica do discurso prtico  aberta; ela pressupe contedos situacionais, 
normas, valores, instituies e sentimentos que passam a ser enfocados de um ponto de 
vista moral, formal, terico e crtico. 
Entretanto, essa interao dos indivduos com outros no pode ser entendida como um 
processo de padronizao social, de controle da razo e do pensamento, o que seria uma 
ao constrangedora da liberdade individual e de agresso  dignidade de cada indivduo 
em particular. A invulnerabilidade da pessoa humana e a sua dignidade no so 
reduzidas  defesa fsica do corpo; tem-se por fundamental a identidade individual. Esta 
identidade se caracteriza por sua extrema vulnerabilidade. 
tica Discursiva e integridade do indivduo
Para Habermas, uma teoria moral que esteja comprometida com a invulnerabilidade 
humana tem de ter presente que o ser humano exige uma dupla garantia de integridade: 
por um lado, a intocabilidade e a dignidade de cada indivduo em particular e, por outro, a 
garantia das condies sociais e das relaes intersubjetivas (emoes, sentimentos, 
valores), atravs das quais os indivduos se conservam como participantes autnomos de 
uma comunidade.  neste sentido que o principio da justia que postula o respeito, a 
liberdade e os mesmos direitos para todo indivduo, bem como o principio da 
solidariedade que exige o bem da comunidade  qual o individuo pertence e, finalmente, o 
principio do bem comum, deve ser o corpo da tica. 
 no discurso prtico que a tica Discursiva pode pr em movimento um tipo de vontade 
racional capaz de garantir o interesse de todos os indivduos particulares, especialmente 
o interesse na salvaguarda da sua dupla vulnerabilidade, garantido sem que se rompa o 
lao social que une objetivamente cada indivduo humano com todos os outros. 
Condies para a tica Discursiva 
Habermas reconhece que a tica Discursiva depende de formas de vida 
correspondentes, necessita da competncia comunicativa dos integrantes do grupo, de 
situaes sociais ideais, livres de coero e violncia, e de um sistema lingistico 
elaborado que permita pr em prtica o discurso (terico e prtico). E importante salientar 
que Habermas tem bastante claro que a tica 
64 



Discursiva necessita de uma certa concordncia com determinadas prticas de 
socializao e educao, capazes de provocar a formao da conscincia moral no nvel 
ps-convencional, no estgio de princpios ticos universais, e o desenvolvimento das 
estruturas cognitivas no nvel do operatrio formal onde o individuo alcana uma estrutura 
cognitiva que lhe permite o desenvolvimento do pensamento e de elaborao mental em 
nvel de hipteses e de relaes hipotticas. 
Necessita ainda de instituies polticas e sociais nas quais esto incorporadas 
representaes ps-convencionais do direito e da moral, ou seja, onde as decises 
morais so geradas a partir dos direitos, valores e princpios que so ou poderiam ser 
aceitos por todas as pessoas que compem uma sociedade que tem de ter prticas 
justas e benficas. 
Descentramento 
Habermas considera o descentramento como uma sada indireta para avaliar normas e 
aes problemticas, retirando-as do contexto onde o conflito est sendo vivido, portanto 
descontextualizando-as a fim de submet-las a uma avaliao hipottica. E com isto, 
sustando temporariamente a pretenso de validade dos interesses concretos. A 
reintroduo nas formas de vida concreta de interesses e normas ticas, assim validadas 
atravs do discurso prtico, mas fora do seu contexto, tem de ser histrica, portanto,  um 
processo de aprendizagem que deve envolver esforos coletivos, os diferentes setores da 
sociedade, famlia, escola, igreja, organizaes produtivas, o estado, bem como esforos 
coletivos das vitimas dos movimentos sociais e polticos. A tica Discursiva no forma 
contedos especficos ou verdades morais novas. 
Ela  um desafio a todos os individuos porque no pretende tirar de ningum a 
responsabilidade da deciso prtica, moral, diante de questes prticas do cotidiano da 
vida de todos ns. A formao da vontade tica no interior de um espao racional  um 
dever tico e moral de todos ns. Exige um grande esforo.  uma esperana e uma 
utopia, especialmente quando nos deparamos com o caos e a ausncia da justia, da 
solidariedade e do respeito  dignidade humana em todos os setores da vida social no 
nosso mundo de hoje. 
A tica Discursiva parte do principio de que o homem  um ser racional, mas tambm um 
ser social. Como ser racional e social ele  dotado da capacidade de pensar, de sentir, 
de se comunicar pela linguagem: enquanto ser social e racional ele  obrigado a 
satisfazer as suas necessidades no s por uma ao instrumental e pela ao 
estratgica, mas por uma ao comunicativa que tem como base fundamental a busca do 
entendimento atravs de um processo argumentativo fundamentado na justia, na verdade 
e na veracidade. Em outros termos, fundamentado no respeito  dignidade humana. Na 
traduo de Rouanet, na tica Discursiva o homem  um ser plural. Ele nasce numa 
comunidade lingstica e organiza as relaes com seus semelhantes num contexto de 
mundo vivido, compartilhado intersubjetivamente. 
65 



Para Habermas, o livre desdobramento da personalidade de cada um depende da 
liberdade de todos os outros. 
tica Discursiva e a neutralidade em Kant e Durkheim 
Rouanet, na anlise da tica Discursiva, ao fazer uma relao desta com a tica Kantiana 
e com a sociologia de Durkheim, ressalta que na Etica Discursiva o indivduo (a) tem 
direitos complementares aos da comunidade; (b) que as normas e instituies da 
comunidade so questionveis. Elas devem, portanto, ser objeto de uma reflexo crtica; 
(c) que a felicidade individual  diferenciada. Os indivduos possuem uma identidade 
prpria que o discriminam dos demais indivduos. Tm sentimentos, emoes e desejos 
prprios, individuais. Portanto, a felicidade  uma conquista individual e individualizada, 
pessoal. Ela, a felicidade, no pode ser padronizada nem, tampouco, a satisfao das 
necessidades. A auto-realizao  um direito de cada indivduo e como tal lhe pertencem 
as opes da busca de um projeto individual de vida. 
A tica Discursiva  bastante clara na denncia de qualquer tentativa da sociedade, dos 
grupos ou das organizaes de interferir nos valores individuais, ou na tentativa de 
manipulao de sentimentos e desejos do indivduo, que tm carter repressivo. Ferem, 
portanto, a tica, porque esto interferindo na liberdade e na dignidade humana. A teoria 
da Ao Comunitria reconhece que o indivduo s existe em interao. Mas a interao 
pressupe o reconhecimento da dignidade e integridade de cada participante. O indivduo 
no pode ser separado da sociedade, das relaes com outros indivduos, mas no pode 
ser confundido com a sociedade, com a organizao ou com o grupo. Os valores 
padronizados, a cultura imposta compulsoriamente a partir de esferas superiores da 
sociedade ou das organizaes so agresses aos direitos e  dignidade humana e, 
portanto, aes anti-ticas, imorais. A integridade e o reconhecimento da dignidade de 
cada participante , para a tica Discursiva, fundamento essencial. Cada indivduo tem de 
ser reconhecido na sua individualidade nica e insubstituvel, portanto, como pessoa 
humana. 
tica Discursiva e natureza humana 
A tica Discursiva compreende o indivduo como ser humano com dois atributos 
fundamentais:  um ser racional e um ser desejante. Como ser racional  capaz de refletir, 
de pensar, dialogicamente. Isto significa que, para a tica Discursiva, existe o 
pressuposto de que a racionalidade exista como uma necessidade de justificar com 
argumentos as pretenses de validade propostas. Enquanto ser desejante, o indivduo  
um ser finito que possui impulsos, desejos, interesses e sentimentos e  um ser carente. 
Ele, para se realizar enquanto pessoa humana, obrigatoriamente passa por um processo 
de vida. 
Ele no  determinado pela sua gentica nem condicionado pela sociedade. 
Ele no , portanto, um fruto da hereditariedade nem uma resultante da sociedade. O 
individuo, enquanto ser racional,  pessoa humana, ele  autnomo e livre. 
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Condies essenciais da tica Discursiva como processo de aprendizagem 
Segundo Habermas, a autonomia e a liberdade do indivduo esto vinculadas ao respeito 
e  observncia dos valores ticos universais, por todos os demais indivduos, que so a 
justia e a solidariedade e o bem comum, no contexto da tica Discursiva. 
Na fala de Habermas, para que o indivduo possa atingir a sua autonomia, o seu 
desenvolvimento cognitivo e a sua conscincia moral, so necessrias a ele vivncias e 
experincias adequadas ao desenvolvimento de cada etapa do seu processo 
Psicogentico e de formao de conscincia moral como foi comprovado nos estudos de 
Piaget e Kohlberg. Essas condies essenciais ao processo que o individuo desenvolve 
so dadas ou negadas pelo meio social (sociedade, organizaes, famlia, escola, 
trabalho, igreja etc.). 
A imposio de regras rgidas de valores, a proibio do questionamento de normas, dos 
padres de comportamento, das crenas, por meio de punies fsicas ou sociais so 
condies que negam o desenvolvimento da conscincia moral do indivduo. 
Neste contexto social autoritrio so utilizados mecanismo e instrumentos de sanes e 
punies que mantm os indivduos num estgio no-reflexivo. Esta proibio de refletir 
se refere ao contedo da veracidade dos fatos e das coisas, como tambm  moralidade 
dos mesmos. 
A manipulao dos fatos e das situaes apresentados sistematicamente distorcidos, o 
envolvimento emocional dos indivduos, a adoo de metodologias de trabalho 
padronizadas, modelos gestionrios de mudana de cultura compulsria, automao do 
trabalho so alguns dos fatores que impedem o desenvolvimento do processo cognitivo e 
da conscincia moral pelo indivduo. 
Estas condies do meio social se relacionam  estrutura do desenvolvimento 
psicogentico de Piaget, denominada por ele pr-operatrio, e da heteronomia moral ou 
do nvel convencional de Kohlberg. 
Isto significa que o indivduo neste estgio psicogentico  incapaz de desenvolver 
mentalmente operaes, como levantamento de hipteses, relacionamento de vrios 
fatores entre si, de abstrao e de criao de idias novas, portanto, de criatividade. Do 
ponto de vista da moralidade, ele est preso ao seguimento de normas porque elas so 
impostas por uma autoridade externa que ele julga legtima, bem como pelo medo da 
punio, caso venha a transgredi-la. Na ausncia da autoridade a norma  geralmente 
desrespeitada. 
Kohlberg amplia este estgio, colocando-o como caracterstica do nvel convencional, no 
qual o indivduo se preocupa em respeitar, obedecer e cumprir as normas que o sistema 
espera dele, ele se preocupa com os demais e respeita a lealdade e a confiana entre 
colaboradores. O individuo neste nvel de desenvolvimento necessita considerar-se bom, 
ser considerado bom pelos outros; coloca-se no lugar do outro e acredita que os demais 
tambm se portaro bem. 
O indivduo s poder ultrapassar essa fase do seu desenvolvimento psicogentico e de 
formao da sua conscincia moral se o meio social lhe
67 



possibilitar as condies para vivncias e experincias de aprendizagem. A tica 
Discursiva tem como base essencial criar as condies que possibilitem ao indivduo a 
problematizao, atravs do processo de argumentao dentro de um contexto no-
coercitivo, onde o questionar e o argumentar no signifiquem ameaa de punio ou de 
privao de benefcios e de satisfao de prazeres. Essa relao dialgica dos indivduos 
nos seus diversos meios sociais (famlia, organizaes, igreja, escola etc.) se diferencia 
radicalmente do que hoje se denomina participao. Na relao dialgica a identidade 
do indivduo  respeitada porque nesse processo de interao o que se busca  o 
entendimento por meio de um processo argumentativo, fundamentado na justia, na 
verdade e na veracidade e que objetiva um entendimento negociado sem coero, tanto 
do tipo fsico como do emocional. A relao dialgica tem, como j foi visto, por base 
essencial, a definio de uma situao comum. 
Na participao, a situao no  comum, ela tem facetas que no so mostradas e no 
so objeto de argumentao e de reflexo dos participantes. 
Ela no est fundamentada na justia, na verdade e na veracidade. Ela no  comum e 
objetiva interesses diferentes daqueles induzidos aos participantes. A participao como 
mecanismo psicolgico atua no nvel dos sentimentos, das emoes e dos desejos do 
indivduo, manipulando e distorcendo a sua realidade e levando-o a uma distoro 
sistemtica da percepo do seu mundo interno e da sua realidade externa. Do ponto de 
vista da tica Discursiva os grupos participativos representam uma agresso  dignidade 
humana. 
tica Discursiva universal e dialgica .
Para Habermas, a tica Discursiva  uma tica universal porque ela se fundamenta numa 
natureza comum a todos os homens, que  a natureza racional. Essa fundamentao, 
portanto, supe que as normas sero racional- mente validveis e esta validao dever 
ser resultante de um processo argumentativo, de uma relao dialgica e, portanto, 
resultante de um consenso negociado, de acordo com o critrio da universalizao 
(Princpio U) que Habermas define da seguinte forma: todas as normas vlidas precisam 
atender  condio de que as conseqncias e efeitos colaterais que presumivelmente 
resultaro da observncia geral dessas normas para a satisfao dos interesses de cada 
indivduo possam ser aceitas no coercivamente por todos os indivduos. 
A tica Discursiva  dialgica porque ela exige como pressuposto bsico a relao 
comunicativa, que  um processo de argumentao fundamentado no respeito  
dignidade humana e que se caracteriza como um processo de aprendizagem do 
indivduo, e dos indivduos, porque permite o questionamento, a reflexo, a anlise, a partir 
de uma situao comum, possibilitada a cada um dos indivduos que esteja nesta relao, 
uma vez que a mesma se fundamenta na justia, na verdade e na veracidade por parte 
das pessoas em interao neste contexto. Como processo de aprendizagem, a tica 
Discursiva no retira 
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a responsabilidade individual de cada indivduo; oferece, entretanto, a possibilidade do 
indivduo crescer, aprender e se desenvolver enquanto pessoa e alcanar a 
autodeterminao e a auto-realizao. 
Ele  capaz, com a ajuda do outro, pelo processo de aprendizagem (relao dialgica), 
de ser pessoa, de se emancipar, de atingir a sua cidadania, ao mesmo tempo que esse 
processo de aprendizagem e de emancipao individual se torna uma alavanca de 
reconstruo moral e tica da sociedade. 
Na leitura de Freitag, a tica Discursiva  emancipatria porque  pela reflexo critica 
que o sentido oculto de um texto distorcido ou de uma comunicao sistematicamente 
manipulada  revelado e esclarecido. Para Habermas, para a tica Discursiva, essas 
distores sistemticas representam, na realidade, a dominao ou o poder camuflado. 
Os indivduos, entretanto, quando conseguem tomar conscincia desta realidade, so 
capazes de se autodeterminarem diante dela. Para Habermas, a tica Discursiva tem 
dois compromissos importantes: com o homem racional e com a prxis como dialtica 
emancipatria. 
KANT E A RAZO PRTICA 
Na leitura de Lacroix da teoria moral de Kant, o papel da metafsica dos costumes no  
analisar a conscincia comum, mas fundar juzos morais nesta conscincia comum. E 
para ser aplicada ao homem em particular, a moral deve ser fundada unversalmente para 
todo ser racional. Esta universalidade se centra no conceito essencial de que o homem  
um ser racional em geral. 
Todos os seres humanos so seres racionais, com a mesma natureza. 
Para assegurar o imprio soberano da lei moral universal sobre o homem em particular, 
Kant vai alm das propriedades especiais da natureza humana, ele parte da essncia 
racional do ser humano. E  o prprio ser humano que sugere, na perspectiva de Kant, 
este conceito de ser racional. , entretanto, sobre todo ser racional que reina uma 
metafsica dos costumes. Na realidade, a razo  tomada como a faculdade de produzir 
leis, de estabelecer uma legalidade: ela  legisladora a priori. Todo ser que tem esta 
faculdade  um ser racional. Na leitura de Lacroix, a necessidade da moral, como tambm 
a necessidade da cincia, que existe no ser humano, est ligada  sua legalidade 
racional. Kant afirma que o ser humano  um cidado de dois mundos: o mundo da 
natureza e o mundo da moral.  a idia de necessidade do conhecimento (mundo natural) 
e a de obrigao na moralidade (mundo social). 
Nos fundamentos da Metafsica dos Costumes e na Crtica da Razo Prtica, Kant 
procura as estruturas essenciais da vida moral que so: 1) a exigncia da moralidade, 
que  uma caracterstica da humanidade; 2) isolar, atravs de um mtodo reflexivo 
(abstrato), os elementos simples a priori que so as condies necessrias sem as 
quais nem sequer se poderia falar da vida moral. 
Ao analisar o juzo comum dos homens em matria moral, Kant se certifica da sua 
presena em todas as conscincias, porque a verdade moral  di- 
69 



retamente acessvel a cada homem que a reconhece, desde que a sua reflexo seja 
solicitada. A reflexo tica para Kant no substitui nunca a ao, mas permite 
compreend-la melhor. Ele tem uma profunda confiana no juzo prtico dos homens e 
afirma que na existncia a lei moral apresenta-se como uma mxima e na filosofia como 
um imperativo: a representao de um principio objetivo que obriga a vontade  uma 
mxima e a frmula desta mxima  um imperativo. A filosofia apenas formula o que a 
existncia moral reconhece como uma ordem da conscincia. 
Na anlise da conscincia moral comum, Kant no toma por morais os dons da natureza, 
ou da fortuna, os talentos do espirito ou os sucessos do mesmo, porque estes dons no 
determinam por si prprios o uso que deles faz a vontade. Nesta anlise Kant define o 
que, segundo ele, existe no mundo que possa ser absolutamente bom e de que se possa 
fazer sempre bom uso: a boa vontade, que , para a conscincia comum, a frmula 
imediata do critrio em nome do qual ela julga. A boa vontade, enquanto vontade 
benfeitora, a vontade que faz o bem. Que  boa no pelos seus sucessos ou pelo seu 
xito, mas pelo seu prprio querer, pela mxima que inspira a sua ao. Portanto, pela 
sua inteno. 
Kant explica que a inteno que deve animar a boa vontade  o respeito do dever, o agir 
por dever e no apenas conforme o dever. 
E dever, para Kant, decorre do imperativo categrico que se orienta segundo um valor 
bsico inquestionvel universal que  a dignidade humana. 
Enquanto o indivduo est no nvel da legalidade, ele cumpre a lei em 
funo de um interesse particular ou de uma inclinao. Ele atua de acordo 
com a lei, pouco importando as intenes pelas quais o faz. 
Quando o indivduo se deixa guiar exclusivamente pelas inclinaes naturais, ainda no se 
elevou ao plano da moralidade. O respeito, entretanto, que poderia ser ele prprio um 
sentimento,  entendido por Kant como um produto espontneo da razo em ns. i o 
estimulador, o mbil da moralidade, no o  seu fundamento. O fundamento  um 
imperativo que se impe ao tomar de maneira absoluta. O imperativo supe uma vontade 
subjetivamente imperfeita,  qual  pedido que se decida com regras, no seguindo os 
impulsos da sensibilidade. 
Os imperativos podem ser hipotticos - regras e conselhos prticos para se atingir 
determinados fins, que esto relacionados  razo terica pura. 
O imperativo categrico est ligado  razo prtica pura. E o instrumento do julgamento 
moral da razo, portanto da moralidade. No impe um ato predefinido num objetivo 
anteriormente desejado. No liga a vontade ao contedo,  matria do ato. Ele prescreve 
que se atue pura e simplesmente de acordo com a lei. E a lei, por sua vez, tem como 
caracterstica a universaldade. Age unicamente segundo a mxima que faz com que 
possa querer ao mesmo tempo que ela seja uma lei universal. 
Faz parte do imperativo categrico a exigncia de que um ser humano jamais deve ser 
visto e usado como um meio, mas sim, exclusivamente, como um fim em si. Kant coloca 
como exigncia fundamental que toda a legislao decorrente da vontade legisladora dos 
homens precisa ter como finalidade o homem, a espcie humana enquanto tal. A 
dignidade humana  o valor bsico inquestionvel e de interesse geral. 
70 



Sistema de fins 
Entretanto Kant admite que no mundo social, no sistema de fins, existem duas categorias: 
o preo e a dignidade. Enquanto o preo representa um valor de interesses particulares, a 
dignidade representa um valor de interesse geral. 
H, segundo Kant, um interesse especulativo e um interesse prtico da razo que so 
princpios que contm a condio sob a qual este poder  posto pela razo em exerccio. 
A razo terica pura (interesse especulativo) que  dada a priori ao indivduo no 
depende de experincia prvia;  o que permite ao sujeito elaborar o conhecimento do 
mundo da natureza. Do mundo determinado, das leis j estabelecidas que regem a 
natureza, a lei dos cosmos do mundo orgnico e inorgnico. 
A razo terica prtica pura: tambm instrumento ou faculdade mental (da razo) que 
independe da experincia prvia do indivduo.  dada a priori. Esta faculdade mental 
permite, ou abre caminho, para o conhecimento do mundo social, da sociedade, tem a ver 
com os seres racionais, como coisas em si. No sentido moral esse interesse  
essencialmente desinteressado, pois os seres humanos no podem ser, do ponto de vista 
tico, para Kant, tomados como meios para fins definidos. 
Essa distino se impunha a Kant, na medida em que havia para ele uma diferena entre 
natureza da sociedade e natureza do mundo natural (natureza). No mundo social (a 
sociedade), a razo prtica teria a sua atuao fazendo as leis que regeriam o mundo 
social e os costumes. E o campo do indeterminado onde o homem teria a liberdade e 
vontade livre de faz-lo, de mud-lo. Para Kant, o social, onde atua a razo prtica,  o 
reino do indeterminado, do possvel, da liberdade. Na filosofia Kantiana a razo prtica  
complemento da razo terica pura. No primeiro momento, na razo terica pura, o 
homem tem a possibilidade de conhecer e desvendar um mundo que no depende de sua 
liberdade para definir a sua finalidade. No segundo momento, na razo prtica pura, o 
homem age sobre o mundo social. Tem a liberdade de definir sua finalidade e, 
conseqentemente, tem tambm a liberdade de constituir o sistema dos fins. O mundo da 
natureza onde atua a razo terica pura  o mundo do ser, cuja finalidade escapa  
vontade humana. No segundo, o mundo social,  onde atua a razo prtica,  o mundo do 
dever ser ou dos fins; valem os julgamentos morais. 
Como acentua Freitag, a questo da moralidade no Kantismo somente surge em 
decorrncia da indeterminao do dever ser (mundo social) onde os homens tm a 
liberdade de fazer valer as suas vontades, fixar os seus prprios objetivos ou fins. Os 
critrios do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto, so critrios 
segundo os quais, no mundo social, as aes humanas so julgadas, uma vez que  neste 
mundo que os homens podem fazer valer as suas vontades, de forma livre e autnoma.  
neste mundo que a vontade legisladora do homem atua. O julgamento moral das aes 
humanas est diretamente ligado  sua liberdade,  sua vontade legisladora. Os critrios 
de julgamento encontram-se na razo prtica pura atravs do imperativo categrico: 
71 



Age de tal modo que a mxima de tua vontade possa sempre valer simultaneamente 
como principio para uma legislao geral (Kant). 
Para Kant esta frmula deve encerrar o principio de todos os deveres. 
 necessrio precisar quais so esses deveres. Da mesma forma que constitumos a 
natureza exterior, impondo a ela nossa forma de ordenao, o mesmo se passa no plano 
tico da moralidade. 
A mxima das nossas aes universalizveis deve poder constituir uma ordem moral, uma 
natureza tica. 
Desta lgica, Kant passa  segunda formulao do imperativo categrico: 
Age como se a mxima da tua ao devesse pela tua vontade ser erigida em lei universal 
da natureza. No Kantismo, no basta que a razo atue conformando-se com leis. Ela  
faculdade de prosseguir fins, ela necessita ter um fim ltimo, um valor absoluto, e impe-
se a todo ser racional. Kant identifica a natureza racional com a humanidade, com todos 
os seres humanos individualmente, e chega  formulao: Age de tal maneira que trata a 
humanidade to bem, na sua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre ao 
mesmo tempo com um fim e nunca simplesmente como um meio. 
O valor absoluto da pessoa  afirmado por Kant, que o deriva da prpria razo. A noo 
de personalidade (identidade) torna uma importncia bsica, pois caracteriza o ser 
humano no que ele tem de pessoal e ltimo. E que se apresenta numa estreita relao 
com a lei moral. 
O respeito  dignidade humana no se limita  invulnerabilidade fsica, corporal, do 
sujeito, mas ao respeito e  integridade de sua identidade como 
pessoa humana,  sua personalidade, ao ser humano total. 
Kant, entretanto, acredita que a lei no se impe de fora nem de cima.  o prprio sujeito 
que promulga a legislao universal. Kant considera a vontade de todo ser racional como 
uma vontade legisladora universal, que  a expresso da autonomia do sujeito, da sua 
vontade legisladora de estabelecer e concretizar fins no mundo social. 
Neste sentido, Kant, ao afirmar que a vontade de todo ser racional deve ser concebida 
como uma vontade legisladora universal, conclui que a expresso dessa vontade  
tambm a expresso do prprio ego do indivduo, enquanto pessoa humana, que nela se 
reencontra.  a partir da vontade legisladora universal que Kant estabelece o principio 
fundamental da moralidade, que  o da autonomia. 
O individuo  autnomo na obedincia da lei pela relao que com ela estabeleceu: ele  
o seu autor. A faculdade de ser o seu autor no destri a sua liberdade, mas o fato de 
obedec-la  a expresso da sua prpria manifestao (de vontade e liberdade). 
A noo de autonomia  a nica que pode definir o verdadeiro principio da vida moral. A 
lei, ela prpria, faz sentido e expressa os valores supremos com os quais se est 
comprometido.  uma adeso livre, racional e que emerge da vontade racional de cada 
individuo particular. 
72 



Enquanto o indivduo se ativer  observncia e  obedincia da lei moral sem fazer uma 
reflexo sobre ela, ele no atingiu a sua autonomia moral, encontra-se no nvel da 
heteronomia. 
DURKHEIM E A MORALIDADE 
Como desenvolve Freitag a partir das regras do mtodo sociolgico, Durkheim deixa 
explcito o deslocamento do foco de interesses do sujeito para a sociedade. Durkheim 
postula a objetividade dos fatos sociais. Isto quer dizer que os fatos devem ser encarados 
como coisas e independem da natureza e das conscincias dos indivduos. Os fatos 
existem por eles prprios. Ao mesmo tempo d aos fatos sociais um poder coercitivo; 
eles exercem coercivamente autoridade e exigem obedincia dos indivduos. 
Esses tipos de conduta ou de pensamento no so apenas exteriores ao indivduo, so 
tambm dotados de um poder imperativo e coercivo, em virtude do qual se lhe impem, 
quer queira, quer no. 
Para Durkheim, a maioria das idias do indivduo no  elaborada por ele, mas vem de 
fora e, como tal, deve ser penetrada no indivduo por um ato impositivo, autoritrio, 
externo, portanto, atravs da coero social. 
Na mesma linha de pensamento, afirma que a educao consiste num esforo continuo 
para impor s crianas maneiras de ver, de sentir e de agir s quais elas no chegariam 
espontaneamente. Na seqncia de seu pensamento ressalta que o fato social  
reconhecvel pelo poder de coero externa que exerce sobre os indivduos. Este poder  
reconhecvel pela existncia de alguma sano determinada ou pela resistncia que o fato 
ope a qualquer empreendimento individual que procure violent-lo. 
As regras do mtodo elaboradas pela cincia garantem a objetividade do conhecimento 
da natureza e da sociedade. A cincia  um fato social, fato social este produzido pelo 
coletivo. O mundo natural e o social so, para Durkheim, coisa ou fato objetivo e a cincia 
tem a mesma realidade e objetividade do mundo natural e social. O mtodo  a garantia 
do desenvolvimento do conhecimento. 
As categorias do pensamento so desenvolvidas no interior da sociedade. 
So categorias decorrentes das representaes coletivas, ou seja, formas de viver, sentir, 
pensar so desenvolvidas pelo coletivo, no interior de um grupo, e, como acentua Preitag, 
remontam em sua origem s formas de vida religiosa, ao sagrado; encontram-se nessas 
representaes coletivas a fonte e a essncia da moral na sociedade. Estas maneiras de 
ser coletivas so impostas aos indivduos pela sociedade. 
Durkheim faz uma relao estreita entre a cincia e a moral; ambas tm uma natureza 
sagrada e, portanto, constituem a essncia da sociedade. Nas palavras de Durkheim, a 
sociedade  uma realidade especifica, mas no  um imprio em um imprio; faz parte 
da natureza da qual  a mais alta manifestao. O reino social  o reino natural, que difere 
dos outros somente por sua maior complexidade. 
73 



Ao transformar a sociedade (e o coletivo) em Sagrado, Durkheim a elege a reveladora da 
verdade, a guardi da moral. Para ele a opinio pblica faz de suas origens uma 
autoridade moral pela qual se impe aos particulares. 
Ela reprime todo ato que a ofende em funo da legitimao que exerce sobre a conduta 
dos cidados e pelas penas especiais que tm a seu dispor. 
O indivduo isolado deve se subordinar ao social porque  a sociedade a forma superior 
de aprimoramento atravs do coletivo. 
Acredita que, quando as conscincias individuais entram em relao intima, agindo umas 
sobre as outras, resulta dessa relao uma vida psquica de um novo gnero. Para ele, os 
sentimentos que nascem e se desenvolvem nos grupos so sentimentos de natureza mais 
intensa e cuja energia ultrapassa aquela dos sentimentos individuais. A vida torna-se 
qualitativamente diferente para aqueles que experimentam estes sentimentos coletivos. 
Desinteressa-se de si mesmo, d-se por inteiro aos objetivos comuns. Os seus ideais so 
os da sociedade, pois ele  um ser social. 
Para Durkheim, o coletivo  superior ao individual.  a sociedade que impulsiona o 
indivduo ou o obriga a erguer-se acima de si mesmo, e  ela que d a ele, o individuo, os 
meios para consegui-lo. 
Ao sacralizar a sociedade, a considera um corpo onde vive uma alma e esta alma  
constituda pelos ideais coletivos que por sua vez so os motores ou foras reais e ativas 
por serem as foras morais. Coloca a sociedade como o ideal que  impessoal e produto 
da razo coletiva. A sociedade , na viso de Durkheim, a natureza elevada ao mais alto 
ponto de seu desenvolvimento e concentrando todas as suas energias para, de qualquer 
maneira, pass-la a si mesma. Ela , nas palavras de Durkheim, a morada de um vida 
moral interior. 
A solidariedade  abordada por Durkheim nas suas diferentes formas. A solidariedade 
mecnica que se explicita na forma mais simples da diviso social do trabalho, 
especificamente a diviso de tarefas entre sexos e idade. 
A solidariedade orgnica, por sua vez, surge nas sociedades complexas mais 
industrialmente desenvolvidas, onde existem os diferentes setores de produo e as 
vrias atividades profissionais. Como afirma Freitag,  solidariedade mecnica 
corresponde a percepo heternoma da lei que se impe com autoridade implacvel ao 
indivduo. As punies so impostas queles que transgridem as normas de forma a 
explicitar e reafirmar diante do coletivo a validade da norma violada. Portanto, punir 
significa dar uma lio de moral aos demais membros do grupo. A sua funo  manter a 
solidariedade mecnica do grupo. 
Por outro lado, a solidariedade orgnica se vincula ao direito restitutivo e pressupe, 
portanto, um contrato estabelecido entre as partes autnomas. 
Ao contrrio do que acontece na solidariedade mecnica onde a transgresso da norma 
exige uma punio ao transgressor, na solidariedade orgnica a transgresso da norma 
exige a reposio dos danos causados ao parceiro do contrato. A punio  uma forma 
de lembrar obrigaes e responsabilidade com o outro. 
A questo da moralidade, na perspectiva de Durkheim, foge do mbito da razo individual 
e  centrada na sociedade. O indivduo, enquanto ser autno
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mo, desaparece. Ele  um produto da sociedade,  qual deve obedincia e submisso.  
a sociedade, como a morada de uma vida moral interior, e como possuidora de uma 
alma, alma esta que se constitui pelos ideais coletivos e, portanto, possuidora das foras 
morais que tem a funo de moralizadora e de guardi da moralidade. Ela tem o poder de 
julgar o certo e o errado, o bem e o mal. E  ela que tem, tambm, o poder de punir e de 
exercer coaes sobre os indivduos.  a grande ditadora da moral. Os indivduos passam 
a ser os obedientes seguidores subjugados a essa poderosa entidade atravs da 
coero das diferentes foras sociais e instncias de poder. 
JULGAMENTOS MORAIS: JEAN PIAGET 
Piaget fundamentou emprica e experimentalmente o pensamento Kantiano sobre a 
moralidade. No seu livro The Moral Judgement of the Child, Piaget dedica-se ao estudo 
dos julgamentos morais da criana, suas idias e atitudes em relao s regras,  justia. 
E ao comportamento tico. Os conceitos morais so adquiridos pela criana no decorrer 
do seu desenvolvimento, por estgios. 
O desenvolvimento dos julgamentos morais se processa conforme fatores internos, ou 
seja, crescimento mental, e fatores externos, que so o meio social e a transmisso 
cultural. A participao e interao da criana no meio social so fundamentais para o 
desenvolvimento de sua moralidade, que se inicia no seu nascimento. 
Piaget  cauteloso em relao  maneira pela qual o termo estgio deve ser interpretado 
neste estudo. Nas suas investigaes, ele mostra repetidas vezes que as diferenas 
individuais de julgamento moral so enormes em todos os nveis de idade estudados, que 
seus estgios se sobrepem de tal maneira que podem ser redutveis a estgios no-
evolutivos. Sobre as noes verbalizadas sobre as regras, Piaget encontrou trs estgios, 
em experimentos envolvendo jogos infantis. 
1) No primeiro estgio, quanto  conformidade de comportamento diante das regras, 
Piaget observou que as regras no fazem parte, nesta fase, do espao de vida das 
crianas. 
2) A criana considera as regras do jogo como eternas e imutveis, procedentes da 
atividade paterna ou divina; a criana geralmente resiste a sugestes de mudanas nas 
regras; as novas regras no so justas, mesmo que as demais pessoas concordem em 
aceit-las. Curiosamente, embora a criana considere as leis como sagradas e 
inviolveis, constantemente ela transgride as regras em seu comportamento real (prtica). 
3) Neste estgio, por volta dos 10 a 11 anos de idade, a criana revela atitudes e 
crenas totalmente diferentes em relao s regras. As regras so questionadas, deixam 
de ser eternas e divinas, podem ser modificadas dependendo da concordncia de todos 
do grupo. 
Em outra srie de experimentos que trata das mudanas evolutivas que se verificam nas 
atitudes infantis diante de aes de natureza moral e no mais 
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simples obedincia a regras de um jogo, observou-se que as diferenas individuais foram 
substanciais e freqentes, as crianas mais novas tenderam a considerar como mais 
imorais aqueles comportamentos que tinham conseqncias objetivas mais srias, sem 
levar em conta os motivos e os antecedentes subjetivos do infrator, por exemplo: uma 
criana que quebrou quinze xcaras num acidente que no pde evitar foi considerada 
mais maldosa do que a criana que propositadamente quebrou uma xcara, por 
maldade. 
As crianas mais velhas mostraram-se mais propensas a levar em considerao os 
motivos que esto por trs do mau comportamento e avaliar a responsabilidade moral de 
acordo com os motivos. 
Outra srie de pesquisas investigando idias e atitudes infantis diante da mentira revelou 
resultados paralelos queles encontrados em relao ao comportamento desajeitado: 
1 As crianas mais novas definem uma mentira simplesmente como palavras feias ou 
seja, palavres. Pouco depois, ela  definida como qualquer afirmao inverdica, haja ou 
no a inteno de enganar. 
Finalmente, ela se restringe exclusivamente s mentiras nas quais existe a inteno de 
mentir. 
2 As crianas mais novas consideram uma mentira como dolosa na medida em que se 
desvia da verdade, independentemente da inteno de quem a diz. As crianas mais 
velhas tendem a avaliar a culpa de acordo com o motivo envolvido. 
3 As crianas menores julgam uma mentira que no convence (porque  inacreditvel ou 
porque  muito grande) como pior do que uma que  bem-sucedida; para elas a 
evidncia da inverdade  que  reprovvel. As crianas mais velhas consideram pior a 
mentira que consegue enganar. 
4 Uma falsidade no-intencional que tenha conseqncias objetivas graves  
considerada pior pelas crianas mais novas do que uma mentira deliberada que no 
resulta em algo grave. Neste caso at as crianas mais velhas invertem a avaliao. 
5 As crianas mais novas geralmente dizem que uma mentira  algo condenvel, porque 
se  punido por ela; as crianas mais velhas consideram a mentira condenvel em si 
mesma, seja seu autor punido ou no, porque ela viola a confiana mtua, deteriora as 
relaes sociais etc. 
6 As crianas mais novas geralmente acreditam que a mentira de um adulto  pior do 
que a de um membro de seu grupo. As crianas mais velhas consideram ambas 
igualmente condenveis. 
A concepo infantil de justia foi bastante pesquisada por Piaget. As idias infantis a 
respeito de como vrios tipos de delitos devem ser punidos (problema de justia 
retributiva) so divididas em dois grupos de punio. O primeiro  o da punio 
expiatria. 
A punio expiatria  o delito onde o malfeitor deve sofrer, expiar atravs de uma 
punio que seja proporcionalmente dolorosa  gravidade da ofensa, mas no precisa ter 
qualquer relao com o crime cometido. O segundo grupo 
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 o da punio pela reciprocidade, onde a nfase no est tanto na punio severa para 
fins de expiao, mas na colocao do infrator a par, da maneira mais direta possvel, da 
natureza e das conseqncias de sua violao das relaes com outras pessoas, atravs 
da imposio de um castigo que tenha uma relao lgica com a ofensa. Exemplo: uma 
criana, tendo sido solicitada a trazer para casa alimento para o jantar, deixa de faz-lo. 
Bater no infrator, negar-lhe algum privilgio etc., seriam reaes pertencentes  categoria 
da punio expiatria. Dar  criana menor quantidade de alimento do que o usual ou 
recusar a lhe fazer um favor seriam exemplos de punio por reciprocidade. Piaget 
props infraes hipotticas deste tipo e pediu que as crianas escolhessem, entre vrias 
punies diferentes que lhes eram sugeridas, aquela que achassem melhor. As mais 
novas preferiram, geralmente, punies expiatrias, e as crianas mais velhas escolheram 
as punies de reciprocidade; tambm mostraram-se menos inclinadas a achar que a 
punio direta e severa em si, sem a explicao e a discusso dos motivos pelos quais o 
ato  considerado errado, seria uma maneira eficiente de impedir delitos futuros. 
Piaget constatou que as crianas mais novas eram mais propensas do que as mais 
velhas a acreditar naquilo que ele denomina de justia imanente, a noo de que a 
punio ser feita pela prpria natureza. A justia distributiva refere-se a vrios estudos 
de como distribuir as punies e as recompensas entre os membros de um grupo. Estes 
estudos foram divididos em trs estgios gerais. 
No primeiro (antes dos 7 aos 8 anos de idade), a criana tende a considerar como lcita 
ou justa qualquer recompensa ou punio que a autoridade decida aplicar, mesmo 
naqueles casos em que um mesmo crime  punido desigualmente, ou onde indivduos so 
favorecidos com privilgios especiais e assim por diante. 
No segundo estgio (de 7 a 8 at 11 a 12 anos), a criana revela-se igualitrio-fantico: 
todos devem ser tratados igualmente, quaisquer que sejam as circunstncias. 
No terceiro estgio (de 11 a 12 anos em diante), a criana equilibra igualdade e eqidade 
 uma espcie de igualitarismo relativista, no qual a igualdade estrita eventualmente 
pode ser rompida, em nome de uma justia superior. 
Resumindo, a teoria sobre o desenvolvimento do julgamento moral indica que h trs tipos 
de moralidade na infncia. No nascimento e nos primeiros meses de vida, o beb  
amoral, no possui conscincia moral e no tem nenhuma noo de regras nem de 
justia. 
A segunda evoluo se d no perodo que Piaget denomina de moralidade de represso. 
A criana (parte mais fraca) se adapta s proibies e sanes vindas do adulto, 
transformando-as em verdades morais absolutas, indiscutveis e sagradas. A criana 
encara a infrao em termos mais objetivos do que subjetivos, assimila o que lhe  falado 
e no consegue entender o espirito da lei, sendo incapaz de encarar as aes morais de 
acordo com os motivos interiores do autor ou do significado interpessoal-social do prprio 
ato, como rompimento da confiana mtua, de solidariedade entre os membros de um 
grupo. Na moralidade de represso ou heteronomia moral, apenas as conseqncias 
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explicitas so levadas em conta na avaliao dos atos reprovveis moralmente. As 
intenes e os motivos presentes na infrao no so considerados pela criana; a justia 
se reduz ao que a autoridade manda, independe de sua vontade; h punio sempre que 
se transgride uma regra. 
Com o decorrer do desenvolvimento, a moralidade repressiva  parcial- mente substituda 
por uma moralidade de cooperao ou estgio de autonomia, quando o adolescente toma 
conscincia da necessidade de obedecer regras voluntariamente. Ele passa a 
compreender o peso e a importncia dos motivos nas suas aes e nas do outro e das 
implicaes sociais do comportamento anti-social. 
O adolescente comea a conceber a ao moral como um bem autnomo, reconhece a 
validade da regra, consideradas as relaes sociais entre companheiros baseadas no 
respeito mtuo (reciprocidade), cooperao e solidariedade. 
As regras se tornam convenes aceitas, racionais, e deixam de ser arbitrrias e 
intocveis, e so seguidas mesmo quando no esto sendo vigiadas e controladas pela 
autoridade. 
As aes infratoras so julgadas nas suas intenes e conseqncias, o conceito de 
justia  colocado num contexto social e considerado em termos de igualdade e eqidade 
(reconhecer os direitos de cada um). As punies so empregadas de acordo com a 
gravidade do delito, havendo tambm a reparao da parte prejudicada. 
Na moralidade de cooperao, o individuo pondera os atos segundo seus princpios, 
formando seu julgamento, que pode diferir da opinio ou presso do grupo. 
As regras so aceitas por ele, mas a sua conscincia pode tambm ser geradora de 
regras; ou ainda, as regras no so mais verdades absolutas, elas podem ser 
modificadas e adaptadas de acordo com as inclinaes do grupo no qual ele interage. 
Conclumos destacando duas idias centrais apresentadas por Piaget neste estgio, que 
mostram: 
1. a importncia do dialogo cooperativo e da compreenso da regra pela argumentao 
no meio social; 
2. a partir da argumentao, da discusso e da reciprocidade, de consenso do grupo, 
uma regra tradicionalmente praticada e que fere os valores do meio social pode tornar-se 
uma regra ideal. 
PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO: L. KOHLBERG E SELMAN 
L. Kohlberg e seus colaboradores elaboraram uma teoria do desenvolvimento da 
conscincia moral. Esta teoria postula que o desenvolvimento do julgamento (grupo) moral 
ocorre desde os primeiros anos de vida da criana, passando pela juventude, at a idade 
adulta, segundo um modelo invarivel. 
O ponto normativo de referncia da via evolutiva empiricamente analisada est constitudo 
por uma moral orientada em funo dos princpios: pode-se reconhecer a teoria da tica 
Discursiva em seus traos essenciais. 
78 



A teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg oferece a possibilidade de: 
a) remeter a multiplicidade emprica das concepes morais preexistentes a uma 
variao de contedos diante das formas do julgamento (juzo) moral; 
b) explicar as diferenas estruturais como diferenas nas etapas do desenvolvimento do 
julgamento moral. 
Os pressupostos filosficos fundamentais da teoria de Lawrence Kohlberg esto ligados 
s idias de A teoria da justia de Rawls e em especial a Kant e ao direto natural 
racionalista, de onde ele extrai suas concepes filosficas (inspiradas inicialmente por 
Mead) sobre a natureza do julgamento (juzo) moral. So trs as premissas filosficas de 
Kohlberg: o cognitivismo, o universalismo e o formalismo. 
a) Cognitivismo. Os julgamentos (juzos) morais tm um contedo cognitivo; expressam as 
atitudes afetivas, as preferncias ou as decises contingentes dos indivduos. 
b) Universalismo. O participante da argumentao pode chegar fundamentalmente aos 
mesmos juzos sobre a aceitao das normas de ao. 
Com a fundamentao do Universalismo, a tica Discursiva nega o pressuposto do 
relativismo tico de que a validade dos julgamentos (juzos) morais possa medir-se 
unicamente seguindo as pautas de racionalidade e os valores da cultura ou forma de vida. 
Se os julgamentos morais no pretendessem uma validade geral, uma teoria do 
desenvolvimento moral que assinala vias evolutivas com carter geral estaria fadada ao 
fracasso desde o inicio. 
c) Formalismo. O universalismo funciona como uma regra que elimina todas as 
orientaes axiolgicas concretas, sobrepostas na totalidade de uma forma vital ou de 
uma histria vital individual, por consider-las contedos no passveis de universalizao, 
ao tempo que unicamente mantm os aspectos avaliados da boa vida s questes 
estritamente normativas da justia enquanto questes que possam decidir-se pela 
argumentao. Com a fundamentalizao de universalismo, a tica Discursiva se ocupa 
das ticas materiais onde se estudam as questes da felicidade e, como conseqncia, 
um determinado tipo de vida tica. Na medida em que distingue a esfera de validade do 
dever ser das normas de ao, a tica Discursiva delimita o mbito do moralmente vlido 
diante dos contedos valorativos culturais. Unicamente sob este ponto de vista 
estritamente deontolgico (deveres a cumprir) da retido normativa ou da justia, pode 
extrair-se da multiplicidade de questes prticas as que so suscetveis de uma deciso 
racional. 
Enquanto o postulado da universalidade proporciona uma regra de argumentao, a idia 
bsica da teoria moral de Kohlberg baseou-se na teoria da comunicao de George 
Herbert Mead, no conceito de ideal role taking, adoo ideal do papel, que se manifesta 
no postulado tico discursivo de que toda norma vlida encontraria a aprovao de todos 
os envolvidos, sempre que estes possam tomar parte no discurso prtico. 
79 



Na fala de Habermas, a tica Discursiva postula um procedimento a partir de 
pressupostos que devem garantir a capacidade na formao dos juzos. Ela no 
proporciona orientaes de contedo. Segundo ele, o discurso prtico  um procedimento 
para a comprovao da validade de normas postuladas hipoteticamente e no para a 
produo de normas justificadas. 
Habermas conclui que esta  a principal diferena entre a tica Discursiva e as outras 
teorias ticas cognitiva, universalista e formalista. Na viso de Habermas, na tica 
Discursiva o universalismo se limita a expressar o contedo normativo de um 
procedimento de formao discursiva da vontade, que deve ser distinguido 
cuidadosamente dos contedos argumentativos. Alm disso, todos os contedos tm de 
depender dos discursos reais, inclusive aqueles que afetam as normas fundamentais de 
ao. O postulado tico-discursivo probe determinar certos contedos normativos (por 
exemplo, certos princpios de justia distributiva) em nome de uma autoridade filosfica e 
fix-los na teoria moral. 
A determinao dos procedimentos da moral contm os fundamentos mencionados do 
cognitivo, do universalismo e do formalismo e permite uma separao ntida das 
estruturas cognitivas e dos julgamentos de contedo moral. 
Kohlberg diz que, no procedimento discursivo, h trs operaes para se realizar os 
julgamentos morais: a reversibilidade completa dos pontos de vista, a universalidade da 
incluso completa de todos os envolvidos e a reciprocidade do reconhecimento igual das 
pretenses de cada partiipante por parte dos demais. 
Com o universalismo e o postulado tico discursivo, a tica Discursiva assinala traos de 
julgamentos morais vlidos, que podem servir como pontos normativos de referncia para 
a descrio dos seis estgios de evoluo do julgamento moral. 
Os estgios morais de Kohlberg 
Ordem 1  Ordem pr-convenconal 
Estgio 1  A etapa do castigo e da obedincia. 
Contedo  O justo  a obedincia cega s normas e  autoridade, evitar o castigo e no 
causar dano material. 
1. O justo  evitar a quebra de normas, obedecer por obedecer e no causar danos 
materiais s pessoas ou coisas. 
2. A razo para se fazer o justo  evitar o castigo e o poder superior das autoridades. 
Estgio 2  O estgio do propsito e o intercmbio instrumental individual (relativista 
instrumental). 
1. O justo  seguir as normas quando estejam de acordo com o interesse imediato de 
algum. O justo  atuar em prol dos interesses e necessidades prprios e deixar que os 
demais faam o mesmo. O justo  tambm o que  eqitativo, ou seja, um intercmbio, um 
trato, um acordo igual. 
80 



2. O motivo para se fazer o justo  satisfazer as necessidades e interesses prprios em 
um mundo onde h que se reconhecer que os demais tambm tm seus interesses. 
Ordem II Ordem convencional 
Estgio 3  O estgio das expectativas, relaes e conformidade interpessoais mtuas. 
Contedo  O justo  realizar uma boa funo, preocupar-se pelos de mais e por seus 
sentimentos, respeitar a lealdade e a confiana entre colaboradores e sentir-se 
interessado por cumprir as normas e o que se espera. 
1. O justo  viver de acordo com o que se espera das pessoas prximas em geral, das 
pessoas consigo mesmas, na condio de filho, irm, amigos etc. Ser bom  importante 
e significa que se tem bons motivos e que se est preocupado com os demais. Tambm 
significa manter as relaes mtuas, manter a confiana, a lealdade, o respeito e a 
gratido. 
2. As razes para se fazer o justo so que se necessita ser bom, considerar 
-se bom e ser considerado bom pelos outros; preocupar-se pelos demais, colocar-se no 
lugar do outro e acreditar que os demais tambm se portaro bem. 
Estgio 4 O estgio do sistema social e da manuteno da conscincia. 
Contedo  O justo  cumprir com o prprio dever na sociedade, manter a ordem social 
e contribuir para o bem-estar da sociedade ou do grupo. 
1. O justo  cumprir os deveres que cada um aceitou. As leis devem ser cumpridas, exceto 
nos casos extremos, em que colidem com outros deveres e direitos socialmente 
determinados. O justo  contribuir tambm com a sociedade, com o grupo ou com a 
instituio. 
2. A razo para se fazer o justo  manter o funcionamento das instituies em seu 
conjunto, o auto-respeito ou a conscincia ao cumprir as obrigaes que a prpria pessoa 
aceitou ou as conseqncias. Que aconteceria se todos o fizessem? 
Ordem III Ordem ps-convencional e de princpios 
As decises morais so geradas a partir dos direitos, valores e princpios que so ou 
poderiam ser aceitos por todas as pessoas que compem uma sociedade que tem de ter 
prticas justas e benficas. 
Estgio 5  O estgio dos direitos prvios e do contrato social ou da utilidade. 
Contedo  O justo  proteger os direitos, valores e pactos legais fundamentais de uma 
sociedade, inclusive quando entram em choque com as normas e leis concretas do grupo. 
81 



1. O justo  estar consciente de que o indivduo possui uma diversidade de valores e 
opinies e que a maior parte dos valores e normas tm relao com o grupo social de que 
o indivduo faz parte. No obstante deve-se respeitar estas normas de relao no 
interesse da imparcialidade e pelo fato de que constituem o pacto social. Entretanto, 
alguns valores e direitos que no so de relao, como a vida e a liberdade, deve-se 
respeitar em qualquer sociedade com independncia da opinio da maioria. 
2. A razo para se fazer o justo, em geral,  sentir-se obrigado a obedecer a lei porque a 
pessoa estabeleceu um pacto social para fazer e cumprir as leis, pelo bem de todos e 
tambm para proteger os prprios direitos, assim como os direitos de todos. A famlia, a 
amizade, a confiana e as obrigaes do trabalho so tambm obrigaes e contratos 
que se aceitam livremente e que supem respeito pelos direitos dos demais. O indivduo 
est interessado em que as leis e os deveres se baseiem no clculo racional de utilidade 
geral: a mxima felicidade para o maior nmero. 
Estgio 8  O estgio dos princpios ticos universais. 
Contedo Este estgio supe que haveria um guia por parte de uns princpios ticos 
universais que toda a humanidade deveria seguir. 
1. O estgio 6 sobre a idia de justia guia-se por princpios ticos universais. As leis 
concretas ou os acordos sociais so vlidos habitualmente, porque se baseiam em tais 
princpios. Qundo as leis violam tais princpios, a pessoa atua de acordo com o principio. 
Os princpios so os princpios universais da justia: a igualdade de direitos humanos e o 
respeito pela dignidade dos seres humanos enquanto indivduos. Estes no so 
unicamente valores que se reconhecem, mas tambm so princpios que se utilizam para 
gerar decises concretas. 
2. A razo para se fazer o justo  que a pessoa racional v a validade dos princpios e se 
compromete com eles. 
Na leitura de Habermas, Kohlberg assinala a passagem de um estgio para outro como 
uma aprendizagem. O desenvolvimento moral significa que um adolescente reconstrua e 
distinga as estruturas cognitivas preexistentes de tal maneira que possa resolver, melhor 
que antes, a mesma classe de problemas. 
O adolescente entende sua prpria evoluo moral como uma aprendizagem. Em cada 
uni dos estgios superiores ele percebe em que medida eram falsos os julgamentos 
(juzos) morais que havia considerado como corretos nos estgios anteriores. Kohlberg e 
Piaget concordam ao entender este processo como uma realizao construtiva do 
aprendiz. As estruturas cognitivas que esto na base do julgamento moral no podem se 
explicar, em primeiro lugar, por meio das influncias do meio ambiente ou como causa de 
programas e processos de maturidade inatos, mas como o resultado de uma 
reorganizao criadora de um inventrio cognitivo presente, que se v superado pela 
presena de problemas que se apresentam com obstinada insistncia. 
82 



1-labermas, ao analisar os estudos de Kohlberg, mostra que a tica Discursiva se 
identifica com o conceito construtivista da aprendizagem, na medida em que entende a 
formao da vontade discursiva (da argumentao em geral) como a forma reflexiva da 
ao comunicativa e exige uma mudana de atitude para a transio da ao ao discurso. 
A argumentao, como acentua Habermas, se preocupa e questiona as pretenses de 
validade que se colocam de maneira inconsciente em quem atua na prxis comunicativa 
cotidiana. Neste sentido, os participantes na argumentao adotam uma posio 
hipottica com relao s pretenses controvertidas da validade. 
Assim, por exemplo, deixam de resolver o problema da validade de uma norma 
controvertida no discurso prtico, posto que  na competncia entre proponente e 
oponente onde esta tem de demonstrar se merece ser reconhecida como vlida ou no. 
Kohlberg mostra ainda que a mudana de atitude na transio da ao comunicativa para 
o discurso no  diferente no caso das questes de justia que nas de verdade, O fato 
deve ser considerado como algo que pode existir ou no. Ao mesmo tempo que os fatos 
se transformam em relaes que podem ser certas ou no, as normas de aplicao 
social se transformam em possibilidades de regulao que se pode aceitar como vlidas 
ou rejeitar como invlidas. 
Quando o adolescente, em um instante critico, toma uma posio radical hipottica diante 
dos contextos normativos de seu mundo vital, mostra-se o carter do problema que cada 
um deve resolver na transio, desde o estgio convencional at o ps-convencional do 
julgamento moral. De uma s vez fica desenraizado o mundo social, habitual e 
reconhecido, o mundo das relaes interpessoais legitimamente reguladas, ao mesmo 
tempo que perde a sua validade natural. Ento, quando o jovem no pode nem quer voltar 
ao tradicionalismo e  identidade inquestionada de seu mundo de origem, tem de 
reconstruir os conceitos fundamentais das ordens normativas destruidas pela nova 
posio hipottica (se no reconstruir, ficar completamente desorientado). Estas ordens 
no se recompondo dos restos do que foi desvalorizado, a partir de tradies meramente 
convencionais, e da clara necessidade de justificao, faz-lo de tal modo que a nova 
construo resista  critica de um observador que no pode fazer outra coisa que 
distinguir entre as normas social- mente vigentes e as vlidas, entre as reconhecidas de 
fato e as dignas de reconhecimento. No inicio, so os princpios que permitem alicerar a 
nova construo e elaborar as normas vlidas: por ltimo s resta um procedimento para 
a escolha racionalmente motivada entre os princpios reconhecidos como necessitados 
de justificativa. Comparado com a ao moral cotidiana, a mudana de atitude que tem de 
exigir a Etica Discursiva para o procedimento expressado nela, inclusive para o trnsito, a 
argumentao, resulta em algo antinatural, pois significa uma ruptura com a ingenuidade 
das aspiraes de validade formuladas, de cujo reconhecimento intersubjetivo depende a 
prxis comunicativa cotidiana. Esta antinaturalidade  indicativa daquela catstrofe 
evolutiva que sups historicamente a desvalorizao do mundo tradicional e que provocou 
o esforo para uma reconstruo em uma ordem superior. Neste sentido j 
83 



est implcito, na transio da ao dirigida por normas ao discurso comprovador das 
mesmas (convertida em um hbito entre os adultos), o que Kohlberg assinala como 
processo de aprendizagem em todos os estgios. 
A teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg requer a explanao do ponto de 
referncia normativo, do conceito de aprendizagem de que se utiliza e da anlise do 
modelo de estgios. Este modelo, inspirado em Piaget,  descrito por Kohlberg com a 
ajuda de trs hipteses slidas: 
1. Os estgios do julgamento moral constituem uma seqncia invarivel, irreversvel e 
consecutiva de estruturas discretas. Com esta suposio fica excludo: 
 que as diversas pessoas alcancem o mesmo objetivo atravs de diversas vias 
evolutivas; 
 que a mesma pessoa retroceda de um estgio mais alto a outro mais baixo; 
 que, no decorrer do desenvolvimento, se pule um estgio. 
2. Os estgios de julgamento moral constituem uma hierarquia, no sentido de que as 
estruturas cognitivas de uma etapa superior s correspondentes das etapas inferiores so 
substituidas ao mesmo tempo que as mantm de uma forma reorganizada e diferenciada. 
3. Cada estgio de julgamento moral pode caracterizar-se como uma totalidade 
estruturada. Fica excluda, portanto, a possibilidade de que uma pessoa, em determinado 
momento, possa fazer juzos morais diversos que correspondam aos diversos estgios. 
A segunda hiptese  a mais importante das teorias de estgios.  possvel flexibilizar e 
modificar as outras duas hipteses, mas a idia de um modelo de estgios evolutivos 
depende sobremaneira de um caminho de desenvolvimento que se pode descrever por 
meio de uma srie de estruturas hierarquicamente ordenadas, conceitos estes extrados 
por Kohlberg e Piaget da lgica do desenvolvimento. 
Perspectivas sociais de Kohlberg 
Habermas, em Conscincia Moral e Agir Comunicativo, mostra que Kohlberg justifica a 
lgica evolutiva dos 6 estgios de desenvolvimento do julgamento moral, atravs da 
correlao com as correspondentes perspectivas sociomorais: 
Estgios 
1. Este estgio adota um ponto de vista egocntrico. O indivduo no considera os 
interesses dos demais e nem reconhece que estes diferem entre si, e tambm no sabe 
relacionar dois pontos de vista. Os atos so julgados em funo das conseqncias 
materiais em primeiro lugar, e no em funo dos interesses psicolgicos dos demais. A 
perspectiva de autoridade se confunde com a de si prprio. 
84 
2. Estgio de perspectiva individualista concreta. O indivduo separa os interesses e 
pontos de vista prprios dos da autoridade e dos outros. O indivduo sabe que todo 
mundo tem interesses pessoais individuais a serem satisfeitos e que estes entram em 
conflito, de maneira que o justo  relativo. A pessoa integra ou relaciona interesses 
individuais em conflito com os outros, por meio de intercmbios instrumentais de servios, 
pela necessidade instrumental e do bem-estar do outro, e atravs da justia de dar a cada 
um o mesmo. 
3. Estgio de perspectiva da pessoa em relao com outras pessoas. A pessoa conhece 
seus sentimentos, acordos e expectativas compartilhadas e que tm prioridade sobre os 
interesses individuais. O individuo relaciona pontos de vista, colocando-se no lugar do 
outro. O indivduo no conhece uma perspectiva sistmica generalizada. 
4. Este estgio diferencia o ponto de vista social dos acordos e motivos interpessoais. O 
indivduo adota o ponto de vista cio sistema, que define as regras e as normas. As 
relaes individuais so consideradas em funo do lugar no sistema. 
5. Este estgio adota a perspectiva do prioritrio em face da sociedade, a pessoa  
racional, conhecedora dos valores e direitos prioritrios  lealdade e aos pactos sociais. 
O indivduo integra perspectivas mediante mecanismos formais de acordo, pacto, 
imparcialidade objetiva e procedimento legal. O individuo leva em considerao o ponto 
de vista moral e o jurdico, reconhece que entram em conflito e lhe parece difcil reconcili-
los. 
6. Estgio que toma a perspectiva de um ponto de vista moral, onde se originam e 
derivam os acordos sociais. A perspectiva  a de que qualquer ser racional reconhece a 
natureza da moral ou a premissa moral fundamental do respeito devido a outras pessoas, 
em sua condio de fins e no de meios. 
Aquisio e desenvolvhnento dos conceitos e das relaes das pessoas segundo R. 
Selman 
Segundo Habermas, Selman contribui na Teoria de Kohlberg com a sua pesquisa de 
adoo de perspectivas de ao, onde caracteriza trs ordens de desenvolvimento. 
Ordem 1: Adoo de Perspectiva Diferenciada e Subjetiva 
(de 5 a 9 anos de idade aproximadamente) 
Conceitos de pessoas: diferenciados. O avano conceitual decisivo  a diferenciao 
clara das caractersticas fsicas e psicolgicas das pessoas. Diferenciam-se os atos 
intencionais dos no-intencionais e se cria uma conscincia nova de que cada pessoa 
tem uma vida psicolgica subjetiva e nica. Considera-se que o pensamento, a opinio e 
os estados emocionais de cada pessoa formam um todo unitrio, mas no esto 
misturados. 
85 



Conceitos de relaes: subjetivos. Diferenciam-se claramente as perspectivas subjetivas 
do eu e do outro e se reconhecem como potencialmente diferentes. Entretanto, a criana 
acredita ainda que o estado subjetivo do outro pode ser compreendido mediante a 
simples observao fsica. A relao de perspectiva se concebe em termos unilateriais e 
semelhantes, em termos da perspectiva de um ator ou do impacto sobre o mesmo; por 
exemplo, a criana cr que um presente faz feliz uma pessoa. 
Nesta etapa, os indivduos so vistos como respondendo  ao com ao semelhante; 
por exemplo, a criana em quem se bate, bate de volta. 
Ordem 2: Adoo de Perspectiva Auto-Reflexiva na Segunda Pessoa e Recproca (de 7 
a 12 anos de idade) 
Conceito de pessoas: Auto-reflexivo na Segunda Pessoa. A evoluo conceptual consiste 
na crescente habilidade da criana para deslocar-se de si mesma mentalmente e adotar 
uma perspectiva auto-reflexiva ou na segunda pessoa - sobre os seus prprios 
pensamentos e aes, bem como sobre a percepo de que os outros podem fazer o 
mesmo. Os pensamentos ou sentimentos das pessoas so vistos como potencialmente 
mltiplos, por exemplo, curiosos, assustados e felizes; mas ainda como grupos de 
aspectos mutuamente isolados e seqenciais ou ponderados, por exemplo, muito 
curiosos e felizes e um pouco amedrontados. O individuo interpreta a. si e aos outros 
como capazes de fazer coisas que no tm a inteno ou no querem fazer. 
Conceitos de relaes reciprocas. A criana reconhece a singularidade do conjunto 
ordenado de valores e objetivos de cada pessoa. Uma nova reciprocidade nos dois 
sentidos  o que caracteriza esta ordem. E uma reciprocidade de pensamentos e 
sentimentos e no apenas de aes. A criana consegue colocar-se no lugar do outro e 
percebe que o outro pode fazer o mesmo. 
No aspecto lgico-mecnico, a criana percebe agora a possibilidade do regresso infinito 
na adoo de perspectiva, por exemplo, eu sei que ela sabe que eu sei que ela sabe 
etc. A criana tambm percebe que pode iludir os outros quanto a seus estados internos, 
o que estabelece limites de exatido para a adoo da perspectiva interna de outrem. A 
reciprocidade nos dois sentidos desse nvel tem principalmente o resultado prtico da 
distenso, onde ambas as partes ficam satisfeitas, porm com certo isolamento; duas 
pessoas vendo a si mesmas e a outra, mas no o sistema de relaes entre elas. 
Ordem 3: Adoo da Perspectiva da Terceira Pessoa e Mtua (de 10 a 15 anos de 
idade) 
Conceito de pessoas: Terceira Pessoa. O adolescente percebe as pessoas como 
sistemas de atitudes e valores razoavelmente consistentes a longo prazo. 
O avano conceptual crtico centraliza-se na habilidade de assumir uma verdadeira 
perspectiva da terceira pessoa, de sair, no apenas de sua prpria perspectiva imediata, 
mas fora de si prprio como um sistema, na totalidade. 
86 



Neste nvel so geradas as noes de ego obsewador onde o adolescente percebe a si 
prprio e percebe as outras pessoas como vendo a si prprias, ao mesmo tempo como 
atores e como objetos, simultaneamente atuando e refletindo sobre os efeitos da ao 
sobre si prprios, refletindo sobre si prprios em interaes com o si prprio. 
Conceitos de relaes: mtuos. A perspectiva da terceira pessoa amplia a evoluo do 
adolescente, permitindo mais do que assumir a perspectiva de outrem sobre si prprio; a 
verdadeira perspectiva da terceira pessoa sobre as relaes inclui e coordena 
simultaneamente as perspectivas de si prprio e do(s) outro(s) e, assim, o sistema ou 
situao e todas as partes so vistos da perspectiva da terceira pessoa ou do outro 
generalizado. Os indivduos vem a necessidade de coordenar perspectivas reciprocas e 
acreditam que a satisfao social, a compreenso ou a resoluo devem ser mtuas e 
coordenadas para serem genunas e eficazes. As relaes so vistas como sistemas em 
funcionamento nos quais os pensamentos e as experincias so mutuamente 
compartilhados. 
Perspectiva diferenciada e subjetiva 
Na faixa etria de 5 a 9 anos, o processo de aquisio da linguagem est concludo. A 
criana que j consegue falar j aprendeu a conversar com o outro, numa inteno 
comunicativa. Ela passa a dominar uma relao eu-tu reciproca entre falantes e ouvintes, 
to logo consegue distinguir entre dizer e fazer. Essa reciprocidade entre as perspectivas 
do falante e do ouvinte, que se refere ao que  dito, no se estende  reciprocidade das 
orientaes das aes. A criana distingue entre as perspectivas de ao dos diferentes 
participantes da interao, mas ainda  incapaz, ao avaliar as aes dos outros, de 
conservar o seu prprio ponto de vista e, ao mesmo tempo, colocar-se na situao do 
outro; no consegue tambm avaliar suas prprias aes do ponto de vista dos outros. A 
criana j diferencia o mundo externo e o mundo interno, mas faltam os conceitos bsicos 
sociocognitivos perfeitamente definidos para o mundo normativo que Kohlberg postula 
para o estgio convencional das perspectivas sociais. 
Perspectiva auto-reflexiva na segunda pessoa e recproca 
(7 a 12 anos aproximadamente) 
A criana, nesta fase, emprega corretamente frases exprimindo enunciados, solicitaes, 
desejos e intenes. Ela ainda no associa nenhum sentido claro s frases normativas. O 
primeiro passo para a coordenao dos planos de ao dos diferentes participantes da 
interao, com base numa definio coletiva da situao, consiste em estender a relao 
reciproca falante-ouvinte  relao entre os atores, que interpretam a situao de ao 
que compartilham  luz de seus respectivos planos e a partir de diferentes perspectivas. 
Selman denomina este estgio da adoo de perspectiva pela perspectiva da segunda 
pessoa, pois, com a transio para o 2 estgio, a criana aprende 
87 



a vincular de maneira reversvel as orientaes de ao do falante e do ou vinte. Ela pode 
se colocar na perspectiva de ao do outro e sabe que o outro tambm pode se colocar 
em sua perspectiva de ao; a pessoa pode assumir, em face da prpria orientao de 
ao, a respectiva atitude do outro. Desse modo, os papis comunicativos da primeira e 
da segunda pessoa tornam-se eficazes para a coordenao da ao. 
Perspectiva da terceira pessoa e mtua (de 10 a 15 anos aproximadamente) 
A estrutura de perspectivas modifica-se novamente na passagem para o 3 estgio com o 
surgimento da perspectiva do observador no domnio da interao. No inicio desta fase, 
as crianas j fazem h muito tempo o uso correto dos pronomes da terceira pessoa, na 
medida em que se entendem sobre outras pessoas, seus discursos, relaes de posse 
etc. 
Elas j conseguem tambm assumir uma posio objetiva sobre as coisas e eventos 
perceptveis e manipulveis. 
Nesta perspectiva os adolescentes aprendem a voltar-se, a partir da perspectiva do 
observador, para a relao interpessoal que estabelece uma atitude performativa com o 
participante da interao. Com essa atitude eles ligam -se  atitude neutra de uma 
pessoa presente, mas no envolvida, que assiste ao processo de interao no papel de 
ouvinte ou de espectador. Assim, a reciprocidade das orientaes da ao (do estgio 
anterior) pode ser objetualizada e trazida  conscincia em seu contexto sistmico. 
O sistema das perspectivas de ao atualiza o sistema das perspectivas do falante, 
baseado na gramtica dos pronomes pessoais e possibilitando um nvel novo da 
organizao do dilogo. Esta estrutura mostra que o inter-relacionamento recproco das 
orientaes de ao, da primeira e da segunda pessoa, pode ser entendido enquanto tal 
a partir da perspectiva de uma terceira pessoa. A interao reestruturada nesse sentido 
possibilita aos envolvidos assumir reciprocamente suas perspectivas de ao, mas 
tambm trocar as perspectivas de participante pela perspectiva do observador e 
transform-las uma na outra. 
Nesta perspectiva  que se completa a construo do mundo social, iniciada no estgio 
anterior. 
A razo instrumental 
A PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL: 
SUAS PROPOSTAS E A QUESTO TI 
A psicologia organizacional, no seu processo de desenvolvimento histrico enquanto 
cincia aplicada, tem se dedicado  adequao dos individuos membros das 
organizaes aos fins por ela definidos. Isto caracteriza uma razo instrumental 
identificada pela utilizao dos indivduos (pessoa humana) como meio para se atingir fins 
determinados pela organizao. 
88 



A psicologia organizacional usa tcnicas e instrumentos que atuam desde a seleo, a 
partir de critrios a priori definidos pela organizao como caracterstica de 
personalidade, valores e sentimentos. Na realidade, o objetivo da rea de seleo  
atender  demanda da organizao, admitindo indivduos que se moldem a ela e que se 
integrem  sua filosofia (da organizao) sem questionamentos. Esse processo de 
adequao exige um trabalho junto aos indivduos no nvel psicolgico, que aqui se 
entende como uma tentativa de mudana de valores, de aceitao dos objetivos da 
organizao e da sua filosofia, como sendo a parte de prazer e a prpria razo de ser do 
indivduo. Ele precisa acreditar que a sua realizao pessoal est intimamente 
relacionada  satisfao das necessidades da organizao.  necessrio, dentro dessa 
perspectiva da psicologia aplicada  administrao (organizacional), que o indivduo 
desloque a satisfao dos seus desejos para a realizao dos objetivos da organizao, 
se d conta dessa distoro que ele prprio est efetuando. Na verdade, o trabalho 
externo no nvel psicolgico induz o indivduo a distorcer a realidade externa, portanto, 
aquilo que a organizao , aquilo que ela lhe pode oferecer, est bloqueando tambm o 
conhecimento da sua prpria realidade interna De certa forma, ao se adequar aos valores 
da organizao,  sua filosofia, assumindo crenas e mitos que lhe so passados, ele 
est se negando a pensar. 
O processo de integrao usado quando da admisso do indivduo na organizao  uma 
etapa do processo de aculturao organizacional, como j descrito. 
Motivao e o processo de induo do indivduo na organizao 
Os padres organizacionais de motivao so tambm instrumentos psicolgicos que 
buscam tornar um indivduo um meio para a busca dos fins definidos pela organizao. 
Eles tm a caracterstica de induzir o indivduo a adotar padres de comportamento 
individuais exigidos para se atingir a eficincia e o funcionamento da organizao. Para 
Katz e Kahn, esses comportamentos devem incluir a pertinncia e a permanncia no 
sistema, o comportamento dependente, que significa o exerccio de um papel no sistema, 
e um comportamento inovador e espontneo, segundo eles,  explicitado num padro de 
comportamento que exige do indivduo um desempenho alm daquele que est definido 
no papel. Para cada padro de comportamento na organizao, so propostas tcnicas e 
instrumentos psicolgicos especficos a cada um deles. Identificam quatro padres 
necessrios ao funcionamento e eficincia da organizao, o que caracteriza o seu 
carter instrumental, o indivduo  usado como meio para que se atinja os fins da 
organizao (definidos por ela). 
Padro A 
O padro A, denominado submisso legal, tem como objetivo garantir a aceitao das 
prescries do papel e do controle organizacional  base de sua 
legitimidade. As regras so obedecidas porque so reconhecidas como vindas 
89 
de fontes legitimas de autoridade e porque podem ser foradas atravs de sanes 
legais. 
As fontes desse padro so a fora externa, que pode ser mobilizada para a completa 
obedincia, e a aceitao internalizada da autoridade legitima. Essa abordagem  
limitada e incapaz de motivar as pessoas a qualquer outro comportamento alm do 
compromisso rotineiro na execuo dos papis. 
O indivduo deve conformar-se s regras de seu grupo, ou ser punido por no faz-lo. 
Padro B 
No padro B, usam-se recompensas ou satisfaes instrumentais para introduzir os 
comportamentos necessrios. Por meio desse padro tenta-se recompensar os 
comportamentos desejados, esperando-se que,  medida que as recompensas 
aumentem, as motivaes tambm aumentem. A caracterstica desse padro  a 
transformao das aes em instrumentos, para o alcance de recompensas especificas. 
As principais recompensas usadas no padro B so: 
 recompensas individuais, tais como: incentivos em pagamentos e promoes 
individuais; 
 recompensas do sistema decorrentes da pertinncia a ele e da antigidade; 
 identificao instrumental com lderes organizacionais, em que os seguidores so 
motivados a assegurar a aprovao dos lideres; 
 associao com membros da organizao, para garantir a aprovao social do prprio 
grupo. 
Neste padro mais uma vez fica explicitada a proposta do uso da psicologia como um 
instrumento de induo dos indivduos a se comportarem e a pensarem da forma definida 
pela organizao. Portanto, caracteriza uma ao instrumental que transforma os 
indivduos em meios para se atingir fins predefinidos. 
Padro C 
No padro C, ou padro internalizado de autodeterminao e de auto-expresso, as 
satisfaes decorrem da realizao e da expresso de habilidades e talentos. Auto-
expresso e autodeterminao so as bases para a identificao com o trabalho, porque 
as satisfaes derivam diretamente da execuo do papel. 
O padro motivacional de auto-expresso  o padro mais eficiente para levar a um bom 
desempenho do papel, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade. As 
gratificaes do individuo decorrem da realizao de seu trabalho, da expresso de suas 
habilidades e do exerccio de suas prprias decises. 
90 



Para que o padro C seja eficiente,  necessrio que o trabalho apresente suficiente 
complexidade e desafio, que as habilidades do indivduo sejam adequadas e que ele 
tenha suficiente responsabilidade e autonomia no trabalho. 
Esse padro motivacional leva  alta produtividade, ao aumento das atividades 
cooperativas,  maior satisfao com o trabalho e, conseqentemente, com a 
organizao. 
Padro D 
No padro D, ou internalizao dos valores da organizao, Katz e Kahn apontam que 
este padro leva  incorporao dos objetivos e subjetivos organizacionais, enquanto 
refletem valores prprios dos membros da organizao. O padro de motivao, 
associado  expresso dos valores e  auto-identificao, tem grande potencialidade 
para a internalizao dos objetivos do sistema e, consequentemente, para a ativao de 
comportamentos no prescritos pelos papis. A participao em decises a respeito dos 
objetivos setoriais, a contribuio para o desempenho da organizao e participao nas 
recompensas (poder e dinheiro), provoca o aumento da produtividade dos individuos e 
aumenta o seu comportamento espontneo e inovador na organizao. Katz e Kahn 
salientam o uso da liderana como um ato de influncia que o individuo exerce sobre os 
outros, na organizao. Para eles, as influncias ocasionais pelo fato de que os individuos 
membros da organizao esto tambm vinculados a outras organizaes sociais, como 
famlia, igreja, escola, sindicato etc., so prejudiciais  organizao, e os instrumentos 
psicolgicos devem ser atenuantes do que eles chamam de disfunes dos nveis 
motivacionais e das atitudes dos indivduos diante da organizao. Os lideres 
denominados por eles como carismticos so importantes porque possibilitam uma 
ligao emocional desses lideres com os demais membros da organizao. 
O padro C, ou seja, o padro internalizado de auto-expresso e autodeterminao, na 
realidade tem como proposta um envolvimento do indivduo com o trabalho que passa a 
ser a fonte de sua realizao pessoal e a sua prpria felicidade, a razo de ser da sua 
vida. Fica explicito o deslocamento de desejos individuais para a satisfao das 
necessidades da organizao. 
No padro D, internalizao dos valores da organizao, a proposta  transformar os 
valores individuais em valores organizacionais.  uma busca de transformao da 
identidade do individuo em funo da identidade da organizao. Surge ai o homem 
organizacional.  a despersonalizao do indivduo enquanto pessoa. Reconhece-se a 
natureza complexa do processo psicolgico do ser humano. E por esta razo so 
introduzidos processos psicolgicos mais adequados a um controle comportamental mais 
eficiente, mais duradouro, onde no se questiona o problema tico de agresso  
identidade individual. Procura-se o aumento da produtividade pela manipulao 
psicolgica, desde o processo seletivo, passando pelos processos de integrao, 
avaliao de desempenho, treinamento, at os padres organizacionais de motivao, 
onde a parti-
91 



cipao  uma forma de controle e de internalizao de valores organizacionais e de 
comprometimento com os objetivos definidos pela organizao. Os seres humanos 
passam a ser indivduos, meios para se atingir fins e, como meios, exige-se, nessa 
perspectiva da organizao, que eles sofram um processo de despersonalizao. 
A psicologia aplicada  administrao tem se colocado como instrumento nesse 
processo, comprometido com a denominao e com o controle dos seres humanos. Os 
instrumentos psicolgicos se fundamentam tanto na corrente behaviorista quanto na 
corrente cognitivista. As formas do exerccio de dominao se diferenciam: uns usam a 
fora do condicionamento, do reforo, do estimulo-resposta, outros usam a fora do 
envolvimento emocional, do grupo com fora de padronizao, bem como a intemalizao 
de valores e a participao como mecanismo de compromisso emocional e de 
falsificao de percepo e de conscincia. 
As concepes morais universais e o desenvolvimento psicolgico 
Habermas, ao buscar nas teorias psicolgicas apoio para a confirmao cientfica da 
Teoria da Etica Discursiva, buscava a soluo da questo levantada pelo fato de que 
outras culturas dispem de outras concepes morais. 
Esta  uma questo levantada pela perspectiva relativista da tica moral. O relativismo 
tico postula que os conceitos ticos no so universais, que cada sociedade e/ou grupo 
social tem critrios de juzo moral prprios, que so vlidos exclusivamente para aquele 
momento e para aquele grupo. Esta  uma abordagem utilitarista e momentnea do juzo 
moral. 
Habermas busca nos estudos de Kohlberg, que encontram a consonncia entre a teoria 
normativa (filosofia moral) e a teoria psicolgica, especialmente no que diz respeito ao: 
a) cognitivismo, isto , o indivduo  um ser racional com liberdade e vontade livre; 
b) processo de aprendizagem e formao da conscincia moral; 
c) universalidade das concepes morais e da sua ligao direta, na forma pela qual so 
expressadas, bem como, no seu contedo, aos estgios de desenvolvimento cognitivo, 
em qualquer sociedade e cultura onde o indivduo vive. 
Os estudos de Kohlberg deram a Habermas, como prova cientifica atravs 
de estudos concorrentes, a prova cientfica que ele buscava para a confirmao 
da Teoria da tica Discursiva. Estes estudos confirmam que: 
a) existem concepes morais universais; 
b) estas concepes morais esto ao mesmo tempo diretamente ligadas, na sua forma e 
no seu contedo, aos estgios de desenvolvimento cognitivo do indivduo, independendo 
da cultura onde ele vive; 
c) os estgios de desenvolvimento cognitivo do indivduo so invariantes para o ser 
racional (indivduo) e obedecem a uma seqncia cognitiva definida; 
92 



d) nem todos os indivduos alcanam os estgios de desenvolvimento cognitivo superior, 
apesar de terem as faculdades mentais e a estrutura gentica adequadas. O pleno 
desenvolvimento cognitivo e a formao da conscincia moral dependem de um processo 
de aprendizagem, de vivncias e experincias do individuo no meio social. 
Seqncia cognitiva - Kohlberg 
A seqncia cognitiva definida por Kohlberg, na leitura de Habermas, apresenta trs 
ordens ou nveis. Cada uma das ordens possui dois estgios de evoluo: 
1. Ordem pr-convencional. Neste nvel, a criana obedece s regras culturais como 
verdades absolutas (bom e mau, correto e incorreto), julga os acontecimentos pelas suas 
conseqncias fsicas. 
Estgio 1  castigo e obedincia. 
Estgio 2  relativista instrumental. 
II. Ordem convencional. Neste nvel, a criana valoriza os demais (grupo familiar, meio 
social), respeita a lealdade e a confiana entre colaboradores. O indivduo cumpre normas 
e se preocupa em ter um comportamento esperado pelos outros. 
Estgio 3 concordncia interpessoal e orientao para ser bonzinho Estgio 4  
orientao da lei e da ordem, estgio do sistema social e da manuteno da 
conscincia. 
III. Ordem ps-convencional e de princpios (autonomia) 
Estgio 5  dos direitos prvios, orientao legalista regida pelo contrato social ou da 
utilidade. 
Estgio 6  orientada pelos princpios ticos universais. 
Habermas chega assim s provas cientificas necessrias,  confirmao da Teoria da 
tica Discursiva pelos estudos de Kohlberg, porque esses estudos partiram diretamente 
das premissas tericas da tica Discursiva e as confirmaram empiricamente. O que 
Habermas enfatiza  que a psicologia do desenvolvimento e a da conscincia moral 
(Piaget e Kohlberg) confirmam a sua teoria da tica Discursiva, tanto no que diz respeito 
ao contedo moral, quanto ao processo de aprendizagem moral. Por outro lado, a tica 
Discursiva complementa a teoria de Kohlberg quando introduz a ao comunicativa e a 
relao comunicativa como elementos essenciais da prpria tica. 
A suposio bsica de ordem cognitivista, universalista e formalista, para Habermas, 
deriva do princpio moral universal que  o fundamento da tica do discurso assim 
definido por ele: 
Principio U  Toda norma vlida tem de preencher a condio de que as conseqncias 
e efeitos colaterais, que presumivelmente resultem de sua observncia universal, para a 
satisfao dos interesses de todo indivduo, possam ser aceitos sem coao por todos 
aqueles atingidos pela norma (concernidos) . 
93 



O compromisso da psicologia aplicada  administrao com a moralidade 
positivista de Durkheim 
Ao analisar os instrumentos usados pela psicologia aplicada  administrao e as suas 
propostas bsicas, pode-se concluir que a psicologia aplicada  administrao est 
fundamentada e comprometida com a moralidade positivista de Durkheim. A 
transformao do indivduo num ser obediente, que deve se adequar e respeitar as 
normas estabelecidas pela sociedade (aqui entendidas as organizaes como 
representantes da sociedade),  o principio bsico que rege a moralidade positivista de 
Durkheim. A individualidade deve ser cerceada, como tambm devem ser punidos os 
atos de desobedincia s normas estabelecidas por um poder legitimado pela 
sociedade. No h espao para questionamentos. 
A maturidade moral se reduz  capacidade de obedecer. A sociedade assume o papel 
sagrado de onde emanam as normas, os direitos e deveres e at mesmo onde se 
definem as formas de viver e de ser feliz. A sociedade  a definidora dos atos morais dos 
indivduos e, ao mesmo tempo, se transforma na instncia que controla o respeito aos 
mesmos, punindo aqueles que por ventura venham a transgredi-los. Usa mecanismos e 
instrumentos, desde a fora pela punio fsica at os instrumentos psicolgicos 
claramente explicitados na psicologia aplicada  administrao. 
A psicologia aplicada  administrao e a tica Discursiva 
A tica Discursiva parte do fundamento essencial de que o individuo  um ser racional, 
com uma identidade nica, capaz de se autodeterminar e capaz de julgamentos morais 
independentes de sanes externas, porque esto calcados na dignidade humana e na 
solidariedade como valores universais. Entretanto, o individuo atinge a sua conscincia 
moral num nvel de maturidade plena por meio de um processo de aprendizagem. Esse 
processo exige que ele tenha possibilidade de vivncias e experincias no meio social. 
O meio social tem, portanto, a funo de permitir ou de barrar o desenvolvimento cognitivo 
e a formao da conscincia moral pelo indivduo. A psicologia aplicada  administrao, 
enquanto comprometida com a moralidade positivista de Durkheim, barra estas 
condies essenciais ao pleno desenvolvimento cognitivo e da conscincia moral do 
indivduo. 
Da anlise da psicologia aplicada  administrao pode-se concluir que o principio 
universal que diz que: Toda norma vlida tem de preencher a condio de que as 
conseqncias e efeitos colaterais, que previsivelmente resultem de sua observncia 
universal, para a satisfao dos interesses de todo indivduo, possam ser aceitos sem 
coao por todos os que sero atingidos por essa norma, no  o seu fundamento, uma 
vez que nas organizaes os processos so de induo e de manipulao. O indivduo 
no se apercebe das conseqncias para ele da aceitao daquelas normas e padres 
que lhe so impostos. Ele no teve a liberdade de aceit-los ou no, porque lhe foi 
negada a possibilidade de tomar conscincia do que eles efetivamente so e propem. 
94 



O processo de coero se d e est presente quando se trabalha no nvel psicolgico do 
indivduo, induzindo-o a uma falsificao da conscincia, ao deslocamento de desejos e 
necessidades e a se tomar um mentiroso para si mesmo e para os demais indivduos. 
utro aspecto tico importante que a psicologia aplicada  administrao na atualidade 
no respeita  o da inviolabilidade da identidade; a dignidade humana deve ser 
respeitada na sua invulnerabilidade fsica, bem como quanto ao respeito  sua identidade 
enquanto pessoa humana. 
O fato de o indivduo pertencer a uma comunidade organizacional e enquanto indivduo 
participar de um processo de interao social que  a organizao pressupe o 
reconhecimento da dignidade e integridade de cada participante dessa interao. Nesse 
processo comunicativo, cada indivduo aspira a ser reconhecido como individualidade 
nica e insubstituvel, O homem enquanto individuo tem direitos que no podem ser 
cancelados pelos direitos da organizao. A psicologia, enquanto usada como um 
instrumento de manipulao do indivduo e de transformao deste indivduo em meio 
para se atingir os fins da organizao, est no s agredindo a identidade individual, 
como tambm usurpando do individuo o seu direito de individualidade nica e 
insubstituvel. Est considerando a organizao como uma entidade sagrada, com direito 
a estabelecer todas as noes morais e todos os critrios de julgamento moral. 
A Etica Discursiva, a partir do reconhecimento da dignidade e integridade de cada 
individuo e dos seus direitos individuais, considera, como respeito  dignidade humana, o 
direito de cada indivduo  auto-realizao, que  estritamente individual. Qualquer esforo 
de interferir nessa rea, ou seja, de definir e padronizar desejos e sentimentos, bem como 
a sua satisfao, tem carter repressivo e dogmtico. A felicidade no pode ser deduzida 
de nenhum padro cultural ou psicolgico. 
Na organizao, o que ocorre  a tentativa de induzir o individuo a as sumir uma auto-
realizao e a se sentir feliz a partir daquilo que a organizao define. Esta definio tem 
por base a necessidade e os objetivos da organizao. A tica Discursiva parte do 
principio de que compete ao meio social, e no caso entenda-se a organizao, o dever 
tico de delimitar o espao dentro do qual podem ser efetivados os projetos de auto-
realizao de indivduos e de grupos de indivduos, ressaltando que esses prjetos no 
podem violar os elementos universais de moralidade contidos no principio da 
universalizao, como a igualdade de direitos de todos os homens. Os homens no 
podem ser tratados como meios e sim como fins. A violncia, a intolerncia, a opresso e 
mesmo o desrespeito aos esforos de auto-realizao, tenta dos por outros grupos de 
indivduos, esto entre os atos considerados na tica Discursiva como imorais. A tica, 
ou a moral do discurso, no oferece contedos especficos ou verdades morais novas. Ela 
 um desafio porque no tira de ningum a necessidade de deciso prtica e moral. 
Cada um de ns tem de formar a prpria vontade tica, enquanto ser racional e ao 
mesmo tempo plural, num processo de interao com outros indivduos. 
A tica Discursiva  uma proposta de esperana. Esperana no respeito  dignidade 
humana, na emancipao e na cidadania de todos os individuos, na 
95 



vida melhor, fundamentada no ser humano como ser racional e num processo 
comunicativo livre de coaes e de distores de qualquer espcie, apoiado no principio 
moral da dignidade humana e dos direitos iguais de todo indivduo enquanto ser humano. 
Cabe a ns enquanto psiclogos, administradores ou profissionais que atuam no mbito 
das organizaes, na perspectiva moral e tica, repensar a nossa atuao a partir do 
principio universal de respeito  dignidade humana e dos direitos iguais de todos os 
indivduos. 
Teoria de Ao Comunicativa: 
RESUMO 
Habermas, na Ao Comunicativa, dimensiona os trs mundos em uma nova totalidade: 
 o dos objetos; 
 o das normas; 
 o das vivncias subjetivas. 
Se aos trs mundos correspondiam formas diferentes de ao instrumental, 
 normativa, 
 reflexiva, a ao comunicativa  capaz de abranger os trs mundos, anteriormente 
isolados em esferas de ao estanques. 
Para pensar essa nova totalidade, Habermas prope uma mudana de 
paradigma: 
1. mudar da filosofia da conscincia para a teoria da interao; 
2. mudar da razo reflexiva para a razo comunicativa; 
3. resgatar a validade da teoria cognitiva da razo, sem incorrer nas limitaes impostas 
por Kant. A razo comunicativa  essencialmente dialgica, substituindo o conceito 
monolgico da razo pura de Kant. Ela no se assenta no sujeito epistmico, mas 
pressupe indivduos em interao, numa situao dialgica ideal. Na razo comunicativa 
a linguagem  elemento constitutivo.  base de todo processo interativo, abrangendo as 
prticas comunicativas dos trs mundos: dos objetos, das regras, do sujeito. Atravs da 
linguagem, toma-se possvel: 
a) questionar a verdade dos fatos do mundo objetivo - verdade; 
b) a correo ou justeza das normas (do mundo social) - justia; 
c) a veracidade do interlocutor (mundo subjetivo) - veracidade. 
Habermas coloca no discurso o questionamento das aspiraes de valida de contidas na 
comunicao cotidiana. 
 um processo argumentativo acompanhado do esforo de restabelecer um uso sui 
generis da linguagem, que exige argumentao e justificao de cada ato da fala por 
parte dos interlocutores participantes da interao. 
96 



No discurso terico, so problematizadas e revistas as afirmaes feitas sobres os fatos. 
 reassegurado verbalmente o nosso saber sobre o mundo dos objetos.  redefinida a 
verdade at ento vigente e aceita no grupo. 
No discurso prtico, so postas em xeque a validade e a justeza das normas sociais que 
regulamentam a vida social. Nesse processo argumentativo, em que cada afirmao 
precisa ser justificada, cada julgamento defendido e reafirmada a validade das regras em 
questo, prevalece unicamente o critrio do melhor argumento, capaz de obter a 
aprovao dos membros do grupo. 
Tanto no discurso terico quanto no discurso prtico, pressupe-se que os interlocutores 
sejam competentes e verazes, atuando em situaes dialgicas ideais, livres de coao, 
ou seja, fundamentados na justia, na verdade e na veracidade. 
A comunicao voltada para o entendimento tem como meta a obteno de um consenso 
ou acordo. 
A fala consensual  tomada como base para a anlise da fala orientada ao entendimento 
e parte dai para a anlise dos modos derivativos (estratgicos) e defeituosos 
(deformados) da fala. 
A ao comunicativa inclui a ao no-verbal, com a finalidade de fornecer uma base 
adequada para a investigao social. Representa a possibilidade de estabelecer ou 
restabelecer uma base consensual para a interao, sem recorrer  fora em nenhuma de 
suas formas, da violncia aberta  manipulao latente. Representa a possibilidade de 
chegar a um acordo me diante o uso da razo, sem violar a humanidade dos individuos 
envolvidos. Ela parte do pressuposto de que o homem  um ser racional e tambm um ser 
finito, carente, com impulsos, desejos e interesses, isto , com necessidades socialmente 
interpretadas, passveis de serem satisfeitas consensualmente, por um processo 
argumentativo capaz de levar em conta o individuo e a sua identidade e, ao mesmo 
tempo, o interesse de todos os indivduos. 
A tica Discursiva de Habermas 
A tica Discursiva est fundamentada no imperativo categrico de Kant, que norteia o 
julgamento moral da razo prtica, onde o ser humano jamais deve ser visto ou usado 
como meio, mas somente como fim em si. Portanto, o contedo da tica Discursiva 
consiste na defesa da integridade da pessoa humana. Dois princpios que constituem o 
centro da questo da moralidade so para a tica Discursiva pilares importantes: a 
justia e a solidariedade. A justia se obtm no processo argumentativo que defende a 
integridade e a invulnerabilidade humana; a solidariedade, revestida de reciprocidade, 
assegura o bem-estar de todos. Sobre a validade da norma, a tica Discursiva considera 
que somente tm validade as normas capazes de obter a concordncia e o assentimento 
de todos os individuos envolvidos no discurso prtico. A norma tica  aquela na qual 
todos os indivduos atingidos por ela aceitam consensualmente, sem coao, todas as 
conseqncias decorrentes do cumpri-
97 



mento da mesma. Para Kant, o indivduo reflete e analisa isoladamente, estabelecendo os 
seus juzos. Habermas difere dessa postura, enfatizando que  atravs do processo 
argumentativo, fundamentado na justia, na verdade e na autenticidade, que o indivduo, 
numa relao dialgica com outros indivduos, encontra as diretivas, a norma que defende 
a integridade e a invulnerabilidade humana. 
A Etica Discursiva afirma que essa norma  alcanada atravs do procedimento 
argumentativo, onde prevalece o melhor argumento, respeitando-se os princpios ticos. 
Um principio moral em carter universal de uma norma, para ter valida de geral, precisa 
ser aceito como vlido em diferentes culturas e grupos sociais. A norma universal, que  
tambm a mxima moral de cada um,  o resultado de um demorado, analtico e reflexivo 
processo argumentativo viabilizado pelo discurso prtico. O discurso prtico  um 
processo argumentativo que busca o entendimento, onde so questionadas a validade e a 
justeza das normas que regulamentam a vida social. O contedo do discurso prtico  
caracterizado por situaes concretas. No discurso prtico, a interao dos indivduos 
com outros no  uma padronizao social, de controle da razo e do pensamento, ou 
uma censura da expresso onde as liberdades individuais so cerceadas. Para 
Habermas, o discurso prtico respeita a individualidade e a autonomia das pessoas 
participantes de uma comunidade.  neste sentido que o princpio de justia, que postula 
o respeito  liberdade e os mesmos direitos para todos, e o principio da solidariedade, 
que exige o bem da comunidade onde o indivduo est interagindo, e, por ltimo, o 
princpio do bem comum constituem o cerne da tica.  atravs do discurso prtico que a 
tica Discursiva coloca em ao uma vontade racional que garante o interesse de todos 
os indivduos particulares, principalmente salvaguardando a dupla vulnerabilidade dos 
indivduos, sem que haja a quebra da harmonia social entre eles. Habermas sabe que a 
tica Discursiva, para ser colocada em prtica, depende de formas de vida 
correspondentes, necessita da competncia comunicativa dos integrantes do grupo, de 
situaes dialgicas ideais e de um sistema lingistico elaborado. 
A tica Discursiva precisa de uma certa concordncia com determinadas prticas de 
socializao e educao, onde haja as condies necessrias para se possibilitar aos 
indivduos o desenvolvimento cognitivo e a formao da conscincia moral nos seus 
estgios superiores. Necessita ainda de instituies polticas e sociais, onde as decises 
morais so geradas a partir dos direitos, valores e princpios, que podem ser aceitos por 
todas as pessoas da sociedade, onde as prticas so justas e honestas. Para avaliar 
normas e aes problemticas conflitantes, Habermas apresenta como soluo indireta a 
retirada do problema do contexto onde ele est sendo vivido, para que possa ser avaliado 
hipoteticamente. A reintroduo nas formas de vida concreta, de interesses e normas 
ticas, validadas atravs do discurso prtico nas formas do seu contexto, tem de ser 
histrica, um processo de aprendizagem que envolva esforos coletivos dos diferentes 
segmentos da sociedade. 
A tica Discursiva no contm verdades morais novas. Porm, enfatiza a 
responsabilidade de cada um na deciso prtica, moral, das questes cotidia-
98 



nas das pessoas. um dever tico e moral de cada um a formao da vontade tica no 
espao racional. Cada indivduo tem de se esforar na prtica desses princpios. Ter 
esperana, mesmo vivendo em uma sociedade to desigual, injusta e sem 
solidariedade. 
A moral em Kant 
Fundamentao filosfica - Kant postula a existncia de faculdades da razo que 
independem da experincia prvia do indivduo, faculdades estas denominadas Razo 
Terica Pura e Razo Prtica Pura. A Razo Terica Pura  a que permite ao indivduo o 
conhecimento do reino da natureza. A Razo Prtica Pura complementa a Razo Terica 
Pura e possibilita descobrir as leis do mundo social, caracterizado pela liberdade, pelo 
possvel e pela indeterminao. Segundo Kant, os individuos definem a finalidade do 
mundo social. Ela  definida pela vontade dos homens.  o mundo dos fins e dos 
julgamentos morais. O indeterminismo postulado por Kant  decorrente das aes dos 
homens, aes justas, julgadas por critrios do bem e do mal, do certo e do errado, no 
mbito do mundo social. Estes critrios de julgamento presentes na Razo Prtica 
decorrem do imperativo categrico que orienta a Razo Prtica. A moralidade no mundo 
social  exigida do sujeito, da sua capacidade de autodeterminao, que se expressa 
pela vontade legisladora de estabelecer e concretizar fins do mundo social. Fins estes que 
s podem ser alcanados atravs de certos meios. Entretanto, o imperativo que orienta o 
julgamento moral da Razo Prtica tem como exigncia que o ser humano jamais seja 
visto ou usado como meio, mas somente como fim em si. A legislao elaborada pela 
Razo Prtica tem de levar em conta a dignidade humana, que  um valor interior e 
universal. Para Kant, seguir as prescries de uma lei universal  um ato de respeito  
espcie humana, que deve ser seguida porque  a expresso da vontade legisladora. 
Seguir essa lei  um dever. 
A lei  um principio objetivo, que prescreve um comportamento que todo ser racional deve 
seguir. Os imperativos expressam a necessidade de agir segundo certas regras. Os 
imperativos categricos tm valor moral e enquanto tal norteiam a conduta dos indivduos. 
No mundo social existem duas categorias de valores que Kant identifica como: o preo e 
a dignidade. O preo explicita um valor exterior, de interesses particulares. A dignidade 
representa um valor interior, de interesse geral. Este valor universal, a dignidade humana, 
 que deve ser respeitado pela vontade legisladora do homem. Os interesses particulares 
no podem se sobrepor no mundo social, nem mesmo justificar e orientar as aes 
humanas. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Razo Comunicativa:  um procedimento argumentativo pelo qual dois ou mais sujeitos se 
pem de acordo sobre questes relacionadas  justia,  verdade e  veracidade. 
99 



Negociao-Consenso: ponto comum alcanado por meio da relao dialgica 
(discurso), pelo processo argumentativo, sem qualquer espcie de coao (interna ou 
externa), sobre os indivduos em interao. Pressupe o respeito  dignidade. 
Discurso ou Relao Dialgica: processo argumentativo, de problematizao, 
fundamentado nos critrios de verdade, justia e veracidade. Parte-se da suspenso 
radical da validade daquilo que havia sido afirmado e busca-se um entendimento. A razo 
comunicativa se expressa no discurso.  processual e um processo de aprendizagem. 
Discurso terico: o questionamento se refere aos fatos,  cincia, ao conhecimento do 
mundo objetivo. 
Discurso prtico: o objeto do questionamento  a adequao e a legitimao das normas 
sociais dentro de um contexto concreto. 
Sistema:  constitudo pela esfera poltica (poder) e pela esfera econmica (dinheiro). A 
integrao sistmica  produzida pelos modos estratgicos de ordenar as conseqncias 
da ao. 
Mundo vivido: mundo intersubjetivo, onde as relaes sociais espontneas existem, onde 
no h questionamento das certezas dadas a priori no qual estas certezas no fazem 
parte de um processo de reflexo individual e onde os vnculos existentes nunca foram 
postos em dvida.  constitudo pela cultura, pela sociedade e pela personalidade. 
tica Discursiva: da qual podem desdobrar-se os projetos de auto-realizao de 
indivduos e grupos de indivduos. Projetos que no podem violar os elementos universais 
de moralidade contidos no principio da universalizao: igualdade de direitos de todos os 
seres humanos. Excluem os projetos de auto-realizao que violem o principio Kantiano 
de tratar os seres humanos como fins e no como meios. A violncia, a intolerncia, a 
opresso e mesmo o desrespeito a esforos de auto-realizao tentados por outros so 
tidos como no-ticos. 
Descentramento:  uma conseqncia necessria do prprio processo comunicativo, que 
comporta pretenses de validade cuja problemattzao requer a entrada no discurso. A 
argumentao moral suspende a validade dos contextos espontneos da ao e submete 
 critica o sistema normativo. As instituies do senso comum so desativadas. As 
evidncias comunitrias so postas entre parnteses. O que era questionado se torna 
hipottico, as certezas culturais se tomam problemticas. 
Ser racional: o indivduo  um ser racional porque tem faculdades mentais (ou da razo) 
que lhe possibilitam refletir sobre si mesmo e sobre o mundo externo.  livre e tem uma 
vontade legisladora.  capaz de formar a sua conscincia moral autnoma, o seu conceito 
de felicidade e a maneira de obt-la. Possui a linguagem como meio de comunicao. 
Ser plural (social): o indivduo est inserido no mundo vivido, das relaes intersubjetivas, 
e por meio da linguagem entra em relao interativa com os demais indivduos.  por 
meio do processo interativo consciente que desenvolve seu processo de desenvolvimento 
cogn orma da conscincia 
100 



moral. Este processo interativo no pode anular a sua integridade de indivduo, a sua 
personalidade e os seus direitos individuais de pessoa humana. 
Felicidade como direito da pessoa humana: direito de auto-realizao, segundo seu 
prprio estilo e sua prpria concepo de felicidade. As concepes de felicidade variam 
de indivduo para indivduo. 
Ao instrumental (para o sucesso): quando ns a consideramos sob o aspecto do 
seguimento de regras de escolha racional e de acesso  eficcia de decises influentes 
do oponente racional,  social. 
Ao comunicativa: os indivduos envolvidos coordenam seus atos em funo do 
atingimento da compreenso. No esto orientados para o seu sucesso pessoal. Eles 
podem harmonizar seus planos de ao em bases de definies de situaes comuns. A 
negociao das definies de situao  elemento fundamental, requerido pela ao 
comunitria. 
Razo comunicativa: se expressa mais claramente no discurso-validade das normas 
justas e na validade discursiva das proposies verdadeiras, pelo processo discursivo e 
problematizador. A problematizao requer o abandono do contexto interativo espontneo 
e o ingresso num tipo de comunicao: a relao comunicativa que  argumentativa.  ai 
que surge o discurso. 
Princpio universal: regra de argumentao do discurso prtico, assim formulada: Uma 
norma tica  vlida, justificada, quando puderem ser aceitas consensualmente, sem 
coao, todas as conseqncias que adviro para os interesses concretos dos indivduos 
que pautarem o seu comportamento por ela (Habermas). 
Argumento: constitui uma manifestao ou comportamento racional que  criticvel, 
portanto corrigvel, podendo ser melhorado sempre que se descobrem erros. 
Processo argumentativo: quando se d na relao comunicativa,  um processo de 
aprendizagem consciente - que garante a continuidade do desenvolvimento cognitivo, o 
qual jamais pode ser concludo definitivamente. 
Autonomia: principio geral da tica onde o indivduo se expressa livre mente na sua 
capacidade de autodeterminao, na sua vontade legisladora de estabelecer e 
concretizar fins do mundo social. Liberdade: existncia de um espao indeterminado 
dentro do qual a vontade consegue exprimir-se perseguindo fins prefixados, com meios 
livremente relacionados (Kant). 
Vontade: faculdade de autodeterminao das prprias aes, segundo certas leis 
preconcebidas. O exerccio da vontade pressupe, por sua vez, a liberdade (Kant). 
Dever: necessidade de uma ao por respeito  lei. Seguir uma lei por dever significa 
seguir a instruo racional do imperativo categrico (Kant). 
Heteronomia:  o contrrio de autodeterminao e est ligada  natureza e s leis que a 
regem, representa o espao do determinado, aquilo que  imposto e que deve ser 
obedecido (Kant). Mxima:  um principio subjetivo, que contm a regra prtica que a 
razo determina, de acordo com as condies do sujeito (Kant). Imperativo: necessidade 
agir segundo certas regras (Kant). 
Imperativo categrico:  a mxima de Kant que diz age de tal modo que a mxima de tua 
vontade possa sempre simultaneamente transformar-se em 
101 



lei universal. Os imperativos categricos tm valor moral. Os imperativos expressam a 
necessidade de agir segundo certas regras. Os imperativos categricos tm valor moral 
e, enquanto tais, norteiam a conduta dos indivduos. A lei  um principio objetivo que 
prescreve um comportamento que todo ser racional deve seguir (Kant). 
Moralidade (Kant): a moralidade no mundo social  exigida em decorrncia da 
indeterminao e autonomia do sujeito, da sua capacidade de autodeterminao que se 
expressa pela vontade legisladora de estabelecer e concretizar fins do mundo social. Fins 
estes que s podem ser alcanados atravs de certos meios. Entretanto o imperativo que 
orienta o julgamento moral da razo prtica tem como exigncia que o ser humano jamais 
seja visto ou usado como meio, mas somente como um fim em si. 
Faculdades da razo: Kant postula a existncia de faculdades da razo que independem 
da experincia prvia do indivduo, faculdades estas denominadas Razo Terica Pura e 
Razo Prtica Pura. 
Legislao e Razo Prtica: a legislao elaborada pela Razo Prtica tem de levar em 
conta a dignidade humana que  um valor interior e universal. Seguir as prescries de 
uma lei universal, para Kant,  um ato de respeito  espcie humana, e expresso da 
vontade legisladora do homem. Seguir essa lei  um dever e lei. Imperativos hipotticos: 
podem ser tcnicos ou pragmticos. Os imperativos tcnicos (ou problemticos) so os 
que formulam as regras da ao para lidar com as coisas. Os imperativos pragmticos 
(ou assertrios) so os que formulam as regras de ao para lidar com o bem-estar. 
Encontram-se fora do mbito da moralidade. 
Moralidade: vem do latim morale (filosofia). Conjunto de regras de conduta consideradas 
como vlidas de modo absoluto, para qualquer tempo ou lugar, para grupo ou pessoa 
determinada. Parte de questes elementares  Como devo agir? Como orientar esta 
minha ao com os outros atores com quem me confronto? Quais os critrios que 
orientam a minha ao? Qual a relao da minha ao com a ao dos outros? Qual a 
relao de minha moralidade com as normas sociais j deter minadas pela sociedade? 
Valores: no mundo social existem duas categorias de valores, as quais Kant identifica 
como: o preo e a dignidade. O preo explicita um valor exterior de interesse particular. A 
dignidade representa um valor interior de interesse geral. Este valor universal, a dignidade 
humana,  que deve ser respeitado pela vontade legisladora do homem. 
Razo Terica Pura:  a que permite ao individuo o conhecimento do reino da natureza. 
Razo Prtica Pura complementa a Razo Terica Pura e possibilita descobrir as leis do 
mundo social, caracterizado pela liberdade, pelo possvel e pela indeterminao. Segundo 
Kant, os indivduos definem a finalidade do mundo social.  o mundo regido pelo dever 
ser.  o mundo dos fins e dos julgamentos morais. 
102 

QUESTES 
1. O que se entende por tica? 
2. Por que Habermas, na tica Discursiva, no abandona o conceito de indivduo e de 
dignidade humana, mas o insere no contexto social, num processo de interao? 
3. Qual  a relao do princpio Universal de Habermas com a Justia e a Solidariedade? 
4. Explique por que, na tica Discursiva, a sociedade e as normas morais 
preestabelecidas so objeto de validao pelos indivduos que sero atingidos por elas. 
5. O que  discurso ou relao dialgica? 
6. Explique por que a Administrao e a Psicologia Aplicada  Administrao esto 
comprometidas com a moralidade positivista de Durkheim. 
7. Piaget e Kohlberg, nos seus estudos de desenvolvimento psicogentico do indivduo, 
concluem que esse desenvolvimento (cognitivo e da for mao da conscincia moral)  
um processo que exige experincia e vivncia do indivduo no meio social. Explique de 
que forma o meio pode se tornar uma barreira a essa aprendizagem do indivduo. 
8. Na organizao, de que forma a Etica Discursiva poder nortear a ao dos 
indivduos? 
9. De que forma a tica Discursiva poder nortear as relaes entre a organizao e os 
seus membros, tendo em vista a dignidade humana e a sobrevivncia lucrativa da 
organizao? 
TRABALHO PRTICO 
Exerccio 1 
1) Analise o CCQ 
a) enquanto processo de induo da auto-realizao do individuo; 
b) enquanto condicionador do raciocnio mental (pensamento concreto-linear e pr-
operatrio). 
2) Tome como base para essa anlise: 
a) a Teoria do Desenvolvimento Psicogentico de Piaget; 
b) a Teoria da Formao da Conscincia Moral de Kohlberg; 
c) a tica Discursiva. 
3) Apresente uma nova proposta tica (discursiva) para CCQ, e 
4) explique as formas (tcnicas) que sero adotadas. 
Exerccio II 
Faa uma anlise das tcnicas de mudana cultural compulsria. Explique por que no  
tica. 
Exerccio III 
Explique por que o modelo participativo de administrao se torna uma agresso  
identidade do individuo a partir da tica Discursiva. 
103 
Exerccio IV 
Pense um modelo de RH na organizao, fundamentado na ltica 
Discursiva. 
BIBLIOGRAFIA 
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VANCOURT, Raymond. Kant. So Paulo: Livraria Martins Fontes, 1967. 
104



4.A ADMINISTRAO E SEU 
COMPROMISSO IDEOLGICO 
Ao terminar a leitura deste capitulo voc dever ser capaz de: 
1. Compreender a Administrao como cincia aplicada. 
2. Compreender os pressupostos ideolgicos da Administrao. 
3. Compreender a organizao como microunidade da sociedade. 
A Psicologia Aplicada  Administrao, para ser compreendida, pressupe uma 
discusso mais ampla, em que os conceitos gerais de psicologia, de administrao, de 
organizao de sociedade e de natureza humana devero ser esclarecidos, bem como os 
seus pressupostos ideolgicos, suas inter-relaes e as suas decorrncias. 
A psicologia como cincia do comportamento humano, quando aplicada  administrao, 
ser entendIda no somente no que ela , como tambm no que se prope, de acordo 
com as opes anteriores, referentes ao que se entende por administrao, por natureza 
humana, por organizao e ainda por que tipo de sociedade se optou. Isso envolve uma 
definio ideolgica, um comprometimento e uma justificativa moral em uma crena 
maior, que ir explicar e especialmente justificar as escolhas feitas. 
 fcil compreender que, ao se aplicar determinado conhecimento psicolgico, 
determinada teoria e at mesmo tcnicas psicolgicas na administrao, exige-se um 
comprometimento ideolgico. Em outros termos, sem antes se ter respondido s 
questes fundamentais referentes  natureza humana, ao tipo de sociedade que se 
postula, o que so as organizaes e qual o seu papel na sociedade e, finalmente, o que 
 administrao. 
Entretanto, se esta questo  de fcil compreenso, ela no tem sido levantada, e muito 
menos compreendida, na administrao. Observa-se um simplismo terico, um 
comprometimento tcito com o status quo, perpetuado por uma abordagem tecnicista e 
utilitarista da administrao que, ao se propor ser uma cincia aplicada, se preocupa 
antes com o que e como fazer em vez de com os porqus, seus pressupostos 
tericos e ideolgicos. 
Um exemplo do que foi dito  a preocupao, hoje predominante no meio dos 
administradores brasileiros, de como aplicar tcnicas da administrao japonesa, tais 
como CCQ, Kanban, TCQ etc. Esta preocupao se limita a adequ-
105


 
las  realidade local, sem se perguntar quais sero suas provveis conseqncias a 
mdio e longo prazos, tanto para a empresa quanto para os indivduos e para a 
sociedade. Isto significa que o aumento da produtividade e a reduo de custos 
observados em um primeiro momento podem encobrir danos futuros  sociedade como 
um todo, inclusive para a prpria empresa, no que se refere  rentabilidade e  melhoria 
da qualidade de seus produtos e servios. 
Estudos de tais tcnicas e de sua ideologia apontam, na direo de um futuro prximo, 
para a reduo da capacidade criativa e inovadora do indivduo sobre o qual se imps 
tais tcnicas. Na realidade, so instrumentos de doutrinao e controle antes que de 
inovao e participao. 
 um paradoxo que, sem dvida, torna a Administrao uma rea de conhecimento 
conservadora, superficial e a priori comprometida ideologicamente com o status quo. 
No se prope questionar as teorias e os seus pressupostos bsicos, o que limita ou 
mesmo impede o desenvolvimento e a gerao de novas tcnicas nesta rea da atuao 
humana. 
E fato corrente na Administrao, quer seja nos currculos acadmicos, quer seja na ao 
profissional, a mudana de rtulos e a permanncia do mesmo contedo. Maquia-se o 
produto, sem, contudo, mudar o seu contedo bsico. 
A superficialidade no tratar o conhecimento cientifico na Administrao, leva-a a um 
reducionismo, malfico aos indivduos, s organizaes e  sociedade. Isto possibilita os 
modismos atravs da importao de teorias e de tcnicas desenvolvidas em outros 
contextos. Os seus pressupostos bsicos e as conseqncias socioeconmicas e 
polticas e suas implicaes em contextos diferenciados no so caracterizados e 
tampouco analisados. 
Sociedade 
A ideologia da sociedade  um principio maior que justifica e orienta a forma pela qual a 
sociedade se organiza e funciona: quem decide o qu, quem participa nesse processo de 
deciso, quem controla, quem usufrui dos bens econmicos e socioculturais produzidos 
na e pela sociedade. Portanto, a ideologia da sociedade como parte desta questo maior 
se insere na discusso da natureza humana: o que so os indivduos membros da 
sociedade?  fcil compreender que desta questo depreendero questes como a 
prpria definio das relaes dos indivduos membros da sociedade com a prpria 
sociedade, das relaes com suas microunidades (as organizaes, entre elas as 
empresas), individualmente e em grupos (sindicatos, famlia, agremiaes, igreja etc.). 
O tipo de sociedade e o pressuposto da natureza humana predominante so questes 
que se sobrepem e que, na realidade, somente podero ser compreendidas numa 
abordagem conjunta. Para que possamos entender a ideologia de uma sociedade, o que 
justifica a forma pela qual ela se organiza e funciona, necessitamos responder o que  o 
ser humano na sua essncia, para essa sociedade. Do ponto de vista da natureza 
humana, o indivduo poder ser compreendido como: ser condicionado, ser inteligente e 
ser inteligente e livre. 
106



Como ser condicionado,  resultante do meio externo, dos condicionamentos 
socioeconmicos e culturais e, portanto, comportar-se- em funo de estmulos externos 
e condicionamentos de natureza externa (behaviorismoou comportamentalismo). 
Como ser inteligente,  pensante; portanto, desenvolve um processo cognitivo: percebe, 
armazena as informaes, organiza-as e trabalha sobre as mesmas em diferentes nveis 
de reflexo, o que o caracteriza como ser inteligente. No se elimina aqui a possibilidade 
de faz-lo pensar, sentir e agir como a sociedade bem desejar. Os mecanismos de 
atuao da sociedade so apropriados ao processo cognitivo dos indivduos como seres 
pensantes (internalizao de valores, controle, seleo e direcionamento de 
informaes, controle do desenvolvimento do processo cognitivo atravs do cerceamento 
de condies externas necessrias ao seu desenvolvimento), tais como informaes, 
acesso  educao e  cultura, condies econmicas que possibilitem o 
desenvolvimento fsico e psicolgico etc. 
Como proposta radical, o ser humano  entendido como um ser inteligente, pensante e 
livre, isto , um ser com vocao para a liberdade, aqui entendida como conscincia 
crtica, o que quer dizer conhecimento de si prprio e da realidade que o cerca. Este 
conhecimento critico  resultante de um processo continuo, que envolve fatores internos e 
externos em interao. O que nos leva a concluir que a sociedade, e especialmente as 
suas microunidades, as organizaes (entre elas as empresas) podero criar condies 
para a libertao dos seres humanos ou impedi-la, dependendo do tipo de sociedade 
(ideologia) e do prprio pressuposto de natureza humana por elas definidos e adotados. 
Entendida a questo da essncia da natureza humana, faz-se necessrio voltarmos ao 
tipo de sociedade, ideologicamente falando. 
Numa primeira caracterizao encontra-se a sociedade fundamentada nos pressupostos 
sociolgicos originrios do positivismo (Comte e Durkheim). 
Parte-se do principio de que, numa determinada sociedade, deveria sempre existir uma 
elite pensante, que definiria o que a grande massa deveria no s fazer, mas pensar e 
sentir. Isto envolve implicaes reais profundas em todos os nveis da sociedade, na 
forma pela qual ela est organizada, como tambm na forma pela qual funciona. 
A elite pensante, seja ela de natureza religiosa, cientifica, militar, tecnocrata, poltica, 
econmica ou industrial, domina a sociedade. Esta elite define as relaes entre os vrios 
estratos da sociedade, quer seja no que tange s relaes de poder, quer seja no que se 
refere s relaes econmicas. 
Em outras palavras, o que cada grupo social dever dar e/ou receber da sociedade mais 
ampla, ou seja, quem gera as riquezas e quem contribui com o qu, para a manuteno 
da ordem estabelecida por essa elite. 
Estabelece-se uma hierarquia de poder, onde a elite define as regras do jogo. Para que 
essas regras sejam obedecidas, alguns pressupostos fundamentais so definidos e 
estratgias sociopolticas desenvolvidas, entre elas a conscientizao das massas que 
assumem valores e crenas comuns, de acordo com os interesses superiores. 
107 



Essa sociedade est fundamentada na Ordem e no Progresso, que garantiro a 
manuteno e a preservao do status quo estabelecido atravs da autoridade superior. 
A elite  mantida atravs do consenso e da solidariedade social. A ruptura dessa ordem  
vista como o caos, ou o suicdio coletivo, onde todos sero destrudos. Para que a 
manuteno da ordem e do status quo seja garantida  necessrio que todos os membros 
sintam e pensem de acordo com normas e padres comuns, estabelecidos pela 
sociedade (pela elite dominante). 
Dentro de uma hierarquia social definida, cada grupo, na sociedade, dever cumprir o seu 
papel, para se atingir a ordem e o progresso prometidos. 
Apelos e determinaes so emitidos pelas autoridades superiores, no sentido de manter 
a massa pacificamente cordata. 
O consenso e a solidariedade entre os vrios grupos sociais so elementos 
fundamentais. A doutrinao das massas, a padronizao dos valores e os apelos  
ordem e  estabilidade, sejam pacficos ou repressivos, so as estratgias adotadas para 
a manuteno desse tipo de sociedade. No que diz respeito  natureza humana,  fcil 
deduzir-se que se parte do pressuposto de que os seres humanos, enquanto seres 
inteligentes, devem exercitar as suas faculdades mentais, desde que estejam em sintonia 
com o pensamento, com os valores e com os padres e normas estabelecidos pela 
sociedade. 
Em contrapartida, o tipo de sociedade que denominamos Humanista Radical, tem como 
caracterstica bsica o pluralismo, que se concretiza por meio do jogo de foras dos 
vrios grupos sociais estabelecidos. 
O poder  resultante de um intercmbio de foras socioeconmicas e polticas. As 
relaes econmicas resultam desse intercmbio, de uma negociao permanente em 
que capital e trabalho, num jogo interdependente, buscam novos patamares de 
relacionamento, repensando a sociedade, o acesso aos bens econmicos e 
socioculturais e o prprio poder poltico, centrado na premissa bsica de que os 
individuos so seres inteligentes e com vocao para a liberdade (conscincia critica).  
o exerccio desta liberdade responsvel que constri uma nova sociedade. 
A sociedade como um todo  chamada a construir esta nova realidade. 
No h consenso no sentido de acomodao ou adeso manipulada a uma realidade 
socio-econmica, mas a um processo continuo de aprendizagem-ao (reflexo, 
conscincia critica) implantado na sociedade, na famlia, na escola, nas fbricas, nas 
Igrejas, nos partidos polticos, nos sindicatos etc. 
A ordem socioeconmica  resultante desta aprendizagem social, sem a qual a 
sociedade se estratifica e se imobiliza. A gerao, o acesso e o controle dos bens 
econmicos, culturais e sociais so resultantes de um processo de negociao da 
sociedade e, conseqentemente, a sua distribuio se torna mais eqitativa e mais justa. 
 uma sociedade centrada na pessoa humana como ser inteligente e livre e, 
conseqentemente, no respeito  sua dignidade, s suas necessidades e aos seus 
direitos, especialmente no mais fundamental deles que  o de se tomar ser humano em 
plenitude, na sua totalidade: o desenvolvimento de seu potencial e a sua plena realizao 
como ser humano. 
108 



Reproduo dos tipos de sociedade nas organizaes 
Nas organizaes inspiradas nos pressupostos sociolgicos positivistas h uma 
hierarquia bem definida onde a estrutura de poder tambm  piramidal, localizando-se 
este no topo da pirmide. Os nveis intermedirios e interiores representam a grande 
massa de executores. A empresa apresenta-se como a protetora, sem a qual os 
indivduos no podero sobreviver, mantendo-os produtivos atravs de mecanismos de 
manuteno, como internalizao dos valores da organizao (vestir a camisa da 
empresa) pelos seus membros, padronizao de sentimentos e pensamentos, incentivos 
econmicos e emocionais, como instrumentos de adeso aos seus valores e objetivos. 
Nas organizaes baseadas nos pressupostos do humanismo radical (pluralista), a 
determinao de poder  mais horizontalizada. As relaes entre o capital e o trabalho 
so negociadas; seus representantes tm acesso  informao e exercem o poder de 
presso atravs de canais constitudos formal e informalmente (comisses de fbrica, 
grupos de representantes do trabalho, sindicatos, partidos polticos etc.). Existem 
interaes entre as foras econmicas e polticas e destas interaes surgem e se 
desenvolvem novos mecanismos de tomada de decises at o atingimento do consenso. 
A sobrevivncia (a organizao-empresa depende do intercmbio das foras do capital e 
do trabalho. Estas mudanas ocorrem na medida em que um processo de aprendizagem 
se inicia, tendo em vista o desenvolvimento da conscincia critica e da auto-educao 
dos membros da organizao. 
A manipulao perde seu lugar como mecanismo de compromisso da fora do trabalho e 
 substituda pelo acesso s informaes tcnicas, econmicas e polticas. A anlise 
critica e a reflexo so os suportes desta aprendizagem e do estabelecimento de novos 
patamares onde os objetivos mtuos so respeitados. A autonomia e a responsabilidade 
so fatores bsicos, criando-se condies para um intercmbio indivduo/organizao, 
onde ambos se vem como elementos necessrios e complementares, a empresa como 
geradora das condies de trabalho e os indivduos-membros como elementos-chave do 
processo produtivo. 
A padronizao de valores e sentimentos neste contexto se torna obsoleta, pois leva  
imobilidade mental, sociocultural, tecnolgica e econmica, deteriora as relaes e a 
responsabilidade das partes envolvidas no processo produtivo, abre brechas para 
diferentes formas de manipulao poltica, impede a conscincia critica e o 
desenvolvimento tecnolgico da empresa e a sua eficcia (produtividade, qualidade de 
seus produtos, inovaes). 
A sobrevivncia da organizao-empresa depender do jogo de foras internas 
estabelecidas num processo de aprendizagem-ao, no qual ser desenvolvido, 
concomitantemente  conscincia critica, um pacto de responsabilidade mtua entre 
capital e trabalho. Os problemas da empresa (produtividade, lucratividade, qualidade) e 
os problemas do trabalho (maior eqidade na distribuio dos bens econmicos 
produzidos, participao no poder, desenvolvimento sociocultural etc.) passam a ser 
objeto de continua negociao e de responsabilidade conjunta. 
109 



Enquanto neste tipo de organizao h divergncia ideolgica, no primeiro a manuteno 
dos valores da organizao e o treinamento tomam as formas de processos de 
cooptao ou manipulao dos indivduos em funo dos objetivos da organizao. Uma 
pedagogia de padronizao de sentimentos, de pensamentos e de caractersticas 
individuais tem como objetivo a indiferenciao dos membros da organizao. 
As necessidades individuais dos membros das organizaes so fundamentadas na 
ideologia das organizaes e no neles prprios como seres humanos, com 
caractersticas diferentes, desejos, emoes, necessidades fsicas, econmicas e sociais 
especificas e diferenciadas. 
J na organizao autoritria, fundamentada na sociedade da ordem e do progresso 
no h divergncia de valores, de interesses e de necessidades. 
O capital estipula as necessidades da sociedade e dos indivduos, membros da 
organizao. A forma de faz-los acomodarem-se aos desejos da organizao baseia-se 
na manipulao de suas angstias reprimidas, na padronizao dos sentimentos e 
valores, sendo que esta padronizao se inicia no prprio processo de admisso do 
indivduo, atravs da aplicao de avaliaes psicolgicas, os chamados testes 
psicolgicos, sendo que atualmente se recorre at mesmo  grafologia, mapa astrolgico, 
biorritmo, fugindo assim do convencional na rea da psicologia cientifica. 
O treinamento atravs de programas de formao gerencial, usando tcnicas de dinmica 
de grupo, treinamento de lideranas, jogos simulados, workshops, bem como tcnicas de 
administrao participativa e de administrao japonesa, entre elas o CCQ e o TCQ, 
procura o controle dos indivduos, especialmente no que diz respeito aos seus valores, 
seus pensamentos e seus sentimentos. 
Natureza humana 
No que concerne  natureza humana, existem os seguintes pressupostos: 
Seres condicionados (determinismo-behaviorismo)  Os seres humanos 
e seu comportamento so determinados pelo meio externo, isto , pelas condies 
socioeconmicas do contexto em que se encontram. 
Seres inteligentes  Significa que os indivduos so seres pensantes: percebem, 
memorizam, raciocinam, abstraem. H um crescimento e um desenvolvimento mental. 
Possuem valores, sentimentos, emoes, desejos e necessidades que, entretanto, podem 
ser conduzidos e direcionados pelas organizaes e pela sociedade. 
Seres inteligentes e livres  O indivduo  um ser inteligente, o que significa que  capaz 
de pensar e ao mesmo tempo ter vocao para a liberdade. Esta vocao para a 
liberdade quer dizer a capacidade de desenvolver a sua conscincia critica, ver a si 
mesmo e ao mundo que o rodeia criticamente. Isto lhe dar a liberdade interior capaz de 
torn-lo mais consciente de si mesmo, nos seus valores, nas suas aes, nas suas 
opes e compromissos ideolgicos. Portanto, a liberdade quanto a si mesmo e  
sociedade. 
110 
Em funo desses pressupostos acerca da natureza humana, a organizao poder 
adotar polticas fundamentadas em: 
A  Determinismo sociolgico 
Significa que os indivduos devero submeter-se aos objetivos, valores e metas das 
organizaes. Estas organizaes usaro condicionamento como recompensas salariais, 
incentivos emocionais, internalizao de valores organizacionais pelos treinamentos, 
conscientizao dos seus membros atravs da internalizao de valores, levando-os a 
se comprometerem com ela, pensando, sentindo e agindo da forma que ela o deseja, sem 
contestaes (vestir a camisa da empresa). 
 uma estratgia fundamentada na manuteno da ordem estabelecida atravs da 
padronizao de valores, crenas, sentimentos e necessidades. Ficam assim garantidos 
os objetivos maiores da organizao (lucros, manuteno do poder, conservao das 
regalias estabelecidas, sejam elas econmicas, polticas, socio-culturais ou 
educacionais). Os indivduos perdem sua identidade e se massificam, quer seja na 
famlia, nos partidos polticos, nas fbricas, nas organizaes pblicas, nas organizaes 
religiosas, nos sindicatos etc., dando a uma elite reduzida o direito de decidir e pensar 
por eles inclusive sobre o que pensar, o que sentir e como viver. 
A administrao ser constituda por tcnicas e estratgias fundamentadas no 
pressuposto de que a natureza humana  condicionada. 
Os indivduos devero moldar-se  organizao. Pouco ou quase nada deles se solicita 
quanto s suas mentes e seus valores. 
B  O homem organizacional 
A idia central  a de que o indivduo  um ser inteligente, cuja inteligncia dever ser 
colocada a servio da organizao, sendo que tal organizao definir as caractersticas 
dos seus membros: caractersticas fsicas, psicolgicas, culturais, sociopolticas e 
religiosas. 
Ela assume um papel de me, protetora e controladora, exigindo de seus membros um 
compromisso de lealdade em relao aos seus objetivos, mesmo e especialmente 
quando no se participou de sua definio, e tampouco quando no se usufrui dos 
benefcios gerados com sua colaborao. 
A organizao d-se o direito de exigir de seus membros (funcionrios pertencentes a 
todos os nveis hierrquicos) que assumam os valores definidos por ela, bem como 
tenham sentimentos coerentes com aqueles desejados por ela. Da mesma forma, exige 
um pensamento nico, o credo da organizao define em que se deve fundamentar o 
pensamento de seus membros. D a dimenso do compromisso que ela, organizao, 
exige deles. 
Entretanto, para manter este homem organizacional nos padres desejados, a 
organizao lana mo de tcnicas diferenciadas. Tais tcnicas e estra-
111


 
tgias visam padronizar e controlar valores, sentimentos, pensamentos, desejos e 
necessidades individuais.  a forma de controlar criando o consenso e a 
indiferenciao.  a massificao a padronizao dos indivduos, membros da 
organizao. 
Esta proposta, hoje, surge mascarada na administrao denominada participativa, nos 
trabalhos de grupos e na ideologia da Teoria Z e da Qualidade Total. 
Na proposta do homem organizacional inicialmente os executivos e os nveis gerenciais 
eram objeto do processo de conscientizao organizacional (vestir a camisa da 
empresa). Hoje, entretanto, com a influncia da administrao japonesa, o operrio 
tambm  objeto desse processo manipulatrio. 
Os Grupos Participativos, os Crculos de Controle de Qualidade (CCQ) e toda a filosofia 
do Controle Total de Qualidade (CTQ) mostram como o operrio, o trabalhador da linha 
de produo,  emocional e intelectualmente envolvido e controlado pela organizao: 
seminrios, grupos de discusso, incentivos emocionais e sociais so usados ao lado 
das estratgias e tcnicas punitivas para aqueles rebeldes que no aderem aos apelos 
e indicadores de conduta adotados pela organizao. Sabe-se de empresas no Brasil 
que dispensaram todos os opernos que questionavam um programa de formao de 
lderes de CCQ. 
Os supervisores de primeira linha, aqueles que so diretamente superiores aos operrios 
numa fbrica, tm sido, no momento, o alvo preferido da organizao neste processo. 
Eles so os amortecedores do impacto das reivindicaes sindicais e/ou das 
comisses de fbrica, feitas pelos operrios. 
Existem empresas de consultoria especializadas no treinamento atravs da 
conscientizao dos supervisores de primeira linha, atuando no mercado e 
apresentando, segundo eles, resultados positivos e altamente promissores para as 
empresas. 
Em resumo, as polticas organizacionais baseadas no homem organizacional buscam a 
padronizao dos valores dos membros da organizao, bem como do que pensam, 
como pensam, o que sentem e como vivem, no s na organizao, mas tambm na 
famlia, no sindicato, na igreja, nos partidos polticos etc. A sociedade ser definida e 
orientada pelas organizaes. Elas passaro a dirigir o seu destino. O que pensar, o que 
falar, como viver, o que sentir, que prazer obter e quando sero opes no mais dos 
indivduos, mas das organizaes. Para manter esse poder de deciso e de controle 
sobre os individuos, as organizaes adotam tcnicas e estratgias fundamentadas nas 
cincias sociais e humanas, usando, portanto, os conhecimentos cientficos desenvolvidos 
por estas cincias. 
As polticas organizacionais que se baseiam na proposta do homem organizacional 
trazem conseqncias como: 
a) padronizao de valores e de pensamentos dos membros da organizao; 
b) uso continuo de tcnicas e estratgias para a manuteno dessa 
padronizao(treinamento, incentivos sociais, envolvimento emocional etc.); 
112 



c) limitao do nvel de criatividade e de inovao dos membros da organizao; 
d) aumento do nvel de insatisfao e de frustrao dos membros da organizao, com 
efeitos a mdio e longo prazos sobre a lucratividade da empresa, sobre seu processo de 
desenvolvimento organizacional (gerencial, tecnolgico e de produo) e sobre as 
relaes homem- trabalho (passividade, conflito, rotatividade da mo-de-obra, 
especialmente de alto nvel, ausncia de autodeterminao do trabalhador e 
responsabilidade controlada, autodeterminao e liberdade responsvel, controle do 
prazer individual). 
C  A abordagem da co-responsabilidade e autodeterminao 
A idia central est alicerada na firme convico da essncia da natureza humana: o ser 
humano  inteligente e livre. A inteligncia est ligada  capacidade que o sujeito tem de 
perceber a ocorrncia de eventos no mundo vivido e suas inter-relaes, e de refletir 
sobre tais ocorrncias, podendo chegar a uma concluso. A liberdade se refere  
capacidade de viso critica desse sujeito que o conduz  tomada de conscincia de si 
mesmo, de seu valor e de sua posio dentro da situao em que se encontra, nas 
organizaes e na sociedade. A situao na organizao se limita basicamente  
situao de trabalho.  dentro deste contexto que todas as suas relaes se do, 
enquanto realiza uma atividade ou tarefa; portanto, trabalho. 
Enquanto ator desse processo de transformao produtiva, o indivduo tem um valor que 
se traduz na importncia daquilo que realiza no atingimento dos objetivos da organizao, 
nos objetivos da sociedade e em seus prprios objetivos, como indivduo, dentro do 
direito de ter uma vivncia diferenciada, no que se refere aos seus sentimentos, desejos, 
emoes, pensamentos e ao seu prprio prazer. 
Isto significa que cada indivduo se diferencia dos demais indivduos- membros da 
organizao enquanto pessoa e que tem conscincia de si mesmo, do seu valor, da sua 
dignidade, dos seus direitos, da sua responsabilidade e de seus deveres, estes ltimos 
assumidos consciente e livremente. 
Para que isto possa efetuar-se,  necessrio que se estabelea uma interao com a 
organizao e com a sociedade. Interao esta que se fundamenta na capacidade de 
comunicao livre de distores com seus semelhantes, tendo, entretanto, a interao 
comunicativa como base para sua real efetivao a veracidade, a autenticidade e a 
justia. Isto quer dizer que a organizao, de um lado, e os indivduos, de outro, no 
tentaro relacionar-se na expectativa de levar vantagens um sobre o outro, mas, antes, 
buscar um consenso em que ambas as partes, portanto, capital e trabalho, abram o jogo 
de seus interesses, necessidades e demandas. Neste abrir o jogo  que se 
estabelecem novos critrios de relacionamento e de comunicao. Como vimos, so os 
critrios de respeito mtuo que exigem um compromisso com a verdade, com o bem 
comum e que requerem autenticidade da parte daqueles que se encontram nesse 
processo interativo. 
113 



O consenso que se busca no  aquele no qual existe uma barganha do tipo concorde 
comigo que ser beneficiado, que pode ser explicitada ou sutilmente induzir o indivduo 
num processo de manipulao, processo este que  desenvolvido atravs de 
mecanismos organizacionais, como o treinamento, os incentivos sociais e econmicos 
adotados pelas organizaes. 
O consenso que aqui se prope  aquele em que as partes (capital e trabalho), 
representadas dentro da organizao pelos atores sociais, chegam a partir de um debate 
em que apresentam seus argumentos e contra-argumentos.  neste processo de 
argumentao e contra-argumentao que o capital e o trabalho se do conta de que h 
uma interdependncia e que nessa interdependncia no h lugar para vantagens 
unilaterais, ou seja, para a explorao e para a dominao. 
Para que o processo de comunicao interativa seja iniciado nas organizaes, na 
sociedade em que vivemos, Brasil, 1992,  necessria uma mudana radical por parte 
das organizaes, aqui entendidas como representantes do capital. Sem que haja 
capacidade e condies para o desenvolvimento da comunicao interativa, por parte 
dos membros da organizao, ela jamais se iniciar. 
Estas condies, entretanto, iro exigir a transformao dos processos, sistemas e 
estratgias organizacionais hoje em uso pelas organizaes, como a manipulao dos 
individuos pelo treinamento, pelo sistema de incentivos, pela estratgia da filosofia da 
empresa-me, entre outros. 
A autodeterminao e a co-responsabilidade so utopias que sero concretizadas 
somente por meio de um processo de mudanas corajosas e de luta dos atores sociais 
envolvidos no processo. Estas lutas nem sempre tomam a forma de grandes mudanas, 
so explicitadas e concretizadas no dia-a-dia da vida da organizao, e podero muitas 
vezes passar despercebidas pelos locutores sociais, representantes da dominao. 
As brechas que podero ser abertas pelos locutores na organizao (diretores, gerentes 
e supervisores) e at mesmo por atores (os responsveis pelo recrutamento e seleo, 
pela execuo do treinamento, pelo levantamento de necessidades de treinamento, pela 
definio de tarefas, entre outros) podero ser o incio do processo de interao 
comunicativa na organizao. 
 medida que se muda o contedo do treinamento, de padronizao ou especializante, 
para um contedo aberto e crtico, quando se permite ao trabalhador tomar conhecimento 
do processo produtivo e gerencial da organizao ou mesmo quando o processo de 
seleo no parte da premissa da padronizao das caractersticas individuais, do 
homem acabado, pelo uso de testes psicolgicos, est-se, na realidade, abrindo 
brechas e criando condies para o estabelecimento de uma interao comunicativa, 
pois se est, na verdade, permitindo aos individuos-membros da organizao condies 
para a busca da autenticidade, da veracidade e do desenvolvimento da sua conscincia 
critica, condies sem as quais no haver parceria para a comunicao. 
114 



Ideologia 
Define-se ideologia (Chau, 1984) como um conjunto lgico, sistemtico e coerente de 
representaes (idias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e 
prescrevem aos membros da sociedade o que devem e como devem pensar, valorizar, 
sentir e fazer. Ela , portanto, um corpo explicativo (representaes) e prtico (normas, 
regras e preceitos) de carter prescritivo, normativo, regulador, cuja funo  dar aos 
membros de uma sociedade dividida em classes uma explicao das diferenas sociais, 
polticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenas  diviso da sociedade em 
classes, a partir das divises na esfera da produo. Pelo contrrio, a funo da ideologia 
 de apagar diferenas como as de classes e de fornecer aos membros da sociedade o 
sentimento da identidade social, encontrando certos referenciais identificadores de todos 
e para todos, como, por exemplo, a Humanidade, a Liberdade, a Igualdade, a Nao ou o 
Estado. 
Podemos ainda chamar de ideologia a relao imaginria dos indivduos com suas reais 
condies de existncia, que na organizao se torna uma falsa conscincia, pela 
imposio, de forma sutil e perversa, por essa organizao, de seu sistema de valores, 
tradies, padres, regras, normas, procedimentos etc., que, na realidade, traduzem a 
ideologia da organizao. 
A Administrao dentro do sistema capitalista est fundamentada na ideologia capitalista, 
O que significa isto? Isto significa que a sociedade est centrada ou baseada numa 
relao capital x trabalho em que o capital domina o trabalho, estabelecendo as regras do 
jogo nesta relao. 
Nas organizaes observa-se a sua traduo em termos tcnicos e comportamentais, o 
que, na realidade, nada mais  que o processo de administrar, caracterizando, assim, o 
comprometimento ideolgico da Administrao. 
Assim sendo, os valores da organizao influenciam diretamente a definio dos nveis 
hierrquicos e da estrutura de poder, da diviso do trabalho, da opo tecnolgica, da 
definio de atividades, das polticas e sistemas de pessoal, gerencial, das normas e dos 
controles, das relaes de trabalho, relaes sindicais e dos sistemas de incentivos. 
Administrao 
A Administrao pode ser entendida como o conjunto integrado e coerente de 
conhecimentos cientficos das diferentes reas do conhecimento humano, aplicados s 
organizaes, de forma a lev-las a garantir a sua sobrevivncia, eficincia e eficcia. 
Para atingir seus propsitos, a Administrao utiliza-se de conhecimentos integrados 
para propor tcnicas, estratgias e aes, capazes de lev-la a atingir seus objetivos, 
suas metas, estabelecendo, ao mesmo tempo, relaes com os seus membros e com a 
sociedade. 
No entanto,  necessrio ressaltar tendncias divergentes com relao  Administrao: 
115 



lo Administrao voltada essencialmente ao aspecto tcnico e utilitarista, caracterizada 
por uma viso gerencial, onde o conhecimento cientifico  traduzido em termos 
tecnolgicos, dando origem aos executivos e tcnicos, cuja competncia  avaliada pela 
capacidade de aplicao de frmulas e tcnicas nas diversas reas da Administrao, 
como Planejamento, Finanas, Marketing, Recursos Humanos, Organizao, Produo 
etc. 
2 Administrao fundamentada em estudos e conhecimentos cientficos originrios das 
diferentes reas do conhecimento humano: Economia, Psicologia, Sociologia, 
Antropologia, Filosofia, Cincias Sociais, Informtica, Matemtica e outros. Caracteriza-
se pela integrao desses conhecimentos e pela sua vinculao aos diferentes tipos de 
sociedade e de diferentes abordagens acerca da natureza humana. Portanto, parte do 
pressuposto de que a Administrao est fundamentada numa teoria social e, em 
conseqncia,  ideologicamente comprometida. 
3 A Administrao, por outro lado, poder ser vista como um processo de interao 
comunicativa livre de distores, em que os parceiros, representantes do capital e do 
trabalho, buscam a satisfao de suas necessidades e a realizao de seus objetivos, de 
forma negociada, tendo os seguintes requisitos: veracidade, autenticidade e justia, que 
se baseiam nas exigncias de: 
a) verdade, que se refere  existncia concreta de algo (recursos financeiros, lucro obtido, 
estoque etc.); 
b) legitimidade, isto , o que  apropriado ao contexto, j que as mesmas palavras 
significam diferentes coisas em diferentes situaes; 
c) sinceridade, que diz respeito ao que o locutor quer dizer realmente,  aquilo que est 
sendo dito; 
d) compreensibilidade (ou clareza), isto , o que est sendo dito tem significado claro e 
coerente. 
As metas, os objetivos, a definio das tarefas e a sua diviso, os procedimentos, os 
sistemas gerencial, de produo, de comercializao, as polticas, assim como aquelas 
referentes s relaes de trabalho (salrio, condies de trabalho, benefcios, obrigaes 
e responsabilidades etc.), so estabelecidos neste processo de discusso e negociao 
e resultam dele, desde que os requisitos de veracidade, autenticidade e justia sejam 
respeitados. 
A Administrao, dentro desta perspectiva,  tomada como processo e, como tal,  
dinmica, sofre mudanas e pressupe conflitos, foras antagnicas, ao mesmo tempo 
que persegue um aperfeioamento compromissado com a interao comunicativa. 
Para que a Administrao possa chegar at aqui, ela deve estar centrada na crena do 
indivduo como um ser inteligente e com vocao para a liberdade, o que d o 
passaporte para a autodeterminao responsvel. O individuo tem o direito de ser ele 
nos seus desejos, sentimentos, na busca do prazer, na liberdade de pensamento. 
116 



Em funo de sua autodeterminao e de sua liberdade  que o sujeito assumir, nas 
organizaes e na sociedade, a responsabilidade na parceria da construo de uma 
sociedade mais justa e eqitativa. 
RESUMO 
A Psicologia como cincia do comportamento humano, quando aplicada  administrao, 
envolve um comprometimento ideolgico que ir responder pelos conceitos bsicos 
referentes  natureza humana, ao tipo de sociedade e ao papel da organizao dentro da 
sociedade. 
A ideologia da sociedade justifica a forma pela qual ela se organiza e funciona, inserindo 
tambm a discusso da Natureza Humana. 
Existem trs vertentes na abordagem da essncia da Natureza Humana: 
 Ser condicionado  comportar-se- em funo de estmulos externos, 
condicionamentos socioeconmicos ou culturais. 
 Ser inteligente  o ser humano  concebido como um ser pensante, desenvolvendo um 
processo cognitivo. No entanto, no se elimina a 
possibilidade de faz-lo pensar, sentir e agir como a sociedade o deseja. 
 Ser inteligente e livre  com vocao para a liberdade, desenvolve a sua conscincia 
critica, que  resultante de um processo contnuo entre fatores internos e externos em 
interao. 
Tipos de sociedade 
Positivista Liberal (Comte e Durkheim): Existncia de uma elite pensante que define as 
atribuies para a grande massa, dominando a sociedade. A sociedade est 
fundamentada na Ordem e no Progresso que garantiro a manuteno e preservao do 
status quo estabelecido atravs da autoridade superior. A elite  mantida atravs do 
consenso e da solidariedade social. 
Estrutura de poder piramidal. 
Humanista Radical: Caracteriza-se pelo pluralismo que se concretiza por meio de um jogo 
de foras dos vrios grupos sociais (capital e trabalho). 
As relaes econmicas e de poder resultam da interao das foras scio-econmicas 
e polticas. Partem de uma premissa bsica de que os indivduos so seres inteligentes e 
livres, o que implicar uma aprendizagem-ao (reflexo e conscincia critica) que 
conduzir ao estabelecimento de uma ordem socioeconmica que possibilitar uma 
distribuio mais eqitativa de bens socioeconmicos. 
A autodeterminao responsvel est alicerada na convico de que o ser humano , na 
sua essncia, inteligente e livre. 
A inteligncia d-lhe a capacidade de perceber o mundo que o rodeia, elaborar inter-
relaes dos diferentes fatos e situaes, de refletir sobre eles criticamente. Esta 
competncia crtica  o elemento fundamental do que se est chamando de liberdade, 
entendida como a conscincia crtica que o indi-
117


 
vduo tem de si mesmo, de sua realidade interna e externa. Ele reconhece seu valor e seu 
direito de ter uma vivncia diferenciada. Portanto, os seus sentimentos, desejos, 
pensamentos, emoes e o seu prprio prazer so diferenciados daqueles da 
organizao. A autodeterminao e a responsabilidade individual so elementos 
resultantes do processo que se estabelece na interao do indivduo com a organizao e 
com a sociedade, quando a interao comunicativa, com bases na veracidade, 
autenticidade e justia,  estabelecida. 
O consenso alcanado no decorrer do processo de comunicao interativa se distingue 
do consenso obtido pela manipulao de sentimentos, valores, pensamentos, desejos e 
do prprio prazer do indivduo, alcanado por meio de mecanismos organizacionais. O 
consenso aqui definido  alcanado atravs da problematizao das normas da 
instituio social e da sua legitimidade. 
Esta problematizao  explicitada a partir do debate em que argumentos e contra-
argumentos so apresentados, sempre obedecidas as condies de veracidade, 
autenticidade e justia. Estabelece-se uma interdependncia entre a organizao e os 
seus membros, no que se refere s necessidades da organizao (inclusive sua 
sobrevivncia, lucratividade) e s necessidades dos indivduos e seus membros. A 
interao comunicativa pressupe um abandono por parte dos parceiros (os atores e 
locutores sociais) da busca de vantagens uni- laterais, portanto, da explorao e da 
dominao. 
As mudanas exigidas para a existncia da comunicao interativa incluem a 
transformao dos processos, sistemas e de estratgias organizacionais usados pelas 
organizaes, tais como conscientizao dos indivduos (filosofia de empresa), 
manipulao pelo treinamento, incentivos e outros. 
As reformas radicais tomam a forma de pequenas mudanas que so efetuadas no 
processo administrativo, pelos locutores, na organizao (como diretores, gerentes, 
supervisores); elas podero ser a mudana nos processos e contedos de treinamento, 
de seleo, de organizao e de gerenciamento do processo produtivo. Neste processo, 
criam-se as condies para o estabelecimento da comunicao interativa, dando-se 
oportunidade para os indivduos- membros da organizao tomarem-se parceiros desse 
processo, inversamente  sua posio de objetos, ou simples atores, de um jogo de 
poder em que o mais forte atravs de seus representantes exerce a dominao. 
A ideologia foi definida como um conjunto lgico, sistemtico e coerente de 
representaes (idias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e 
prescrevem aos membros da sociedade o que devem e como devem pensar, valorizar, 
sentir e fazer (Chaui). 
A ideologia tem, portanto, a funo de dar aos membros da sociedade ei ou das 
organizaes uma explicao das diferenas sociais, polticas e culturais, sem atribuir tais 
diferenas  diviso da sociedade em classes. Por outro lado, a ideologia pode ser ainda 
considerada como aquela relao que os individuos criam, ou imaginam (fantasiam) com 
suas condies concretas de existncia. Na organizao,  medida que os indivduos 
passam a pensar, sentir e agir de acordo com aquilo que a organizao deseja e induz 
(vestir a camisa da empresa), a ideologia toma a forma de falsa conscincia 
118 



Foi mostrado que toda sociedade tem uma ideologia, bem como as organizaes. A 
ideologia predominante na sociedade  traduzida nas organizaes atravs dos valores, 
das normas, dos procedimentos. A Administrao na sociedade capitalista est 
fundamentada na ideologia capitalista, ou seja, o capital predomina sobre o trabalho e as 
suas relaes (capital x trabalho) se fundamentam na explorao do trabalho, na gerao 
da mais-valia. A Administrao no  ideologicamente neutra. Os valores que a norteiam 
esto diretamente vinculados  sua ideologia e so explicitados na diviso hierrquica, na 
natureza e forma de realizao das tarefas, nos seus objetivos (da organizao), na 
distribuio de poder interno (quem decide o qu), na definio tecnolgica (que tipo de 
tecnologia adota), nas polticas e sistemas gerenciais de recursos humanos, de relaes 
de trabalho, sindicais, nos sistemas de incentivos adotados, bem como nas polticas 
referentes ao mercado,  sociedade e aos concorrentes. 
A Administrao foi conceituada como um conjunto integrado e coerente de 
conhecimentos cientficos, originrios de diferentes reas do conhecimento humano. 
Entretanto, h tendncias divergentes quanto ao conceito de Administrao, bem como 
dos objetivos, funo e forma pela qual deve ser exercida e ensinada. 
A Administrao comprometida com os aspectos tcnicos, caracterizada pela sua funo 
managerial, considera as teorias do ponto de vista de sua funcionalidade. Conhec-las e 
aplic-las  o fundamento bsico do administrador de alto nvel. No h questionamentos, 
especialmente dos seus pressupostos ideolgicos.  preponderncia do prtico, da 
cpia, do pouco criativo, dos modelos importados do mundo das organizaes. 
Foi mostrado que a Administrao, para ser um instrumento de desenvolvimento scio-
econmico e industrial, dever sofrer mudanas radicais, no s na forma como  
exercida, mas especialmente no que ela , no contedo e nos seus pressupostos 
ideolgicos, especialmente no que se refere  natureza da sociedade e  essncia da 
natureza humana. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Ideologia:  um conjunto lgico, sistemtico e coerente de representaes (idias e 
valores) e de normas ou regras (de conduta, que prescrevem aos membros da 
sociedade o que devem fazer, pensar, agir e sentir e como devem faz-lo, sendo, 
portanto, um corpo explicativo. 
Misso da organizao: compromisso social ligado  produo, qualidade, atividade 
scio-poltica dentro da sociedade. Natureza da relao que mantemos com seus 
membros e com sociedade. 
Natureza humana voluntarista: ser inteligente e livre. O ser humano  entendido como um 
ser inteligente (pensante) e livre, isto , um ser com vocao para a liberdade  
conscincia critica; com o conhecimento de si mesmo e da realidade que o cerca. 
119 



Natureza humana determinista: ser condicionado e ser inteligente. O ser humano, sob o 
aspecto determinista, poder ser um ser condicionado ou um ser inteligente. 
 Ser condicionado:  resultante do meio externo, dos condicionamentos 
socioeconmicos e culturais, portanto, comportar-se- em funo de estmulos externos 
(behaviorismo ou comportamentalismo). 
 Ser inteligente: significa que os indivduos so seres pensantes. Percebem, memorizam, 
raciocinam, abstraem. H um crescimento e desenvolvimento mental. Possuem valores, 
sentimentos e emoes, desejos e necessidades que, entretanto, podem ser conduzidos 
e direcionados pelas organizaes e pela sociedade mais ampla. 
Sociedade de acordo com seus pressupostos ideolgicos: pressupostos sociolgicos 
originrios do Positivismo. Parte-se do principio de que numa dada sociedade deveria 
sempre existir uma elite pensante que definiria o que a grande massa deve fazer, sentir e 
completar. 
Pressupostos sociolgicos originrios do Humanismo Radical. Tm como caracterstica 
bsica o pluralismo, que se concretiza por meio de um jogo de foras dos vrios grupos 
sociais. O poder  resultante de um intercmbio de foras socioeconmicas e polticas. 
Administrao: 
a) conjunto integrado e coerente de conhecimentos cientficos das diferentes reas do 
conhecimento humano, aplicados s organizaes, de forma a lev-las a garantir a sua 
sobrevivncia, eficincia e eficcia em sintonia com a autodeterminao de seus 
membros. Administrao como cincia aplicada:  comprometida ideologicamente com 
uma teoria social (sociedade, sua organizao e funcionamento, com uma proposta de 
natureza humana condicionada, inteligente, e inteligente e livre). 
b) como conjunto de tcnicas, visando alcanar os objetivos:  caracterizada pela viso 
gerencial. O que importa  a aplicao de tcnicas e o conhecimento de teorias. No h 
questionamento das ltimas teorias. No se preocupa com o conhecimento cientifico que 
fundamentou as tcnicas e tampouco com os pressupostos ideolgicos (tipo ou natureza 
da sociedade e essncia de natureza humana). 
 a Administrao de orientao americana a mais solicitada pelas grandes 
organizaes, especialmente as multinacionais e  esta a abordagem predominante nas 
universidades e escolas de maior conceito no Brasil. 
c) como processo de interao comunicativa  livre de distores (manipulaes) em que 
os parceiros representantes do capital e do trabalho buscam a satisfao de suas 
necessidades e a realizao de seus objetivos de forma negociada, tendo os seguintes 
requisitos: veracidade, autenticidade e justia normativa (viso ideolgica). 
120 



APLICAO 
1. Identifique a ideologia dominante nas empresas, no que se refere ao tipo de sociedade 
por elas proposto. 
2. Identifique o que a empresa compreende como essncia da natureza humana. 
3. a) Explicite esta identificao atravs das normas, controles, polticas de recursos 
humanos, polticas de relaes trabalhistas, tecnologias adotadas (processo produtivo), 
treinamentos, tcnicas e estratgias para os nveis gerenciais. 
QUESTES 
1. Por que a organizao  ideologicamente comprometida? Explique e d exemplos. 
2. Por que a Administrao  ideologicamente comprometida? 
3. De que forma este compromisso ideolgico da Administrao se explicita? D 
exemplos. 
4. Em que aspectos ou fatores organizacionais pode-se identificar a ideologia dominante 
numa organizao? 
5. Quais as conseqncias, para a organizao, da adoo da Administrao 
fundamentada no eterminismo como pressuposto da natureza humana? 
6. Quais as conseqncias, para a organizao, da adoo da Administrao 
fundamentada no voluntarismo como pressuposto da natureza humana? 
7. Quais as conseqncias, para o indivduo, da adoo da Administrao fundamentada 
no determinismo como pressuposto da natureza humana? 
8. Quais as conseqncias, para o indivduo, da adoo da Administrao fundamentada 
no voluntarismo como pressuposto da natureza humana? 
9. Quais as conseqncias, para a sociedade, da adoo da Administrao 
fundamentada no determinismo como pressuposto da natureza humana? 
10. Quais as conseqncias, para a sociedade, da adoo da Administrao 
fundamentada no voluntarismo como pressuposto da natureza humana? 
11. Por que a Administrao fundamentada nos pressupostos deterministas tem como 
estratgia bsica a padronizao do comportamento dos membros da organizao? 
12. Como a concepo do ser humano como inteligente e livre poder contribuir para a 
eficcia e a eficincia da organizao? O que deve ser modificado nas atuais propostas 
das teorias administrativas? 
121 



13. Como se pode entender a misso da organizao? 
14. O que se entende por consenso na Administrao co-responsvel? 
15. Quais as condies para que possa ser alcanada? 
16. Qual a diferena entre o consenso usado peias organizaes e aquele proposto como 
um dos elementos do processo de reforma radicai e de autodeterminao dos membros 
da organizao? 
17. O que  a reforma radical? Como ela pode ser implementada? 
18. O que  interao comunicativa? 
19. Qual a diferena entre interao comunicativa e processo de conscientizao adotado 
na abordagem do homem organizacional? 
Explique por qu. 
BIBLIOGRAFIA 
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Barbara Freitag e Srgio Paulo Rouanet. 
KATZ, D. & KAHN, Robert. Psicologia Social das Organizaes. So Paulo: Atlas, 1984. 
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LAPASSADE, G. Grupos, Organizaes e Instituies. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 
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MARX, Karl. O Capital. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1979. Cap. 5, v. 1. 
__________ Manuscritos Economicos y Filosficos. Madri: Alianza Editorial, 1985. 
PAGS, Max e outros. O Poder das Organizaes. So Paulo: Atlas, 1987. 
122 



5.PSICOLOGIA: 
CINCIA OU BOM SENSO? 
Ao terminar a leitura deste capitulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender a Psicologia como cincia. 
2. Compreender o objeto da Psicologia. 
3. Compreender o dilema tico do uso da Psicologia na organizao. 
A preocupao de conhecer o comportamento humano tem sido uma constante desde os 
primrdios da Humanidade. A anlise da evoluo dessa preocupao mostra diferentes 
tentativas, cada uma delas baseada nas crenas e nos conhecimentos da cultura em que 
se inspira. A crena de que o carter da criana seria determinado pela posio dos 
astros no momento do seu nascimento fundamenta-se na Astrologia. Essa crena, apesar 
de milenria, ainda persiste em determinados grupos culturais. A semelhana fisica dos 
indivduos com os animais sugere outra explicao do comportamento humano. Assim,  
medida que os indivduos apresentam certas semelhanas fsicas com os animais, 
tambm apresentam semelhanas com o comportamento desses animais: agressividade 
do leo, lealdade do co, mansido do carneiro, sagacidade do gato etc. 
Provrbios e a Psicologia 
As crenas populares constituem tambm outras formas de explicao do 
comportamento. Essas crenas so transmitidas de gerao a gerao atravs dos 
provrbios. Estes, por sua vez, pressupem hipteses bsicas que so tomadas como 
postulados cientficos e que passam a orientar as aes humanas e o relacionamento 
social. Quando se afirma o lder nasce feito e faa trabalho de branco h um 
pressuposto bsico de que a hereditariedade gentica  o fator determinante do 
comportamento humano. Por outro lado, provrbios como as roupas fazem o homem e 
diga-me com quem andas e dir-te-ei quem s tm como principio bsico a 
predominncia dos fatores ambientais. Os provrbios nunca  tarde para aprender e 
no se ensina truque novo a cachorro velho mostram crenas e posies diferentes 
quanto  aprendizagem humana. De um lado, surge a crena de que os seres humanos 
tm a capacidade de aprender durante toda a sua vida; de outro, afirma-se que h uma 
limitao com a idade cronolgica. 
123 



As idias e opinies de pensadores e a Psicologia 
Observa-se, ainda, que muitas vezes se confunde a Psicologia com as idias e opinies 
de escritores e pensadores acerca dos sentimentos e da realidade psicolgica dos seres 
humanos. Na realidade, como mostram McKeachie e Doyle (1972), trata-se de 
especulaes, de reflexes pessoais. So, portanto, proposies subjetivas, definidas de 
acordo com um ngulo particular, que no podem, conseqentemente, ser confundidas 
com postulados cientficos. 
Ao comparar as idias e as reflexes de pensadores com provrbios e crenas 
populares, observa-se que as primeiras trazem uma lgica maior, so fruto de 
observaes pessoais e de reflexes, enquanto os provrbios e as crenas populares 
carecem de qualquer preocupao reflexiva. Falta, entre tanto, nas idias e reflexes dos 
pensadores a identificao das leis e dos princpios bsicos que determinam os 
processos psicolgicos e dirigem o comportamento humano. 
Bases cientfficas da compreenso do comportamento humano 
A correta compreenso das diferenas individuais, dos grupos, das comunidades e das 
organizaes como entidades psicossociais pode levar  compreenso e a predies 
razoveis do comportamento individual, do grupo, da organizao e da comunidade. No 
decorrer do desenvolvimento da Psicologia, muitos cientistas buscaram, e ainda buscam, 
aplicar o mtodo cientifico ao estudo dos fenmenos psicolgicos, na tentativa de 
conhecer as leis e os princpios que os regem. Freud (1895-1935) utilizou a observao e 
a anlise de contedo dos relatos de seus pacientes. Thorndike (1911-1932) observou 
animais no processo de aprendizagem (abertura de caixas para obter alimentos). Kurt 
Lewin (1926-1946) observou grupos (observao de processos grupais tais como 
liderana, coeso, formao de normas, definio de objetivos etc.), estudou a natureza e 
a origem das foras grupais e introduziu a pesquisa-ao como uma forma de 
investigao e de interveno nos fenmenos de mudana social, isto , dos valores do 
grupo e/ou da sociedade e conseqentes mudanas das suas estruturas. Miller e Dollard 
(teoria do estimulo-resposta) estudaram a personalidade dentro da abordagem S-R e 
realizaram investigaes que ilustram e testam a posio terica que adotaram. Piaget, 
(1920-1980) psiclogo suo, epistemlogo e filsofo, dedicou sessenta anos de sua vida 
ao estudo do desenvolvimento da inteligncia humana e ao desenvolvimento dos 
diferentes tipos de pensamento.  conhecido como psiclogo infantil por ter desenvolvido 
suas pesquisas com crianas. 
Defmio e evoluo da Psicologia como cincia 
A palavra Psicologia tem suas origens em duas palavras gregas: psyche, que significa 
alma, e logos que significa discurso. 
A Psicologia, nos seus primrdios, era considerada uma rea de estudo da 
Filosofia denominada Filosofia Mental. A mente era um dos tpicos estudados 
124 



por esta rea. Entretanto, no decorrer dos tempos os fflsofos passaram a traduzir o 
termo psyche por mente e a psicologia passou a ser cincia da mente. O estudo da 
mente encontrou grandes dificuldades. No se conseguiu chegar a uma conceituao 
aceita por todos. A sua prpria natureza  controvertida. A sua investigao mobiliza as 
camadas mais profundas do inconsciente, sendo, portanto, ameaadora para o prprio 
investigador. Por esta razo, o estudo da mente deu origem a supersties e 
preconceitos, alguns deles ainda presentes. O psiclogo  considerado um adivinho, com 
poderes especiais para identificar problemas, sentimentos, reaes psicolgicas e 
emoes dos demais seres humanos, assim como para interferir em suas mentes. A 
Psicologia confunde- se com as chamadas cincias ocultas. 
A Psicologia, entretanto, somente conseguiu integrar-se s Cincias Sociais  medida 
que o seu objeto foi definido como o comportamento observvel dos seres vivos (humano 
e animal). Porm, as diversas teorias psicolgicas tm entendido esse objeto de formas 
diferentes por terem estas teorias partido de compreenses ou paradigmas de 
pensamento diferentes acerca do que  o ser humano. 
Divergncias na definio de comportamento humano 
Para os behavioristas (comportamentalistas), o comportamento humano compreende 
apenas as reaes observveis de forma direta. Os cognitivistas (entre eles, Freud e Kurt 
Lewin) conceituam o comportamento observvel de forma mais ampla, ou seja, 
consideram-no como sendo todas as reaes do organismo, inclusive as inferidas de 
outros comportamentos. Os processos psicolgicos no passveis de observao direta 
integram igualmente esse conceito de comportamento. Exemplos deles so os processos 
perceptivos, a memria, a cognio, o raciocnio, os motivos, os sentimentos etc. Para 
essas teorias, todos os processos psicolgicos so comportamentos observveis e, 
portanto, so objeto das cincias psicolgicas. 
Estas divergncias caracterizam a influncia do paradigma de pensamento (Khun,1994) 
seguido pelos psicolgos pertencentes s diversas correntes psicolgicas. Isto significa 
dizer que cada pesquisador parte de valores e de pressupostos filosficos que orientam a 
sua concepo do ser humano, ou seja, o que ele , bem como a forma pela qual o 
comportamento humano dever ser estudado. Assim, pode-se observar que os 
fundadores e os seguidores da corrente behaviorista (comportamentalista) partiram do 
pressuposto materilaista do ser humano, para eles o individuo  uma entidade biolgia, 
constitudo por u m conjunto de orgos interligados sob o comando do crebro. O 
comportamento humano  explicado pelas conexes cada vez mais elaboradas da rede 
de neuronios e isto se d em contextos ambientais especficos. O ser humano  reduzido 
ao sistema fisiolgico e o estudo do comportamento humano deve ser objetivo, estudando 
as leis do comportamento humano e animal da mesma forma que so estudadas as leis 
do comportamento fsico e qumico de um comportamento qualquer (Guillaume, 1942). O 
paradigma de pensamento do- 
125 



minante  a concepo materialista do ser humano e a idia de cientificidade tendo como 
exigncia bsica a relao causa-efeito (mecanicismo cartesiano), a observao direta e 
a quantificao. 
J os cognitivistas tm como paradigma de pensamento o ser humano como um ser bio-
psico-social..Partem do pressuposto que o ser humano  ser cognitivo, de desejos, de 
emoes, de linguagem e de interao e comunicao, .pressupem a existncia da 
mente humana. 
Todavia algumas correntes cognitivistas reduzem o ser humano a um elemento especifico 
e temtam explicar e controlar o comportamento humano a partir deste elemento. A 
corrente denominada humanista tem como pressuposto bsico a natureza scio-
emocional do ser humano. Abordam o estudo e o controle do comportamento humano  
partir da identificao dos fatores emocionais e da satisfao das necessidades 
emocionais do ser humano. 
Relao entre escolas, tcnicas e mtodos de comprovao de suas hipteses 
A influncia positivista se faz presente na discusso do carter cientfico da observao 
indireta. Os cientistas de orientao positivista enfatizam a aplicao rigorosa de um 
conjunto de normas e procedimentos defendidos por eles como mtodo cientfico no 
estudo dos fenmenos psicolgicos. Tentam adaptar o fenmeno em estudo ao mtodo 
adotado nas cincias fsicas. 
Influncia dos resultados de observaes e estudos cientificos 
 medida que o campo da Psicologia foi-se ampliando em funo de estudos e 
observaes cientificas realizadas, foi surgindo uma preocupao maior dos psiclogos 
em adotar mtodos e tcnicas mais adequados ao fenmeno em estudo sem, contudo, 
abandonar os requisitos bsicos do mtodo cientfico, isto , a objetivao das 
observaes. Os estudos e experimentos com grupos possibilitaram a sua identificao 
como entidades psicossociais com caractersticas prprias, cujo comportamento se 
distingue do comportamento dos individuos que os constituem. Os postulados e as 
exigncias bsicas do estudo cientifico tm sido mantidos; o mtodo e as tcnicas, 
entretanto, so adaptados ao fenmeno em estudo, ou seja, ao comportamento grupal. A 
Psicologia Social e a Psicologia Organizacional vm-se desenvolvendo da mesma forma. 
A organizao e os grupos, tomados como entidades psicossociais, com caractersticas 
prprias, tm sido nos ltimos anos objeto de pesquisas e de estudos cientficos. A 
representaa social, seu processo de formao, suas influncias nos demais processos 
psicolgicos bem como no sentir e no agir do indivduo tm sido amplamentente 
estudados. 
A mudana social, abordada como um fenmeno comportamental, tem sido tambm 
objeto de estudo cientifico por parte dos psiclogos. A investiga- 
126 



o desse fenmeno por meio da pesquisa-ao  outro exemplo da diversidade e da 
adaptabilidade do mtodo cientifico aos diferentes fenmenos psicossociolgicos. 
Como se pode concluir, a Psicologia vem adotando o mtodo cientifico de formas 
diversas, respeitando no somente a orientao terica daquele que realiza o estudo 
cientifico, mas tambm a natureza do fenmeno em estudo. 
Psicologia e demais cincias 
No momento em que a Psicologia teve seus objetivos definidos em descrevei; explicar e 
predizer o comportamento, conseguiu-se, no decorrer do seu desenvolvimento, 
especialmente com a crescente contribuio de conhecimentos obtidos atravs de 
estudos, experimentos e pesquisas, ampliar e compreender melhor a complexidade de 
seus objetivos. Cada vez mais tem sido abandonada a hiptese de causa nica na 
formao do comportamento humano. O desenvolvimento cientifico de reas do 
conhecimento como Sociologia, Antropologia, Biologia, Cincias Polticas e Economia 
trouxe uma contribuio muito importante para o estudo do comportamento. A integrao 
dos conhecimentos de outras reas do conhecimento humano tem possibilitado a 
identificao de fatores que influenciam o comportamento. E impossvel explicar o 
comportamento atravs de uma causa nica.o comportamento humano  uma resultante 
de fatores psicolgicos e no-psicolgicos, tais como fatores biolgicos, antropolgicos, 
sociolgicos, econmicos, psicolgicos e polticos. Esses fatores interagem, mantendo 
uma dinmica responsvel pela formao, pelo desenvolvimento das caracteristicas e 
processos psicolgicos e consequentemente pela mudana do comportamento. Os 
fenmenos psicolgicos no so estticos e no podem ser explicados, como muitos 
tentam faz-lo, atravs da abordagem linear causa-efeito. 
127


 
Cincia 
Para compreender a Psicologia como cincia,  importante ter presente o que se entende 
por cincia e a forma pela qual a cincia  feita. Por cincia, entende-se aqui a forma 
rigorosa do saber humano, isto , o conjunto de conhecimentos precisos e metodicamente 
ordenados com relao a determinado domnio do saber. Para fazer cincia so 
necessrios: 
a) o mtodo cientfico, isto , o conjunto de etapas, ordenadamente dispostas, a serem 
vencidas na investigao da busca das verdades, O mtodo inclui tcnicas que so os 
modos de fazer de forma mais perfeita algum tipo de atividade, O mtodo  cientfico  
medida que garante a exatido dos conhecimentos adquiridos, assim como o 
desenvolvimento desses conhecimentos; diferentes mtodos podem ser cientficos; 
b) o mtodo cientifico por si s no garante o desenvolvimento cientfico, mesmo porque o 
prprio mtodo dever ser inovado e reformulado quando o objeto do estudo cientifico for 
diferente; 
c) capacidade mental do cientista para realizar operaes mentais de transformao dos 
dados coletados; 
d) conscincia clara do paradigma do pensamento adotado o qual direcionar reflexo 
cientfica; 
e) verdade cientifica significa que  ela feita de certas idias veri-ficadas. No mundo plural 
em que vivemos no existe mais uma verdade mas verdades, e toda verdade  uma 
procura da verdade. As verdades cientficas so temporais e sero sempre ultrapassadas 
quando novos estudos cientficos alcanarem novas verdades. 
Etapas do mtodo cientfico 
O mtodo cientifico tem sido definido como um conjunto de proposies explicitas, 
atitudes e normas de acordo com as quais o investigador ou pesquisador: 
a) coleta dados por meio de observaes sistemticas; 
b) avalia os dados obtidos; 
c) analisa e infere concluses; 
d) divulga os resultados, as concluses e suas interpretaes; 
e) apresenta os resultados de forma a possibilitar a repetio da pesquisa ou do estudo; 
f) integra esses resultados aos obtidos por diferentes pesquisadores, reformula ou inova 
os conhecimentos anteriores e realiza novos estudos a partir dos resultados alcanados 
nas diferentes reas do conhecimento; 
g) generaliza os conhecimentos alcanados, isto , conclui leis gerais universalmente 
vlidas para todos os casos da mesma espcie ou levanta novas hipteses a serem 
pesquisadas. 
128 



No entanto,  a prpria concepo de mtodo cientfico, enquanto mtodo, que se 
modifica. No so somente as tcnicas utilizadas na sua aplicao que variam de uma 
cincia para outra, mas o prprio mtodo. 
Dentro de uma viso cartesiana, o mtodo reduz-se a um conjunto de regras e por si s 
garante a obteno dos resultados desejados. Haver, portanto, vrios modos  uns 
corretos, outros no  de atingir o conhecimento cientifico. Nesse sentido identifica-se 
como tcnica supostamente vlida para a utilizao dos mais diversos domnios da 
cincia. No se discute se os padres aceitos e estabelecidos do mtodo cientifico 
permitem o conhecimento mais perfeito do fenmeno em estudo. Isto , at que ponto 
permitem que o fenmeno em estudo suna com maior pureza, ao mesmo tempo que 
possibilitam a realizao das operaes mentais, as transformaes que caracterizam o 
trabalho cientifico, como acentua Cardoso, Mriam (1972). O mtodo, afirma ela, s  
cientifico  medida que a validade do seu emprego para o problema em estudo 
apresentar o carter de novidade essencial para o desenvolvimento cientifico. Entende-
se, assim, o mtodo como parte de um corpo terico integrado, que envolve as tcnicas, 
dando-lhes sua razo, perguntando- lhes sobre as possibilidades e as limitaes que 
trazem s teorias que servem, no trabalho sobre o seu objeto. Exige-se portanto, a 
reflexo sobre o mtodo, questionando seus prprios fundamentos. Essa reflexo  
fundamental ao exercicio da cincia entendida como a forma rigorosa do saber humano. 
Fazer cincia exige, como acentua Cardoso (1972), a renovao permanente da teoria, 
do mtodo, da tcnica e do objeto. 
O mtodo cientifico foi adotado em Psicologia como uma forma de investigar com maior 
segurana as causas do comportamento e as relaes entre dois ou mais processos 
comportamentais. , portanto, um meio e no um fim em si mesmo. 
Funo das teorias psicolgicas 
As teorias cientficas so enunciados universais, so formulas simblicas ou esquemas 
simblicos, so representaes lingsticas segundo Popper (1972). Para este autor as 
teorias so redes, lanadas para capturar aquilo que se denomina como mundo: para 
racionaliz-lo, explic-lo, domin-lo. A observao, o estudo cientfico, se faz  luz de 
teorias. Uma teoria , pois, um conjunto de enunciados relativos a uma determinada 
realidade ou fenmeno que os permite testar a sua veracidade atravs da pesquisa 
emprica. 
Como enunciados (tericos) so elaboradas a partir da idia ou da concepo que um 
dado cientista tem acerca do fenmeno em estudo. Piaget, por exemplo, ao desenvolver 
postulados tericos acerca do desenvolvimento cognitivo da criana, verificou na 
realidade emprica, atravs da observao cientifica, se estes postulados explicavam o 
processo cognitivo do ser humano. E foi a partir destas verificaes cientficas que 
corrigiu e reformulou a sua teoria, dando  mesma maior credibilidade cientfica. Piaget, 
porm, partiu de um paradigma de pensamento que influenciou a elaborao dos 
postulados 
129 



tericos e o mtodo de pesquisa por ele adotado. A viso da essncia do seu objeto de 
pesquisa, o ser humano como ser bio-psico-social, o levou a olhlo de uma forma 
integrada e considerar, no seu mtodo de pesquisa, as relaes causais como um 
processo de interao de fatores. 
Todavia, as teorias psicolgicas nem sempre foram formuladas obedecendo o rigor 
cientfico e muitas delas, hoje largamente difundidas, nem sequer foram objeto de 
verificao cientfica. A teoria das necessidades humanas de Maslow, a teoria da 
inteligncia emocional e a teoria da learning organization so exemplos 
Entretanto, nem todas as teorias psicolgicas apresentam o mesmo grau de objetividade 
e de valor cientifico. A validade cientifica das teorias psicolgicas podem ser 
identificadas por meio de critrios como: capacidade de explicar fatos psicolgicos, 
possibilidade de revelar relaes no conhecidas entre conceitos e fatos observados e 
capacidade de levantar hipteses e sugestes de explicao do comportamento 
passveis de verificao posterior por meio de novos estudos. As teorias psicolgicas no 
so definitivas. Os conhecimentos adquiridos atravs de novas pesquisas e de novos 
estudos so integrados s teorias, levando-as, assim, a reformulao e atualizao. 
Entretanto, consideraes de ordem tica constituem obstculos  observao e  
descrio dos fatos psicolgicos, bem como  sua divulgao.  importante ressaltar as 
limitaes determinadas pelos direitos humanos, entre eles o direito  privacidade e  
integridade fsica e moral. Essas circunstncias impedem, em Psicologia, a realizao de 
muitos estudos possveis em outras reas do conhecimento humano. 
A Psicologia como cincia e o controle do comportamento humano 
Ao se desenvolver como cincia, a Psicologia trouxe, ao lado de conhecimentos de 
grande importncia para a compreenso do comportamento humano, problemas ticos e 
de valores. 
Kelman j em 1968 mostrava que as pesquisas e os estudos cientficos desenvolvidos 
nas diferentes reas da Psicologia levavam a um conhecimento cada vez mais objetivo e 
sistemtico, o que, em conseqncia, possibilitava o controle e a manipulao do 
comportamento humano. Esses problemas deveriam, segundo ele, preocupar no s os 
psiclogos, como tambm aqueles que fazem uso dos conhecimentos de natureza 
psicolgica no exerccio de diferentes funes, especialmente dentro das organizaes. 
Pesquisadores como Max Pags (1990), Dejours (1994) Chanlat (1990), Akatouf (1993), 
Aguiar (1998), denunciaram a crescente e inescrupulosa utilizao de conhecimentos 
cientficos das diferentes reas das cincias humanas como instrumentos poderosos de 
controle dos seres humanos especialmente pelas organizaes. 
A atitude do cientista do comportamento, diante dos problemas ticos que lhe so 
colocados, quer na sua atividade de pesquisa, quer na atividade de agente de 
interveno, vai depender de seus valores, de suas crenas na natureza humana e nos 
direitos humanos. Ruch e Zimbardo, ao discutirem a com- 
130 



preenso das relaes causais entre os fatos psicolgicos, a identificao dos processos 
psicolgicos envolvidos em determinado comportamento e a identificao da maneira 
como esses processos se desenvolvem, mostraram desde 1971 que esses fatores 
abriam caminho para duas importantes possibilidades. Em primeiro lugar, a possibilidade 
de identificar situaes necessrias para a ocorrncia de diferentes fatos e, por tanto, de 
prever esses fatos. Em segundo lugar, a possibilidade de interferir no prprio 
comportamento ativando ou mesmo provocando o processo que levaria a um 
comportamento desejado. De fato,  medida que se possa caracterizar comportamentos, 
explicar seus contedos e descrever as situaes e condies nas quais eles tendem a 
ocorrer, criam-se condies para um maior controle do comportamento humano. Esse 
controle toma a forma de intervenes na maneira de sentir, de. pensar e de agir das 
pessoas, e constitui um caminho pelo qual se poderia chegar ao planejamento das aes 
e dos sentimentos dos outros seres humanos. 
Psicologia e planejamento do comportamento 
Os autores mostram que, a esse respeito, podem ser observadas duas posies 
antagnicas, tanto entre os cientistas do comportamento, como entre aqueles que se 
utilizam dos conhecimentos cientficos da Psicologia. A primeira posio baseia-se na 
crena de que a liberdade e a autodeterminao do ser humano so inerentes  sua 
natureza e constituem, portanto, um direito inalienvel de cada indivduo. A segunda 
posio parte do pressuposto de que outros podem e devem decidir sobre o que  melhor 
para o indivduo. Assim, evidencia-se, nesta segunda posio, que no s seria possvel, 
como tambm recomendvel, planejar comportamentos de terceiros, condicionando seu 
desenvolvimento em determinada direo. Essa posio leva ao uso de estmulos 
externos, de influncias no identificadas conscientemente pelos individuos. Desta forma, 
o individuo  tomado como mero objeto de influncia, manipulado de acordo com 
objetivos traados pelo agente de interveno e afinal reduzido a um passivo seguidor de 
um plano comportamental elaborado e executado sem o seu conhecimento. 
Ideologia e Psicologia 
A Psicologia, como acentuam Kelman (1968) e Ruch e Zimbardo (1971), pode ser 
utilizada como um instrumento de libertao do ser humano. Pode ser utilizada para ajud-
lo a libertar-se quer das barreiras internas, quer das externas, que impedem seu 
crescimento e desenvolvimento. Mas tambm pode ser usada como um instrumento para 
conduzir o individuo de acordo com os interesses de outros, seja da sociedade em 
sentido mais amplo, seja das organizaes, seja de grupos ideolgicos. Aqui, o dilema 
tico coloca-se em dois nveis. Primeiro, ao definir como seu objetivo o conhecimento 
cientifico do comportamento, a Psicologia poder, fatalmente, envolver o controle e a ma-
131


 
nipulao do comportamento humano, colocando um problema tico para aqueles que 
acreditam na liberdade e na autodeterminao dos indivduos como seres humanos. O 
segundo dilema reside na direo a ser dada ao comportamento  e aqui o problema 
tico  ainda mais grave. Em outras palavras: 
Quem deve manipular e controlar o comportamento humano? Quais os objetivos dessa 
manipulao e controle? Quem, e a titulo de que, estar autorizado a exercer tais 
funes? 
Essas so perguntas que ainda no encontraram respostas definitivas. Mesmo assim, o 
que resulta claro de uma reflexo sobre essas questes  que a preveno das nefastas 
conseqncias de um uso equivocado dos instrumentos psicolgicos  tarefa no apenas 
dos agentes, mas tambm dos objetos desses usos:  medida que os indivduos se 
tomarem conscientes das foras que influenciam seu comportamento, tero condies 
objetivas de se contra- porem a influncias e manipulaes, tornando-se mais livres e 
responsveis pelas suas prprias aes. O conhecimento cientifico da Psicologia pode, 
em sntese, ser usado para libertar ou escravizar, para formar os indivduos seres atuantes 
ou seguidores passivos. 
RESUMO 
O objeto da Psicologia foi definido como o comportamento observvel dos seres vivos 
(animal e humano) e somente aps esta definio a Psicologia conseguiu integrar-se s 
Cincias Sociais. As divergncias na conceituao do objeto da Psicologia foram 
discutidas, mostrando-se os pressupostos bsicos das diferentes abordagens. Os 
objetivos da Psicologia foram definidos como sendo os de descrever, explicar e predizer 
o comportamento. A integrao das informaes das demais reas do conhecimento 
humano  Psicologia foi mostrada como uma das caractersticas do desenvolvimento da 
Psicologia como cincia. Ao mesmo tempo, discutiram-se os problemas ticos colocados 
pelo desenvolvimento da Psicologia como cincia, desenvolvimento que possibilita cada 
vez mais o controle e o planejamento do comportamento humano. 
Mtodo cientifico e o objeto da Psicologia foram analisados, enfatizando- se a natureza 
do fenmeno em estudo, que exige flexibilidade cientifica e diferentes mtodos e tcnicas 
de estudo. As diferentes funes da Psicologia foram discutidas. Salientou-se a 
importncia do paradigma de pensamento e do sistema de valores do cientista na prpria 
definio da Psicologia, bem como na sua aplicao. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Behaviorismo: escola psicolgica que limita o comportamento s aes diretamente 
observveis dos seres vivos (humano e animal). 
Cognitivismo: escola psicolgica que considera os fatores internos (conscincia-
inconscincia) como objeto da Psicologia. 
132 



Comportamento humano: resulta da interao de fatores ambientais e genticos. 
Ideologia: conjunto de crenas ou sistemas de valores aceitos por um indivduo, pelos 
grupos ou pela sociedade. 
Mtodo cientfico: instrumento utilizado pela cincia na sondagem da realidade. 
Instrumento formado por um conjunto de procedimentos, mediante os quais os problemas 
cientficos so formulados e as hipteses cientificas so examinadas. 
Objetivos da Psicologia: descrever, explicar e predizer comportamentos. 
Objeto da Psicologia: comportamento observvel nos seres vivos (animal e humano). 
Pesquisa-Ao: processo em que o cientista social estuda o processo social ao mesmo 
tempo em que participa na interveno da realidade. 
Psicologia: cincia do comportamento dos seres vivos (humano e animal). 
Cincia: forma rigorosa do saber humano. Resulta da investigao sistemtica e das 
operaes e transformaes mentais que o cientista realiza com os dados observados. A 
cincia no  verdade acabada. Poder ser desenvolvida ou modificada por novas 
descobertas cientficas. 
APLICAO 
1. Exemplos de observaes cientfficas na Psicologia 
1.1. Experincia do psiclogo social Salomon Asch 
Asch estudou a influncia das normas grupais sobre o comportamento de seus membros. 
A hiptese levantada por esse pesquisador era a de que as percepes dos indivduos 
so modificadas em funo dos padres de perceptibilidade do grupo. 
Experimento 
Organizou-se um grupo de seis indivduos do sexo masculino, de idade e conhecimentos 
acadmicos semelhantes. Os indivduos deviam emitir opinies sobre o tamanho de 
linhas que lhes eram apresentadas, duas a duas, em cartes individuais. Os participantes 
do experimento, com exceo de um, foram orientados para dar respostas erradas, ou 
seja, para afirmar que as linhas eram iguais, quando na realidade eram diferentes, e vice-
versa. O indivduo que no havia recebido esta orientao passou por um processo de 
influncia grupal: no final de algumas exposies dos cartes, passou a duvidar das 
prprias afirmativas e comeou a dar respostas iguais s do grupo, ou seja, erradas. Este 
experimento possibilitou que se inferisse a influncia das foras grupais no 
comportamento de seus membros. 
133 



QUESTES 
1. Explique a diferena entre Psicologia como cincia e bom senso. 
2. Qual o objeto de estudo da Psicologia? 
3. Explique a diferena entre comportamento observvel diretamente e comportamento 
inferido atravs de outros comportamentos. Quais os sistemas de valores que embasam 
essas definies? 
4. Explique por que a compreenso e o conhecimento objetivo dos processos 
psicolgicos envolvidos em determinado comportamento permitem o exerccio de uma 
maior influncia na mudana do comportamento. 
5. Explique por que a manipulao do comportamento humano  um problema tico. 
6. Explique por que o comportamento humano na organizao no pode ser explicado 
somente por meio de fatores psicolgicos. 
7. Quais as caractersticas de um mtodo cientifico? 
8. O que  mtodo? 
9. O que  cientfico? 
10. O que  cincia? 
TRABALHO PRTICO 
Trabalho de grupo 
1. Pesquise na Internet e junto a diferentes organizaes (pblica, privada, nacional e 
multinacional) os objetivos da aplicao dos conhecimentos psicolgicos, assim como as 
formas de sua aplicao (seleo psicolgica, treinamento etc.). 
2. Analise o sistema de valores que os fundamentam. 
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6.TEORIA PSICANALTICA E SUA 
APLICAO NAS ORGANIZAES 
Ao terminar a leitura deste capitulo, voc dever ser capaz de: 
1. Identificar os pressupostos bsicos da teoria psicanaltica. 
2. Conhecer os conceitos principais da teoria psicanaltica. 
3. Compreender o processo de falsificao de conscincia. 
4. Compreender a distino entre desejos e necessidades. 
5. Compreender o mecanismo de defesa psicolgica (interna). 
6. Compreender o processo de represso (externa). 
7. Compreender a psicodinmica do trabalho. 
8. Compreeder o sofrimento humano no trabalho. 
A teoria psicanaltica teve como fundador Freud, nascido em 1856, na ustria. Freud 
formou-se em Medicina seu interesse inicial foi o estudo dos distrbios mentais, sua 
compreenso e seu tratamento. Entretanto, Freud no seguiu o caminho rgido e 
oficialmente traado pelas cincias mdicas da poca, que estavam fundamentadas 
basicamente na Biologia, na Histologia e na Filosofia. Na verdade, vrios dos conceitos 
que ele adotou foram considerados, na poca, acientificos metafsicos e mentalsticos 
Freud e o mtodo cientfico 
Freud estudou os aspectos irracionais da vida humana. Sua primeira grande contribuio 
 Psicologia foi a introduo do mtodo cientifico na rea da irracionalidade. Ser 
cientifico, segundo Freud, no significa necessariamente escolher um fenmeno racional 
como objeto de estudo, mas aplicar o mtodo cientfico ao estudo dos fenmenos, 
independentemente de os fenmenos estudados serem considerados racionais ou 
irracionais. Com isso, Freud integrava  Psicologia o estudo dos processos mentais. O 
prprio Freud enfrentou o desafio representado pelo novo tipo de estudo cientifico por ele 
proposto, e sua continuidade tem sido garantida por cientistas do comportamento, em 
diferentes universidades e centros de pesquisas psicolgicas. 
Freud desenvolveu a toria geral da dinmica da personalidade, o estudo da natureza 
humana no decorrer das vrias faixas de idade e a teoria do impac-
137 



to da sociedade, da cultura e da religio sobre a personalidade. A psicanlise 
desenvolveu-se inicialmente como uma tcnica psicoteraputjca, para depois 
transformar-se em uma teoria psicolgica que abrange quase toda a rea das 
personalidades normal e anormal, englobando os campos da Antropologia, Sociologia, 
Histria e Artes. 
Conceitos principais 
Os conceitos principais da teoria psicanaltica so os de energia, libido e pulso; as 
subdivises da personalidade (id, ego e superego); as qualidades 
mentais (consciente, pr-consciente e inconsciente); os instintos; as defesas do 
ego e a formao das caractersticas individuais. 
Energia 
A energia mental  algo que pode ser transformado, dirigido, acumulado, preservado, 
descarregado e dissipado, mas no pode ser totalmente destrudo.H diferentes tipos de 
energias mentais, mas todas apresentam a mesma natureza e os mesmos impulsos 
instintivos inatos. 
Lbido 
 a energia que constitui o substrato das transformaes da pulso sexual. Estas 
transformaes podem ser quanto ao objeto (deslocamento dos investimentos), quanto ao 
alvo (que pode ser o mecanismo de sublimao) e quanto  fonte (diversidade das zonas 
ergenas). 
Deslocamento 
 o mecanismo de defesa caracterizado por transferncia de emoes ou fantasias do 
objeto a que estariam originalmente associados para um substituto, ou seja, transferncia 
da libido de uma forma de expresso para outra. 
Pulso 
Foras que atuam na vida mental. Uma vez em interao, elas inibem ou 
favorecem o desenvolvimento umas das outras.  um processo dinmico que 
consiste em uma presso, ou fora (carga energtica, fator de motricidade) que faz tender 
o organismo para um alvo. Para Freud, a pulso nasce de uma tenso corporal e visa 
suprimir esta tenso. 
138 



A pulso  definida por meio de quatro elementos: o impulso, a fonte, o fim e o objeto. O 
impulso, que  a magnitude da pulso; a fonte, que  o rgo do qual ela emana; o fim, 
que consiste na descarga do impulso que traz satisfao e o objeto, por meio do qual a 
satisfao pode ser obtida. 
Subdivises da personalidade 
Id 
O id  a parte mais obscura, inacessvel e desorganizada da personalidade e o mais 
primitivo e mais velho dos sistemas mentais. O id constitui o plo pulsional da 
personalidade; os seus contedos, expresso psquica das pulses, so inconscientes, 
em parte hereditrios e inatos, e em parte recalcados e adquiridos. O id contm apenas 
idias de gratificaes imediatas, os desejos, onde investe toda sua energia. Limita-se  
procura da satisfao dos desejos. 
O id ignora a realidade objetiva; sua realidade  subjetiva e autstica. No possui valores, 
tica ou moral. Os contedos do id so permanentes, no se modificam com o passar do 
tempo; nada nele  passado ou esquecido; para ele, as leis da lgica e da razo no 
existem. Dentro do id podem coexistir desejos contraditrios, sem que um negue o outro. 
Sua energia  mais fluida que a das outras regies da personalidade. A funo do id  a 
busca do prazer. O processo psquico por ele usado  o primrio, ou seja, a descarga da 
tenso to logo esta o atinja. O id possui os dois tipos de pulses: pulses de vida e 
pulses de morte e  neste sentido que  concebido como o grande reservatrio da 
libido e, igualmente, da energia pulsional. 
Ego 
 a parte organizada da personalidade.  o executivo, envolvendo todas as funes 
denominadas especificamente psicolgicas: percepo, aprendizagem, memria e 
raciocnio. O ego est numa relao de dependncia quanto s reivindicaes do id, bem 
como dos imperativos do superego, e s exigncias da realidade. Embora se situe como 
mediador encarregado dos interesses da totalidade da pessoa, a sua autonomia  
totalmente relativa. 
Quando relacionado ao que Freud denominou, no aparelho psquico, de pr-consciente, o 
ego  mais vasto do que esta instncia,  medida que as suas operaes defensivas so 
em grande parte conscientes. Para Freud, o ego tem prazer na defesa, em todas as 
ocasies verdadeiramente srias, ele volta atrs, reencontra os seus objetivos e 
prossegue a sua resistncia. O ego  descrito por Freud como uma organizao de 
representaes caracterizada por vrios elementos: facilitao das vias associativas 
interiores a esse grupo de representaes, investimento constante por uma energia de 
origem endgena, isto , pulsional, distenso entre uma parte permanente e uma parte 
varivel. E a permanncia no ego de um nvel de energia interna qie permite (ao ego) inibir 
139 



os processos primrios, no s aqueles que levam  alucinao, mas ainda os que 
seriam susceptveis de desprazer provocado pelo dispndio total da defesa. 
O ego no  concebido como uma nica instncia personificada no interior do psiquismo. 
Certas partes dele podem separar-se, a instncia critica ou conscincia moral: uma parte 
do ego pe-se diante da outra, julga-a de forma crtica.A conscincia  para Freud o 
ncleo do ego e as funes que pertencem ao pr-consciente so englobadas no ego. O 
ego , portanto, em grande parte inconsciente. Esse algo inconsciente encontrado no ego 
se comporta como o recalcado, aquilo que produz efeitos poderosos sem se tornar 
consciente e que necessita, para se tornar consciente, de um trabalho especial. 
O ego, para Freud, exerce vrias funes no psiquismo: controle da motilidade e da 
percepo, prova de realidade, antecipao, ordenao temporal dos processos mentais, 
pensamento racional e tambm preterio, racionalizao, defesa compulsiva contra as 
reivindicaes pulsionais (oposio s pulses e satisfao das pulses, insight e 
racionalizao, conhecimento objetivo e deformao sistemtica, resistncia e resoluo 
das resistncias etc.). 
O ego surge, essencialmente, como mediador que tenta ter em conta exigncias 
contraditrias e por isso mesmo encontra-se ameaado por diferentes perigos: do mundo 
exterior, da libido, do d e da severidade do superego. O ego tenta tornar o id dcil ao 
mundo e este, graas  ao muscular, conforme ao desejo do id, 
A primeira funo do ego, portanto,  proteger a vida do indivduo contra os perigos que 
surgem no mundo externo. No entanto, sua mais elevada realizao  o controle do 
ambiente. Com a ajuda da percepo e da memria, pensando, julgando e utilizando 
canais motores de excitaes que atingem o ego, este  capaz de inibir descargas. 
Assim, pode-se dizer que o ego controla o caminho de acesso  faculdade de mover-se, 
ou seja,  motilidade. A funo de autopreservao do ego requer que ele tenha controle 
sobre as demandas dos instintos do id, desde que a imediata gratificao dos instintos 
ponha em risco a vida da pessoa.  o ego que decide se um instinto poder ser satisfeito 
ou no. Se a deciso  afirmativa, o ego determina igualmente o tempo e as demais 
circunstncias para a sua satisfao. Se a deciso  negativa, o ego tem a funo de 
suprir as excitaes instintivas, ou de conduzi-las para outros canais. Em sntese, a funo 
do ego, em uma pessoa normal, bem adaptada,  dirigir a personalidade. As foras 
oriundas do id, do superego e do mundo externo, que atuam sobre o ego, so por ele 
sintetizadas em uma harmoniosa unidade, sob a inteligente e benevolente jurisdio do 
principio da realidade. 
Sob o controle do ego, que passa a substituir o Principio de Prazer, o Principio da 
Realidade tem por finalidade inibir a descarga da excitao, at que seja encontrado o 
objeto apropriado ou as condies ambientais adequadas para a satisfao da 
necessidade. O Principio da Realidade serve o Principio do Prazer  medida que adia 
uma gratificao imediata, que poderia ocasionar sofrimento, em benefcio de uma 
gratificao futura, em que o risco de sofrimento estaria consideravelmente reduzido. 
140 



Superego 
Representa a moralidade, reflete os padres da sociedade em que a criana  educada e 
 a ltima subdiviso da personalidade a ser formada. O superego luta pela perfeio:  o 
ego ideal. O ego ideal estabelece os padres da conduta tica, enquanto a conscincia 
age na funo de um juiz, que impe punies para as infraes dos padres 
estabelecidos. 
As funes do superego so, para Freud, a conscincia moral, a auto-observao e a 
formao de ideais. O superego  uma instncia que se separou do ego e que parece 
domin-lo. Na sua funo critica, ope-se ao ego, julga-o de forma critica. No sentido lato, 
Freud d ao superego a dupla funo de interdio e de ideal. 
A formao do superego, para Freud,  decorrente do declnio do complexo de dipo. A 
criana renuncia aos seus desejos edipianos na impossibilidade de satisfaz-los e 
transforma esse investimento nos pais, com os pais. Para Freud, embora a formao do 
superego seja iniciada pela renncia aos desejos edipianos amorosos e hostis, o 
superego  enriquecido pelas contribuies posteriores sociais e culturais (educao, 
religio, moralidade). 
O superego da criana no  uma cpia do superego dos pais, mas se forma  imagem 
do superego dos pais. Isso significa que existe toda uma relao e uma dinmica prpria 
da criana ao perceber e vivenciar o superego dos pais, e  a que se verifica o que h de 
particular e de diferenciado em cada indivduo. 
O superego comporta-se em relao ao ego do mesmo modo que os pais se comportam 
em relao  criana. Quando o ego quebra uma regra do superego, este pune o ego 
fazendo com que se sinta culpado. O superego retira sua aprovao, como os pais 
retiram o seu amor; comanda, corrige e julga o ego; presta-lhe favores quando este lhos 
solicita. O ego se enche de orgulho quando alcana os padres do superego. A 
conscincia tem a funo especifica de manter o ego sob vigilncia, a fim de observar se 
este alcana as exigncias do superego. 
A funo mais geral do superego  limitar as gratificaes instintivas, no de acordo com 
o Princpio da Realidade, que orienta o controle do ego sobre os impulsos, mas sim de 
acordo com o perfeccionismo e os inacessveis padres impostos pelos pais, ou melhor, 
pelo superego dos pais. 
A limitao da gratificao instintiva decorre do fato de que o exerccio mais comum da 
autoridade dos pais  dirigido para a supresso ou regulamentao dos impulsos sexuais 
ou agressivos. Tal supresso ou regulamentao atende a regras imperativas. As regras 
do superego so tambm imperativas. 
Ao conceituar Id, Ego e Superego, Freud tambm define suas funes que podem ser 
resumidamente explicitadas como: Ego  o agente de defesa, Superego  o sistema de 
interdies e Id  o plo pulsional. 
Ao dividir a personalidade em trs unidades  id, ego e superego  Freud no 
estabeleceu fronteiras rgidas entre elas, porque, para ele, a personalidade total de uma 
pessoa normal seria justa quando trabalhada como uma unidade, e no como trs 
sistemas separados e em oposio. 
141 



As qualidades mentais 
O contedo da mente pode ter uma das trs qualidades: consciente, pr- consciente ou 
inconsciente. Somente os contedos que resultam dos processos do ego podem ser 
conscientes, mas nem tudo que o ego produz  consciente. Na maioria das vezes, as 
realizaes do ego so pr-conscientes. 
Consciente (psicolgico) 
 a qualidade momentnea que caracteriza as percepes externas e internas do meio 
do conjunto dos fenmenos psquicos. Do ponto de vista tpico (localizao), o sistema 
percepo-conscincia est situado na periferia do aparelho psquico, recebendo ao 
mesmo tempo as informaes do mundo exterior e as provenientes do interior, isto , as 
sensaes que se inscrevem na srie desprazer-prazer e as revivescncias mnsicas. 
Muitas vezes Freud liga a funo percepo-conscincia ao sistema pr-consciente, 
ento designado como sistema pr-consciente-consciente. 
Do ponto de vista funcional, o sistema percepo-conscincia ope-se aos sistemas de 
traos mnsicos que so o inconsciente e o pr-consciente: nele no se inscreve qualquer 
tipo durvel de excitaes. Do ponto de vista econmico, caracteriza-se pelo fato de 
dispor de uma energia livremente mvel, suscetvel de sobreinvestir este ou aquele 
elemento (mecanismos da ateno). 
A conscincia desempenha um papel importante na dinmica do conflito (evitao 
consciente do desagradvel, regulao mais discriminadora do principio do prazer) e do 
tratamento (funo e limite da tomada de conscincia), mas no pode ser definida como 
um dos plos em jogo no conflito defensivo. 
Pr-Consciente 
 um sistema do aparelho psquico nitidamente distinto do sistema inconsciente; qualifica 
as operaes desse sistema pr-consciente. Os contedos no esto presentes no 
campo atual da conscincia e, portanto, so inconscientes no sentido descritivo do 
termo, mas distinguem-se dos contedos do sistema inconsciente  medida que 
permanecem de direito acessveis  conscincia (conhecimentos e recordaes no 
atualizados, por exemplo).O sistema pr-consciente rege-se pelo processo secundrio. 
Est separado do sistema inconsciente pela censura, que no permite que os contedos 
e os processos inconscientes passem para o pr-consciente sem sofrerem 
transformaes. 
O pr-consciente  sobretudo utilizado como adjetivo, para qualificar o que escapa  
conscincia atual sem ser inconsciente no sentido estrito. Do ponto de vista sistemtico, 
qualifica contedos e processos ligados ao ego quanto ao essencial e tambm ao 
superego. 
142 



Inconsciente 
 um sistema definido por Freud como presente no aparelho psquico,  constitudo por 
contedos recalcados, aos quais foi recusado o acesso ao sistema pr-consciente-
consciente pela ao do recalcamento. 
As caractersticas essenciais do Inconsciente so:a) Os seus contedos so 
representantes das pulses.b) Esses contedos so regidos pelos mecanismos 
especficos do processo primrio, nomeadamente a condensao e o deslocamento, 
portanto, .estruturado por elementos formais, existindo uma ordem inconsciente.c) 
Fortemente investidos pela energia pulsional, os contedos procuram retornar  
conscincia e  ao (retorno do recalcado); mas no podem ter acesso ao sistema pr-
consciente-consciente seno nas formaes de compromisso, depois de terem sido 
submetidos s deformaes da censura.d) So, mais especialmente, certos desejos da 
infncia que conhecem uma fixao no inconsciente. 
O inconsciente tem uma organizao prpria, onde existem pensamentos caracterizados 
pela fantasia e pode-se dizer que o inconsciente se expressa na fala, atravs dos atos 
falhos, ou nos sonhos. O discurso, portanto, neste sentido, assemelha-se ao consciente 
onde existem o pensamento e a fala. 
Lacan enfatiza a viso do inconsciente como uma estrutura simblica, mostrando as 
relaes entre elementos formais. Produz a partir dai um sentido; portanto, a forma 
aparece como uma expresso exterior e no como uma determinante. O sonho 
representa os pensamentos e os desejos, entretanto, no  o elemento que os causa. 
Finalizando, o inconsciente  um determinado processo operatrio que transforma certos 
contedos, logo, o importante  saber qual  a forma atravs da qual se modificam.O 
inconsciente no  nem-ser nem no-ser, mas  algo no-realizado.  inacessvel  
contradio,  localizao espao-temporal como a funo do tempo. Freud assegura que 
no inconsciente existe pensamento, que  inconsciente, que se revela como ausente. 
Princpio do Prazer 
O indivduo obedece ao principio fundamental de seu funcionamento, isto , buscar o 
prazer e evitar o desprazer. Na medida em que o desprazer est ligado ao aumento das 
quantidades de excitao e o prazer  sua reduo, o principio do prazer  um principio 
econmico. 
As pulses, de inicio, s procurariam descarregar-se, satisfazer-se, pelos caminhos mais 
curtos. Progressivamente fariam a aprendizagem da realidade (Principio da Realidade), 
que segundo Freud  a nica que permitir s pulses atingirem, atravs dos desvios e 
dos adiamentos necessrios, a satisfao almejada. 
143 



Princpio da Realidade 
Segundo Freud,  um dos dois princpios que regem o funcionamento mental. Ele est 
ligado ao principio do prazer e modificado. Esta modificao se d  medida que ele 
consegue impor-se como principio regulador. Neste processo, a procura da satisfao 
no se efetua pelos caminhos mais curtos, mas adia o seu resultado em funo das 
condies impostas pelo mundo exterior, ou busca desvios para a concretizao do 
prazer (Laplanche:470). 
Processo Primrio e Secundrio 
Freud define os dois modos do aparelho psquico como: processo primrio e processo 
secundrio. 
O processo primrio caracteriza o sistema inconsciente. E o processo secundrio 
caracteriza o sistema pr-consciente-consciente. 
No que diz respeito s caractersticas econmico-dinmicas, Preud mostra que, no 
processo primrio, a energia psquica  liberada livremente. Ela passa de uma 
representao para outra sem nenhuma barreira, atravs dos mecanismos de 
deslocamento e de condensao. Entretanto, no processo secundrio, a energia est 
ligada, antes de se escoar, a uma representao e de forma controlada. 
As representaes so investidas de uma maneira mais estvel e a satisfao  adiada, 
permitindo, assim, experincias mentais que pem  prova os 
diferentes caminhos de satisfao. 
Instintos 
Um instinto  a representao mental, no id, de uma fonte somtica interior de 
estimulao. Um estimulo que surge de um processo de excitao em um rgo ou tecido 
corporal  denominado necessidade. O objetivo do instinto  abolir a tenso causada pela 
necessidade (need). Se consegue atingir o objetivo, o indivduo experimenta prazer. 
Os instintos so, em geral, a soma da energia que dirige os processos psicolgicos. Para 
Freud, os instintos so conservadores por natureza. O nmero dos instintos observveis  
indeterminado, mas sabe-se que pertencem a dois grupos especficos: instintos de vida e 
instintos de morte. Os instintos de sobrevivncia tm por objetivo a autopreservao do 
indivduo, e os instintos sexuais, a preservao da espcie. Os instintos mais conhecidos 
so os sexuais, cuja caracterstica principal, segundo Freud,  o surgimento em diferentes 
regies do corpo. Os instintos sexuais so muito flexveis. Podem mudar muito facilmente 
seus objetivos e objetos. Surgem em regies especficas do corpo, durante o 
desenvolvimento da criana. Durante os primeiros cinco anos de vida, esse 
desenvolvimento  caracterizado pelas fases oral, anal e flica. Depois desta ltima fase, 
a criana atinge a latncia e prossegue o desenvolvimen-
144


 
to final da sua personalidade, que consiste na organizao de todas as funes sexuais a 
servio da reproduo. 
Freud julga que muito da nossa herana cultural mais valorizada foi adquirida s custas da 
represso e da inibio dos instintos sexuais. A energia originariamente destinada  
satisfao sexual , uma vez reprimida, levada a procurar outros canais. O amor  um 
desses canais. Todas as manifestaes de amor  amor entre pais e filhos, amor  
humanidade, ou a dedicao a objetos ou idias abstratas  so expresses do mesmo 
instinto bsico: o instinto sexual. 
Desejos 
A tradio filosfica fez seus mais srios esforos no sentido de demonstrar que o 
homem  um ser racional, ser de pensamento. Mas as produes culturais que saem de 
suas mos sugerem, ao contrrio, que o homem  um ser de desejo. Desejo  sintoma de 
privao, de ausncia. Desejo pertence aos seres que se sentem privados, que no 
encontram prazer naquilo que o espao e o tempo presente lhes oferecem. O desejo que 
pode parecer a busca de um objeto , na verdade, a busca de uma falta, o que caracteriza 
a marcha prospectiva ao infinito do desejo. No h satisfao que no abra 
irremediavelmente o campo de uma insatisfao e  ai que se encontra o momento do 
prazer que nunca  definitivo, j que reabre o circuito. 
Lacan enfatiza que no se deve entender o desejo como um desarranjo do instinto, mas 
como uma particular subverso atravs de sua articulao no nvel do simblico, isto , no 
nvel da fantasia, o que constitui a dimenso do desejo como estando em outro nvel 
diferente daquele em que se encontra a necessidade que est no plano do instinto. 
(Exemplo: desejo Edipiano, o menino deseja substituir o pai junto  me.) 
Necessidade 
Nasce de um estado de tenso interna, encontra a sua satisfao pela ao especifica 
que fornece o objeto adequado (alimentao, por exemplo); o desejo est 
indissoluvelmente ligado a traos de memria e encontra a sua realizao na reproduo 
fantasiosa das percepes que passaram a ser sinais dessa satisfao. O desejo no 
pode ser reduzido  necessidade, porque no  fundamentalmente uma relao com o 
objeto real, mas depende da fantasia que  individual e no controlvel externamente. 
Recalque 
No sentido prprio: operao pela qual o indivduo procura repelir ou manter no 
inconsciente representaes (pensamentos, imagens, recordaes) ligadas a uma 
pulso. O recalcamento produz-se nos casos em que a satisfao de uma pulso  
suscetvel de por si mesmo proporcionar satisfao ameaa
145 



ria provocar desprazer relativamente a outras exigncias. Pode ser considerado um 
processo psquico universal,  medida que estaria na origem da constituio do 
inconsciente como domnio separado do resto do psiquismo. 
Sublimao 
Processo postulado por Freud para explicar atividades humanas sem qualquer relao 
aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na fora da 
pulso sexual. Freud descreveu como atividade de sublimao principalmente a atividade 
artstica e a investigao intelectual.Dizse que a pulso  sublimada  medida que  
derivada para um novo alvo sexual ou que visa a objetos socialmente valorizados. 
Represso 
A represso , possivelmente, o primeiro mecanismo que o ego utiliza na defesa contra o 
id. Este mecanismo frustrar a liberao de energia instintiva, criando um bloqueio ao 
instinto, de modo que ele no pode tornar-se consciente ou expressar-se em forma de 
comportamento aberto. Essa represso age diretamente sobre os propsitos do instinto .
Pulses de morte 
O quadro da ltima teoria freudiana das pulses designa uma categoria fundamental de 
pulses que se contrapem s pulses de vida e que tendem  reduo completa das 
tenses, isto , tendem a reconduzir o ser vivo ao estado anorgnico. Voltadas 
inicialmente para o interior e tendentes  autodestruio, as pulses de morte seriam 
secundariamente dirigidas para o exterior, manifestando-se ento sob a forma da pulso 
agressiva ou destrutiva. 
Pulses de vida 
Grande categoria de pulses que Freud contrape, na sua ltima teoria, s pulses de 
morte. Elas tendem a construir unidades cada vez maiores e a mantlas. As pulses de 
vida, tambm designadas pelo termo Eros, abrangem no apenas as pulses sexuais 
propriamente ditas, mas ainda as pulses de autoconservao. 
Conflito psquico 
Fala-se em psicanlise de conflito, quando, no individuo, se opem exigncias internas 
contrrias, O conflito pode ser manifesto (entre um desejo e 
146 



uma exigncia moral, por exemplo, ou entre dois sentimentos contraditrios), ou latente, 
podendo este exprimir-se de forma deformada no conflito manifesto e traduzir-se 
designadamente pela formao de sintomas, desordens do comportamento, perturbaes 
do carter etc. A psicanlise considera o conflito entre o desejo e a defesa, conflito entre 
os diferentes sistemas ou instncias, conflitos entre as pulses e, por fim, o conflito 
edipiano, onde no apenas se defrontam dese)os conttos, mas onde estes enfrentam a 
interdio. 
Identificao 
Processo psicolgico pelo qual o indivduo assimila um aspecto, uma propriedade, um 
atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo dessa pessoa. 
A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma srie de identificaes. 
Identificao com o agressor 
Mecanismos de defesa (do ego): o indivduo, confrontado com um perigo exterior 
(representado tipicamente por uma critica emanada de uma autoridade), identifica-se com 
o seu agressor assumindo por sua prpria conta, ou adotando certos simbolos de poder 
que o designam. Segundo Anna Freud, este mecanismo seria predominante na 
construo da fase preliminar do superego, pois a agresso mantm-se ento dirigida 
para o exterior e no se voltou ainda contra o indivduo sob a forma de autocrtica. 
A teoria psicanaltica e o comportamento humano na organizao: 
contribuies e limitaes 
A empresa cria necessidades, padroniza-as e tenta satisfaz-las no nvel do simblico, 
explora as carncias sociais e emocionais do trabalhador. As tcnicas de gerncia 
participativa caracterizam estas estratgias manipulativas atravs de seus programas de 
incentivos, como festas de confraternizao com a presena de diretores e presidentes, 
viagens com permanncia em hotis de 4 e 5 estrelas, convenes em centros de alto 
nvel, coquetis, envolvimento das famfiias nestas ocasies etc., visando a um pseudo-
status, ou seja, um acesso momentneo a uma posio de igualdade na estrutura de 
poder e nas relaes sociais na empresa, que na realidade no existem e nem se 
pretende que existam. 
Esse processo psicolgico poder trazer, no primeiro momento, uma aparente satisfao 
de frustraes e carncias dos trabalhadores. Entretanto, a mdio e longo prazos, esta 
farsa vai sendo denunciada no cotidiano pelos prprios indivduos. Esta denncia 
vivenciada por eles gera profundas frustraes que podero ser explicitadas de diferentes 
formas como: desinteresse pelo trabalho, baixa produtividade com desestimulao, o que 
representa a apatia psicolgica, e tambm, por outro lado, pode provocar reaes 
altamente agressivas,  
147 



medida que estes membros da organizao se apercebem de que foram traidos nos seus 
sentimentos e nas suas necessidades psicolgicas e sociais. 
As greves selvagens, os roubos de peas, incndios de fbricas, manuteno dos 
membros das diretorias das organizaes como refns, as invases e ocupaes de 
fbricas e depsitos no so, como se quer ver, uma ao exclusiva dos sindicatos. 
Mesmo um sindicato de grande influncia junto  classe trabalhadora jamais conseguiria 
tais tipos e aes grevistas, se no houvesse uma profunda frustrao e raiva contidas, 
que encontram, nesse dado momento, uma forma de explicitao concreta. 
Diretamente relacionada s manipulaes das necessidades individuais dos membros 
das organizaes, como j vimos, padronizadas pelas empresas, encontra-se a confuso 
entre desejos e necessidades nas tcnicas e formas de gerenciamento participativo do 
trabalho. Esta confuso  a causadora dos insucessos de muitos programas de Recursos 
Humanos. 
Os desejos individuais e indestrutveis esto no nvel do inconsciente. Tentar substituir 
desejos dos individuos, satisfaz-los de acordo com as necessidades das organizaes, 
 uma tentativa impraticvel. Pode-se impedir os indivduos, portanto, os membros 
pertencentes aos diferentes nveis hierrquicos das organizaes, de terem acesso aos 
seus desejos atravs de barreiras e constrangimentos externos, mas isto provocar um 
processo de efervescncia e frustrao que poder explodir em reaes de apatia ou 
agressividade, mas jamais se poder padronizar desejos, pois estes so individuais e 
inconscientes. 
Quanto s necessidades individuais, a tentativa de padroniz-las  uma estratgia das 
organizaes para, ao indiferenciar os indivduos, tranform-los em tipos padronizados, 
em vez de identific-los como pessoas. Esta padronizao, por um lado, facilita o 
controle, mas, por outro, diminui e impede o desenvolvimento mental, o desenvolvimento 
da conscincia critica (individual) e a responsabilidade do individuo com ele prprio, com 
a sociedade e com o seu trabalho na organizao. Portanto,  uma faca de dois gumes: 
ela cria seguidores obedientes e conformados, mas impede o desenvolvimento efetivo da 
produtividade, da melhoria da qualidade dos produtos e do desenvolvimento 
socioeconmico, poltico e cultural da sociedade e dos prprios individuos. E, mais grave, 
gera frustraes e conflitos que podem ser externados na autodestruio e/ou na concreta 
destruio do objeto causador das frustraes. 
Quando se aborda a teoria psicanaltica nas organizaes dentro de uma perspectiva de 
adequao do individuo ao seu meio ambiente (psicologia do ego, da linha psicanaltica 
americana), vrias tcnicas tm sido desenvolvidas nas empresas como, por exemplo, a 
psicanlise transacional, que visa  melhoria das relaes interpessoais e  conseqente 
adequao dos indivduos  organizao. 
Quando a teoria psicanaltica  abordada a partir da perspectiva freudiana ortodoxa e/ou 
lacaniana, a aplicao s organizaes  revertida. Esta abordagem aponta na direo 
da essncia na natureza psicolgica do ser humano, dos seus componentes, dinmica, 
distrbios e conseqncias. Ela d subsdios para a compreenso de conflitos intra e 
interpessoais, entre eles o conflito capital x 
148 



trabalho denuncia os sistemas, processos e tcnicas participativas de gerncia como 
instrumentos de manipulao e geradores de frustraes e conflitos nas organizaes. 
Rouanet d uma contribuio  compreenso de como ocorre a relao entre as 
organizaes e os indivduos, a repreenso externa oriunda da empresa e a defesa 
interna dos indivduos, que levam ao bloqueio e a uma falsificao da conscincia tanto no 
nvel da percepo como no do pensamento. 
A represso externa condiciona as estruturas da ao do indivduo, pois, se ele se 
manifesta de maneira autntica e com autonomia, fica exposto s sanes do sistema. 
Para que o indivduo no seja movido nas suas aes pelas suas pulses internas e pela 
busca da realizao de seus desejos prprios, o que contraria os objetivos das 
organizaes e que o levaria ao desprazer (por correr o risco de sofrer sanes de 
diferentes tipos por parte das organizaes), o indivduo cria defesas internas que o levam 
 fuga, impedindo a percepo objetiva dos fatos e das situaes, bem como dos 
prprios sentimentos e desejos, ao mesmo tempo que distorce a capacidade de pensar 
objetiva e amadurecidamente, assim como leva  deturpao do contedo do 
pensamento. Portanto, h uma falsificao da percepo do pensamento e, como 
conseqncia, da conscincia, o que caracteriza o processo de defesa interna, mantendo 
o individuo no nvel de infantilismo psquico. Ele mente para si mesmo e para os outros. 
Por outro lado, a represso externa gera um mecanismo de defesa que transforma o ego, 
ou parte consciente da personalidade, em uma conscincia autoritria e rgida a servio 
dos objetivos, dos valores e das crenas das organizaes. 
O ego assim deformado deixa de ser aquele integrador do superego e do id de cada 
indivduo. O desequilbrio entre os desejos e os valores individuais, bem como a conduo 
objetiva adequada e socialmente equilibrada, desaparece, impedindo assim a realizao 
do individuo enquanto pessoa e impedindo que ele atinja sua maturidade psicolgica, sua 
conscincia critica e sua autonomia, o que lhe possibilitaria satisfazer os seus desejos, 
traando a sua prpria trajetria de vida com auto-realizao e prazer. 
Como acentua Rouanet, o indivduo deixa de perceber uma parte da realidade exterior e 
uma parte do seu mundo psquico e est sujeito  proibio de pensar. 
Nas organizaes, especialmente naquelas chamadas modernas, os processos de 
mudana da cultura e as estratgias e tcnicas de controle de Ilalidade total ou de 
qualidade de gerenciamento explicitam um processo repressivo, que na realidade procura 
impor o comportamento desejado pela empresa. 
Essa represso se concretiza submetendo o individuo a riscos de no poder ascender a 
postos mais elevados, ao no recebimento de aumentos salariais espontneos,  
diminuio do status e at mesmo  perda de emprego. 
Estas ameaas repressivas levam os indivduos membros da organizao a utilizarem o 
mecanismo de defesa correspondente ao infantilismo do psiquismo humano. O 
infantilismo funciona sobre o modelo da fuga, que leva o individuo a fugir ao desprazer e 
aciona dispositivos inibidores que tornam 
149 



invisveis as representaes associadas aos impulsos vetados.  a que se d a 
correlao entre a represso oriunda da organizao e a defesa interna dos indivduos  
Eu no vejo e no penso para no sofrer. Eu minto para mim mesmo. 
H uma fuga diante da percepo e do pensamento. Limita-se a liberdade no plano da 
ao, bem como a conscincia no plano do conhecimento. 
A falsificao da conscincia torna-se uma realidade proposta e perseguida pelas 
organizaes, porque o individuo que  expropriado de parte de sua vida psquica torna-
se um instrumento dcil e fcil de ser conduzido. Ele assume valores, crenas e at 
mesmo uma conduta tica alicerada em uma percepo falsificada pela organizao. 
A falsa conscincia, como bem conclui Rouanet,  um mecanismo de proteo no s da 
sociedade, mas tambm de grupos que derivam sua dominao da impossibilidade de 
outros indivduos de pensarem a prpria situao de forma totalizante. 
A expresso freudiana, onde havia o id que passe a haver o ego, nos leva a repensar a 
modernizao das organizaes pela utilizao de modelos e tcnicas de mudana de 
cultura compulsria, presentes na administrao participativa, nas tcnicas de controle 
total de qualidade, quer sejam da produo ou gerencial, que, na realidade, representam 
processos de represso e de falsificao da percepo e do pensamento dos seus 
membros. 
Fazer com que o ego assuma o lugar do id significa abrir espao para a auto-
responsabilidade dos membros da organizao, o que, certamente, no poder ser feito 
atravs da violncia interna e externa, mas por um processo que possibilite um consenso 
negociado, bem como uma co-responsabilidade. Isso significa dizer, uma mudana na 
relao da organizao com o individuo enquanto ser desej ante, que necessita de 
espao para sua relao pessoal. 
TEORIA PSICANALTICA NA ORGANIZAO: 
A PSICODINMICA DO TRABALHO 
Teoria da psicopatologia do trabalho 
Dejours  psiquiatra e psicanalista, nasceu na Frana em 1949.  doutor em medicina do 
trabalho e em psiquiatria e tem como orientao terica a teoria Psicanaltica de Freud. 
Desenvolveu a teoria da Psicodinmica do Trabalho cuja hiptese central  que a relao 
homem x trabalho  de sofrimento e doena embora o trabalho possa tambm ser fonte 
de prazer e sade. 
Observou as perturbaes psquicas ocasionadas pelo trabalho pesquisadas a partir dos 
anos 50. Desenvolveu vrias pesquisas como: a neurose das telefonistas e dos 
mecangrafos (1963) e os problemas psicopatolgicos surgidos nos mecnicos de 
estrada de ferro (1971), entre outros. 
A grande contribuio de Dejours foi introduzir a dimenso psicolgica no estudo das 
relaes do ser humano com a organizao do trabalho, e identifi-
150


 
car a presena do homem concreto, vivo, sensvel, reativo e sofredor, animado por uma 
subjetividade, no contexto da organizao. 
At ento a psicopatologia do trabalho dependia de modelos mdicos clssicos. Estes 
trabalhos deram importantes contribuies, colocando em evidncia doenas causadas 
por reflexos involuntrios ligados ao esforo repetitivo sob presso de tempo: so 
exemplos destas: o p de carvo que causa a silicose dos mineiros, os vapores de 
chumbo que desencadeiam o saturnismo nos fundidores e tipgrafos, e as luzes dos 
faris de estradas de ferro que provocam movimentos involuntrios nos sinaleiros. 
Dejours desenvolveu a psicodinmica do trabalho a partir da indagao do como os 
trabalhadores, na sua maioria, conseguem, apesar dos contrangimentos, preservar o 
equilbrio psquico e manterem-se na normalidade. Estuda a estratgia usada pelos 
trabalhadores na qual a normalidade aparece como um equilbrio precrio (equilbrio 
psquico) entre constrangimentos do trabalho desestabilizante ou patognico e defesas 
psquicas. O equilbrio seria o resultado de uma regulao que requer estratgias 
defensivas especiais elaboradas pelos trabalhadores. 
Chega  concluso de que o equilbrio, a estabilidade e a normalidade so, antes de tudo, 
uma luta do individuo contra a doena mental. A normalidade conservada a fora  
permeada pelo sofrimento. O sofrimento , ento, espao de luta entre a sanidade e a 
loucura (border line). Quando surge a loucura o sujeito  acometido de delrio, depresso, 
fobia, inibio, excitao, que se originam mais da organizao da personalidade, da 
historia e do passado de cada individuo (predisposio) do que da situao de trabalho, 
sendo esta apenas desencadeadora da doena. 
CONCEITOS BSICOS 
Relao do indivduo com a organizao do trabalho 
Na abordagem da relao do sofrimento humano com a organizao do trabalho Dejours 
analisa o sofrimento do individuo no trabalho em duas dimenses: diacrnica e sincrnica. 
A dimenso diacrnica:  o sofrimento singular herdado da histria psquica de cada 
individuo, seu passado, sua memria e sua personalidade. 
A dimenso sincrnica:  o sofrimento atual, surgido do reencontro do sujeito com a 
situao de trabalho (o contexto material social e histrico das relaes de trabalho). Na 
luta contra o sofrimento o individuo elabora solues favorveis  produo da sade, 
denominado sofrimento criativo. Nessa luta o sujeito pode chegar  solues 
desfavorveis, tanto  produo (queda, desperdcio, defeito), quanto  sade (doenas 
psicossomticas). Dejours chama estas solues desfavorveis de sofrimento patognico 
e afirma que o sofrimento no trabalho no se restringe ao interior da fbrica, ele atravessa 
essas paredes e acompanha o homem, interferindo e influenciando na vida domstica e 
social 
151 



Ao analisar a relao do indivduo com a organizao do trabalho, a preocupao da 
psicodinmica do trabalho foi compreender a forma pela qual o equilbrio mental do 
indivduo  ameaado e quais as conseqncia para a sua sade mental. Estes estudos 
mostraram que as presses que pem em causa o equilbrio psquico e a sade mental 
derjvam da organizao do trabalho e dos constrangimentos perigosos para a sade no 
apenas da mente mas tambm do corpo (somtica). Entende-se como elementos das 
condies de trabalho: 
a) as condies fsicas como o barulho, temperatura, vibrao e irradiaes ionizantes; 
b) condies qumicas: poeiras e vapores; 
c) as condies biolgicas: vrus, bactrias, e fungos. 
A organizao do trabalho  a diviso das tarefas envolvendo a hierarquia no local de 
trabalho. 
Estratgias de preservao da sade mental 
Para estudar a relaes do homem com a organizao do trabalho Dejours situa o 
indivduo na realidade do trabalho e procura compreender o imaginrio da pessoa, o seu 
mundo interior com suas fantasias e seus desejos e a realidade produzida na situao de 
trabalho. 
Em sua relao com a organizao do trabalho, para preservar a sade mental e aliviar o 
sofrimento, o homem lana mo do funcionamento psquico, isto , das estratgias 
defensivas. 
Essas estratgias envolvem dois tipos de defesas: 
1) as defesas coletivas e de ideologias defensivas de profisso, que so construdas pelo 
coletivo onde todos os trabalhadores marcados pelas presses organizacionais 
desenvolvem comportamentos estereotipados e/ou alienados; 
2) as individuais, nas quais, para defender-se da doena mental provocada pelas 
presses organizacionais, o aparelho psquico produz sintomas que so jogados para o 
corpo, gerando as doenas psicossomticas e o stress. Sintetizando, as defesas 
individuais, entre elas a represso, atuam na prpria fonte da pulso, e presidem o 
surgimento de doenas no s da mente mas tambm do corpo (a doena 
psicossomtica), em resposta  presses organizacionais. 
Relao entre organizao da personalidade e organizao do trabalho 
A psicodinmica do trabalho, ao estudar a relao entre a incidncia do passado do 
sujeito sobre a sua conduta atual no trabalho, ressalta a influncia do passado em 
algumas situaes de trabalho, gerando o sofrimento patolgico. 
152 



A psicopatologia do trabalho: concluses bsicas 
As presses organizacionais no geram apenas a doena mental, elas geram tambm as 
doenas psicossomticas que so doenas fsicas resultantes da presso mental 
transferidas para o corpo, gerando entre outras doenas a gastrite, a lcera e o stress. 
No  apenas o psiquismo que sofre danos resultantes da defesa que o indivduo aciona 
diante das presses organizacionais,  tambm o corpo fsico. 
Dejours parte da hiptese de que a organizao do trabalho exerce sobre o homem uma 
ao especfica cujo impacto  o aparelho psquico. Em certas condies emerge um 
sofrimento que pode ser atribudo ao choque de uma histria individual, portadora de 
projetos, de esperana e de desejos, e uma organizao do trabalho que os ignora. Esse 
sofrimento, de natureza mental, comea quando o homem, no trabalho, j no pode fazer 
nenhuma modificao na sua tarefa no sentido de torn-la mais adequada a suas 
necessidades fisiolgicas e a seus desejos psicolgicos. E neste momento que ocorre o 
bloqueio da relao homem-trabalho. 
Tipos de organizao e sofrimento no trabalho 
A forma da qual se reveste o sofrimento varia com o tipo de organizao do trabalho. O 
trabalho repetitivo cria a insatisfao, cujas conseqncias no se limitam a um desgosto 
particular. Ela , de certa forma, uma porta de entrada para a doena e uma encruzilhada 
que se abre para as descompensaes mentais ou doenas somticas em virtude de 
regras que foram, em grande parte, impostas. 
Estratgias defensivas 
Contra a angustia do trabalho, assim como a insatisfao, os operrios elaboram 
estratgias defensivas de maneira que o sofrimento no  imediatamente identificvel. 
Assim, disfarado e mascarado, o sofrimento s pode ser revelado atravs da retirada da 
capa prpria de cada profisso que constitui, de certa forma, a sua sintomatologia. O 
sofrimento do trabalhador d lugar a uma semiologia que  chamada de ideologia 
defensiva da profisso. Isto nada mais  que o resultado da represso pulsional na qual, 
para proteger a sua sade mental o trabalhador, principalmente em tarefas repetitivas de 
determinadas profisses, transfere os sintomas para o corpo, provocando o que 
normalmente se chama de LER  (Leso por Esforo Repetitivo), especfico em cada 
profisso, ou o stress que apresenta caractersticas diferenciadas em diferentes 
profisses. 
Vida psquica e sade fsica 
A vida psquica e a sade fsica so patamares de integrao do funcionamento dos 
diferentes rgos do corpo humano. Sua desestruturao repercute 
153 



sobre a sade fisica e a sade mental. Mas a relao entre organizao do trabalho e 
aparelho mental pode ser favorvel, ao invs de ser conflituosa, gerando resistncia 
contra a fadiga e a doena. Uma boa adequao  possvel. Quando isso acontece, pelo 
menos uma das condies seguintes  realizada: 
a) exigncias intelectuais, motoras ou psicossensoriais da tarefa esto de acordo com as 
necessidades do trabalhador e assim o exerccio da tarefa est na origem de uma 
descarga e de um prazer de funcionar; 
b) o contedo do trabalho  fonte de uma satisfao sublimatria, situao rara 
encontrada em profissionais que encontram satisfao em executar sua tarefa 
espontaneamente, pode ser criativo e livre, porm, responsvel, disciplinado e 
organizado; so trabalhos que o indivduo escolhe deliberadamente ou conquista. O 
sofrimento existe, mas o prazer do trabalho permite melhor defesa; exemplos desta 
satisfao sublimatria podem ser observados entre os artistas, pilotos de caa e 
pesquisadores, entre outros. 
Toda tarefa  susceptvel de servir para alguns como suporte no processo de sublimao, 
entretanto as divises crescentes do trabalho, as condies de trabalho e as restries de 
muitas atividades profissionais como enfermagem, atores e diretores de televiso, 
suscitam um pessimismo em relao ao futuro das profisses atravessadas 
progressivamente por organizaes autoritrias. 
Sofrimento mental e suas conseqncias 
Dejours afirma que o sofrimento mental no pode ser considerado apenas uma 
conseqncia deplorvel, em certos casos ele se revela propcio  manuteno da 
produtividade. No tanto o sofrimento em si, mas os mecanismos de defesa empregados 
contra ele. O sofrimento pode, em certas condies, tornar-se instrumento de explorao 
e rendimento, a ansiedade das telefonistas, por exemplo, contribui para a acelerao das 
cadncias. Mesmo nas tarefas mais desqualificadas a explorao passa pela profundeza 
do aparelho mental. 
Parece que a explorao do corpo passa necessariamente por uma neutralizao prvia 
do aparelho mental atravs da organizao do trabalho que desapropria o corpo de sua 
personalidade. Este processo pode ter efeitos durveis ou reversveis de acordo com a 
carga psquica de trabalho, assim a carga psquica de trabalho no seria apenas um 
efeito acessrio do trabalho, mas resultaria de uma etapa que dependeria da submisso 
do corpo e isto asseguraria a organizao do trabalho. 
Defesas contra o sofrimento 
A Psicodinmica do trabalho mostra que, contra o sofrimento, a ansiedade e a 
insatisfao, os individuos constrem sistemas defensivos. Estas defesas ocultam o 
sofrimento, fazendo com que a dor gerada pelo sofrimento permanea desconhecida. 
Desta forma, o sofrimento  vivenciado mas no  reco-
154 



nhecido,  o saber vivncia que se ope ao saber poder: o sofrimento no pode ser 
aliviado porque a dor permanece desconhecida no apenas pelos trabalhadores, mas 
tambm para os seus observadores. A defesa oculta a dor para aliviar o sofrimento, e no 
h como alivi-lo sem conhecer o seu contedo. 
Alienao como fator de sofrimento 
Dejours retoma o conceito de alienao no sentido em que Marx o compreendia, isto , a 
tolerncia graduada, segundo os trabalhadores, de uma organizao do trabalho que vai 
contra seus desejos, suas necessidades e sua sade. Alienao  entendida, tambm, no 
sentido psiquitrico, ou seja, como substituio da vontade prpria do sujeito pela do 
objeto. Neste ultimo caso trata-se de uma alienao que passa pelas ideologias 
defensivas, fazendo com que o trabalhador acabe por confundir os seus desejos prprios 
com os impostos pela organizao. Neste momento ele est substituindo a sua natureza 
de liberdade de escolha pela submisso inconsciente. 
O esforo despendido para tolerar essa agresso gera a fadiga, o esgotamento do corpo, 
por isso a alienao  mais fcil de ser obtida quando o operrio est cansado. A 
alienao  a habitao do corpo do outro, a organizao do trabalho aparece como 
veculo da vontade do outro, e o operrio se sente habitado pelo estranho. A alienao  
uma verdade clinica que, no caso do trabalho, toma a forma de um conflito em que o 
desejo do trabalhador entrega- se  imposio da autoridade patronal. 
Para Dejours a luta por novas relaes sociais deve passar obrigatoriamente pelo 
processo de desalienao, voltando  origem da defesa que provoca o ocultamento da 
dor gerada pelo sofrimento na relao de trabalho. Admite que a anlise da explorao 
no exclui a da vivncia do trabalhador. Sugere que se considere a vivncia do indivduo 
na organizao como o lugar privilegiado do drama onde se atualiza o conflito entre o 
trabalho e o poder. 
Ressalta a funo mascaradora dos sistemas defensivos contra o sofrimento e a 
modalidade particular de s existir na vivncia coletiva do trabalho e de dissolver-se 
assim que h interesse pela vivncia individual. 
Para Dejours o recurso da palavra,  a nica forma de se estudar a relao psquica do 
indivduo com o trabalho. E atravs do discurso na organizao, que se l e se entende o 
sofrimento do indivduo, partindo desta leitura  possvel perceber as estratgias 
defensivas que os funcionrios utilizam coletivamente. Esta  a diferena do espao 
pblico da empresa para a psicanlise. A psicanlise ouve o individuo particularmente, e 
na empresa a estratgia  coletiva. 
Os programas de qualidade tentam destruir esses esquemas defensivos como se estes 
fossem boicotes  produtividade e ao compromisso com a organizao. A empresa, 
quando tenta padronizar os comportamentos e formas de sentir e pensar de seus 
funcionrios, est destruindo esquemas defensivos. Estes esquemas defensivos, como foi 
visto, so muito importantes para os indivduos dentro da organizao, uma vez que so 
mecanismos utilizados por eles para se protegerem psiquicamente. 
155 



Psicodinmica do trabalho e a teoria psicanaltica 
A psicanlise entende que os traos mais estveis da personalidade enrazam-se na 
infncia e nas experincias precoces. Na teoria psicanaltica a organizao mental passa 
por etapas, cada uma delas marcada pelas relaes da criana com os pais. Cristalizam-
se a formas que definem as linhas da personalidade. Este processo envolve obstculos e 
incidentes at que se estabiliza, em suas foras e fragilidades, o seu eu adulto. 
A epistemofilia 
Os obstculos no desenvolvimento psico-afetivo da criana daro lugar ao ponto crtico da 
relao psquica do adulto com o trabalho. 
A criana angustia-se com a angustia dos pais e faz disso o seu prprio sofrimento.  na 
impossibilidade de uma soluo que se cristaliza uma zona de fragilidade psquica (que 
retorna posteriormente na fase da fala). 
A criana, mais tarde na idade da fala, quer compreender uma incgnita e penetra na 
experincia da angstia e do abandono, isto , da rejeio dos pais. As preocupaes 
dos pais tornam-se um enigma para a criana que carrega esse fardo ao longo da vida. 
Esse enigma estar na origem da curiosidade jamais satisfeita, no desejo de saber as 
preocupaes paternas. A partir da a criana vai desenvolvendo teorias sucessivas e a 
criana da infncia ocupar lugar no psiquismo do futuro adulto. 
O jogo: a criana, muito cedo, pe em cena o teatro envolvendo seu sofrimento e 
convidando os pais a representa-lo neste teatro imaginrio, humorstico e menos 
ameaador (o espao ldico). O teatro do trabalho  a transposio do teatro infantil para 
a organizao, os parceiros, agora, so companheiros de trabalho.  neste novo cenrio 
que ocorre a repetio com a possibilidade de simbolizao. 
Ressonncia simblica, histria singular e qualidade do trabalho 
Quando existe a ressonncia simblica entre o teatro do trabalho e o teatro do sofrimento 
psquico, o sujeito aborda a situao concreta sem ter que deixar sua histria, seu 
passado e sua memria no armrio. Ele, atravs do trabalho, pode satisfazer sua 
curiosidade, perseguir seu questionamento interior e traar sua histria. Pela inter-
mediao do trabalho o sujeito engaja-se nas relaes sociais para onde transfere as 
questes herdadas de seu passado e de sua histria afetiva. 
A ressonncia simblica aparece ento como uma condio necessria para a 
articulao bem sucedida da dicotomia singular com a sincronia coletiva. Esse ponto  
essencial porque, em relao  produo e  qualidade do trabalho, a ressonncia 
simblica permite fazer o trabalho beneficiar-se de uma fora extraordinria que  a 
mobilizao dos processos psquicos assduos do 
156 



inconsciente. A ressonncia simblica  uma condio de reconciliao entre o 
inconsciente e os objetivos da produo. 
Condio de ressonncia simblica 
A escolha da profisso  a condio primeira da ressonncia simblica. Esta depende do 
sujeito e no do trabalho, indiferente do contexto scio-histrico que facilite ou 
impossibilite a formao profissional alm da escolha da profisso. Resta avaliar as 
condies reais de trabalho porque, entre profisso e funo, aparecem numa 
organizao diferenas relevantes. O trabalho requer elaborao e essa atividade 
substitui o lugar do jogo (o teatro); na sublimao ocorre a mudana de parceiros do 
espao privado (os pais) para o espao social (os trabalhadores). O indivduo no pode 
escapar do desejo de conhecer o julgamento dos outros e, nesse momento, ele se expe 
ao pblico e  crtica (o espao social), para aceitao, rejeio ou reconhecimento. 
Sublimao, reconhecimento e identidade 
Quando o sujeito se submete  crtica, solicita julgamento e espera reconhecimento. Este 
reconhecimento  a retribuio fundamental da sublimao que tem importante papel na 
conquista da identidade. Esses itens culminam na sade mental. 
Embora o processo originado na criana seja referente ao sofrimento, mesmo 
atormentado por este, o sujeito pode, graas  dissonncia simblica, encontrar no 
trabalho a ocasio de retornar, onde as havia deixado, l na infncia, s questes sem 
respostas as quais produzem na organizao de sua personalidade uma brecha, a zona 
de fragilidade de seu equilbrio psquico e sua sade mental e somtica. Mesmo com o 
reconhecimento essa satisfao tem curta durao e o sofrimento ressurge. 
Muitas pessoas s conseguem salvar seu equilbrio psquico e obter satisfao afetiva 
atravs do trabalho, de forma que o trabalho e a sublimao aparecem como operadores 
da sade mental. Nem sempre o sujeito encontra nas organizaes condies favorveis 
para beneficiar-se do trabalho, dominando seu sofrimento e transformando-o em 
criatividade. O sofrimento patognico e a entrada em circulo vicioso que desestabilizam o 
indivduo so conseqncias da falta de condies oferecidas pelo trabalho ao indivduo 
para realizar a sublimao. 
Sofrimento e motivao 
A psicopatologia do trabalho d ao sofrimento um papel central, fazendo dele um 
instrumento de compreenso no domnio da subjetividade, das condutas e da produo. 
157 



Como acentua Dejours, muitos estudos tm sido orientados no sentido de fazer 
desaparecer o sofrimento, visando a sade dos trabalhadores e/ou a eficcia das 
empresas. Todavia, o sofrimento no pode ser banido da vida humana e se isso fosse 
possvel a realidade traria outras formas de diversidade. 
Embora, afirma o autor, o homem no goste do sofrimento, este o desafia e ele est 
sempre buscando possibilidades de jogar com o sofrimento e descobrir formas criativas e 
teis de signific-lo, adquirindo assim reconhecimento e identidade. A cada sofrimento 
enfrentado e suplantado o indivduo se reconstri, se reestrutura, o que para Freud  o 
trabalho da pulso. Assim, a produo prazerosa do trabalho nada mais  que a 
sublimao derivada do sofrimento (diferente do masoquismo). 
Quando o homem busca o trabalho desafiador (sofrimento) e o supera (prazer), adquire 
reconhecimento e identidade (sublimao) e d sentido a existncia. E ele elimina a 
repetio, desata o n, elabora e reestrutura e comea tudo de novo, O desafio mental e a 
elaborao reconciliam a sade mental e o trabalho. A motivao aqui  a dinmica do 
sofrimento, o desafio vai gerar produo criativa que por sua vez gera reconhecimento e a 
sade mental. O efeito patognico do trabalho seria a desmotivao que necessita de 
outra anlise. O problema psicopatolgico vem das presses psquicas pela concepo e 
execuo do trabalho. 
Conseqncias da organizao cientfica do trabalho sobre a sade mental: 
A organizao cientfica do trabalho separa corpo e pensamento, a concepo fica 
separada da execuo, o cognitivo e o afetivo ficam do lado do corpo e no do 
pensamento. Nas tarefas de manuteno, nas repetitivas formas do processamento de 
informao a sublimao dispe de pequeno espao. 
Sofrimento criativo luta com o operatrio 
O trabalhador luta contra a atividade de pensar espontnea para no desorganizar sua 
cadncia e no gerar erros (atos falhos). A nica forma de paralisar o pensamento  
engajar-se freneticamente na acelerao do ritmo do trabalho at ocupar todo o seu 
espao de conscincia e chegar  fadiga, paralisando o funcionamento psquico.  a 
represso pulsional. Esse processo  auto-acelerado,  penoso e doloroso e no se 
mantm por si mesmo nem se estabiliza. 
Os trabalhadores, para no interromp-la e ter que inici-la no dia seguinte, impem-se 
uma carga de atividade domstica, recorrendo a tarefas suplementares e mantendo o 
ritmo sem ruptura. Isso gera um embrutecimento, um torpor psquico em que se sentem 
inertes e sem reao, e no limite desse processo ocorre o embotamento prximo da 
inrcia psquica. Na clnica psicopatolgica isso  denominado depresso essencial do 
pensamento ope-
158 



ratrio ou alexitimia,  associado a doenas somticas crnicas. Isto justifica a depresso 
acompanhada de doenas somticas. Assim, o ponto final do sofrimento psquico 
ocasionado pelas tarefas anti-sublimatrias, manifesta-se em doena fsica e no mental. 
Conseqncias do sofrimento patognico no ambiente 
A represso do funcionamento psquico reflete-se em toda a vida do sujeito, interferindo 
em suas relaes familiares e sociais. Para no suspender a represso ele no 
desempenha seus papis afetivos, familiares e sociais, desligado de tudo ele se isola, se 
afasta do cnjuge e dos filhos que neste momento esto voltados para a atividade ldica, 
coisa insuportvel para o pai que se torna agressivo. Isto leva o filho a exercitar a retrao 
e a imobilidade, o sofrimento psquico infantil, gerando a paralisia psquica precoce. 
Retorna-se aqui a angustia dos pais, e o sofrimento da criana, o circulo vicioso, esse pai 
foi aquela criana que ser o pai do futuro e tudo se repete atravs das geraes. 
Incidncia do sofrimento patognico sobre a produtividade 
As conseqncias do sofrimento patognico sobre a produtividade foi estudada em uma 
central nuclear onde havia sido observado o individualismo e desengajamento subjetivo. 
Havia uma desmotivao generalizada, ameaando a qualidade e a segurana das 
instalaes nucleares. A pesquisa psicopatolgica incluiu vrios recursos como sesses 
de discusses coletivas diante dos pesquisadores. Nestas sesses foram colocados os 
problemas observados e os trabalhadores tentaram encontrar solues prticas para os 
seus problemas organizacionais. 
Atravs da fala eles se surpreenderam com as formulaes sobre as quais at ento 
nunca haviam parado para pensar. Verbalizando as estratgias defensivas contra o 
sofrimento que provocavam a desorganizao da cooperao, os funcionrios 
perceberam a possibilidade de transformar a subverso do sofrimento em criatividade. As 
dificuldades tcnicas foram reveladas pela fala e as trocas inter-subjetivas abriram 
espao para a competncia. As presses psquicas foram justificadas pelas arbitragens e 
concluram que o risco fazia parte integrante da carga de trabalho. 
Sofrimento humano nas organizaes: do espao de palavra ao espao pblico 
As condies concretas da sublimao, ocorrem graas  reconstituio de um espao 
de palavra e da discusso coletiva necessria para a pesquisa em psicopatologia do 
trabalho atravs da qual pode emergir uma inteligibilidade dos comportamentos 
organizacionais.  atravs do espao de trabalho que surge o conhecimento sobre o 
trabalho real at ento parcial- 
159 



mente oculto pelo sofrimento e pelas defesas contra o sofrimento. O sofrimento 
corresponde ao risco moral da fraude, (defesa contra esse sofrimento), atravs da 
estratgia do segredo. 
Quando o espao da palavra  constitudo, modificam-se as condutas e as relaes 
tornam-se transparentes. A demonstrao pblica possibilita aos indivduos, verem-se e 
se deixarem ver, conhecerem-se e se deixarem conhecer como parte da organizao. A 
discusso substitui o conflito, restabelece a confiana e a solidariedade. O espao de 
palavra no  apenas para arbitragens,  tambm para o processo de reconhecimento 
coletivo, oposto ao individualismo. Esse enfoque da transformao do sofrimento em 
criatividade ocorre atravs do espao pblico onde entra em cena a palavra. A relao de 
confiana permite que o outro se desnude. 
Espao pblico como um recurso humano 
A psicopatologia do trabalho ressalta a importncia do espao pblico como fator capaz 
de reconstituir as condutas individuais e mobilizar a criatividade investida no trabalho. Ele 
 fator fundamental na resoluo do conflito entre organizao e mente humana, entre 
organizao e sofrimento humano no trabalho. 
Dois pontos so assinalados: a sublimao que est na origem da criatividade, e a 
construo do espao publico que mobiliza responsabilidade, qualidade e administrao 
participativa envolvendo administradores, gerncia, direo e trabalhadores de base. no 
espao pblico que eles explicitam suas estratgias defensivas contra o sofrimento. 
Conclui-se ento que o processo que permite transformar o sofrimento em criatividade  a 
ressonncia simblica de uma parte, e o espao pblico de outra. A realizao da 
sublimao no  uma garantia absoluta da sade mental e fsica. As condies 
organizacionais devem propiciar a criatividade para o sujeito que tem interesse de fazer 
do seu trabalho um teatro de luta bem como um espao para a negociao do seu 
sofrimento e conquista de sua identidade. Dejours conclui que o sofrimento ocasionado 
pelo trabalho poder ser um fator de equilbrio psquico e de sade mental para o indivduo 
exatamente pelo prazer que a sublimao lhe possibilita. 
Sofrimento humano e responsabilidade das organizaes 
Dejours faz um elo entre qualidade, segurana, sade e o prazer no trabalho. Para ele 
estes so elementos indissociveis. A segurana depende da boa vontade dos 
funcionrios que vo se interessar individualmente e coletivamente para garantir o bom 
funcionamento da organizao. A administrao tem a responsabilidade social de manter 
o espao pblico para que funconros, operrios, gerentes e executivos possam se 
confrontar e assim garantir a prpria sade mental e fsica bem como garantir a 
segurana da organizao e o equilbrio da sociedade como um todo. 
160 



Trabalho, sofrimento e sociedade 
A luta psquica indissocivel do sofrimento no trabalho no envolve apenas os membros 
de uma organizao, mas todas as pessoas a eles relacionadas afetivamente, famlia e 
sociedade. O espao organizacional no se restringe ao seu espao interno e sim a toda 
a populao que o circunda. Os mtodos organizacionais e administrativos de uma 
organizao determinam no s a sade mental da gerao presente mas tambm das 
geraes futuras, pois o sofrimento no trabalho dos pais vai determinar a sade psquica 
dos filhos e esta se refletir na prxima gerao. 
Os mtodos e processos da administrao dispem de um poder sobre o destino do 
sofrimento das pessoas que pode ser criativo ou patognico e conseqentemente 
dispem de um poder sobre o destino da comunidade pois tero responsabilidade sobre 
a incidncia da violncia, indiferena ou dinamismo de sua populao. Como conclui 
Dejours, a sade mental  uma responsabilidade organizacional. 
Consideraes finais 
A relao conflituosa entre a organizao do trabalho e o aparelho mental deve ser 
resolvida quando esto em jogo a felicidade das pessoas, a produtividade e a motivao 
para o trabalho. Na verdade a relao conflituosa entre a organizao do trabalho e o 
aparelho mental  um conflito que precisa ser resolvido quando esto em jogo no s a 
felicidade das pessoas mas tambm a produtividade e a motivao no trabalho. A 
organizao tem que estar resolvendo esses problemas e criando melhores condies de 
trabalho para que esse conflito seja solucionado. Isso vai ocorrer atravs da relao do 
indivduo com um trabalho mais intelectual e menos repetitivo, contando com um espao 
para maior criatividade, com mais liberdade para inovar. No  enriquecimento de tarefa, 
 ambiente com melhores condies bsicas para que o individuo possa exercer a 
sublimao atravs do seu trabalho. 
A modificao das relaes do individuo com a organizao do trabalho envolve 
mudanas estruturais e de processos organizacionais. Exige a criao de espao pblico 
e uma relao dialgica da direo com os membros da organizao. 
A diferena entre sublimao e motivao  estabelecida quando a empresa proporciona 
condies adequadas de trabalho para que o indivduo desenvolva um processo 
construtivo de trabalho, no se alienando e nem se frustrando. Este vai estar efetuando a 
adequada sublimao do trabalho criando possibilidades de realizao dos desejos 
individuais. 
Para que isso seja possvel o indivduo experincia o simblico que herda da sua infncia 
e vivncia o jogo, trazendo para a vida adulta estas simbolizaes. A empresa precisa 
fazer essa leitura, observando no trabalho a possibilidade de modificar a estrutura 
organizacional.  importante observar que o alvo da 
161 



mudana no  o indivduo mas as estruturas polticas, e os processos organizacionais. 
Tem-se aqui, a mudana de paradigma do pensamento da administrao. Desta forma o 
indivduo atinge os seus objetivos de satisfao e at mesmo de felicidade atravs da sua 
realizao no trabalho e, em conseqncia desta realizao, ele (ser inteligente e livre) 
realiza os objetivos da organizao. A sublimao no trabalho vai ocorrer quando a 
organizao oferecer espao para que o teatro psquico seja transformado em teatro do 
trabalho abrindo assim, caminho para a sublimao de desejos.  ai que a motivao, a 
responsabilidade individual e a felicidade vo ser encontradas. 
Esta motivao difere na sua essncia e nos seus processos, da motivao baseada em 
benefcios e tentativa de satisfao de necessidades humanas. 
RESUMO 
Freud, ao aplicar mtodos cientficos na rea da irracionalidade, lana os fundamentos da 
teoria psicanaltica. Nessa linha, Freud desenvolveu a teoria geral da dinmica da 
personalidade, o estudo da natureza humana no decorrer das vrias faixas de idade e a 
teoria do impacto da sociedade, da cultura e da religio sobre a personalidade. Como 
conseqncia, a psicanlise transformou- se de tcnica teraputica em teoria psicolgica. 
Os conceitos principais da teoria psicanaltica so os de energia, libido e pulso; as 
subdivises da personalidade (id, ego e superego); as qualidades mentais (consciente, 
pr-consciente e inconsciente); os instintos; as defesas do ego e a formao das 
caractersticas individuais. Quanto s subdivises da personalidade, o ego pode ser 
considerado organizador de defesa, o superego  o sistema de interdies e o id, o plo 
pulsional. 
Em relao s qualidades mentais, a conscincia recebe as informaes do mundo 
exterior e interior, o sistema pr-consciente conjuga os contedos que escapam  
conscincia atual, mas que no so inconscientes no sentido estrito. O inconsciente, por 
sua vez,  constitudo por contedos recalcados. 
A aplicao da teoria psicanaltica no mbito organizacional pressupe a compreenso 
do que sejam desejos e necessidades. Alm disso, deve ser considerada a perspectiva 
sob a qual as organizaes abordam essa teoria. Assim, ao ter como objetivo a 
adequao do individuo ao seu meio ambiente, vrias tcnicas tm sido desenvolvidas 
nas empresas. Quando a teoria psicanaltica  compreendida na sua origem, tem-se uma 
aplicao totalmente diferenciada, que se volta para a verdadeira essncia psicolgica do 
ser humano e das conseqncias de ignorar-se este fato. 
A teoria psicanaltica traz sua contribuio  compreenso do comportamento dos 
indivduos nas organizaes, possibilitando a compreenso do desenvolvimento mental 
do individuo enquanto ser desejante, nico e individualizado. 
Possibilita a identificao de mecanismos exteriores de represso adotados 
pelas organizaes que, por sua vez, provocam mecanismos internos de defesa 
psicolgica, explicando assim o processo de dominao e de falsificao da 
162 



conscincia. A teoria Psicanaltica contribui, ainda, para o conhecimento da perversidade 
das organizaes ao usarem a seduo (manipulao) e com ela a introjeo pelo 
indivduo de um ego desejado e delineado pela organizao. 
Ego este que se torna autoritrio e inflexvel, ocasionando a distoro das percepes e 
do pensamento num processo de falsificao da conscincia, onde o indivduo pensa que 
sente, deseja, se realiza e  feliz mas, na realidade, no pensa, no sente e no se 
realiza, mas segue o que a organizao objetiva para ele enquanto pensamento, 
sentimentos e realizao de desejos. Ele vive uma farsa, mente para si mesmo e perpetua 
esta farsa enquanto membro da organizao, junto aos demais membros, reproduzindo a 
sua mentira. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Econmico: qualifica tudo o que se refere  hiptese segundo a qual os processos 
psquicos consistem na circulao e repartio de uma energia qualificvel (energia 
pulsional), isto , suscetvel de aumento ou diminujo de equivalncias. 
Tpico: teoria ou ponto de vista que supe uma diferenciao do aparelho psquico. Fala-
se corretamente de duas tpicas freudianas; a primeira  aquela em que a distino 
principal  feita entre inconsciente, pr-consciente e consciente, e a segunda a que 
distingue trs instncias: id, ego e superego. 
Dinmico: qualifica uma perspectiva que considera os fenmenos psquicos como 
resultantes do conflito e da composio de foras que exercem certa presso, foras que 
so, em ltima anlise, de origem pulsional. 
Simblico: termo introduzido por J. Lacan, que distingue no campo da psicanlise trs 
registros essenciais: o simblico, o imaginrio e o real. O simblico designa a ordem de 
fenmenos de que trata a psicanlise,  medida que so estruturados como uma 
linguagem. Este termo refere-se tambm  idia de que a eficcia do tratamento tem seu 
elemento propulsor real no carter fundamental da palavra. 
Libido: energia postulada por Freud como substrato das transformaes da pulso sexual 
quanto ao objeto (deslocamento dos investimentos), quanto ao alvo (sublimao, por 
exemplo) e quanto  formao da excitao sexual (diversidade das zonas ergenas). 
Pulso: processo dinmico que consiste numa presso ou fora que faz o organismo 
tender a um alvo. So foras que atuam na vida mental; em interao, inibem ou 
favorecem o desenvolvimento das outras foras. 
Condensao: um dos modos essenciais do funcionamento dos processos inconscientes, 
onde uma representao nica representa por si s vrias cadeias associativas, em cuja 
interseo se encontra. 
Deslocamento: fato de acentuao, o jnteresse, a jntensidade de uma representao de 
ser suscetvel de se soltar dela para passar a outras representaes, originariamente 
pouco intensas, ligadas  primeira por uma cadeia associativa. 
163 



Id: plo pulsional da personalidade, cujo contedo  inconsciente, podendo ser hereditrio 
ou recalcado e adquirido. 
Consciente: qualidade mental; envolve somente os contedos que resultam dos processos 
do ego e que esto sob o seu domnio. 
Defesa do ego: utilizao pelo ego de vrios subsistemas para evitar o perigo quando 
soa o alarme da ansiedade. Procura diferentes meios de ao, inclusive recorrendo  
memria, onde esto armazenados vrios meios j usados anteriormente. 
Ego: parte organizada da personalidade; envolve todas as funes denominadas 
psicolgicas: percepo, aprendizagem, memria e raciocnio.  uma parte do id que se 
desenvolveu por meio do contato com o meio externo, permitindo-lhe agir como 
intermedirio entre o id e o mundo externo. Sua maior responsabilidade  conduzir 
transaes com o mundo externo. Instncia que Freud, na sua segunda teoria do aparelho 
psquico, distingue do id e do superego. 
Do ponto de vista tpico, o ego est numa relao de dependncia quanto s 
reivindicaes do id, bem como quanto aos imperativos do superego e s exigncias da 
realidade. Embora se situe como mediador, encarregado dos interesses da totalidade da 
pessoa, a sua autonomia  apenas relativa. 
Do ponto de vista dinmico, o ego representa, eminentemente, no conflito neurtico, o 
plo defensivo da personalidade; pe em jogo uma srie de mecanismos de defesa, 
estes motivados pela percepo de um afeto desagradvel (sinal de angstia). 
Do ponto de vista econmico, o ego surge como um fator de ligao dos processos 
psquicos; mas, nas operaes defensivas, as tentativas de ligao da energia pulsional 
so contaminadas pelas caractersticas que especificam o processo primrio: assumem 
um aspecto compulsivo, repetitivo. 
A teoria psicanaltica procura explicar a gnese do ego em dois registros relativamente 
heterogneos, quer vendo nele um aparelho adaptativo, diferenciado a partir do id em 
contato com a realidade exterior, quer definindo-o como o produto de intensificaes que 
levam  formao no seio da pessoa de um objeto de amor investido pelo id. 
Relativamente  primeira teoria do aparelho psquico, o ego  mais vasto 
do que o sistema pr-consciente-consciente, na medida em que as operaes 
defensivas so em grande parte inconscientes. 
De um ponto de vista histrico, o conceito tpico do ego  o resultado de 
uma noo constantemente presente em Freud desde as origens do seu pensamento 
(Laplanche). 
Energia: algo que pode ser transformado, dirigido, acumulado, preservado, descarregado 
e dissipado, mas no pode ser totalmente destrudo. 
Formao do carter: para Freud, os traos de carter so prolongamentos dos instintos 
originais, ou sublimaes desses instintos, ou ainda formaes reativas a esses mesmos 
instintos. 
Inconsciente: aes cujas causas so desconhecidas pelo ego. 
Instinto:  a representao mental, no id, de uma fonte somtica interior de estimulao. O 
objetivo do instinto  abolir a tenso causada pela necessidade (need); conseguindo 
atingir o objetivo, o individuo experimenta prazer. 
164 



Irracionalidade: o objeto de estudo passou a ser tambm os fenmenos irracionais, 
introduzindo o mtodo cientifico na rea da irracionalidade. 
Mecanismos de defesa: medidas que o ego utiliza na defesa contra o id, agindo 
diretamente sobre os propsitos do instinto. 
Processos mentais: fenmenos racionais e irracionais da vida humana. 
Represso:  o primeiro mecanismo que o ego utiliza na defesa contra o id, agindo 
diretamente sobre os propsitos do instinto. 
Sublimao: desvio de energia sexual (libido) de seu objetivo sexual para objetivos 
culturais. 
Desejo: busca de algo ausente; no  a busca de um objeto. Traz o sentimento de 
ausncia, de falta. Est no nvel da fantasia, da imaginao. A busca de algo que falta 
caracteriza a marcha prospectiva ao infinito do desejo. Nunca  satisfeito. Quando se 
alcana algo, quando h satisfao, deseja-se algo alm dele e ai se abre o campo 
irremedivel da insatisfao.  ai que se explica a indestrutibilidade dos desejos e a sua 
natureza imaginria. Ele se situa na fantasia, na imaginao e  inconsciente e 
diferenciado para cada indivduo. 
Necessidade: nasce de um estado de tenso interna, encontra sua satisfao pela ao 
especfica que fornece o objeto adequado (alimentao, trabalho especifico etc.). 
APLICAO 
1. Identificar, nas polticas referentes s formas de organizao e gerenciamento do 
trabalho, bem como do sistema gerencial, a aplicao dos conceitos psicanalticos de 
satisfao de necessidade e realizao de desejos. 
2. Identificaras conseqncias dessas polticas no nvel do indivduo como ser inteligente e 
livre, no nvel da empresa (produtividade, melhora da qualidade, relaes de trabalho  
capital x trabalho) e no nvel da sociedade. 
3. Caracterizar a organizao como meio social e seus processos de represso (tcnicas 
gerenciais, normas, polticas, cultura e/ou processos de mudana de cultura). 
QUESTES 
1. Como se desenvolveu a teoria psicanaltica? 
2. Qual a funo de cada uma das subdivises da personalidade (id, ego e superego)? 
3. Quais os pressupostos bsicos da teoria psicanaltica? 
4. Quais as principais contribuies da teoria psicanaltica para a compreenso do 
comportamento humano na organizao? 
5. Quais as principais limitaes da teoria psicanaltica para explicar o comportamento 
humano na organizao? 
165 
6. Qual a confuso que se faz ao relacionar necessidade e desejo em nvel 
organizacional? 
7. O que  falsa conscincia? 
8. Quajs os mecanismos usados pelas organizaes para falsificar as conscincias dos 
indivduos? 
9. Qual  a diferena entre processo de participao como processo de seduo ou 
manipulao e a participao como processo emancipatrio dos membros da 
organizao? 
EXERCCIOS 
1.Dejours fala em uma sublimao como mecanismo de motivao do indivduo, Maslow 
prope a satisfao das necessidades humanas: 
Explique as diferenas existentes entre as posies de Dejours e de Maslow. 
2.Identifique as estratgias que as organizaes devero adotar para aplicar a teoria da 
psicodinmica do trabalho e explique porque.
3. Dejours afirma:  o sofrimento faz parte da prpria natureza do trabalho 
 o sofrimento pode ser potencialmente destrutivo ou construtivo; 
a) Explique como a psicodinmica do trabalho chegou a estas concluses. 
b) Explique os mecanjsmos de defesa individuais e os coletivos usados pelos indivduos 
para lutar contra o desequilbrio mental e suas 
conseqncias. 
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ROUANET, Srgio Paulo. A Razo Cativa. So Paulo: Brasiliense, 1985. 
___________ Teoria Crtica e Psicanlise. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. 
167



7.O CONDICIONAMENTO DO 
COMPORTAMENTO NA ORGANIZAO 
Ao terminar a leitura deste captulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender as proposies bsicas do behaviorismo. 
2. Identificar seus pressupostos valorativos. 
3. Identificar a contribuio do modelo behaviorista  compreenso do comportamento 
humano na organizao. 
Os princpios do Taylorismo esto fundamentados no pressuposto do indivduo como ser 
condicionado. Retira do indivduo a sua capacidade de pensar e prope um 
comportamento padronizado atravs de condicionantes externos ou estmulos a priori 
planejados. As tarefas so esvaziadas da atividade de pensar, restando aos seus 
responsveis somente a sua execuo. 
Os tempos, os movimentos so predeterminados. A produtividade  garantida atravs de 
recompensas e punies. O condicionamento, entretanto,  retomado na Escola de 
Relaes Humanas que, ao reconhecer o indivduo como ser social com sentimentos, 
emoes, necessidades, desejos e pensamentos, procura pelo processo de manipulao 
desses elementos envolver o indivduo com a organizao num processo onde os 
objetivos da organizao passam a ser tomados pelos indivduos como os seus desejos, 
e as necessidades individuais, definidas e conduzidas pela organizao. 
As teorias da Administrao que se apoiam na Teoria Geral dos Sistemas, como a Teoria 
Contingencial, a abordagem Estruto-funcionalista de Katz e Kahn, a abordagem 
sociotcnica e a administrao denominada participativa seguem o mesmo princpio de 
manipulao emocional e controle psicolgico dos indivduos. Estes, como membros da 
organizao, so induzidos, na maioria das vezes, envolvidos em processos de 
participao que nada mais so do que um processo de controle emocional e mental por 
meio de tcnicas de grupo (team building, CCQ, TGQ, QVT e outras) a se 
comprometerem com objetivos, crenas e credos da organizao. 
Origens 
O behaviorismo, tambm denominado comportamentalismo, baseou-se no determinismo 
filosfico de James, no funcionalismo de Dewey e no mtodo 
169 



experimental da Psicologia de Yerkes, alm do condicionamento de Pavlov Ivan Petrovitch 
(1849-1939). 
Pavlov desenvolveu a teoria do condicionamento clssico ou reflexolgico, sendo, 
portanto, de natureza fisiolgica e proveniente tambm da teoria conexionista. 
Segundo Pavlov, diante de um estimulo sensorial surgem reflexos, reaes inatas, ou 
mesmo reaes imediatas, fixas e no-apreendidas. Considera o organismo dotado de 
uma srie de respostas, tendncias ou reaes que, diante de estmulos apropriados, 
naturais ou incondicionados, conduz esse organismo a uma ao, emitindo determinada 
resposta. Um outro precursor do behaviorismo foi Edward Lee Thorndike (1874-1949) 
considerado um terico conexionista. 
A teoria conexionista da aprendizagem, denominada associacionismo moderno, 
funcionalismo moderno ou Psicologia estimulo-resposta, considera a conexo resultante 
da associao entre as impresses dos sentidos e os impulsos para a ao, ou seja, 
associao entre o estmulo (S) e a resposta (R). 
Segundo Thorndike, esse estimulo seria qualquer estado de coisas ou fatos que 
influenciam uma pessoa; a resposta seria qualquer condio ou estado de coisas dentro 
do organismo. 
A conexo, ou associao, origina-se na hereditariedade; o organismo  dotado de 
algumas tendncias ou conexes bsicas j formadas ou tem curta predisposio para 
sua formao. Dessa forma, determinado estmulo ao meio ambiente  conduzido atravs 
das fibras nervosas a certa clula e esta, por sua vez, est predisposta a estabelecer 
associao ou conexes com outras clulas. 
A aprendizagem, para Thorndike, obedece s seguintes leis: 
1. Lei do exerccio  A conexo  tanto mais forte quanto mais freqentemente  
exercitada; portanto, sua fora diminui quando no  exercitada. Existem certos fatores 
que influenciam o exerccio: tais fatos seriam: Intensidade do estmulo  Quanto mais 
intenso o estimulo, menos exerccio  necessrio. Recentidade do estmulo  Quanto 
mais recente a conexo, mais fcil  a lembrana. 
2. Lei do efeito  A conexo entre S  R  fortalecida diante de resultados agradveis e 
enfraquecida diante de resultados desagradveis. Segundo Thorndike, a recompensa  
mais poderosa que a punio: esta afeta indiretamente a aprendizagem. 
3. Lei da predisposio ou da prontido  As reaes do indivduo so determinadas 
pelos neurnios, preparando-o para reagir ou no. Se uma conexo est pronta para agir, 
o agir satisfaz e o no-agir desagrada. 
Para os conexistas, a aprendizagem  a formao de conexes entre estimulo-resposta, 
ou a modificao de conexes j formadas. Tais conexes so fixadas pelo exerccio. 
Watson (1913), precursor do behaviorismo, integrou essas diferentes contribuies e, 
com base no determinismo, no empirismo e no reducionismo, iniciou uma nova era para a 
Psicologia cientifica. O objeto de estudo dessa cincia seria no mais a conscincia, mas 
o comportamento, entendido como 
170 



aquele fenmeno observvel diretamente e explicvel como mera resposta do organismo 
a modificaes ambientais ou a estmulos. Todo o comportamento  redutvel, portanto, a 
modificaes no nvel de msculos, glndulas e tecidos, e poder ser interpretado em 
termos fsico-qumicos. Como conseqncia, a partir do conhecimento dos estmulos 
pode-se prever as respostas e, dada uma resposta, pode-se identificar o estimulo 
atuante. Outra conseqncia  que o comportamento humano e o comportamento animal 
so entendidos como regidos pelos mesmos princpios, sendo a diferena apenas em 
nvel de complexidade. A Psicologia seria, portanto, objetiva e uma rea experimental da 
Cincia Natural. 
O behaviorismo prope-se, atravs da manipulao dos estmulos ambientais, a planejar 
e formar seres humanos. No nega que certos padres de comportamento sejam inatos, 
mas enfatiza aqueles adquiridos atravs da experincia, ressaltando seu maior nmero e 
importncia. Assim sendo, os estmulos, ou seja, as modificaes ambientais capazes de 
produzir respostas, poderiam ser manipulados de acordo com as caractersticas 
individuais desejadas. Por exemplo: se for desejada uma personalidade agressiva, 
colocam-se no meio ambiente estmulos apropriados ao desenvolvimento de padres de 
comportamento agressivo. Esse mesmo processo ocorreria na formao ou 
desenvolvimento dos padres comportamentais dos vrios tipos de indivduos. 
Condicionamento dos seres humanos 
Segundo os behavioristas, a sociedade poderia atingir, com a tecnologia do 
comportamento, um grau de sofisticao em que o planejamento da pessoa humana se 
tornaria possvel. Watson expressa suas idias com as seguintes palavras: Dai-me uma 
dzia de crianas sadias, bem-formadas e um ambiente de acordo com minhas 
especificaes e garanto que poderei tomar qualquer uma ao acaso e trein-la para que 
se torne qualquer tipo de especialista  mdico, advogado, artista, comerciante, 
executivo, mendigo, ou mesmo um ladro, independentemente de suas inclinaes, 
tendncias, talentos, habilidades, vocaes e da raa de seus ancestrais. Os 
behavioristas distinguem duas classes de comportamento: o respondente (reflexo) e o 
operante (voluntrio). 
Comportamento respondente 
 a resposta que o organismo d a um estmulo especifico. O estimulo est diretamente 
relacionado  resposta. O comportamento respondente abrange todas as respostas que 
dependem do Sistema Nervoso Autnomo e so eliciadas (produzidas) por modificaes 
especiais de estmulos do ambiente. Exemplos: a salivao ao comer; a dilatao das 
pupilas dos olhos em resposta a alteraes na iluminao do ambiente; os arrepios da 
pele em ambiente de baixa temperatura etc. 
171 



Comportamento operante 
 aquele de reao ao meio externo, sem que se possa identificar os estmulos que 
provocam a resposta emitida. O comportamento operante manifesta-se em conseqncia 
da maturao e dos condicionamentos acumulados ao longo da vida do indivduo. 
Distino entre comportamento respondente e comportamento operante 
O comportamento operante ou voluntrio relaciona-se com o estimulo de modo diferente 
do comportamento respondente. No  automtico nem muito especifico com relao aos 
estmulos. Na verdade, no h no seu inicio nenhum estimulo especifico com o qual se 
possa relacion-lo. Por exemplo: no se sabe qual o estimulo especifico que faz a criana 
movimentar o brao. O operante  emitido (posto fora), enquanto o respondente  eliciado 
(tirado de). 
Direta ou indiretamente, o comportamento operante atua sobre o meio  medida que, por 
exemplo, a pessoa fala ao telefone, trabalha, dirige seu carro etc. Ao contrrio, os 
comportamentos respondentes so ativados pelos seus prprios estmulos especficos 
(comida na boca produz salivao). 
O processo de condicionamento respondente 
De acordo com esses tipos de comportamento, podem ocorrer dois tipos de 
condicionamento: respondente (ou clssico) e operante (ou instrumental). O processo de 
condicionamento respondente, que tambm  uma forma simples de aprendizagem,  um 
dos processos pelos quais os behavioristas explicam a formao dos comportamentos. 
Nesse tipo de condicionamento, um estimulo neutro ocorre de maneira constante e 
persistente e  seguido por um estimulo incondicionado, isto , um estimulo que, em 
circunstncias normais, provocaria uma resposta especfica. O estimulo neutro passa a 
ser condicionado no momento em que provoca a resposta condicionada, ou seja, a 
mesma resposta que o estmulo incondicionado provocaria. 
Experimento de Pavlov 
Pavlov chamou de reflexo incondicionado  salivao do co faminto diante do alimento. 
Pavlov, porm, condicionou seu co a salivar ao ouvir o som de uma campainha que 
soava imediatamente antes de o alimento ser apresentado. O alimento estabelecia a 
conexo entre o estimulo neutro (som da campainha) e a salivao, O cachorro e o 
estimulo (som) a ele associado passaram a chamar-se estimulo condicionado da mesma 
resposta. Para que haja um condicionamento da salivao de um animal ao som da 
campainha  necess-
172 



rio que o estmulo neutro (som da campainha) anteceda a apresentao do estimulo 
incondicionado (alimento). O perodo de tempo entre a apresentao do som da 
campainha e do alimento deve ser o menor possvel, para que haja condicionamento. A 
Figura 5.1. d uma idia de tal modelo de aprendizagem. 
Figura 5.1. Modelo de aprendizagem no qual um estmulo, por ser emparelhado com um 
segundo estmulo, passa a eliciar uma resposta semelhante quela eliciada previamente 
apenas pelo segundo estmulo. 
Suar ao ver o dentista pode ser um exemplo de resposta condicionada (uma criana que 
nunca foi ao dentista, nem associa a figura do dentista  
dor, no suar). 
Fatores que influenciam o condicionamento 
So vrios os fatore que devem ser levados em conta para que o condicionamento ocorra 
com rapidez. Em primeiro lugar, a ordem dos estmulos: o estimulo neutro deve ser 
apresentado sempre antes do estimulo incondicionado. Em segundo lugar, a contigidade 
temporal: o perodo de tempo entre o estimulo neutro e o incondicionado deve ser o menor 
possvel. Finalmente, h uma srie de outros fatores que tambm  necessrio levar em 
considerao, como a intensidade dos estmulos provocados, as condies fisiolgicas 
do sujeito experimental, as condies ambientais etc. 
173 



Condicionamento operante 
No condicionamento operante ou instrumental, outro processo de aprendizagem estudado 
pelos behavioristas, o comportamento ocorre espontaneamente, como resultado de um 
processo de maturao ou de aprendizagens anteriores. Nesse tipo de comportamento a 
resposta do organismo produz uma modificao comportamental que tem efeitos sobre 
ela. Esse efeito constitui o condicionamento que usualmente gera o aumento da 
freqncia de resposta. O exemplo da criana que comea a balbuciar (resultado da 
maturao) e a pronunciar as slabas pa-pa e ma-ma, e  reforada positivamente 
pelos pais e por outras pessoas que a rodeiam,  dado pelos behavioristas, para 
caracterizar esta situao: reforo positivo refora o processo de aprendizagem das 
palavras papai e mame. 
Reforo: definio e tipos 
 modificao ambiental que foi capaz de produzir o condicionamento chamamos reforo. 
Reforo, portanto,  um fator que aumenta a possibilidade de uma resposta ocorrer em 
determinada situao. O reforo pode ser positivo e negativo. Reforo positivo  um 
estimulo que aumenta a freqncia da resposta quando ocorre contingentemente a ela. 
Reforo negativo  um estimulo que aumenta a freqncia da resposta quando eliminado 
contingentemente  sua emisso. Exemplos comuns de reforos so o alimento (positivo) 
e o choque eltrico (negativo). 
O reforo pode, ainda, ser identificado como primrio e secundrio. Reforo primrio  
aquele que, pela sua prpria natureza, independentemente de 
aprendizagem, possui a capacidade de condicionar. 
Privao e reforo 
O alimento e o choque eltrico so exemplos desse tipo de reforo. Reforo secundrio  
um estimulo que, por ter sido associado a um reforo primrio, adquiriu a capacidade de 
condicionar. No experimento de Pavlov, relatado anteriormente, a campainha, 
apresentada contingentemente a um comportamento operante do co, tenderia a 
fortalec-lo. O reforo secundrio, no entanto, adquire as mesmas propriedades do 
reforo especifico ao qual foi associado. O alimento, por exemplo,  capaz de reforar 
apenas quando o organismo estiver privado de alimento. O som de uma campainha, 
associado ao alimento, por sua vez s atuar como reforo quando o organismo estiver 
privado de alimento. 
Quando um estimulo  associado a vrios reforos primrios, passa a ter 
a capacidade de atuar quando da existncia de diferentes estados de privao, 
e  chamado reforo secundrio generalizado. Um exemplo de reforo secundrio 
generalizado seria, por exemplo, a ateno dada a uma pessoa.Para que 
174 



se obtenha alimento, sexo e outros reforos, a ateno de quem os fornece  uma 
condio usualmente presente. Por ser associada a estes, ela se torna um estimulo 
reforador generalizado. 
Alguns fatores devem ser levados em considerao, com relao ao condicionamento 
operante. A contigidade temporal entre a resposta e o reforo  fundamental para que o 
processo de condicionamento ocorra e a resposta seja fortalecida. O estado de privao 
tambm deve ser considerado. A apresentao de alimento contingentemente a uma 
resposta operante, estando o organismo saciado, pode no produzir efeito sobre a 
mesma. 
Dispositivos experimentais 
Skinner, um dos mais determinantes psiclogos da corrente behaviorista na atualidade e 
responsvel por importantes contribuies em seu campo, idealizou um dispositivo 
experimental, denominado Caixa de Skinner, como mostra a Figura 5.2., usado pelos 
experimentadores para investigar o condicionamento instrumental e seus efeitos em 
animais. Tais investigaes tambm se processam com a ajuda de labirintos, conforme o 
demonstra a Figura 5.3. 
Figura 5.2. Caixa de Skinner. 
A Caixa de Skinner  uma caixa que contm uma alavanca e um recipiente com comida. 
 um dispositivo que os experimentadores freqentemente usam para investigar os 
efeitos das vrias condies no condicionamento instrumental. Este dispositivo  montado 
de tal forma que o animal, toda vez que pressiona a alavanca, recebe alguma 
recompensa, tal como alimento. O surgimento do alimento depende, ento, da resposta 
do animal; nessas condies, quanto mais vezes receber o alimento, atravs da presso 
na alavanca, tanto mais, provavelmente, continuar a pression-la, at saciar a fome. 
175 



Figura 5.3. Labirintos. (a) e (b): Labirintos usados para estudar a aprendizagem 
instrumental. (e): Labirinto em que a pessoa traa os caminhos a lpis. 
Tanto para a Caixa de Skinner quanto para o labirinto, utiliza-se o reforo positivo como 
estimulo para a mudana de comportamento. H, entretanto, situaes em que se adota o 
reforo negativo com esta mesma finalidade, como, por exemplo, choques eltricos. 
Extino 
Tanto as respostas reflexas como as operantes, condicionadas, podem ser extintas. A 
extino consiste, no caso do comportamento reflexo, na perda gradual do poder do 
estimulo condicionado, de eliciar a resposta condicionada. A extino reflexa ocorrer se 
deixarmos de emparelhar o estimulo condicionado com o incondicionado. 
A extino operante ocorrer quando uma resposta, apesar de emitida, nunca mais for 
reforada, quer positiva, quer negativamente, quer por reforos primrios ou secundrios. 
Se, no entanto, for ocasionalmente reforada, isto poder manter ou at mesmo aumentar 
sua fora. 
Ocasionalmente, uma resposta considerada totalmente extinta pode reaparecer. A este 
fenmeno chamamos recuperao espontnea. 
176 



Punio 
Outro tipo de contingncia que produz efeitos sobre uma resposta  a punio. A punio 
consiste na apresentao de um estimulo aversivo (reforador negativo) ou na retirada de 
um estimulo positivo aps a emisso de uma resposta. Como exemplo temos a 
travessura de uma criana na hora do almoo, que pode ser seguida de uma palmada 
(reforador negativo) ou da retirada da sobremesa. Na organizao, o reforamento, a 
extino e a punio produzem diferentes efeitos sobre o comportamento. O 
reforamento, positivo ou negativo, aumenta a probabilidade de ocorrncia da resposta. A 
extino leva a um gradual enfraquecimento da resposta e mesmo  eliminao da 
mesma. A punio suprime a resposta, se bem que temporariamente, na maioria das 
vezes. O que se tem verificado  que seu efeito perdura enquanto perdurar a ansiedade 
produzida por ela. Passada esta, a resposta costuma reaparecer com a mesma 
intensidade. Um exemplo das conseqncias deste procedimento seria, em uma 
empresa, no dar aumento salarial por falta de adequao dos funcionrios  
organizao. A ausncia de aumento salarial pode contribuir apenas para criar uma 
situao de tenso, mal-estar e irritao com a organizao, com conseqente diminuio 
de produtividade; como a punio no ensina como agir, quais as respostas desejveis, 
qual o comportamento considerado adequado, uma vez passado o estado de irritao 
dos funcionrios, as coisas voltaro a ser como antes, ou seja, os funcionrios no se 
tornaro mais adequados. A falta de indicao do comportamento desejado pode mesmo 
conduzir a um desajustamento crescente. Em conseqncia temos que, a menos que se 
permita ou propicie a ocorrncia de respostas desejveis, e sejam estas reforadas, o 
comportamento dificilmente ser modificado. 
Por que um estmulo age como reforador 
A natureza do reforo  um dos problemas do behaviorismo.  difcil identificar o que 
relmente toma um estimulo o reforo para determinadas respostas. Os reforos 
primrios, tais como alimento, gua, contato sexual e proteo contra situaes de risco 
para o bem-estar do organismo, parecem no explicar todo o fenmeno do reforamento 
do comportamento. 
Fatores que interferem no resultado do condicionamento 
Certos experimentos j realizados, especialmente por Skinner, mostram que outros 
fatores interferem para que um estimulo se torne ou no um reforo. Como j foi analisado 
anteriormente, fatores tais como o intervalo, o nmero de vezes que o estimulo  
apresentado e a sua apresentao, conjugada com p estimulo incondicionado, interferem 
e modificam os resultados do condicio amento, ou seja, o tipo de resposta dada pelo 
organismo (humano ou animal). 
177 



O caso particular do reforo condicionado ou reforo secundrio generalizado coloca 
problemas mais difceis. O mesmo reforo, como, por exemplo, o dinheiro, pode ser 
associado a diferentes estmulos primrios, como alimento, vesturio etc., e poder 
reforar grande nmero de respostas. 
O problema da saciao e da privao parece ser fundamental ao se investigar o que 
realmente refora uma resposta. Um indivduo que no tem sede no responder ao 
reforo gua. O mesmo vai acontecer com todos os demais reforos. Segundo alguns 
behavioristas, o problema reside na manipulao dos fatores saciao e privao. 
Significado do reforo 
Alm do problema da saciao e da privao, outra dificuldade encontra da pelos 
behavioristas  o significado do reforo para cada indivduo. Por exemplo, um aumento 
salarial tem diferentes significados para diferentes indivduos numa empresa. Ele pode 
ser tomado como o reconhecimento de um bom desempenho; como uma tentativa de 
enquadrar as pessoas nas normas e nos padres da organizao; como um meio de 
tornar os individuos passivos e obedientes; como uma tentativa de suborno etc. Portanto, 
o verdadeiro estimulo no  a recompensa, ou seja, o aumento de salrio, mas o 
significado do aumento de salrio para cada indivduo, o que poder gerar respostas at 
mesmo antagnicas quelas esperadas pela empresa. Aqui, a dificuldade est em que 
geralmente quem d o reforo no pode prever os diferentes significados que este vai ter 
para cada indivduo. 
Generalizao de estmulos 
Um individuo, condicionado a emitir certa resposta em dada situao, tende a responder 
da mesma forma em situaes semelhantes. Chama-se generalizao de estmulos  
passagem do controle dos estmulos presentes nesta situao a estmulos similares, 
existentes em outras situaes. Quanto mais similares os estmulos, maior a 
probabilidade de generalizao. Exemplo: uma criana condicionada a temer ratos 
brancos se chocar diante de qualquer coisa que se assemelhe a um rato branco: coelho 
branco, algodo etc. 
Discriminao de estmulos 
A discriminao de estmulos ocorre quando o organismo aprende a dar respostas 
diferentes a estmulos similares. Se a criana do exemplo acima passar a chorar apenas 
na presena de ratos brancos, dizemos que ocorreu discriminao. A discriminao  
resultado do reforo  resposta apenas na presena de um estimulo (rato branco) e no 
na presena dos similares (coelho branco, algodo). O estimulo que passa a controlar o 
comportamento  chamado estimulo discriminativo. 
178 



Motivaes (drives): os behavioristas e as motivaes 
O problema das motivaes (drives)  uma dificuldade que os behavioristas no 
resolveram. A prpria natureza e o nmero das motivaes so problemas no definidos 
pelo behaviorismo. A natureza psicolgica das motivaes impede sua observao 
direta, o que impede a aplicao do mtodo adotado pelo behaviorismo. A no-
adequao da metodologia cientfica adotada para o estudo das motivaes levou os 
behavioristas a uma posio negativa e  descrena na possibilidade de incorporar este 
fator aos seus estudos. 
 possvel reforar o comportamento estando o organismo em dado estado de privao. 
 possvel testar experimentalmente o efeito dessa privao. No entanto, tais 
experimentos no podem ser efetivados com a motivao em toda a sua extenso, pois 
ela  um fator interno, no observvel diretamente e, portanto, transgride a prpria filosofia 
do behaviorismo. 
Dada esta dificuldade, algumas correntes do behaviorismo preferem discutir o problema 
privao e saciao e omitir a motivao. 
Emoes 
Skinner considera as emoes como predisposies dos organismos para agir de certo 
modo. Tais predisposies resultam das experincias de vida dos organismos. Um 
indivduo enraivecido est predisposto a agredir, a insultar, assim como o individuo que 
est amando age amavelmente com as pessoas,  capaz de fazer favores, delicadezas 
etc. 
As emoes, entretanto, so consideradas no como um estimulo, mas 
como um tipo especifico de fora, capaz de intensificar ou enfraquecer as respostas do 
indivduo. No so, portanto, causas do comportamento. 
O behaviorismo considera como causa do comportamento apenas os estmulos. As 
emoes indicariam apenas o grau provvel de intensidade de certas respostas. Assim 
como as motivaes, essas respostas so consideradas aquisies efetuadas por meio 
de condicionamento. As emoes e as motivaes (drives) se superpem. Um exemplo 
dessa superposio  a frustrao e a insegurana de um indivduo faminto. A fome  o 
motivo. A frustrao e a insegurana so as emoes. 
Percepo 
Para o behaviorismo, a percepo  uma funo dos nervos sensoriais, que registram os 
estmulos e os transmitem ao crebro. Dentro dessa concepo, o comportamento 
humano  reduzido a uma cadeia central sensriomotora de estmulos e de respostas. 
O bhaviorismo atribuiu ao crebro no somente a funo de condutor de estmulomas 
tambm de dispositivo de conexo. As mesmas bases sensriomotoras explicam os 
processos da memria, O pensamento e a linguagem 
179 



aparecem como sinnimos. As palavras so adquiridas por condicionamento; por meio 
da linguagem se estabelece um contato mais real com o meio ambiente. O pensamento  
a linguagem no-verbalizada. 
A personalidade segundo o behaviorismo 
O behavionsmo considera a personalidade como a totalidade dos padres de 
comportamento do indivduo. E o produto final de nosso sistema de hbitos. Esses 
padres de comportamento so formados por meio de condicionamentos que, por sua 
vez, so reforados ou extintos no decorrer da vida do indivduo. No existem padres de 
comportamento totalmente fixos. Apenas as mudanas dos padres de comportamento 
ocorrem gradativamente.O estudo da personalidade deve considerar, segundo os 
behavioristas, os seguintes fatores: 
a) os reflexos incondicionados ou inatos; 
b) os reflexos condicionados; 
c) o ambiente fsico e social e suas influncias no desenvolvimento da personalidade. 
Tomada de decises 
O indivduo toma decises em funo dos estmulos ambientais. Para o behaviorismo, no 
existe o eu interior, ou a fora interior que se coloca entre o estimulo e a resposta.  o que 
se denomina comumente como a caixa preta de Skinner. 
O controle da tomada de deciso 
A tomada de deciso pode ser controlada atravs da manipulao de estmulos e 
reforos socialmente administrados, que aumentam a probabilidade da resposta ou da 
deciso. A oscilao entre as formas incompletas de respostas  incmoda e aversiva. O 
reforamento contribui para eliminar este conflito. Quando adequadamente administrado, 
o reforo aumenta a probabilidade da tomada de decises. 
Controle das variveis experimentais na situao organizacional. Behaviorismo e o 
comportamento humano na organizao 
O behaviorismo  amplamente aplicado ao estudo do comportamento humano na 
organizao. No entanto, no  possvel transpor as concluses de uma situao 
experimental para o contexto da organizao. Na situao experimental, as variveis so 
controladas com rigor, o que no  possvel na situao organizacional. Tampouco  
possvel controlar, na situao organizacional, a interferncia de outros fatores, quer seja 
em nvel de estmulos, quer seja no reforamento. Por outro lado, o behaviorismo estuda o 
comportamento indi- 
180 



vidual do organismo. Os resultados alcanados em seus experimentos dificilmente 
poderiam ser aplicados a situaes organizacionais. A estrutura da organizao no  
considerada. A interao entre os membros da organizao e entre os grupos 
organizacionais no  uma varivel controlvel pelo behaviorismo. Portanto, o 
behaviorismo tenta explicar o comportamento em nvel do organismo individual. Os 
experimentos ou estudos cientficos so geralmente desenvolvidos visando ao estudo do 
comportamento de um sujeito experimental isolado. 
Dificuldade de manipulao de estmulos e reforos adequados a certos 
comportamentos 
Outro problema que surge na aplicao do behaviorismo diz respeito  manipulao dos 
estmulos e dos reforos adequados a determinados comportamentos. Essa manipulao 
torna-se complexa e dificil porque os individuos respondem de maneira diversa aos 
mesmos estmulos e reforos. Isto dificulta o controle do comportamento por meio desses 
mesmos estmulos e reforos. Segundo os behavioristas, o grau de saciao e de 
privao influi na resposta dada aos estmulos e reforos. Na organizao, porm, a 
identificao do grau de saciao e de privao, ou a manipulao desses dois fatores 
em cada individuo,  uma tarefa sumamente difcil e praticamente invivel. 
Condicionamento 
Outra dificuldade encontrada est relacionada aos tipos de comportamento necessrios a 
uma organizao para que esta possa sobreviver produtivamente. Cientistas da 
organizao tm definido trs tipos de comportamento, que eles consideram 
fundamentais  vida de uma organizao: os comportamentos de pertencer e de 
permanecer na organizao, que envolvem submisso; e o comportamento inovador, que 
envolve contribuio criativa. A organizao procura meios para fazer com que os 
individuos permaneam dentro dela, comportando-se adequadamente de acordo com 
os padres por ela definidos. As organizaes normalmente adotam tanto o reforamento 
negativo como a punio para condicionar individuos a se comportar dentro dos padres 
organizacionais e para extinguir comportamentos no desejados, obedecendo a 
regulamentos e a normas estabelecidas e apresentando um nvel de produtividade de 
acordo com as expectativas da organizao. A no-adequao de alguns membros da 
organizao aos padres, regulamentos e normas estabelecidas pode ocasionar o uso 
de dois tipos de punio. 
No primeiro caso, a punio  efetivada por meio da eliminao do individuo do sistema 
organizacional. Em outras palavras, usa-se o processo de demisso. Em cnseqncia 
da aplicao desta punio, ser possvel observar, por parte dos demais membros da 
organizao, principalmente em relao s chefias superiores, um sentimento de ameaa 
que condicionar um comportamento cada vez mais dependente, menos criativo e mais 
caracteristicamente de seguidores. 
181 



No segundo caso, aplicam-se punies, tais como perda de funes de superviso ou de 
chefia, falta de promoo salarial, ostracismo. Essas punies geralmente criam para o 
indivduo uma situao de instabilidade, de desmoralizao e um alto nvel de tenso. Na 
realidade,  uma forma de neutralizar sua influncia e sua falta de promoo salarial, 
enquanto outros so promovidos. 
O lado tico do reforamento negativo e suas conseqncias 
Do ponto de vista tico, esta forma de condicionamento envolve os valores daqueles que 
a adotam e no compete discuti-los como certos ou errados. Do ponto de vista 
organizacional, poder-se- observar, junto aos membros da organizao que no 
sofreram punio, um clima de instabilidade e um comportamento protetor e defensivo, 
alm de dependncia e obedincia, cada vez maiores s normas e regulamentos. Alm 
desses fatores, poder surgir um descrdito em relao s polticas e diretrizes 
organizacionais, como tambm em relao s chefias superiores. 
Reforamento positivo 
A organizao poder, entretanto, usar reforamento positivo para condicionar o 
comportamento dependente. As polticas de incentivos so exemplos desse tipo de 
reforamento positivo. No entanto, sua aplicao depara com algumas dificuldades. A 
primeira delas est relacionada com o significado psicolgico que cada individuo atribui a 
determinado reforo positivo. As pessoas tm necessidades, sentimentos e percepes 
diferentes. O mesmo reforo poder condicionar diferentes comportamentos. Observa-se 
a segunda dificuldade  medida que a organizao necessita, para se desenvolver, de 
inovao e de atendimento das demandas externas e internas de comportamento 
inovador e espontneo. A organizao necessita de criatividade e lide rana. Seus 
membros devem comportar-se de maneira mais livre, seu espao organizacional tem de 
ser ampliado, dando lugar a uma colaborao criativa e construtiva. A integrao das 
experincias pessoais dos membros da organizao e das diferentes modalidades de 
agir e de decidir  fator que integra o comportamento inovador. Esse comportamento 
garante para a organizao sobrevivncia produtiva e influncia no meio externo. 
Limitaes do behaviorismo 
O behaviorismo, ao reduzir o comportamento humano a um mecanismo estimulo-resposta, 
no s limita a liberdade e a criatividade humana, como nega a autodeterminao do ser 
humano. O controle externo atravs de estmulos e respostas conflita com o 
desenvolvimento da criatividade e das lideranas na organizao. Os individuos, ou seja, 
os membros da organizao, reagem a estmulos e reforos. So condicionados a 
comportamentos pr-planejados. 
182 



Ainda com referncia ao comportamento inovador e espontneo, encontra-se outra 
dificuldade quando se desloca o controle do comportamento do indivduo para elementos 
externos. A durao do comportamento fica condicionada  manipulao dos estmulos e 
reforos. Eliminados estes, ocorrer a extino do comportamento. O controle externo do 
comportamento exige, como se pode observar, sofisticados mecanismos de controle da 
organizao. 
Os grupos organizacionais tm sido usados como eficientes instrumentos de controle de 
comportamento. O reforamento positivo  efetuado por meio da aceitao, o 
reforamento negativo, pela desaprovao do grupo e a punio, pela eliminao do 
indivduo como membro do grupo. Os grupos de trabalho autnomos ou semi-autnomos, 
adotados especialmente nas organizaes industriais, so uma das formas grupais mais 
divulgadas. 
Nesses grupos, a organizao interna do trabalho compete ao prprio grupo que, com 
base em padres de produtividade prefixados, estabelece o seu padro prprio e os 
demais padres comportamentais, bem como os seus controles. 
A reduo do comportamento humano ao mecanismo de estimulo-resposta, sem 
considerar os processos psicolgicos, quais sejam, motivao, cognio etc., como 
fatores que integram o comportamento humano, reduz e bloqueia o potencial criativo e 
inovador dos indivduos e o desenvolvimento das capacidades humanas. 
Ao adotar exclusivamente o modelo behaviorista, a organizao nega a si mesma o 
desenvolvimento e a utilizao das foras, dos recursos e do potencial humano que viriam 
contribuir para a produtividade da prpria organizao e para o desenvolvimento socio-
econmico num contexto social mais amplo. 
RESUMO 
O behaviorismo baseou-se no determinismo filosfico de James, no funcionalismo de 
Dewey e no mtodo experimental da Psicologia de Yerkes, alm do condicionamento de 
Pavlov. Watson, seu percursor, integrou essas contribuies e chegou  afirmao de que 
o comportamento  somente um fenmeno provocado por estmulos. Para ele, a 
Psicologia trata do comportamento observvel do organismo. 
O behaviorismo prope-se a utilizar o processo de condicionamento para planejar e 
formar seres humanos. Segundo os behavioristas, a sociedade poderia atingir, na 
tecnologia do comportamento, um grau de sofisticao em que o planejamento da pessoa 
humana se tornaria possvel. 
Podemos distinguir duas classes de comportamento: o respondente (reflexo) e o operante 
(voluntrio). O comportamento respondente  a resposta que o organismo d a um 
estimulo, por exemplo, a salivao diante do cheiro ou gosto de comida. O 
comportamento operante  o que ocorre em reao ao meio externo, sem que se possa 
identificar estmulos especficos que o teriam provocao, por exemplo, os movimentos de 
brao de uma criana. 
183 



O processo de condicionamento respondente, que  uma forma simples de 
aprendizagem,  um dos processos adotados pelos behavioristas na explicao da 
formao dos comportamentos. Nesse tipo de condicionamento, o processo  organizado 
de forma a ocorrer: 1. um estimulo neutro; 2. um estimulo incondicionado, ou seja, um 
estimulo que em circunstncias normais provocaria uma resposta especfica; 3. a 
resposta especifica. A repetio constante do processo condiciona o estimulo neutro, isto 
, faz com que o estimulo neutro passe a ser um estimulo condicionado, que provoca 
resposta semelhante quela que o estimulo incondicionado j provocava. Exemplo deste 
processo  a experincia de Pavlov que, fazendo uma campainha soar sistematicamente 
antes de apresentar comida a um co, condicionou esse estimulo neutro (o som da 
campainha), que passou a provocar a salivao do co, resposta antes provocada s 
pela prpria apresentao da comida. Para que o condicionamento ocorra com rapidez  
preciso obedecer  ordem dos estmulos (primeiro, o neutro; depois, o incondicionado). E 
preciso tambm que seja bem curto o perodo de tempo entre a ocorrncia dos dois. 
No condicionamento operante, a aprendizagem ocorre por um processo de maturao 
natural (a criana, por exemplo, aprende a falar naturalmente). No entanto,  possvel 
aplicar reforos ao processo de aprendizagem (por exempio, gratificando a criana 
quando pronuncia uma nova palavra). Este reforo deve ser dado imediatamente aps a 
resposta. Os reforos podem ser positivos e negativos. Os reforos positivos fortalecem 
os comportamentos que os precedem, os reforos negativos fortalecem a resposta 
atravs da remoo do prprio estimulo. Diversos dispositivos experimentais so usados 
para investigar o condicionamento instrumental ou operante e seus efeitos. Entre eles 
esto a caixa de Skinner (Figura 5.2.) e os labirintos. 
Tanto no condicionamento respondente (tambm chamado clssico) quanto no operante 
(instrumental), deixar de apresentar o reforo positivo leva  extino (enfraquecimento ou 
reduo) das respostas. A extino no significa a perda total da aprendizagem adquirida 
pelo condicionamento. Prova disso  
a recuperao espontnea, fenmeno pelo qual a resposta condiciona da reaparece sem 
novo processo de treinamento, aps um perodo de descanso. 
Segundo os behavioristas, os mecanismos usados para identificar as conseqncias das 
mudanas de comportamento so o feed-back de informao e o feed-back afetivo. Pelo 
primeiro, o individuo toma conhecimento do tipo de efeito que sua resposta ocasionou no 
ambiente. Pelo segundo, ele distingue quando a situao modificada lhe trar prazer ou 
desprazer. 
O reforamento ensina ao individuo como agir, a punio no. Neste ltimo caso, a falta 
de indicao do comportamento desejado pode levar a um desajustamento do individuo, 
alm de no conduzi-lo ao comportamento desejado. 
A natureza do reforo  uma questo problemtica para o behaviorismo. Os reforos 
primrios (alimentos etc.) parecem no explicar todo o fenmeno.Fatores como o intervalo 
entre os estmulos, a sua freqncia etc. modificam os resultados do condicionamento. No 
caso particular do reforo 
184 



condicionado, o mesmo reforo (por exemplo, dinheiro) pode ser associado a diferentes 
estmulos (alimento, diverso) e condicionar diferentes respostas. Alm disso, a saciao 
e a privao tm, sem dvida, um importante papel na eficcia do reforo. E ainda existe 
a considerar o significado de cada reforo para cada indivduo particularmente. 
A generalizao  o fenmeno pelo qual um indivduo, condicionado a dar determinada 
resposta em face de um estimulo especifico, passa a dar a mesma resposta a outros 
estmulos, geralmente semelhantes. A discriminao, ao contrrio, consiste no 
aprendizado pelo qual o indivduo vem a dar respostas diferentes a estmulos diferentes, 
embora semelhantes. 
Outra questo problemtica para o behaviorismo  a das motivaes. Por sua prpria 
natureza eminentemente psicolgica, as motivaes no so suscetveis de tratamento 
pela metodologia adotada pelo behaviorismo. Por isso, muitos behavioristas excluem as 
motivaes de seus estudos. 
Skinner considera as emoes como predisposio dos organismos para agir de certo 
modo. No entanto, as emoes so consideradas no como um estimulo, mas como um 
tipo especifico de fora capaz de intensificar ou enfraquecer as respostas do indivduo. 
Para o behaviorismo, a percepo  uma funo dos nervos sensoriais, que registram os 
estmulos e os transmitem ao crebro. O behaviorismo considera a personalidade como a 
totalidade dos padres de comportamento do indivduo, formado por condicionamentos. O 
individuo toma decises em funo dos estmulos ambientais. 
O behaviorismo  amplamente aplicado ao estudo do comportamento humano na 
organizao. Mas no  possvel transpor as concluses de uma situao experimental 
para o contexto da organizao. Apesar disso, as organizaes normalmente adotam 
reforos, negativos ou positivos, para condicionar os individuos a se comportarem dentro 
dos padres organizacionais. Os grupos organizacionais, basicamente os grupos de 
trabalho, tm sido usa dos como instrumentos de controle de comportamento na 
organizao. Os controles so exercidos pelo prprio grupo, que condiciona o 
comportamento de seus membros, usando reforadores positivos e negativos, assim 
como a punio. 
O behaviorismo, reduzindo assim o comportamento humano ao mecanismo estimulo-
resposta, limita a liberdade, a criatividade humana, nega a autodeterminao do ser 
humano e a sua liberao. Em conseqncia, limita, e muitas vezes impede, a sua 
participao e integrao no desenvolvimento socioeconmico. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Behaviorismo ou Comportamentalismo:  a abordagem psicolgica que compreende o 
comportamento animal e humano apenas como as reaes observveis de forma direta. 
Enfatiza a aplicao rigorosa do mtodo cientifico ao estudo dos fenmenos 
psicolgicos. 
185 



Comportamento: fenmeno observvel diretamente e explicvel como mera resposta do 
organismo a modificaes ambientais ou estmulos. 
Comportamento operante:  aquele de reao ao meio externo, sem que se possa 
identificar os estmulos que provocam a resposta emitida. 
Comportamento respondente:  a resposta que o organismo d a um estimulo especifico, 
sendo o estimulo diretamente relacionado  resposta. O comportamento respondente 
abrange todas as respostas que dependem do Sistema Nervoso Autnomo e so 
eliciadas por modificaes especiais de estmulos do ambiente. 
Condicionamento operante (instrumental):  um processo de aprendizagem em que a 
resposta deve ser efetuada antes de ser apresentado um reforador positivo 
(recompensa) ou antes de ser removido um reforador negativo (estimulo aversivo). 
Quando a resposta  seguida de recompensa, h uma tendncia para aumentar a 
freqncia dessa resposta. 
Condicionamento respondente (clssico): por meio desse condicionamento, o processo 
estimulo neutro ocorre de maneira .constante e persistente;  seguido por um estimulo 
incondicionado, isto , um estimulo que em circunstncias normais provocaria uma 
resposta especifica. 
Discriminao de estmulos: ocorre quando o organismo aprende a dar respostas 
diferentes a estmulos similares.  resultado do reforo da resposta apenas em presena 
de um estimulo e no na presena de estmulos similares. 
Extino: em relao ao comportamento reflexo, a extino ocorre se deixar de 
emparelhar o estmulo condicionado com o incondicionado. Portanto, consiste na perda 
gradual do poder do estimulo condicionado de eliciar a resposta condicionada. 
No comportamento operante, a extino ocorre quando uma resposta emitida no  mais 
reforada, tomando-se cada vez menos freqente. 
Generalizao de estmulos: ocorre quando uma mesma resposta  dada a estmulos da 
mesma classe. 
Punio: tipo de contingncia que produz efeitos sobre uma resposta. A punio consiste 
na apresentao de um estimulo aversivo (reforador negativo) ou na retirada de um 
estimulo positivo aps a emisso de uma resposta. 
Recuperao espontnea:  um processo em que uma resposta, considerada totalmente 
extinta, pode ocasionalmente reaparecer. 
Reforo generalizado:  um estimulo cuja propriedade de reforamento j 
foi estabelecida; pode generalizar, para reforar outras respostas que no aquela com a 
qual estava inicialmente associado. 
Reforo. Negativo: qualquer estimulo cuja eliminao contingente  resposta aumenta a 
sua freqncia. 
Reforo positivo: qualquer estmulo cuja apresentao aumenta a freqncia da resposta, 
quando ocorre contingentemente a ela.Reforo primrio:  aquele que, pela sua prpria 
natureza, independentemente de aprendizagem, possui a capacidade de condicionar 
alimentos e choque eltrico, por exemplo.Reforo secundrio:  um estimulo que, por ter 
sido associado a um reforo primrio, adquiriu a capacidade de condicionar; tais 
reforadores so geralmente sociais. 
186 



QUESTES 
1. Quais as conseqncias para o desenvolvimento do processo cognitivo (maneira pela 
qual o indivduo reflete, relaciona fatores, abstrai e conclui) da utilizao de tcnicas e 
instrumentos de condicionamento pela organizao, padronizao de tarefas, 
normatizao rgida, punies e recompensas pela obedincia e seguimento de normas e 
padres de trabalho e de comportamento? 
Quais as conseqncias do condicionamento psicolgico na criatividade e na 
responsabilidade do indivduo enquanto membro da organizao? 
3. De que forma o condicionamento psicolgico reflete na formao da conscincia moral 
do indivduo e no seu comportamento tico? (Vide Capitulo 1.) 
4. Qual  a questo tica que se coloca no uso do condicionamento psicolgico do 
indivduo? (Vide Capitulo 1.) Analise a questo tendo como referncia o Principio 
Universal da Iltica Discursiva. (Vide Capitulo 1.) 
5. Quais so as conseqncias do uso pela empresa do condicionamento para a melhoria 
da qualidade, para a produtividade da empresa, bem como para o compromisso 
consciente e responsvel do individuo com a organizao? 
Qual  a diferena entre o condicionamento externo estimulo -resposta do behaviorismo e 
a atuao da organizao no nvel psicolgico do indivduo? (Escola de Relaes 
Humanas, Modelo de Administrao Participativa, Mudana de Cultura e Organizao, 
Modelo do Controle Total da Qualidade  TQC, CCQ e outros.) 
PRINCIPAIS REPRESENTANTES DAS DIVERSAS TENDNCIAS DA ESCOLA 
BEHAVIORISTA 
Bandura eWalters (1969): Aprendizagem atravs da observao ou imitao de um 
modelo. 
B.F. Skinner (1931): Behaviorismo indutivo (aprendizagem). 
Gagn (1970): Modelo de aprendizagem cumulativa. 
Clark Holl (1932): Behaviorismo dedutivo (aprendizagem). 
Donald O. Hebb (1946): Organizao do comportamento (aprendizagem). 
Edwin R. Guthrie (1930): Aprendizagem por contigidade. 
Gregory Razram (1955): Nveis evolucionrios de aprendizagem. 
John Dollard e Neal E. Miller (1939): Aprendizagem influenciada pela psicanlise. 
Karl S. Lashley (1929): Mecanismos cerebrais. 
O. Hobart Mowrer (1950): Teoria da aprendizagem dos dois fatores. 
Walter S. Hunter (1930): Antroponomia. 
APLICAO
1. Analise os princpios da Administrao Cientifica (Taylor) procurando identificar estes 
princpios com os pressupostos bsicos do Behaviorismo. 
187 



2. Analise as conseqncias de sua aplicao: a) para os indivduos: 
criatividade, desenvolvimento do processo cognitivo, formao da conscincia moral, 
autodeterminao e auto-realizao; b) para as organizaes: melhoria da qualidade, 
produtividade, responsabilidade de seus membros. 
Taylor estabeleceu como princpios da Administrao Cientifica os seguintes:1)  
gerncia  atribuda a funo de reunir os conhecimentos tradicionais que no passado 
possuam os trabalhadores e ento classific-los, tabul-los, reduzi-los a normas, leis ou 
frmulas, grandemente teis ao operrio para execuo do seu trabalho dirio. 2) No h 
necessidade de homens extraordinrios. No se deseja qualidades profissionais, mas 
habilidades pessoais especificas para atender  exigncia do trabalho. Bem, se voc  
um operrio classificado, deve fazer exatamente o que este homem (o gerente) lhe 
mandar, de manh  noite. Quando ele disser para levantar a barra e andar, voc se 
levanta e anda, e quando ele mandar sentar, voc senta e descansa. Voc proceder 
assim durante o dia todo. E, mais ainda, sem reclamaes. (Trecho de uma instruo 
dada por Taylor a um operrio da Bethlehem.) 
3. O terceiro principio se refere  gerncia e ao controle:A idia de tarefa , qui, o mais 
importante elemento na administrao cientfica. O trabalho de cada operrio  
completamente planejado pela direo, pelo menos com um dia de antecedncia, e cada 
homem recebe, na maioria dos casos, instrues escritas completas que especificam 
pormenorizadamente a tarefa de que  encarregado e tambm os meios usados para 
realiz-la. Na tarefa  especificado o que deve ser feito e tambm como faz-lo, alm do 
tempo exato concebido para a execuo. A administrao cientifica, em grande parte, 
consiste em preparar e fazer executar tarefas. 
BIBLIOGRAFIA 
BERGER, M. Seymour e William W. Lambert. Stimulus-Response Theory in 
Contem porary Social Psychology, The Handbook of Social Psychology, 2 ed. 
Massachusets: Addison-Wesley, 1968. 
FLEURY, A.C. Correa e Nilton Vargas. A organizao do Trabalho. So Paulo: Atlas, 
1983. 
HALL, S. Calvin e Lindzey Gardner. Teorias de Personalidade. So Paulo: EPU EDUSP 
1973. 
LEVANWAY, W. Russell. Advanced General Psychology. Philadelphia: F.A. Davis 
Company, 1972. 
MCNEIL, Elton B. The Psychology of Being Human. New York: Harper and Row, 
1974. 
PAGS, Max et ali.. O Poder das Organizaes. So Paulo: Atlas, 1987. 
188 



8.TEORIA DE CAMPO E COMPORTAMENTO 
ORGANIZACIONAI 
Ao terminar a leitura deste capitulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender o conceito de campo. 
2. Compreender a aplicao do conceito de campo ao estudo cientifico dos fenmenos 
psicolgicos. 
3. Compreender as principais caractersticas da Teoria de Campo. 
4. Compreender os principais conceitos da Teoria de Campo. 
5. Identificar a contribuio da Teoria de Campo  compreenso do comportamento 
humano na organizao. 
Precursores da Teoria de Campo: Teoria Clssica da Gestalt 
A teoria clssica da Gestalt surgiu na Alemanha, em 1912, e foi introduzida nos EUA em 
1920. 
O fundador da Gestalt foi Wertheimer (1820-1943), que teve como principais discpulos 
Kohler e Koffka. Eles partiram do estudo do problema da percepo visual do movimento. 
Portanto, a percepo fundamentou o estudo desse fenmeno e constituiu as bases da 
Teoria Gestalt ou de Campo. 
Ehrenfels (1859-1932) e Kruger (1874-1948), precursores de tal teoria, tambm tomaram 
como ponto de partida o estudo da percepo, verificando assim que os dados sensoriais 
abrangem duas espcies de qualidades: 
1. qualidades sensveis, provenientes da atividade sensorial; 
2. qualidades formais ou de forma, resultantes do trabalho mental (percepo de 
relaes). 
Como exemplo, tomaram uma melodia na qual as qualidades sensveis seriam asnotas e 
as qualidades formais seriam a melodia. 
Ehrenfels props os seguintes princpios bsicos: 
1. Princpio da Totalidade: O todo  mais do que apenas a soma das partes que o 
constituem e apresenta caractersticas prprias, que as partes no possuem 
2. Princpio da Transposio: O todo, de certa maneira,  independente das partes que o 
constituem 
189 



A escola gestltica  orientada por pontos de vista fenomenolgicos: descreve a 
experincia imediata, determina as condies de uma melhor estrutura na percepo e as 
leis de sua transformao. A vida mental no  somente a soma de partes elementares e 
sim a interpretao da situao atravs da percepo das relaes dos elementos. No 
entanto, estes elementos no formam toda a realidade, pois o todo, o conjunto, a forma, 
tambm so reais e determinados pela descoberta de relao entre as partes. A pessoa, 
no seu processo de aquisio de conhecimento, no interpreta o que ocorre em funo de 
uma simples adio de elementos e sim em funo de uma estrutura total organizacional, 
ou Gestalt. 
A participao do sujeito e do objeto na percepo  ponto fundamental para a Gestalt. A 
percepo dos objetos  entendida mais no sentido do que eles so e no como 
resultante das impresses sensoriais, que so determinadas pelas circunstncias. 
Portanto, a percepo provm da interao sujeito- objeto e tambm do relacionamento 
dos elementos do objeto. 
A Gestalt parte de um todo para o particular; o todo no pode ser deduzido das partes; 
entretanto, tudo o que acontece a uma parte do todo  de terminado pelas leis da estrutura 
intrnseca deste todo. 
Principais conceitos da teoria da gestalt: 
1. Gestalt forma ou estrutura. 
2. Insight. 
3. Isomorfismo. 
4. Figura-fundo. 
Gestalt 
A Gestalt seria um todo organizado em contraposio a um conjunto de partes: a forma 
seria a sustentao desse todo em relao s partes, e sua natureza ser determinada 
pela sua funo no todo. A estrutura do conjunto e as leis que regem o elemento 
determinam sua forma de ser. 
Insight 
O termo insight foi introduzido na Gestalt por Kohler, em 1917. Insight seria o 
discemimento ou a compreenso sbita do sujeito diante de uma situao problemtica, 
conseguindo estrutur-la. Segundo Hartmann, insight seria um processo semelhante ao do 
fechamento de uma estrutura. Insight tambm pode ser entendido como discriminao de 
um resultado obtido e como um principio explanatrio ou processo. 
Isomorfismo 
Wertheimer concluiu, em funo do isomorfismo, os seguintes tpicos: 
190 



a)  preciso supor a existncia de uma dinmica no fenmeno cerebral, como se verifica 
na experincia fenomenal. 
b) Na transio de um estado cerebral ou fenomenal para o outro, o que ocorre no  
determinado unicamente pelas repercusses dos estmulos, nem pela experincia 
passada, mas pela natureza do acontecimento, isto , tem lugar como no sistema fsico, 
organiza-se a melhor percepo (Gestalt) possvel dentro das condies existentes. 
c) No se pode interpretar corretamente o que ocorre em termos de mera soma; ao 
contrrio,  preciso consider-lo em termos de estrutura total, organizao ou Gestalt. 
O princpio do isomorfismo expe que os caracteres gestlticos do fato perceptual (forma) 
devem associar-se a caracteres gestlticos idnticos no fato cerebral correlato. Dessa 
forma, existe uma identidade estrutural entre a experincia fenomenal (processos 
cerebrais que correspondem  percepo) e seu correlato fisiolgico, o fenmeno fsico 
sensvel ou os correlatos corticais. 
Figura-fundo 
Neste caso, a figura destaca-se, parece mais slida, apresentando-se como um fator 
estruturado e organizado, e o fundo sugere um espao vazio. Existe uma tendncia para o 
campo total organizar-se em figura-fundo. A teoria da Gestalt apoia-se basicamente em 
estudo de Lashley sobre a funo do crtex cerebral no processo cognitivo, e de 
Wertheimer, sobre a organizao perceptual. Os estudos de Lashley indicam que o crtex 
cerebral possui a mesma capacidade potencial de participar em qualquer hbito, 
aprendizado, como qualquer outra rea cortical, excetuando-se os centros senso riais e 
motores; o crtex cerebral da mesma forma atua sempre como um todo. A aprendizagem 
de um animal ser, portanto, tanto melhor quanto maior for a extenso da rea cortical do 
encfalo que  exercitada. Wertheimer consegue chegar  elaborao das leis da 
percepo que regem a organizao perceptual. Estas so: 
LEI DA PREGNNCIA: Diante de uma situao problemtica, o campo 
perceptivo encontra-se desorganizado, e  esta lei que estabelece sua ordem. 
A lei da pregnncia seria o principio orientador de cinco leis da organizao: 
1. Lei da Proximidade: O indivduo ter uma maior tendncia a perceber, em condies 
iguais, os estmulos mais prximos, como grupos. A proximidade pode ser tanto espacial 
como temporal, sem ter necessariamente o mesmo tipo sensorial, ou seja, no significa 
que s se agruparam estmulos prximos, temporal ou especialmente. 
2. Lei do Fechamento, ou clausura, ou closure: Aplicada  aprendizagem, a clausura  
uma alternativa da lei de Thorndike, ou seja, tanto uma situao agradvel como uma 
situao desagradvel influenciam na 
aprendizagem. Em face de uma situao problemtica, a viso do todo  incompleta, 
devido  tenso psicolgica que dificulta seu fechamento. Isto, no entanto, ajuda no 
processo de aprendizagem, pois o indivi-
191


 
duo tenta conseguir o fechamento livrando-se do estado de tenso desagradvel. 
3. Lei da Boa Continuao: A organizao, na percepo, tende a ocorrer sempre como 
uma forma de estruturao, embora outras possam ocorrer. 
4. Lei do Carter de Participao (membership character): As caractersticas de uma 
parte de um todo so decorrentes do contexto a que pertencem; portanto, no h 
caractersticas fixas. 
5. Lei da Similaridade ou da igualdade: Os estmulos que forem semelhantes quanto s 
caractersticas fsicas de intensidade, cor, tamanho, peso, odor etc., em condies iguais, 
tero uma maior tendncia a se agrupar na percepo do indivduo. 
Conceito de aprendizagem segundo a teoria gestltica 
As teorias gestlticas tomam como ponto fundamental no processo de aprendizagem a 
percepo. Tambm enfatizam a ocorrncia do estimulo, num contexto ou campo; quando 
h percepo do aprendiz da relao entre o estimulo e o campo, surge o insight. 
Os gestaltistas determinam a aprendizagem pelo padro, pela gestalt de estmulos, e o 
carter perceptual  resultante da interao dos elementos estimuladores no campo. Este, 
por sua vez, no  fixo, muda em funo de novos padres dos estmulos, que podem 
resultar em uma nova aprendizagem. 
A aprendizagem  o problema de perceber relaes ou seja, de estruturar o campo 
perceptivo. O pensar est estritamente ligado  compreenso do todo, e o aprender  a 
reao s situaes globais, significativas, e no s partes separadas. um processo 
ativo, inteligente, global; constitui o aprimoramento 
de estruturas, de formas, implicando discernimento, compreenso da situao, portanto, 
insight. 
Desenvolvimento da teoria de campo 
No sculo XX, entretanto, Kurt Lewin foi o psiclogo que deu a maior 
contribuio para a adaptao da teoria de campo  Psicologia. 
Lewin ultrapassou as fronteiras da Psicologia tradicional com um trabalho marcado pela 
preocupao com a interdisciplinaridade cientifica, e assim contribuiu de maneira 
destacada para o desenvolvimento das Cincias Sociais. 
J na Universidade de Berlim, os trabalhos iniciais de Lewin demonstravam sua 
preocupao, mantida atravs de toda a sua vida profissional, ao longo da qual a 
construo dessa cincia comparativa foi o constante objeto de sua busca. 
Lewin viveu os primeiros quinze anos de sua vida profissional na Alemanha nazista. Vtima 
da perseguio fascista, foi obrigado a deixar seu pais. 
192 



No entanto, apesar dessas duras experincias pessoais, e apesar de toda a interferncia 
dos fatores politico-sociais na produo cientifica de sua poca, ele jamais deixou de 
acreditar nos valores individuais, na funo do cientista na sociedade e na importncia da 
Filosofia para a Cincia. Sempre postulou a importncia dos valores individuais para o 
destino da Cincia Social. 
Elaborao e combinao de constructos 
A elaborao de constructos apropriados e as diferentes maneiras de com binar esses 
elementos em um sistema de conceitos constituem, segundo Lewin, uma importante etapa 
tanto do desenvolvimento da Psicologia Cientifica quanto do das Cincias Sociais. Ao 
desenvolver sua teoria psicolgica, Lewin indica como constructo mais fundamental desta 
teoria o campo. Segundo ele, todo fenmeno psicolgico ocorre em determinado campo. 
Isso significa queh uma totalidade de fatos coexistentes, que so considerados 
mutuamente interdependentes. 
Partindo do constructo de campo, ele explica que as propriedades de qualquer evento 
so determinadas pelas suas relaes com o sistema do qual o evento  um componente. 
Considerar o inter-relacionamento e a interdependncia em determinado campo implica 
explicar as mudanas do aqui e agora como dependentes das mudanas que ocorrem 
nos subsistemas vizinhos e num perodo imediatamente anterior. Isto significa que h uma 
interao intersistemas. No caso da Psicologia, esta interao  a do indivduo com a 
situao concreta em que est inserido num dado momento. 
Teoria de campo como mtodo de anlise 
Para Kurt Lewin, a teoria de campo  um mtodo de analisar relaes causais e de 
construir constructos cientficos, e pode ser utilizada nos diferentes ramos da cincia. No 
desenvolvimento da teoria de campo, Lewin utiliza termos comumente usados pelos 
fsicos, como tenso, fora, vetor etc. 
Esses termos servem para explicar o comportamento, mas com sentido psicolgico; no 
se trata de uma simples transposio da Fsica para a Psicologia, pois ele desenvolveu 
uma abordagem consistentemente psicolgica, segundo a qual um fenmeno psicolgico 
deve ser explicado em termos especificamente psicolgicos. 
Objeto da Psicologia 
Lewin define como objeto da Psicologia as transaes comportamentais do individuo no 
seu meio interno e externo, O meio interno diz respeito s emoes, sentimentos, eventos 
psicolgicos, ou seja,  o presente, o passado e o futuro naquilo que  psicologicamente 
representativo para o indivduo, O meio externo corresponde ao meio fsico e social em 
que o individuo est inserido. O comportamento  uma transao de um indivduo e no 
de uma 
193 



parte do corpo do indivduo. O indivduo no mexe os olhos na leitura, no movimenta os 
ps quando anda, nem manipula a lngua quando fala. Ele l, ele anda, ele fala. Isto 
significa que os comportamentos do indivduo envolvem diferentes processos integrados; 
no so os msculos oculares que se comportam, mas o indivduo que l. E o ato de ler 
envolve, alm dos msculos oculares, processos psicolgicos, sensoriais etc., que 
caracterizam o indivduo como um sistema integrado, que se comporta como uma 
entidade nica. 
Conceito de comportamento 
Lewin distinguiu os processos fsicos e fisiolgicos, que so mediadores das transaes 
comportamentais do indivduo com seu meio ambiente, do comportamento propriamente 
dito. Esses processos so mecanismos ou instrumentos atravs dos quais se efetiva o 
comportamento. Seria absurdo, por exemplo, dizer que o movimento de uma draga, 
enquanto usada pelo operrio,  um comportamento. Do mesmo modo, chamar de 
comportamento o ato de andar de um indivduo seria desprezar todo o processo 
psicolgico envolvido no ato de andar. Os processos fsicos e fisiolgicos que 
contriburam para que o indivduo andasse so meios para a efetivao do 
comportamento, e no o comportamento propriamente dito, como querem os 
behavioristas. A explicao psicolgica do comportamento, segundo Lewin, implica a 
identificao de caractersticas direcionais, isto , todo comportamento tem propsitos 
subjacentes e objetivos para os quais  dirigido, quer tentando alcanar esses objetivos, 
quer tentando evit-los. 
Lewin no se preocupa com os processos psicolgicos enquanto tais. 
Cognio, aprendizagem, percepo etc. s o interessam enquanto permitem identificar a 
maneira pela qual elas so aprendidas ou adquiridas, bem 
como o grau em que os indivduos as consideram desejveis e eficazes. 
Fenmenos psicolgicos como realidades psicolgicas 
Embora os fenmenos psicolgicos no possam ser expressos em termos fsicos, Lewin 
os aborda como realidades. Esta preocupao possibilita reconhecer como objetivos 
importantes para a Psicologia cientifica conceitos como desejo, ao, habilidade etc., 
uma vez que eles constituam realidades psicolgicas. No momento em que esses 
conceitos deixam de ser abordados como conceitos tericos para ser tomados como 
uma realidade com existncia prpria tornam-se passveis de investigao cientifica. 
Adotada a postura cientifica, o estudioso prescinde de recursos como o de ver fenmenos 
psicolgicos como fenmenos fisiolgicos, ou explicar o desejo como produto de uma 
excitao neural de uma regio do crebro. A abordagem psicolgica dos fenmenos 
psicolgicos evita a confuso entre o comportamento e a manifestao do 
comportamento, ou seja, aquilo que  observvel externamente. 
194 



A teoria de campo enfatiza a explicao psicolgica dos fenmenos psicolgicos, o que 
conduz  no-aceitao da definio de comportamento em termos apenas daquilo que 
ele explicita, ou seja, da manifestao externa ou da ao concreta diretamente 
observada. 
Lewin nega a validade do uso de critrios exclusivamente externos para definir os 
processos ou estados psicolgicos. Isto significa que a simples observao externa da 
ao de um indivduo no  suficiente para o observador inferir a tipologia de seus 
processos psicolgicos. Para Kurt Lewin, o importante  o prprio comportamento, que  
um fenmeno interno, e no seus efeitos, que tomam a forma de aes externas. Por 
exemplo, o dar e o receber uma recompensa no tm em si uma significao psicolgica 
definida, O que  psicologicamente significativo  a forma como a recompensa  dada e 
recebida, se  como a manifestao do reconhecimento de um bom desempenho, ou 
como um suborno. Esta reao, o impacto psicolgico que acompanha a ao,  o que se 
deve procurar compreender; portanto,  o que constitui a realidade psicolgica para o 
indivduo. Se para o indivduo no existe estimulo, quer em nvel consciente, quer em nvel 
inconsciente, o objeto no tem efeito psicolgico para ele. Como exemplo, poderamos 
imaginar uma situao: um indivduo est viajando em um avio que sofre pane, mas os 
passageiros no so informados do fato. Ao aterrissar, o indivduo toma conhecimento do 
fato e do risco que havia corrido. Nesse momento, sente-se mal e sofre forte crise 
emocional. Este exemplo mostra dois momentos da ao de um mesmo fator na vida do 
indivduo: num primeiro momento, o fator est presente, mas no tem significao 
psicolgica e, portanto, no exerce influncia alguma sobre o comportamento do 
indivduo; num segundo momento, esse fator, embora no mais presente, passa a ser 
psicologicamente significativo e influencia o comportamento do indivduo. 
Conceitos de comportamento 
Segundo Lewin, no se pode considerar um comportamento psicologicamente 
determinado se seu efeito no  consciente nem teve uma motivao inconsciente. 
Portanto, o efeito, ou seja, a ao externa obervada, no  suficiente para explicar o 
comportamento propriamente dito. Como exemplo, pode- se citar uma situao em que 
um menino chuta uma bola que, sem que ele queira, bate na vidraa da casa do vizinho e 
a quebra. O comportamento propriamente dito  a inteno de chutar a bola e no o ato 
de quebrar a vidraa. 
Observao cientifica do comportamento 
Lewin observa que o cientista no pode depender apenas da intuio ao estudar o que  
psicologicamente real para outra pessoa. A nfase no estado psicolgico e na realidade 
psicolgica, tal como so vistos pela pessoa, exige 147 do cientista a observao do 
ambiente em que o indivduo age, de suas 
195 



aes e do curso dessas aes. Por meio destes dados,  possvel inferir a realidade 
psicolgica do indivduo. Por outro lado, Lewin indica a importncia dos dados no-
psicolgicos para a predio do comportamento. Para se poder prever o que um indivduo 
far no futuro,  importante conjeturar quais as situaes futuras s quais ele estar 
exposto. 
Como  lgico, a nfase na situao total presente traz conseqncias para a 
metodologia da pesquisa. Os psiclogos que seguem a orientao de Kurt Lewin partem 
da caracterizao da situao como um todo e concentram- se nas relaes de 
interdependncia. 56 aps essa abordagem global da situao  que se propem a 
aproximao e o detalhamento mais profundo da situao estudada. Partem, portanto, do 
mais global para o particular, sem preconsiderando a dinmica das relaes causais. 
Um exemplo da orientao de campo na Psicologia  a abordagem da relao de duas 
variveis  como inteligncia e desempenho no trabalho  no como uma relao 
isolada, mas influenciada por fatores  como outras propriedades do indivduo  e pela 
situao fisica e social em que ele se encontra (a organizao onde trabalha). 
Acredita Lewin que os conceitos e os mtodos da Psicologia devem ser 
intersubjetivos e que os processos psicolgicos s podem ser apreendidos por 
meio de dados externos observveis. 
No entanto, ao referir-se  observao externa como condio para a apreenso dos 
processos psicolgicos, Lewin no nega a presena nem a importncia dos aspectos 
inconscientes e da sua influncia no comportamento humano. 
Comportamento como funo da situao total 
Campo psicolgico ou espao vital  o constructo fundamental da teoria de campo. 
Espao vital 
O campo psicolgico (life space)  constitudo pelo que Lewin denominou pessoa 
(necessidades, valores, emoes) e pelo ambiente (fatores psicologicamente 
significativos para o indivduo em dado momento). Pessoa e ambiente formam uma 
constelao de fatores interdependentes. 
Todos os eventos psicolgicos, tais como pensar, perceber, desejar etc., 
so considerados por Lewin como uma funo do espao vital. (Veja figura 6.1.) 
E os processos psicolgicos so sempre uma conseqncia: 
1. da relao do indivduo concreto com uma situao concreta e 
2. das relaes mtuas dos sistemas funcionais que integram o individuo. 
196 



Figura 6.1. Representao topolgica da estrutura do espao vital. P, pessoa; A, 
ambiente; SM, regio sensrio-motora; 1, regio interpessoal; P, regies perifricas de 1; 
C, regies centrais de 1; e F, fatores fsicos e sociais que podero influenciar o espao 
vital. (Adaptado de Lewin, 1942.) 
Interao indivduo-meio ambiente 
Ao dar nfase  interdependncia entre pessoa e meio, Lewin mostra no,>as direes 
para a compreenso do comportamento humano. O indivduo no pode ser tomado 
isoladamente. Seu comportamento  uma resultante de sua interao com o meio e, 
portanto, no se pode compreender nem predizer um comportamento individual sem 
considerar o meio em que o indivduo est inserido. 
O comportamento (C  uma funo (F) da pessoa (P) e de seu ambiente 
(A): C = E (P,Aj).
Nesta frmula, o estado da pessoa (P) e seu ambiente (A) no so independentes um do 
outro. Pessoa (P) e ambiente (A) devem ser vistos como variveis mutuamente 
dependentes. Para compreender e predizer o comportamento de um indivduo,  preciso 
considerar a pessoa e o seu ambiente como uma constelao de fatores 
interdependentes. 
A explicao do comportamento em termos de um inter-relacionamento entre a pessoa e 
o ambiente foi, sem dvida, uma das maiores contribuies que Lewin trouxe  
Psicologia. Seu enfoque situa o indivduo no contexto mais amplo e mostra a 
interdependncia dinmica entre o indivduo e seu meio. Esta maneira de abordar o 
comportamento humano ope-se ao pensamento aristotlico ainda predominante dentro 
de certos limites, O pensamento aristotlico, pressupe que os eventos psicolgicos so 
determinados pelas caractersticas do indivduo, tais como hereditariedade, inteligncia, 
necessi-
197


 
dade, emoes, instintos etc., relativamente independentes da situao. A abordagem 
aristotlica permite, portanto, afirmar que o indivduo tornou-se lder por causa de sua 
personalidade, que  psictico por causa de sua hereditariedade, que  conflitivo devido 
a suas caractersticas de personalidade etc. 
Tais afirmativas no levam em conta a relao indivduo-meio. No consideram o 
comportamento como conseqncia da interdependncia dos fatores individuais (P) e 
ambientais (A). Ao considerar a situao concreta como um ponto fundamental para a 
compreenso do comportamento humano, Lewin adota um posicionamento cientifico 
diverso da orientao aristotlica. Compreender o comportamento de acordo com a 
teoria de campo requer no somente o conhecimento das experincias passadas da 
pessoa, mas suas expectativas futuras, suas atitudes e capacidades, alm de um 
conhecimento da situao real e presente que a pessoa est vivendo. A nfase na 
situao total exige a anlise dos diversos aspectos dessa situao, conduz a anlise 
mais detalhada de aspectos particulares  sem contudo perder a viso global. Por outro 
lado, a interdependncia de relaes que caracteriza o estudo dos fenmenos 
psicolgicos na teoria de campo exige no s uma definio, mas uma metodologia 
cientifica especifica. 
Abordagem dinmica. O indivduo como sistema 
A teoria de campo encontra-se entre as abordagens dinmicas da Psicologia. O termo 
dinmica introduz o conceito de sistema, onde os seres vivos tendem a manter um 
equilbrio dinmico, isto , um conjunto de componentes em interao, de tal modo que 
qualquer mudana em um dos componentes do sistema induz a mudanas 
compensatrias em outros. Essas mudanas compensatrias garantem a integridade do 
sistema. O conceito de equilbrio dinmico enfatiza que o todo permanece o mesmo, 
apesar das mudanas por que passa. 
O processo pelo qual o sistema restaura seu equilbrio  um dos aspectos de grande 
relevncia para a teoria de campo. Kurt Lewin, ao estudar esse processo, enfatizou a 
compreenso dos processos motivacionais. O comportamento, segundo ele,  dirigido 
por foras psicolgicas (entidades direcionais). 
Reconhecendo essas entidades direcionais, ele tenta desenvolver uma matemtica capaz 
de lidar adequadamente com conceitos de magnitude e direo, implcitos no conceito de 
foras psicolgicas. 
Lewin procura utilizar a Matemtica para explicar os determinantes do comportamento e 
assim tenta fazer da Psicologia uma disciplina mais rigorosa. Utiliza a Geometria 
Topolgica para representar a estrutura da personalidade, e a Hodologia para representar 
o seu dinamismo. 
Principais conceitos da teoria de campo. Espao vital (life space) 
Tambm denominado campo psicolgico ou situao total;  representado pela pessoa e 
seu ambiente psicolgico, da maneira como ele existe para ela. 
198 



O espao vital , portanto, um conjunto de fatos coexistentes que determina parcialmente 
o comportamento de um indivduo em dado momento. 
Ambiente. Lewin distingue dois ambientes: 
1. ambiente objetivo e 
2. ambiente psicolgico 
Ambiente objetivo 
Lewin considera apenas a situao que o indivduo enfrenta em determinado momento, 
aquela que age sobre o aparato perceptual do indivduo e sobre o qual os aparatos do 
indivduo atuam. 
Ambiente psicolgico 
Por ambiente psicolgico Lewin entende o ambiente tal qual ele existe para o indivduo.  
o que o indivduo percebe como real significativo. 
O ambiente psicolgico  parte do espao vital. Suas propriedades so determinadas 
tanto pelas caractersticas do ambiente objetivo quanto pelas caractersticas da pessoa 
(necessidades, valores etc.), por meio do processo de interao da pessoa (P) com o 
meio objetivo (MO). 
Figura 6.2 . Relaes entre os vrios extratos da pessoa em diferentes circunstncias. 
(a) Pessoanuma situao tranqila: as partes perifricas (P) da regio pessoa do inner 
so facilmente alcanadas de fora (A) para dentro; as partes mais centrais (C) so menos 
acessveis; a regio pessoal do inner influencia sua regio motora (M) de forma 
relativamente livre. (b) A, pessoa em stress em estado de autocontrole: as partes 
perifricas (P) da regio do inner so menos acessveis do que em (a); as partes 
perifricas e central (C e P) so mais diretamente conectadas; a comunicao entre a 
regio pessoal do inner e M  menos livre. (c) A pessoa sob um alto grau de tenso 
(primitivao, regresso) da regio pessoal do inner; M, regio sensrio-motora; P, 
partes perifricas da regio pessoal do inner; C, partes centrais da regio pessoal do 
inner; A, ambiente; B,, parece dinmica entre C e P; parece dinmica entre regid 
pessoal do inner e 1. (Adaptado de Lewin, 1936.) 
199 



Pessoa 
O termo pessoa equivale, para Kurt Lewin, s propriedades do indivduo, 
isto , s suas necessidades (needs), crenas e valores, seus sistemas perceptivo 
e motor. Essas propriedades interagem com o meio objetivo e dessa interao 
o espao vital. 
Dimenso do espao vital 
Lewin descreve o espao vital de um recm-nascido como tendo um nmero resumido de 
reas com pequena diferenciao umas das outras. A diferenciao das regies no 
espao vital , segundo Lewin, uma das caractersticas mais importantes do 
desenvolvimento do indivduo. 
Diferenciao no nvel realidade-irrealidade 
Eventos futuros ou de expectativas no existem para um recm-nascido. 56 existe a 
situao imediata. O aumento do espao vital em relao s dimenses psicolgicas do 
futuro continua at a vida adulta. A medida que o indivduo se desenvolve, seus planos 
tendem a ampliar-se, englobando um futuro mais distante e organizando, como uma 
unidade, atividades de durao mais longa. A diferenciao do espao vital tambm se 
d ao nvel realidade- irrealidade. Como mostra a Figura 6.3., os diferentes graus de 
irrealidade correspondem a diferentes graus de fantasia. 
Figura 6.3. Espao vital em dois estgios de desenvolvimento (Lewin, 1946). (a) Espao 
vital de uma criana. (b) Espao vital de um adulto em relao  situao presente,  
dimenso de realidade (R) e de irrealidade (1) e  perspectiva de tempo (T); C criana; A 
adulto; R, nvel de realidade; 1, nvel de irrealidade. 
 
Presente psicolgico. O comportamento como funo do campo presente 
Lewin define o comportamento como uma funo do campo. No momento em que o 
comportamento ocorre, ele s depende do campo psicolgico 
dominante naquele momento. 
O comportamento (C) no tempo (T)  uma funo da situao (S) somente no tempo (T). 5 
inclui a pessoa (P) e seu ambiente psicolgico (A). Ao enfatizar que os eventos 
psicolgicos devem ser explicados em termos das propriedades do campo no momento 
em que ocorrem os eventos psicolgicos, no se est negando o passado, nem o futuro 
psicolgico do indMduo, tampouco sua influncia sobre o comportamento de tal indivduo. 
Lewin diferencia passado de passado psicolgico e entende por este ltimo os fatos ou 
experincias ocorridos que tm no presente algum significado para o indivduo. Esse 
significado pode estar no nvel consciente ou inconsciente. 
Princpio da contemporaneidade 
O passado psicolgico no influencia o comportamento de uma forma direta. Influencia, 
isto sim, a situao presente do indivduo, criando uma realidade psicolgica que no  
constituda pelos fatos passados, mas onde estes fatos interferem no presente, assim 
como no futuro psicolgico. O presente psicolgico , portanto, uma resultante da 
interdependncia de fatores significativos do passado, do presente e do futuro. 
Um acontecimento passado, assim como uma expectativa futura, pode contribuir para 
criar uma condio que se incorpora ao presente. Mas no  o acontecimento passado 
nem a expectativa futura em si mesmos que influenciam o comportamento. Alis, essa 
condio presente  sempre resultante da interao de uma pluralidade de fatores 
diferentes que vm influenciar o comportamento, e no uma experincia passada ou uma 
situao futura isoladamente. O efeito do passado, segundo Lewin,  indireto. O passado 
psicolgico  uma das origens do campo psicolgico presente e, portanto, afeta o 
comportamento. 
Por outro lado, Lewin mostra que relacionar o comportamento com o campo passado 
pressupe que se conheam suficientemente alguns fatores: primeiro, como e em que 
medida o passado modificou o campo naquele momento; segundo, se nesse perodo o 
passado e outros eventos modificaram novamente o campo. 
Segundo Lewin, o campo psicolgico contm a viso do indivduo acerca 
de seu futuro e de seu passado. O passado psicolgico e o futuro psicolgico 
so, portanto, partes simultneas do campo psicolgico de um indivduo. 
Para Lewin, o comportamento no depende do passado nem do futuro, mas do campo 
presente. Esse campo presente tem certa profundidade de tempo: inclui o passado, o 
futuro e o presente psicolgico, o que constitui uma das dimenses do espao vital 
existente em determinado momento. (Veja Figura 6A.) 
201 



Tempo em Psicologia 
Ao enfatizar o princpio da contemporaneidade como uma das caractersticas bsicas da 
teoria de campo, Lewin explica o sentido dado a esse principio. Diz ele que, ao usar o 
termo contemporneo, ou seja, correspondente  situao de dado momento, refere-se 
no a um instante sem uma extenso temporal, mas a um certo perodo de tempo. 
O que caracteriza o tempo em Psicologia  que ele deve ser concebido em termos de 
unidades psicolgicas. Determinado fator deve ser visto como contemporneo enquanto 
psicologicamente significativo para o indivduo.
Figura 6.4. Presente psicolgico: o presente psicolgico do indivduo  uma interao 
de fatores psicolgicos passados, presentes e futuros. 
Ao mesmo tempo que destaca os fatos psicolgicos, isto , fatos significativos para um 
indivduo em determinado momento, Lewin mostra a importncia dos fatos no-
psicolgicos na predio do comportamento do indivduo. A predio especifica do que o 
indivduo far, ou o que ele ser em determinado tempo futuro, exige um conhecimento de 
futuras situaes s quais ele ficar exposto. 
Ecologia psicolgica , para Lewin, a identificao da parte do mundo fsico ou do mundo 
social que ir determinar em dado perodo a zona de fronteira do espao vital. Entretanto, 
para compreender este conceito e sua importncia para a Psicologia  necessrio 
conhecer os diferentes tipos de fato que existem em dado momento, as reas em que 
esses fatos se encontram e, finalmente, as mudanas que estas reas podero sofrer, 
que so ou podero vir a ser de interesse para a Psicologia. 
A teoria de campo considera os fatos psicolgicos e os fatos no-psicolgicos: os fatos 
psicolgicos so aqueles representativos em dado momento para o indivduo, mesmo 
quando fisicamente no estejam presentes; os no-psicolgicos so os fatos fsicos e 
sociais presentes em determinada situao em que 
o individuo se encontra, mas que no integram o seu campo psicolgico ou espao vital. 
Lewin distingue trs reas em que os fatos se encontram: 
1. O espao vital ou campo psico1gico isto , a pessoa e o ambiente psicolgico tal 
como existe para o indivduo. Nesta rea se encontram 
os fatos psicolgicos. 
2. Os vrios processos no mundo fsico e social, os quais no integram o espao vital do 
indivduo naquele momento. Estes processos so integrados pelos fatos no-
psicolgicos. 
202 



3. A zona de fronteira do espao vital: certas partes do mundo fsico e social que afetam 
o estado do espao vital naquele momento. O processo de percepo, por exemplo, est 
intimamente ligado  regio de fronteira porque o que  percebido , em parte, 
determinado pelos estmulos fsicos, isto , aquela parte do mundo fsico que afeta os 
rgos sensoriais naquele momento. A execuo de uma ao  outro exemplo de 
processo localizado na regio de fronteira do espao vital porque  determinada em parte 
pelas condies fsicas e sociais, restries impostas pelas leis do pais, cultura, clima, 
condies polticas, econmicas, geogrficas, climticas etc. 
Os processos do mundo fsico e social, isto , fatos fisicos e sociais tais como: leis, 
condies climticas, sistema poltico, condies socioeconmicas, cultura, ambiente 
fsico, estrutura de poder etc., so fatores que integram a rea de estudo da Psicologia e 
constituem parte legitima e fundamental. Lewin, ao discutir a importncia dos fatores 
fsicos e sociais nos estudos psicolgicos, enfatiza os seguintes pontos: 
1. O campo psicolgico depende em parte dos fatores fisicos e sociais  medida que 
eles podem passar a ser significativos para o individuo num dado momento.  medida 
que os fatos fsicos e sociais existem na realidade, eles podem vir a ser significativos, o 
que no ocorre quando eles no existem, portanto, no tm nenhuma probabilidade de 
integrar o campo psicolgico do indivduo, isto , seu espao vital. 
2. De acordo com Kurt Lewin, existem fatos fisicos e sociais que influenciam o espao 
vital do indivduo, sem, contudo, integr-lo, isto , fatos que, apesar de no pertencerem 
ao espao vital do indivduo, o influenciam num dado momento.Estes fatores (fisicos e 
sociais) constituem a regio de fronteira do espao vital.As condies da fronteira de um 
campo psicolgico so consideradas por Lewin como caractersticas essenciais deste 
campo. 
3. A caracterizao destes fatos  fundamental para o estudo do prprio espao vital e 
dos processos psicolgicos. Entretanto, a integrao dos fatos no-psicolgicos ao 
espao vital vai depender em parte das caractersticas internas do espao vital do 
individuo, isto , das suas motivaes, da estrutura cognitiva, da forma de perceber etc. 
4. O meio influencia o espao vital, ao mesmo tempo que o espao vital, pelas suas 
caractersticas internas, age sobre o meio, retirando do meio aquilo que para o espao 
vital  significativo, e que passa a constituir um novo elemento psicolgico; este, portanto, 
passa a pertencer ao espao vital e conseqentemente o modifica. A essncia de explicar 
ou prever qualquer mudana numa certa rea fisica ou social  a ligao desta mudana 
s condies do campo naquele dado momento. Isto ir contribuir para a compreenso e 
previso das aes dos indivduos, dos grupos e das organizaes. 
5. A histria de vida dos indivduos, grupos e organizaes torna-se importante  medida 
que ela caracteriza as dondies fisicas e sociais s 
203 



quais foram expostos. Esta caracterizao vai possibilitar a identificao de fronteira do 
espao vital dos indivduos, dos grupos e das organizaes e quais fatores e foras os 
influenciariam nos diferentes momentos de sua vida. 
Para Kurt Lewin, os estudos psicolgicos devem partir de uma anlise do campo total, 
que  efetuada pela Psicologia, isto , o psiclogo estuda fatos fisicos e sociais, no-
psicolgicos, para identificar o significado destes fatos na determinao das condies 
da fronteira do espao vital do indivduo, do grupo e da organizao. Somente depois de 
caracterizar estes fatos  que o estudo psicolgico investiga os fatores que influenciam as 
aes do grupo, do individuo ou da organizao naquelas situaes em que esses fatores 
foram significativos. 
Conceitos estruturais: regio 
Qualquer parte que possa ser identificada no espao vital. As regies do ambiente 
psicolgico referem-se ao presente. 
Posio psicolgica. Relao espacial de regies. A posio do eu (inner)  definida pela 
regio de atividade na qual est localizado. Exemplo: quando um indivduo considera 
diferentes aes, ele se encontra em uma posio para cada considerao: a) ir ao 
cinema; b) ler um livro; c) visitar um amigo. 
Locomoo. Relaes de posies em tempos diferentes. Qualquer mudana dentro do 
espao vital  considerada uma locomoo. Exemplo: quando um indivduo abandona a 
considerao ir ao cinema e passa  considerao ir visitar um amigo, h uma 
locomoo no seu espao vital. 
Passo distinguido. Passo psicologicamente mais adequado quando o indivduo decide 
passar de uma regio para a outra.  o melhor passo. Para mudar a direo entre 
regies, basta mudar a estrutura cognitiva (mudana no ambiente psicolgico), ou 
atividade de qualquer dos fatores do ambiente ou das condies psicolgicas. 
Conceitos dinmicos (hodologia) 
Segundo Lewin, o uso do constructo sistema em tenso pressupe uma teoria de campo. 
O sistema em tenso  sempre necessrio para a atividade, mesmo para aquelas j 
aprendidas anteriormente.O termo tenso refere-se ao estado de um sistema em relao 
ao estado dos sistemas vizinhos, O sistema em tenso tende a modificar-se na direo 
do estado dos sistemas vizinhos. A inteno de atingir certo objetivo corresponde  
tenso (T) em certo sistema (S9 dentro da pessoa, de modo que T (S9> OL. Dentro de um 
indivduo, um sistema em estado de tenso gera uma necessidade ou uma inteno. A 
tenso desaparece quando a necessidade  satisfeita. 
Propriedades dinmicas do ambiente psicolgico. Fora: tendncia para 
locomoo. Tem o carter de vetor. Caracteriza-se pela direo e pela fora da 
tendncia  mudana (Lewin, 1944). 
204 



Fora resultante: combinao de um nmero de foras agindo ao mesmo tempo sobre um 
mesmo ponto (Lewin, 1944).Campo de fora force ( field): 
distribuio de foras em direo no espao vital.Valncia positiva:  um campo de fora 
de estrutura especial, onde as foras apontam para a mesma regio (Lewin, 1944). 
Valncia negativa, averso: distribuio de foras em direo contrria a uma regio 
especifica (Lewin, 1944). 

Figra 6.5. Conflitos entre foras impulsionadoras: 
a) campo de fora correspondente a duas valncias positivas. 
b) campo de fora correspondente a duas valncias negativas. 
As Figuras 6.6. e 6.7. caracterizam o que usualmente se denomina tomada de deciso. A 
pessoa est situada entre duas valncias positivas ou entre duas valncias negativas, que 
se excluem mutuamente. 
A Figura 6.6. representa uma situao em que a pessoa ter de decidir-se entre ir ao 
cinema G+1 e sair com amigos G+2. 
A situao representada na Figura 6.7.  aquela em que a pessoa se encontra entre duas 
valncias negativas. A punio -G1  ameaadora, da mesma forma que  a tarefa -G2. 
As Figuras 6.6, e 6.7. representam foras de campo correspondentes, isto , se a pessoa 
estiver localizada em A e a intensidade das valncias for igual, ela estar exposta a foras 
que so iguais em intensidade, mas opostas em direo. 
No primeiro exemplo, Figura 6.6, as foras opostas Fe, G1 e Fe, G2 vo em 
direo ao cinema e ao passeio com amigos. 
205 



No segundo exemplo, as foras opostas Fe, -G e Fe, -G2 esto orientadas em direo 
contrria  tarefa e  punio.Campo de poder (power field): capacidade de induzir foras 
de certa magnitude em outra pessoa (Lewin, 1944). 
Valores: valores que influenciam o comportamento. No tm o carter de campo de fora 
(force field). Exemplo: o indivduo no tenta atingir a honestidade, mas esta orienta seu 
comportamento (Lewin, 1944). 
Figura 6.6. Campo de fora central correspondente a uma valncia positiva. fA,G  um 
exemplo de fora agindo no indivduo em direo a um objetivo G. Se a regio G (que 
representa uma atividade, uma posio social, um objeto ou outro possvel objetivo) for 
atrativa, existir uma valncia positiva. G corresponde  fora fA,-.G, ,-G, f,G etc; A, B, D 
e E, possveis regies onde a pessoa possa estar localizada; P, pessoa (Lewin, 1944). 
Foras impulsionadoras: correspondem  relao entre pelo menos duas regies do 
espao vital: a regio da atividade presente e a regio do objetivo. 
As foras impulsionadoras levam  locomoo. 
Foras restritivas: no levam  locomoo, mais influenciam as foras impulsionadoras. 
Qualquer regio que oferea resistncia  locomoo  denominada barreira (Lewin, 
1944). 
Situaes de conflito: ocorrem quando as foras que agem sobre a pessoa so de 
direes opostas, mas de intensidade igual. 
Figura 6.7. Campo de fora central correspondente a uma valncia negativa. Exemplo 
de fora fA,-G agindo no indivduo em direo contrria ao objetivo G. fA,-G, fB,-G, fD,-G 
etc. correspondem  valncia negativa G. (Lewin, 1944). 
206 



Figura 6.8. Conflito entre foras impulsionadoras e restritivas no caso de um obstculo, 
fsico ou social,  consecuo de um objetivo. A G, uma fora impulsionadora; A B, uma 
fora restritiva; -f, setor fsico da barreira; B. SL, setor social da barreira; G, objetivo; P, 
pessoa (Lewin, 1946). 
Figura 6.9. Tratamento analtico de uma situao de medo de punio (Lewin, 1942). 
A Figura 6.9. representa um indivduo que no gosta da atividade T. Para realizar esta 
atividade, ter de enfrentar uma atividade mais desagradvel. A situao  tal que ter de 
enfrentar uma das duas (situao de conflito entre duas foras negativas). O indivduo 
tende a abandonar o campo. Para tomar a punio efetiva, as barreiras B (para impedir a 
retirada do campo) devem ser estabelecidas; o indivduo tem de permanecer dentro da 
rea de conflito. As barreiras consistem usualmente em foras sociais impostas sobre o 
indivduo por uma autoridade. 
Situao particular de conflito entre duas foras (f 1 e f, Pu) em direo 
contrria a duas reas desagradveis. 
T  Tarefa desagradvel. 
P  Punio. 
B  Barreiras. 
 Tendncias para abandonar o campo. 
Conceitos que tratam da mudana no ambiente psicolgico 
Kurt Lewin considera a aprendizagem, num sentido bem amplo, como 
qualquer mudana que se opere sobre a pessoa e produza uma variao no seu 
ambiente psicolgico. 
207 



Dentro dessa abordagem, o processo de aprendizagem  fundamental para o processo 
de mudana individual, de grupo e da sociedade. Lewin conceitua a aprendizagem como 
fazer alguma coisa melhor do que antes. Segundo ele, aprendizagem  um termo prtico 
de uma variedade de processos que devem 
ser tratados de acordo com sua natureza psicolgica. 
Tipos de aprendizagem 
Lewin distingue quatro tipos de aprendizagem: 
1. mudana na estrutura cognitiva (conhecimento); 
2. mudana na motivao (gostar ou no gostar de); 
3. mudana na ideologia, caracterizada pela afihiao de diferentes grupos; e 
4. controle voluntrio da musculatura (controle dos movimentos corporais). 
Como mudana cogntiva, a aprendizagem relaciona-se com quase todo 
o campo do comportamento. 
A mudana do significado de alguma coisa exige antes uma mudana na estrutura 
cognitiva (conhecimento). Em Psicologia, o significado de um evento pode ser conhecido 
se a posio e a direo psicolgicas so determinadas. 
Exemplo: para um passageiro em um barco, as espumas brancas no mar alto no 
passam de um lindo fenmeno, enquanto para o piloto do barco so o sinal de rochas 
perigosas (Lewin, 1942). A mudana na motivao e a mudana de valores esto ligadas 
s mudanas de necessidades (needs) e de significado, e esta ltima, isto , a mudana 
de significado, est ligada  estrutura cognitiva atravs do conhecimento. H uma 
interdependncia entre necessidades (needs) e estrutura cognitiva. 
Nvel de aspirao e a aprendizagem 
O nvel de aspirao  definido por Kurt Lewin como o grau de dificuldade que uma 
pessoa deve enfrentar para atingir um objetivo. 
Os fatores que determinam o nvel de aspirao so de importncia bsica para a 
aprendizagem. O nvel de aspirao  influenciado pelo grau de dificuldade do objetivo 
que a pessoa se prope alcanar e pela habilidade do indivduo em realizar atividades 
que o levam ao objetivo. O sucesso ou o fracasso decorrentes das aes anteriores do 
individuo so fatores que tambm influenciam o nvel de aspirao. 
A determinao do nvel de aspirao de um individuo  uma conseqncia da 
interdependncia de fatores objetivos e de fatores subjetivos. Exemplos desses fatores 
so o grau de dificuldade na consecuo do objetivo percebido pelo indivduo, suas 
habilidades reais, os padres do grupo percebidos pelo indivduo e suas expectativas 
pelos resultados de suas atividades futuras. 
208



Mudanas induzidas socialmente 
As mudanas induzidas socialmente esto relacionadas com o constructo de campo de 
poder (power field). 
A fonte do campo de poder  geralmente, mas no necessariamente, uma pessoa.
A fonte do campo de poder  geralmente, mas no necessariamente, uma pessoa.
As mudanas induzidas podem ocorrer nas regies de valncias ou no espao vital, ou 
podem ser de natureza cognitiva. A distino entre foras prprias e induzidas 
fundamenta e explica algumas das diferenas observadas no comportamento de pessoas 
que viviam em situaes de liderana autocrtica e democrtica. Na situao 
democrtica h maior possibilidade de surgirem foras prprias. Conseqentemente, h 
menor necessidade de controle social para manuteno das mudanas desejadas. 
O campo de poder (power field) pode ser caracterizado de acordo com a fonte percebida; 
por exemplo, um grupo, uma pessoa, um valor social ou uma lei; tambm pode ser 
caracterizado: 
1. pelas regies que o campo de poder (power fleld) pode afetar no individuo (um fisico 
poder exercer influncia sobre o ponto de vista de outra pessoa em relao  Fisica, 
mas no no que diz respeito  Psicologia);
2. pela fora do campo de poder, que  indicado pela magnitude das mudanas que pode 
induzir; 
3.pelas condies em que o campo de poder  atuante; 
4.pela natureza das mudanas induzidas pelo campo de poder (as barreiras ou 
valncias podem ser afetadas e as foras indutoras podem atuar no eu ou nas regies do 
ambiente psicolgico); 
5.pela aceitao do campo de poder pela pessoa que  influenciada; 
6.pela qualidade percebida do campo de poder (amiga ou inimiga, pessoal ou 
impessoal); 
7.pelo grau de correspondncia ou conflito entre as prprias foras e as foras induzidas; 
8.pelos atributos da fonte do campo de poder de onde emana seu poder (fora fisica, 
papel social, atrao pessoal etc.). 
Lewin e a Psicologia social 
A contribuio cientifica de Lewin para o desenvolvimento da Psicologia social 
caracteriza o seu aspecto de cidado envolvido e comprometido com a melhoria das 
condies sociais da humanidade. 
Nessa fase de sua vida cientifica, Lewin volta sua ateno mais diretamente para o 
individuo e para seu ambiente social, bem como para os efeitos e as conseqncias 
dessas condies sobre os individuos. Ao mesmo tempo, demonstra uma preocupao 
no menor com a efetivao das mudanas das condies sociais. Enfatiza a 
participao do cientista na promoo das mudanas nas condies sociais, assim como 
a importncia e o papel do estudo das tentativas de realizar mudanas nas condies 
sociais como fonte de insight 
209 



cientifico dos processos sociais. Essa tentativa de estudo cientifico dos processos 
sociais, das mudanas sociais, s poder ser desenvolvida  medida que os cientistas 
sociais se envolverem no prprio processo de mudana social. 
Coerente com essas preocupaes cientificas, desenvolve a pesquisa-ao (action-
research) e a dinmica de grupo (group dinamics). 
Pesquisa-ao 
Lewin, preocupado com a soluo dos problemas da sociedade moderna e atravs de 
suas anlises psicossociolgicas dos problemas sociais, sentiu que o cientista social no 
somente poderia contribuir para a soluo desses problemas, como tambm que o 
estudo de tentativas para produzir mudanas nas condies sociais permitiria insights 
cientficos dos processos sociais. Estes insights no seriam possveis sem o envolvimento 
do cientista no prprio processo de mudana das condies sociais. 
Alm do valor que a pesquisa-ao poderia ter para as agncias sociais diretamente 
envolvidas no processo de mudana das condies sociais, Lewin enfatizou a importncia 
da ligao da pesquisa com a ao social, o que daria ao cientista acesso aos processos 
sociais bsicos. 
As dificuldades do estudo dos processos sociais envolvidos nas mudanas das 
condies sociais residem basicamente na impossibilidade de criar condies artificiais 
de mudana social. Essa dificuldade  superada  medida que o pesquisador se envolve 
no processo das mudanas das condies sociais, atravs da colaborao com as 
agncias sociais ou com as organizaes que estejam desenvolvendo tentativas de 
mudana social e mudana da comunidade. 
Ao enfatizar a importncia do relacionamento da pesquisa com a ao, Lewin estava 
profundamente preocupado com o relacionamento entre pesquisa e teoria. 
Dinmica de grupo 
Lewin preocupava-se com a integrao das Cincias Sociais. Essa preocupao levou-o 
a mudar o enfoque do estudo da descrio do grupo social e da vida do grupo para uma 
anlise terica e um estudo experimental da dinmica dos problemas da mudana na vida 
do grupo. Essa anlise terica e esse estudo experimental foram denominados por Lewin 
dinmica de grupo. 
A grande contribuio de Lewin foi trazer para a Psicologia o conceito de grupo como 
uma entidade psicossociolgica com caractersticas prprias e a noo de que o 
comportamento de um individuo  altamente influenciado pelos vrios grupos aos quais 
ele pertence. Por meio da contribuio de Lewin, tomou-se possvel a abordagem 
cientfica dos processos grupais. O conceito de grupo foi introduzido na Psicologia no 
plano da realidade. Estudos experimentais de pequenos grupos foram desenvolvidos, e 
Lewin demonstrou que tais estudos poderiam ter certa validade como indicadores dos 
processos sociais mais amplos (da organizao, da comunidade e da sociedade). 
210 



Teoria de campo e comportamento organizacional 
O campo psicolgico de cada indivduo  constitudo por fatos que so considerados 
psicolgicos  medida que se tomam significativos para o indivduo. No entanto, o 
indivduo necessita estar exposto ou ter acesso a certos fatos para que possa incorpor-
los ao seu campo psicolgico. Isto significa que uma pessoa no poder perceber um 
dado objeto ou fenmeno se estes no lhe forem mostrados. No se obtm conhecimento 
sobre determinado problema ou situao se no houver acesso s informaes sobre ele. 
Por outro lado, a forma pela qual se percebe, se raciocina e se pensa  influenciada pela 
forma como as informaes so transmitidas, pelo contexto em que esto inseridas e pelo 
seu prprio contedo. Portanto, a forma pela qual ns refletimos, pensamos, decidimos, 
isto , o nosso comportamento na organizao,  determinada pelas condies que a 
prpria organizao oferece aos seus membros. Organizaes centralizadoras, com 
controles rgidos, com condies fisicas de trabalho inadequadas (insalubridade, 
periculosidade, penosidade, salrios baixos etc.), so exemplos de condies 
cerceadoras, que impedem o pleno desenvolvimento do campo psicolgico de seus 
membros. 
Essas condies afetam o comportamento e o desenvolvimento de suas caractersticas e 
capacidades psicolgicas. 
Os fatores ambientais, ao interagir com os fatores biolgicos, modificam estes ltimos e 
permitem ou no o seu desenvolvimento. Assim, pode-se dizer que uma pessoa ser 
mais ou menos inteligente  medida que as condies ambientais possibilitarem o 
desenvolvimento de seu campo psicolgico. Este no envolve somente a aquisio de 
conhecimentos, mas tambm o desenvolvimento de processos cognitivos, isto , 
percepo, memria, pensamento, tomada de deciso, criatividade etc.  medida que as 
pessoas forem capazes de refletir, de elaborar novas idias, de relacionar fatos, de 
chegar s suas prprias concluses, de criar e de inovar o seu comportamento, sero 
qualitativamente superiores, isto , no s seus conhecimentos sero superiores, mas a 
forma pela qual elaboram novos conhecimentos ser qualitativamente superior. O 
processo de incorporao de fatos (informaes, conhecimentos, valores etc.) no campo 
psicolgico dos indivduos modifica as prprias caractersticas desse campo. A 
modificao se d no processo de interao do indivduo com os fatores ambientais que 
o cercam. Portanto, seu campo psicolgico torna-se mais complexo. 
O conceito de campo psicolgico traz conseqncias e novas direes para o estudo do 
comportamento humano na organizao. Mostra que o comportamento humano na 
organizao no pode ser explicado por uma causa nica, quer seja ambiental, quer seja 
biolgica, pois h uma interdependncia de fatores, que se denomina rede causal; que o 
estudo do comportamento humano na organizao deve ser feito atravs dos fatores no-
psicolgicos;  atravs da mudana desses fatores que podero vir a ocorrer mudanas 
no espao vital do indivduo; e que para estudar o comportamento humano na organizao 
 necessrio abordar a organizao no seu todo, de forma que seja 
211 



possvel compreender a natureza e a complexidade dos fatores que esto ou no 
influenciando o comportamento dos seus membros. 
Para Lewin, no domnio da Psicologia est o estudo dos fatores ambientais psicolgicos, 
isto , fatores ambientais (sociais, econmicos, fisicos, polticos etc.). Postula que  
atravs deles que se poder compreender e caracterizar o espao vital dos indivduos, 
assim como  atravs da modificao do meio ambiente que se pode possibilitar o 
desenvolvimento do potencial de seres humanos. O estudo do comportamento humano na 
organizao, dentro de uma perspectiva da teoria de campo, dever caracterizar a 
estrutura organizacional, os objetivos e os valores da organizao, a sua estrutura, a 
tecnologia e as tarefas, as diretrizes e as metas, os processos administrativos, os 
sistemas de recrutamento, de seleo, de avaliao de desempenho, de treinamento, de 
remunerao e de incentivos, as condies de trabalho, as polticas de pessoal etc. Esses 
e outros fatores devero ser diagnosticados  medida que se deseja desenvolver e 
compreender o comportamento humano na organizao. do processo de interao do 
individuo com o meio que resulta o comportamento humano. 
A critica que se faz  teoria de campo  que ela trabalha exclusivamente com o campo 
psicolgico individual; portanto, dentro de uma perspectiva da Psicologia Individual, 
adotando assim a microabordagem do comportamento humano na organizao. No 
entanto, Lewin, ao estudar os grupos como uma unidade psicolgica, por meio da 
dinmica de grupo, estabeleceu as bases para o estudo da organizao como entidade 
psicolgica. Ele considera o comportamento do grupo diferente do comportamento de 
seus membros. O grupo desenvolve processos e possui foras prprias que influenciam 
seu prprio comportamento e o de seus membros. O grupo no  mera soma do 
comportamento de seus membros, apesar de ser influenciado em parte pelas 
caractersticas destes. Da mesma forma a organizao  uma entidade psicolgica que 
desenvolve processos psicolgicos prprios, assim como seu sistema de valores, sua 
cultura, seus objetivos, O comportamento da organizao pode ser identificado como um 
comportamento diferente do comportamento de seus membros, ou de seus grupos. Os 
fatores como objetivos do grupo, contexto em que est inserido e as condies internas e 
externas so fatores que interagem com as caractersticas dos membros do grupo. Os 
processos grupais, tais como coeso, estrutura, formao de normas e lideranas, 
tambm so fatores que influenciam o comportamento grupal. Lewin, apesar de ter 
trabalhado com pequenos grupos, mostra que: 
1. o grupo tem um comportamento prprio; 
2. desenvolve foras e processos psicolgicos; 
3. seu espao vital engloba, alm do espao vital de seus membros (em interao), outros 
fatores psicolgicos; 
4. o estudo e a compreenso do comportamento do grupo tm de ser realizados em nvel 
mais amplo, isto , no nvel da estrutura social do grupo. 
212 



 atravs do conceito de espao vital ou campo psicolgico que Lewin d uma das 
contribuies mais importantes ao estudo e  compreenso do comportamento humano 
na organizao. Esse conceito traz nova dimenso para a compreenso da influncia dos 
fatores hereditrios (biolgicos) e dos fatores ambientais no comportamento humano. No 
entanto, as condies biolgicas so fundamentais ao desenvolvimento das 
caractersticas e dos processos psicolgicos, mas no lhes so determinantes. As 
condies ambientais exercem tambm papel importante, favorecendo ou impedindo o 
desenvolvimento das caractersticas mentais de seus membros, porm as caractersticas 
psicolgicas e o prprio comportamento humano so resultantes da interao desses 
dois fatores, ou seja, biolgicos e ambientais. 
O que Lewin afirma com o conceito de campo psicolgico  que a organizao tem uma 
funo sociopolitica muito importante, pois,  medida que as condies ambientais 
atingem diretamente a natureza do campo psicolgico de seus membros, isto acarreta a 
influncia do nvel mental e cultural da sociedade mais ampla. As organizaes, portanto, 
possibilitam a libertao humana ou mantm a sua dominao de uma forma poderosa, 
impedindo o crescimento mental de seus membros. 
RESUMO 
O conceito de teoria de campo foi desenvolvido inicialmente pelos psiclogos 
representantes da Gestalt. Mas foi Lewin que, no sculo XX, deu a maior contribuio 
para a aplicao da teoria de campo  Psicologia. Lewinpreocupouse sempre com a 
interdisciplinaridade cientfica e sempre postulou a importncia dos valores individuais 
para o destino das Cincias Sociais. Lewin toma como constructo mais fundamental de 
sua teoria psicolgica o campo em que ocorre todo o fenmeno psicolgico. Partindo do 
constructo de campo, ele explica que as propriedades de qualquer evento so 
determinadas por suas relaes com o sistema do qual o evento  componente. 
Lewin define como objeto da Psicologia as transaes comportamentais do individuo no 
seu meio interno e externo. Ele distingue o comportamento propriamente dito dos 
processos fisicos e fisiolgicos, que so mediadores das transaes comportamentais 
do individuo com seu ambiente. A explicao psicolgica do comportamento, para ele, 
implica a identificao de caractersticas direcionais: todo comportamento tem propsitos 
subjacentes e objetivos para os quais  dirigido. 
Para Lewin, conceitos como desejo, ao e habilidade constituem realidades 
psicolgicas, embora no possam ser expressos em termos fisicos; so, portanto, 
passveis de investigao cientfica. A teoria de campo enfatiza a explicao psicolgica 
dos fenmenos psicolgicos. Para Lewin, o importante  o comportamento, um fenmeno 
interno, e no os seus efeitos. No entanto,  atravs da observao do ambiente em que o 
individuo age, das aes do individuo e do curso dessas aes que se infere sua 
realidade psicolgica. 
213 



A nfase na situao total presente leva os psiclogos que seguem a orientao de Kurt 
Lewin a partir da caracterizao da situao como um todo e a se concentrar nas 
relaes de interdependncia. Enfatiza-se que os eventos psicolgicos devem ser 
explicados em termos das propriedades do campo no momento em que ocorrem, mas 
no se nega o passado nem o futuro psicolgicos. Mas Lewin diferencia passado de 
passado psicolgico, considerando este ltimo como fatos ou experincias passadas 
com significado para o indivduo no presente. Lewin enfatiza o principio da 
contemporaneidade, de acordo com o qual a situao de dado momento refere-se a certo 
perodo e no a um instante. O que caracteriza o tempo em Psicologia  que ele deve ser 
concebido em termos de unidades psicolgicas. 
Ao mesmo tempo, Lewin destaca a importncia dos fatos no-psicolgicos: o 
comportamento futuro do indivduo depender tambm das futuras situaes, fisicas e 
sociais, a que o indivduo ser exposto, as quais ele denomina ecologia psicolgica 
O comportamento aparece ento como uma funo da pessoa e de seu ambiente, 
concepo que se ope ao pensamento aristotlico, para o qual os eventos psicolgicos 
so determinados pelas caractersticas do indivduo hereditariedade, inteligncia etc. 
Lewin descreve o espao vital de um recm-nascido como tendo poucas reas, pouco 
diferenciadas. Para ele, a diferenciao das regies do espao vital  uma das 
caractersticas mais importantes do desenvolvimento do indivduo. 
A teoria de campo  uma das abordagens dinmicas da Psicologia, ou seja, v os fatos 
psicolgicos em termos de sistema, onde os seres tendem a manter um equilbrio 
dinmico. Ao estudar o processo pelo qual o sistema restaura continuamente seu 
equilbrio, Lewin enfatizou a compreenso dos processos motivacionais. Na tentativa de 
explic-los cientificamente, ele parte para uma Psicologia mais rigorosa, apoiada na 
Matemtica, e utiliza a Geometria Topolgica e a Hodologia, servindo-se de toda uma 
terminologia tomada de emprstimo s Cincias Exatas, particularmente a Fsica. 
Lewin considera a aprendizagem, no sentido mais amplo, como qualquer mudana que se 
opere sobre a pessoa e modifique seu ambiente psicolgico. 
O grau de dificuldade que algum se dispe a enfrentar para atingir um objetivo  
chamado de nvel de aspirao. J as mudanas induzidas socialmente esto 
relacionadas com o constructo de campo de poder. 
Os fatores no-psicolgicos so integrados  Psicologia  medida que parcialmente 
determinam o comportamento por meio das modificaes que podem provocar no 
espao vital do indivduo, ou pelas influncias que exercem sobre este sem, contudo, 
modific-lo. A ecologia psicolgica  o meio pelo qual Lewin aborda o estudo dos fatores 
no-psicolgicos, os fatos sociais e fsicos, e a sua influncia sobre o comportamento. 
Aplicada ao estudo do comportamento humano na organizao, a teoria de campo 
ressalta a interdependncia dos fatores: no se pode avaliar o individuo sem situ-lo no 
contexto organizacional. E mostra que as mudanas de comportamento podem ser 
induzidas por foras externas ou internas. 
214 



TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Teoria de Gestalt: teoria psicolgica que se fundamenta no estudo da percepo. 
Descreve fenmenos imediatos; determina as condies de melhor estrutura na 
percepo e as leis de sua transformao. Parte do todo para o particular. 
Gestalt, forma ou estrutura: um todo organizado em contraposio a um conjunto de 
partes. A forma  a sustentao desse todo em relao s partes. 
A natureza das partes  determinada pela sua funo no todo. 
Insight: discernimento ou compreenso sbita do sujeito em face de uma situao 
problemtica. O sujeito consegue estruturar essa situao, isto , perceb-la como um 
todo. 
Isomorfismo: identidade estrutural entre a experincia fenomenal (processos cerebrais 
que correspondem  percepo) e o seu correlato fisiolgico, o fenmeno fsico sensvel. 
Figura-fundo: principio da Teoria da Gestalt. A figura destaca-se do fundo. Apresenta-se 
como fator organizado, estruturado. O fundo sugere um espao vazio. 
Aprendizagem: processo psicolgico que percebe relaes, estrutura o campo 
perceptivo. Est ligado  compreenso do todo. 
Constructo de campo: O fenmeno psicolgico ocorre em determinado campo. H uma 
totalidade de fatos coexistentes, mutuamente interdependentes. 
Fenmenos psicolgicos: realidades psicolgicas passveis de investigao cientifica. 
Objeto da Psicologia: transaes comportamentais do indivduo com o meio interno e 
externo. 
Campo psicolgico ou espao vital:  constitudo pela pessoa (necessidades, valores, 
emoes) e pelo ambiente (fatores psicologicamente significativos para o indivduo em 
dado momento). Pessoa e ambiente formam uma constelao de fatores 
interdependentes que determinam em parte o comportamento de um indivduo em dado 
momento. 
Ambiente psicolgico: o ambiente tal qual existe para o indivduo.  o que o indivduo 
percebe como real. 
Presente psicolgico: campo psicolgico dominante no presente.  resultante da 
interdependncia de fatores significativos do passado, do presente e do futuro. 
Ecologia psicolgica: identificao da parte do mundo fsico e social que ir determinar 
em dado perodo a zona de fronteira do espao vital.Zona de fronteira do espao vital: 
certas partes do mundo fsico e social que afetam o estado do espao vital em dado 
momento, sem integr-lo. 
Regio: qualquer parte que possa ser identificada no espao vital. 
Posio psicolgica: relao espacial de regies. 
Locomoo: relaes de posies em tempos diferentes ou mudanas dentro do espao 
vital. 
215 



Passo distinguido: passagem de uma regio do ambiente psicolgico para outra do 
mesmo ambiente. 
Sistema em tenso: estado de um sistema em relao aos sistemas vizinhos, O sistema 
em tenso tende a modificar-se na direo dos sistemas vizinhos. 
Fora: tendncia para a locomoo em carter de vetor. 
Campo de poder (power fleld): capacidade de induzir foras de uma certa magnitude em 
outra pessoa. 
Fora resultante: combinao de um nmero de foras agindo sobre o mesmo ponto ao 
mesmo tempo. 
Campo de fora: distribuio de foras no espao vital. 
Valncia positiva: campo onde as foras apontam para a mesma direo. 
Valncia negativa: distribuio de fora em direo contrria a uma regio especifica. 
Valores: crenas que influenciam os individuos. 
Foras impulsionadoras: relao entre a regio de atividade presente e a regio do 
objetivo. 
Foras restritivas: no levam  locomoo, mas influenciam as foras impulsionadoras. 
Dinmica de grupo: estudo cientfico dos grupos como entidades psicossociolgicas. E 
uma rea da Psicologia Social que trata das origens, da natureza e do desenvolvimento 
das foras e dos processos grupais. 
APLICAO 
1. Observao de comportamento 
1.1. Observe o comportamento de um indivduo, fundamentando-se na teoria de campo. 
1.2. Identifique as dificuldades encontradas na aplicao desta teoria.Identifique as 
concluses de sua observao sobre o comportamento do indivduo, procurando 
caracteriz-lo de acordo com a teoria de campo, se possvel. 
1.4.Identifique os fatores que julga necessrios conhecer para explicar o comportamento 
humano de acordo com esta teoria. 
1.5. Discuta em grupos os resultados da sua observao comportamental. 
2. Aplicao na organizao 
2.1. Identifique que fatores um chefe dever conhecer para explicar o comportamento de 
seus subordinados. 
2.2 Pesquise numa organizao os critrios que so adotados para avaliar o 
comportamento de seus membros. 
2.3. Compare os critrios encontrados com o modelo proposto pela teoria de campo. 
216 



3. Estudo de caso 
A empresa X atua no setor de eletrodomsticos, tendo at 1998 grandes lucros. 
Entretanto, a partir de janeiro de 1999, as vendas caram assustadora- 
mente. 
A diretoria, preocupada com a situao, realizou vrias reunies, e constatou um alto grau 
de tenso e conflito entre os diferentes setores da empresa, alm de pouca motivao. 
A diretoria de marketing acusava a de produo, e esta a de finanas, pelas suas 
polticas. A diretoria de finanas, por sua vez, dizia que o problema estava na seleo, e o 
presidente da empresa via o problema como ocasionado pela falta de treinamento dos 
vendedores, pela seleo inadequada deles, alm de apontar tambm a falta de 
treinamento gerencial de seus executores. Diante desta situao, props que se 
iniciassem programas de treinamento para vendedores e para executivos e, ao mesmo 
tempo, que se estabelecessem novas normas e critrios para a seleo de vendedores. 
Perguntas 
a) Com base nos conceitos de espao vital e de ecologia psicolgica, analise a deciso 
do presidente da empresa e identifique suas falhas. 
b) Proponha um plano de ao para a empresa. 
QUESTES 
1. Quais os pressupostos bsicos da teoria de campo? 
2. Qual o objeto da Psicologia, segundo Lewin? 
3. Explique o comportamento de acordo com a teoria de campo. 
4. Que  campo psicolgico ou espao vital? 
5. Que quer dizer campo presente? 
6. Explique o significado de ecologia psicolgica e sua importncia para compreender, 
explicar e mudar comportamentos na organizao. 
7. Quais so as principais conseqncias da aplicao da teoria de campo na seleo de 
pessoal? 
8. Explique por que as organizaes determinam em parte as caractersticas psicolgicas 
de seus membros (inteligncia, criatividade etc.). 
9. Qual a importncia das condies fisicas e sociais da organizao na melhoria da 
qualidade de sua fora de trabalho? 
10. Explique por que Lewin parte do estudo dos fatores fisicos e sociais para estudar o 
comportamento. 
11. Explique o dinamismo psicolgico do espao vital e suas relaes internas (pessoas) 
e externas (meio fsico e social). 
12. Quais so as causas do comportamento dos indivduos na organizao?  possvel 
explicar o comportamento humano na organizao sem considerar uma rede causal, 
porque? 
217 



BIBLIOGRAFIA 
DEUTSCH, Morton. Field Theory in Social Psychology in Undzey Gardner e Aronson 
ElIiot, The Handbook of Social Psychology. California: Addison-Wesley, 1968. 
FIALL, C.S. e G. Lindzey. Teorias da Personalidade. So Paulo: EPU  EDUSP, 1974. 
LEWIN, Kurt. Teoria de Campo em Cincias Sociais. Artigos Tericos Selecionados. 
So Paulo: Pioneira. 
Pesquisa-Ao e Problemas de Grupos Minorit rios em Teoria de Campo em Cincias 
Sociais. So Paulo: Pioneira, 1943. 
_________ Definindo o Campo num Dado Momento em Teoria de Campo em 
Cincias Sociais. So Paulo: Pioneira, 1943. 
__________ Teoria de Campo e Aprendizagem em Teoria de Campo em Cincias 
Sociais. So Paulo: Pioneira, 1942. 
_________ Ecologia Psicolgica em Teoria de Campo em Cincias Sociais. So 
Paulo: 
Pioneira, 1943. 
__________ Fronteiras em Dinmica de Grupo em Teoria de Campo em Cincias 
Sociais. So Paulo: Pioneira, 1944. 
Comportamento e Desenvolvimento como uma Funo da Situao 
Total em Teoria de Campo em Cincias Sociais. So Paulo: Pioneira, 1946. 
__________ Constructos em Teoria de Campo em Cincias Sociais. So Paulo: 
Pioneira, 1944, 
Psicologia Topolgica em Teoria de Campo em Cincias Sociais. So Paulo: Pioneira, 
1944. 
Princpios de Psicologia Topolgica. So Paulo: Cultrix  EDUSP, 1973, 
__________ Problemas de Dinmica de Grupo. So Paulo: Cultrix, 1974. 
__________ Teoria Dinmica da Personalidade. So Paulo: Cultrix  EDUSP, 1975, 
Resolving Social Conllicts. NewYork: Harper & Row, 1948,SOUZA Campos, Dinah 
Martins. Psicologia da Aprendizagem. Petrpolis: Vozes, 1976. 
218



9.A ORGANIZAO COMO CONTEXTO 
SOCIAL E O DESENVOLVIMENTO 
C OGNITIVO 
Ao terminar a leitura deste capitulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender o processo de interao de fatores na formao e no desenvolvimento 
das caractersticas individuais. 
2. Compreender as diferentes estruturas cognitivas e suas caractersticas. 
3. Compreender e identificar as bases cientificas dos testes psicolgicos e suas 
contradies. 
4. Identificar as limitaes dos testes psicolgicos na seleo de pessoal. 
5. Compreender o conceito de inteligncia e o seu processo de desenvolvimento. 
As organizaes enquanto meio social onde os individuos esto inseridos exercem uma 
funo estimuladora ou bloqueadora do desenvolvimento cognitivo e da maturidade 
psquica dos indivduos, seus membros. 
Como Piaget enfatiza, nem todos os individuos atingem o nvel mais complexo e 
elaborado do sistema cognitivo, que  o operatrio formal, apesar de apresentarem 
condies fisicas e intelectualmente normais. Piaget acentua que o desenvolvimento 
cognitivo  resultante de uma ao do indivduo no seu meio social. Entretanto, este meio 
social atua como elemento possibilitador. As organizaes podem, portanto, controlar o 
desenvolvimento cognitivo de seus membros,  medida que selecionam as aes do 
indivduo e as orientam numa dada direo desejada por ela. 
Para que o indivduo, num dado contexto social, possa desenvolver o seu processo de 
perceber e pensar,  necessrio que os instrumentos para esse desenvolvimento lhe 
sejam possibilitados, O desenvolvimento cognitivo  um processo individual inserido no 
contexto social. Por isso ele tem uma certa dependncia desse meio. As tcnicas, as 
instrues de trabalho, os programas de tcnicas e estratgias de treinamento 
operacional e gerencial explicitam os reais objetivos das organizaes enquanto 
bloqueadores ou estimuladores do desenvolvimento cognitivo dos seus membros. 
219 



Para se compreender o que realmente a organizao se prope,  necessria uma leitura 
e anlise dos instrumentos por ela utilizados,  luz dos princpios e das caractersticas dos 
estgios do desenvolvimento cognitivo propostos por Piaget. No  difcil identificar que 
as instrues de trabalho e os mtodos de soluo de problemas, bem como as normas 
operacionais e gerenciais, trazem a marca da padronizao de raciocnio dos indivduos e 
da estagnao do processo cognitivo nos nveis inferiores. 
O CCQ (Circulo de Controle de Qualidade), introduzido na administrao moderna, como 
instrumento do desenvolvimento do raciocnio e da criatividade, apresenta as 
caractersticas de padronizao de raciocnio ao nvel do pr-operatrio, portanto, 
mantendo o individuo num nvel mental onde ele s conseguir pensar a ao concreta, 
num raciocnio concreto linear. O Ishikawa seqencial (espinha de peixe) tem as suas 
bases no principio da atividade mental que caracteriza o processo de raciocnio concreto 
a partir de situaes concretas e objetos concretos. Trabalha-se com causa-efeito. As 
estruturas totais no so construdas nem  permitida a sua elaborao. Este modelo 
linear de raciocnio  padronizado para todos os membros do CCQ. Nega-se, assim, a 
possibilidade da diferenciao de raciocnio. Anula-se a individualidade, controla-se, 
atravs do mtodo de trabalho e do manual de controle total, o processo de 
desenvolvimento cognitivo dos individuos membros da organizao. A proposta implcita  
a criao da conscincia coletiva. Cerceia-se a verdadeira criatividade, que  autnoma 
no seu contedo e na sua forma de ser processada. 
Desenvolvimento cognitivo 
O desenvolvimento cognitivo, bem como a formao da conscincia moral, se d atravs 
de processos interativos do indivduo com o mundo social. 
Para Piaget, h uma evoluo qualitativa das estruturas cognitivas, isto , das mais 
simples s mais complexas. Os processos de assimilao e acomodao so 
fundamentais no desenvolvimento do pensamento. Estmulos externos so assimilados e 
acomodados na estrutura cognitiva. A atividade inteligente  sempre um processo ativo e 
organizado, de assimilao do novo ao velho e de acomodao do velho ao novo, afirma 
Piaget. Para ele, nem todos os seres normais conseguem desenvolver estruturas 
cognitivas capazes de elaborar pensamentos superiores, ou seja, desenvolver a sua 
capacidade humana integralmente. A elaborao das estruturas cognitivas do 
desenvolvimento neurolgico e da estimulao adequada do meio. Sem esta estimulao, 
muitos indivduos jamais atingiro realmente a sua capacidade mental. 
Perodo sensrio-motor 
Para Piaget, o processo de conhecimento comea a aparecer antes de a 
criana desenvolver a linguagem. Este perodo  denominado perodo sensrio-motor (do 
nascimento at o 2 ano de vida) e  de extrema importncia, 
220 



porque  nele que as mudanas mais fundamentais e mais rpidas se realizam. Na poca 
do nascimento existem aes isoladas, como sugar, ouvir, tocar acidentalmente as 
coisas. 
Para a criana, os objetos no existem em si mesmos. E ela no tem conscincia de si 
prpria como sujeito. Entretanto, durante o l ano de vida, a criana j toma conhecimento 
dos objetos em si prprios, de suas relaes causais, e os integra num espao que 
engloba a todos. 
Essas mudanas se do antes da linguagem. O conhecimento est ligado s aes nesta 
fase. Esta forma de aquisio de conhecimento, atravs das aes,  denominada 
inteligncia sensrio-motora por Piaget. 
Neste perodo, a criana adquire o conhecimento manipulando objetos atravs de 
diferentes tipos de ao, que so para Piaget invenes reais porque se trata de novas 
construes. At esse momento no existe linguagem, portanto, no existe conceito, 
posto que se entende conceito como um nome para uma coleo de objetos. 
Piaget, entretanto, chama a ateno para o que denomina esquemas, que so outro tipo 
de instrumento de generalizao. 
Esquema e conceito prtico 
Um esquema , portanto, o que h de comum entre as vrias aes diferentes e anlogas. 
Quando a criana puxa algo, traz para perto de si um lpis que descansa sobre uma folha 
de papel, e quando ela generaliza, trazendo para perto de si uma xcara que est em cima 
de uma bandeja, puxando-a para perto de si, consegue relacionar as aes e realizar a 
coordenao entre esquemas equivalentes. Ela no usou a linguagem, portanto, no teve 
conceito (terico), mas estabeleceu padres organizacionais de comportamentos, que 
para Piaget so os conceitos prticos. 
Caractersticas do perodo sensrio-motor 
No comeo do perodo sensrio-motor, por no haver identificao do sujeito, existe uma 
total indiferenciao entre o sujeito e o objeto. 
 medida que os esquemas vo sendo desenvolvidos pela criana, as aes dela so 
diferenciadas, diversificadas e coordenadas juntas. O esquema, portanto,  o instrumento 
fundamental desta coordenao.  ele que permite a construo da dualidade sujeito e 
objeto de forma permanente. Piaget enfatiza que, enquanto a criana no se reconhece 
como a origem de suas prprias aes, ela tambm no reconhece a permanncia de 
objetos que no seja ela mesma. 
Perodo pr-operatrio ou desenvolvimento do pensamento simblico O perodo pr-
operatrio d continuidade ao sensrio-motor, se inicia aos 2 anos de idade e vai at os 
7 anos. 
221 



Piaget acentua que esse perodo  caracterizado pelo aparecimento da funo 
semitica, ou seja, da representao mental das coisas, ou funo simblica.  claro 
que inclui tambm a linguagem, mas no somente. Surgem ai a imagem mental, a 
imitao postergada, o desenho etc. 
Piaget enfatiza a ligao da funo semitica  interiorizao da imitao. Isto quer dizer 
que a criana pode nesta fase representar um objeto para si mesma quando ele est 
ausente. O seu nvel de inteligncia foi qualitativamente mudado. Ela no est mais restrita 
 ao. Ela est num novo nvel de inteligncia inteligncia em representao e 
pensamento. Piaget explica que esta mudana qualitativa exige da criana um processo 
de reconstruo de tudo aquilo que ela adquiriu no nvel das aes em um novo nvel, em 
termos tericos. 
Resumindo, o nvel pr-operatrio se caracteriza: 
1) pelo surgimento da funo semitica, permitindo a representao mental e o 
pensamento; 
2) pela reconstruo mental que a criana faz de todo o conhecimento adquirido em nvel 
sensrio motor, atravs da coordenao das aes (esquemas); 
3) pelo fato de a criana ter a possibilidade de se representar a si mesma e pensar sobre 
objetos afastados no espao ou sobre episdios do passado e do futuro. 
Estes trs elementos fazem com que esta fase seja mais lenta e as mudanas, paulatinas. 
Nvel operatrio concreto e suas caractersticas  O nvel operatrio concreto ocorre dos 
7 aos 11 anos de idade. Para Piaget, a essncia de uma operao nesse nvel  a 
possibilidade de reversibilidade, ou seja, pode-se voltar ao passado em pensamento. A 
criana passa por um processo atravs do qual junta classes mentalmente, separa essas 
classes formando outras duas sem destruir o seu conhecimento da classe total, de forma 
que ela possa incluir as classes criadas  classe total. Ela  capaz de comparar a parte 
com o todo. 
Reversibilidade 
A reversibilidade de relaes  conseguida pela execuo de uma ao que compense 
exatamente a primeira condio, sem desfaz-la. O resultado das duas condies  uma 
equivalncia. 
Operao mental 
A operao mental  a maneira pela qual a mente organiza as representaes, ou seja, o 
sistema pelo qual uma representao  relacionada com a outra.  um conjunto de aes 
correlatas que formam um todo integrado. 
222 



Outra caracterstica  que as operaes so sempre coordenadas em estruturas totais. A 
caracterstica limitadora deste perodo  que estas estruturas totais somente so 
aplicadas aos objetos propriamente ditos. 
No h, ainda, as operaes que se aplicam s hipteses. 
Nvel operatrio formal e suas caractersticas 
O nvel seguinte, operatrio formal, dever surgir entre 11 e 15 anos. 
Piaget identifica a caracterstica deste perodo como a aplicao das operaes no 
somente aos objetos mas s hipteses formuladas em palavras. Como mostra, para 
trabalhar com hipteses deve-se ser capaz de efetuar operaes em operaes. O 
contedo de qualquer hiptese, como demonstra,  de operao concreta. Mas fazer 
algum relacionamento entre a hiptese e a concluso  uma nova operao. A partir dai, 
abre-se um campo mais amplo de possibilidades. A possibilidade da combinatria, que 
por tais meios pode-se relacionar a qualquer outra proposio, ou qualquer outra 
operao, a uma outra operao. A anlise combinatria, que se refere a um mtodo que 
garante que todas as possveis combinaes de variveis sero exaustivamente 
inventariadas (Flavel, 1963), toma- se possvel determinar grupos e subgrupos que 
acoplam os dois tipos de reversibilidade, que, em operaes concretas, sempre se 
mantm separados. 
Piaget conclui que o desenvolvimento cognitivo, bem como o da moralidade, nem sempre 
 conseguido pelos indivduos em nvel mais elevado, que  o operatrio formal, ou da 
conscincia autnoma. Pode haver fixaes em certos estgios, e no h uma rigidez 
etria neste processo de desenvolvimento. 
No h uma estagnao definitiva no processo de desenvolvimento cognitivo e da 
conscincia moral. O fator imperativo, indivduo com o seu mundo social, , em grande 
parte, responsvel pela criao de barreiras ou de condies favorveis a este processo. 
A formao da conscincia moral, segundo Piaget, se d concomitantemente ao 
desenvolvimento cognitivo (vide 1 capitulo). 
Piaget tem a sua teoria reconhecida cientificamente, resultado de pesquisas de mais de 
cinqenta anos. Ele  conhecido como epistemologista gentico, psiclogo infantil, 
zoologista, matemtico e filsofo. 
Analisando a compreenso infantil dos mundos fisico, biolgico e social nos vrios nveis, 
Piaget desvendou a questo de como obtemos conhecimento, criou uma filosofia que 
procura encontrar respostas filosficas para coloclas em prtica atravs de testes 
empricos. 
Hereditariedade e meio ambiente 
O ponto de partida para a compreenso do comportamento humano na organizao  o 
estudo das bases do comportamento, ou seja, dos fatores biolgicos e sociais e das 
condies em que esses fatores influenciam a formao e o desenvolvimento das 
caractersticas individuais. Hereditariedade e meio 
223 



ambiente constituem, portanto, os fatores bsicos ou o back-ground do comportamento 
humano. 
Back-ground biolgico do comportamento humano-hereditariedade 
A hereditariedade  uma rea de estudo da Biologia. Os estudos cientficos da 
hereditariedade desenvolvidos nos ltimos tempos possibilitaram aos psiclogos a 
melhor compreenso das diferenas psicolgicas observadas entre os indivduos. Os 
psiclogos apontam a hereditariedade e as condies ambientais em que o organismo 
se desenvolve como as bases para o desenvolvimento das diferentes caractersticas dos 
indivduos. 
Transmissores da hereditariedade 
Os estudos genticos indicam que cada ser humano inicia sua vida numa clula nica 
(vulo fecundado), a qual  formada pela unio de genomas do pai e de gametas da me. 
O ncleo dessa clula, o vulo fecundado, contm cromossomos. Cada cromossomo  
constitudo por molculas complexas de protenas (DNA), que so os transmissores 
bsicos dos caracteres hereditrios. Atualmente, os cientistas consideram o DNA como 
portador das unidades hereditrias (genes) responsveis pelos caracteres do indivduo. O 
vulo fecundado  a clula nica que inicia o ser  passa por um processo de diviso. 
Esta clula divide-se em duas; cada uma delas divide-se novamente em duas, e assim 
sucessivamente; porm cada uma delas conserva o mesmo nmero de cromossomos 
originrios do pai e da me. O processo de diviso celular no cessa durante toda a vida 
do indivduo. O nmero de cromossomos existentes em cada clula humana  de 23 
pares, excetuando-se apenas as clulas sexuais, que possuem 23 cromossomos 
isolados. So muitas as possibilidades de combinao dos cromossomos na formao 
de um novo indivduo, e essas combinaes ocorrem em bases aleatrias.  o carter 
aleatrio do processo de combinao dos cromossomos que origina as diferenas 
individuais encontradas entre irmos. Estes possuem caractersticas biolgicas comuns, 
mas no so idnticos. Mesmo entre irmos, essas diferenas persistem, apresentando-
se em menor escala entre gmeos univitelinos (formados a partir de um s vulo 
fecundado). 
Por outro lado, as clulas dos pais no so influenciadas pelos acontecimentos ou 
experincias de vida. As caractersticas adquiridas por meio de seu contato com o meio 
externo no alteram as caractersticas dos cromossomos, nem so transmitidas s novas 
geraes. A transmisso das caractersticas adquiridas  devida  cultura e no  
influncia da hereditariedade. 
Processo de maturao 
O processo de desenvolvimento da estrutura biolgica do ser humano  denominado 
maturao. Este processo ocorre em etapas. O vulo fecundado e 
224 



dividido diferencia-se em clulas com funes especficas (clulas musculares, clulas da 
pele, clulas do olho etc.). Estas, por sua vez, desenvolvem-se e originam os rgos e 
sistemas. 
Condies ainbientais 
Este processo de crescimento depende da hereditariedade. Os estudos 
sobre maturao tm indicado que so necessrias condies ambientais adequadas 
para que o individuo consiga alcanar sua maturao biolgica. 
Condies pr-natais adversas, tais como falta de oxignio no tero materno, ou uso de 
drogas como talidomida, dificultam o processo de maturao. 
A falta de espao fsico e de alimentao adequada, entre outras, ocasiona tambm 
retardos no processo de maturao. A maturao biolgica depende da hereditariedade, 
mas os fatores ambientais podem favorecer ou dificultar esse processo. 
Reflexos e instintos 
Dois tipos de comportamento so basicamente dependentes da maturao e da 
hereditariedade. Esses comportamentos so os reflexos e os instintos. 
Reflexos so respostas no aprendidas, involuntrias, que o organismo emite na 
presena de estmulos exteriores. 
Instintos so comportamentos complexos e especficos, que no sofrem a interferncia de 
aprendizagem anterior; so realizados corretamente desde a sua primeira emisso. 
A influncia das condies ambientais em que se processa a maturao do organismo  
particularmente evidente nos seres humanos. 
A hereditariedade e as diferenas nos seres humanos 
Tem-se discutido muito sobre as diferenas raciais. A crena na suprema cia de 
determinadas raas fundamenta-se no papel preponderante da hereditariedade no 
desenvolvimento das caractersticas individuais. Os estudos realizados por Jerkes (1921) 
com centenas de soldados americanos de origens branca e negra revelaram a influncia 
das condies ambientais sobre o nvel de inteligncia: os brancos do Sul revelaram 
escores de inteligncia mais baixos que os negros do Norte dos EUA. Klineberg (1935) 
estudou o nvel de inteligncia de crianas negras residentes no Sul dos EUA e que se 
transferiram para Nova lorque. 
Os resultados indicaram que os escores de inteligncia dessas crianas eram tanto mais 
elevados quanto maior era o nmero de anos de residncia dessas crianas em Nova 
lorque. 
225 


Jerkes e Klineberg e o estudo das condies ambientais 
Os estudos de Jerkes e Klineberg so indicadores da influncia do meio no 
desenvolvimento da inteligncia. Esses estudos pem em xeque as teorias que explicam 
desnveis de inteligncia com base em diferenas raciais e em um papel supostamente 
decisivo da hereditariedade no desenvolvimento das caractersticas indMduais 
Margaret Mead e as influncias culturais 
Por outro lado, estudos realizados pela antroploga americana Margaret Mead (1931-
1933) em trs culturas primitivas da Nova Guin indicam que as diferenas nas 
caractersticas psicolgicas encontradas nas diversas culturas so em grande parte 
ocasionadas por fatores culturais, e no podem ser identificadas como caractersticas 
raciais hereditrias. 
Classes sociais e diferenas individuais 
Lesser, Fifer e Clark (1965) realizaram estudos sobre os efeitos de raa e classe social 
em 320 crianas portoriquenhas, chinesas, japonesas, judias e negras. Em cada grupo de 
40 meninos e 40 meninas, metade era de classe mdia e metade de classe social baixa. 
O resultado desses estudos indicou que a classe social influencia marcadamente os 
escores dos testes. Em cada um dos quatro grupos tnicos, as crianas de classe mdia 
tiveram melhor desempenho do que as de classe baixa do mesmo grupo, isto , crianas 
judias de classe mdia baixa apresentaram QI inferior s crianas judias de classe alta. 
No grupo de crianas negras surgiu uma diferena maior entre classes sociais, isto , as 
diferenas no quociente intelectual foram mais acentuadas quando se compararam os 
escores de crianas negras de classe baixa com os escores de crianas negras de 
classe alta. 
Experincias em kibutz de Israel (Garcia, 1972) mostraram que crianas oriundas de 
pases do Oriente (especialmente dos pases africanos, Lbia e Marrocos), onde a mdia 
de QI  85, depois de permanecerem quatro anos nos kibutz, atingiram a mdia 
observada entre crianas israelitas de origem europia (escore 115). 
Shodk M. e Skeels (1930) conseguiram o aumento do QI de crianas aparentemente 
retardadas mentais, internadas em orfanato, atravs da mudana de condies dessas 
crianas. O grupo experimental, isto , as crianas que participaram do estudo, passou a 
ser objeto de maior ateno por parte das pessoas que trabalhavam no orfanato, 
recebendo amor, ateno e estimulao. As crianas foram testadas regularmente; 
apresentaram sensveis mudanas na sade, na maturidade, na inteligncia, igualando-se 
a crianas normais. 
Tyler (1965) analisou os resultados dos estudos ralizados atravs de testes de 
inteligncia e verificou que esses resultados so coerentes com a premis-
226 


sa de que as diferentes mdias de QI dos grupos esto relacionadas com as diferenas 
socioeconmicas. 
Jensen (1969) retoma a afirmativa da preponderncia da hereditariedade na 
determinao da inteligncia. As concluses de Jensen fundamentam-se nas diferenas 
encontradas entre os escores de QI de crianas negras e brancas. Os escores de 
crianas negras so de 5 a 20 pontos mais baixos que os escores encontrados nas 
crianas brancas. Apesar de tambm ter encontrado crianas negras com QI elevado, o 
seu nmero  inferior ao de crianas brancas que apresentaram esses resultados nos 
testes de inteligncia nos Estados Unidos. Jensen afirma que a importncia dos fatores 
ambientais  relativa. Segundo ele, o gentipo de um indivduo, ou seja, a sua gentica 
fixa,  o que mais influencia a formao do fentipo, ou seja, as suas caractersticas 
fisicas, anatmicas, fisiolgicas e psicolgicas atuais. Para Jensen, o trao denominado 
inteligncia  basicamente determinado pela hereditariedade, ou fator gentipo (75%), e 
somente 25% das diferenas encontradas em escores de inteligncia se devem ao meio 
ambiente. 
Whitten e Kagan (1969) contestam as concluses de Jensen usando o seu raciocnio no 
estudo das diferenas encontradas na altura dos indivduos. Apesar de a altura ser 
considerada um dos fatores que mais sofrem influncia da hereditariedade, tem-se 
observado que as crianas da zona rural de pases da Amrica do Sul so menores do 
que as crianas que vivem nesses pases, na zona urbana. Seguindo a lgica de Jensen, 
afirmam Whitten e Kagan, essa diferena de tamanho entre crianas das zonas rural e 
urbana seria devida  constituio gentica. Entretanto, estudos tm evidenciado que a 
pequena estatura das crianas da zona rural  devida no  hereditariedade, mas a 
doenas e m nutrio. Essa evidncia tem sido comprovada pelas diferenas 
constatadas na estrutura das crianas em todas as partes do mundo, nos ltimos vinte 
anos, ocasionadas pela imunizao em massa e por melhores condies de nutrio. 
Determinismo hereditrio 
A retomada do determinismo hereditrio por Jensen levou os psiclogos a uma anlise do 
problema por vrios ngulos. Os resultados de Jensen tm sido apontados como 
fundamentados em estatsticas distorcidas, em evidncia inadequada e em raciocnio 
tendencioso e ilgica. Entre as contestaes de maior seriedade e objetividade cientifica 
encontra-se a expressa pela Society for the Psychological Study of Social Issues (1969), 
que integra a Associao Americana de Psicologia, uma das mais conceituadas 
instituies em mbito internacional no campo da Psicologia; ela nega a afirmativa que 
identifica os componentes hereditrios como responsveis pela inteligncia e fundamenta 
essa negativa na ausncia de dados cientficos e no estgio atual em que se encontram 
as Cincias Sociais. Afirma que toda discusso cientifica das diferenas raciais no 
pode excluir o exame dos fatores polticos, histricos, econmicos e psicolgicos, fatores 
intrinsecamente relacionados com as diferenas raciais. 
227 



Meio psicolgico 
Do ponto de vista psicolgico, Anastasi define o meio como a soma total 
de estmulos que o indivduo recebe desde a concepo at a morte. Assim, as 
caractersticas individuais esto em continuo desenvolvimento. 
O meio psicolgico do ser humano  integrado pelos meios pr-natal, intercelular e social. 
O meio pr-natal  constitudo de condies ambientais anteriores ao nascimento. Nessa 
fase, as modificaes de dieta, nutrio, secrees glandulares e outras condies fisicas 
da me so responsveis por modificaes no desenvolvimento do indivduo. O meio 
intercelular  constitudo pelas clulas somticas circulantes e dentro dele desenvolve-se 
cada clula individual. Esse meio  de grande importncia para o processo de 
desenvolvimento do indivduo. O meio intracelular  constitudo pelas substncias que 
cada clula contm. 
Sociedade e transmisso de padres de comportamento 
O meio social, finalmente,  constitudo pela sociedade onde a criana nasce e cresce. A 
sociedade  um grupo de pessoas dependentes umas das outras, que desenvolveram 
padres de organizao capazes de lhes tomar possvel viver juntos e sobreviver como 
um grupo. A sociedade desenvolve padres de comportamento e os transmite a seus 
membros. Os pais so os principais transmissores desses padres. 
Cultura e desenvolvimento de caractersticas individuais 
Ao desenvolver padres de comportamento, a sociedade determina aqueles que devem 
ser seguidos e exige que seus membros se conformem a eles. Os padres de 
comportamento e a forma pela qual a sociedade  estruturada so indicadores de 
aspectos da cultura. Cultura  o conjunto de valores, expectativas, atitudes, crenas e 
costumes compartilhados pelos membros de um grupo, nao ou religio. A cultura 
influencia o desenvolvimento das caractersticas individuais. Essas caractersticas so 
adquiridas atravs dos papis sociais ou de comportamento prescritos para uma classe 
particular de pessoas dentro de uma cultura. Alm de transmitir padres de 
comportamento por meio de papis sociais, a cultura influencia os processos 
psicolgicos dos seus membros. A motivao, a percepo, o pensamento dos indivduos 
so influenciados pela sua cultura. 
Percepo e cultura 
A percepo dos individuos  influenciada pela cultura atravs da aprendizagem dos 
padres culturais. Pessoas diferentes percebem o mundo de manei-
228 



ras diferentes. A maneira de perceber leva, conseqentemente, a maneiras diversas de 
categorizar e de interpretar os acontecimentos. As coisas e os fatos que rodeiam os 
indivduos so diferentes em cada cLtura, o que contribui para percepes diferentes do 
mundo. 
As crenas, ou conjunto de percepes e conceitos mantidos pelos membros de uma 
cultura, so outra fonte de influncia sobre o comportamento individual. 
Cada cultura possui valores, ou seja, uma categoria geral de objetivos que muitos 
membros de uma sociedade procuram alcanar. Os valores so dos aspectos culturais 
que mais influenciam no desenvolvimento das caractersticas individuais. 
As normas so costumes que apresentam o carter de obrigatoriedade. So expectativas 
sancionadas pela cultura que devem ser obedecidas. A obedincia a elas  
recompensada; sua desobedincia, punida. As normas baseiam- se nos valores da 
cultura e explicitam as formas de comportamento apropriadas para os membros de cada 
grupo cultural. 
As crenas, os valores e as normas so foras culturais que influenciam o 
desenvolvimento das caractersticas individuais e o comportamento dos indivduos. 
A cultura, a padronizao das caractersticas e o comportamento dos in divduos 
A cultura, apesar de todos os mecanismos de padronizao e de conformismo que adota, 
no  uma fora esttica e com poder suficiente para eliminar as diferenas individuais. A 
cultura , por natureza, dinmica, sofre influncias e se modifica. Os indivduos, por um 
lado, so hereditariamente diferentes. No existem na sociedade indivduos com 
hereditariedade gentica exatamente igual, mesmo os gmeos idnticos, que possuam a 
mesma bagagem cromossmica no momento em que o nico ovo se separa totalmente, 
dando origem a dois futuros embries. Depois disso, qualquer cromossomo de um feto 
pode sofrer uma mutao que no ocorre no outro feto. 
A interao dos fatores hereditariedade e meio, porm, no se processa da mesma 
maneira para todos os individuos de uma mesma cultura. Ao contrrio, essa interao 
assume formas peculiares a cada individuo e constitui outro fator de desenvolvimento de 
caractersticas psicolgicas diferentes. 
As diferenas individuais levam a maneiras diferentes de perceber e de se conformar com 
os valores e normas culturais.  medida que os indivduos exercem diferentes papis na 
sociedade  qual pertencem, filiando-se a diferentes organizaes sociais, a prpria 
sociedade passa a exercer sua influncia de maneira diversificada. As demandas ou 
influncias sobre seus membros so especificas dos papis que exercem. 
O contato com os outros grupos culturais ou subgrupos dentro da mesma cultura  
tambm um fator que afeta o desenvolvimento de caractersticas individuais. 
229 



interao dos fatores hereditariedade e meio ambiente 
A anlise dos fatores hereditrios e ambientais conduz  concluso de que esses fatores 
no atuam nem influenciam isoladamente o processo de desenvolvimento das 
caractersticas individuais. H uma continua interao de hereditariedade e meio. Sem a 
hereditariedade (DNA) no  possvel o surgimento das caractersticas individuais e do 
prprio indivduo. A hereditariedade  um ingrediente bsico, mas sem o meio este fator 
no se desenvolve. Os dois fatores interagem no desenvolvimento das caractersticas do 
ser humano, quer biolgicas, quer psicolgicas. 
Processo de interao dos fatores hereditariedade e meio 
No se pode falar em fatores mais ou menos importantes, mas em diferentes formas de 
interao no decorrer da vida do indivduo. A interao da hereditariedade e do meio  
diferente no perodo pr-natal, na infncia ou na vida adulta do indivduo. Os caracteres 
genticos se mantm, porm as caractersticas do individuo se transformam devido  
interao com o meio ambiente. Essas transformaes conduzem a caractersticas 
individuais cada vez mais especficas. 
A organizao como meio social 
As organizaes sociais so tipos de sistemas sociais mais elaborados, que apresentam 
caractersticas especificas. Possuem objetivos e valores; esto inseridas num meio mais 
amplo, com o qual interagem; tm estrutura, cultura e normas prprias e possuem como 
membros seres humanos que so, ao mesmo tempo, seus planejadores e condutores. Os 
membros da organizao agrupam-se em tomo da realizao das atividades 
organizacionais e relacionam-se uns com os outros. Como seres humanos que so, 
trazem para a organizao seus sentimentos, suas motivaes, suas aspiraes, seus 
valores, suas aptides etc. A organizao desenvolve sua cultura prpria, seus padres 
de comportamento, suas crenas e hbitos, comuns a todos os seus membros. Todos 
esses fatores interagem. So interdependentes e influenciam-se mutuamente. A 
organizao, como meio social,  um conjunto dinmico de fatores em interao, 
influenciando o desenvolvimento das caractersticas individuais de seus membros. 
Tipos de influncia como meio social 
A influncia da organizao sobre seus membros no se processa da mesma forma, nem 
produz os mesmos resultados. Os indivduos so diferentes. Percebem de maneiras 
diferentes o meio organizacional. Reagem de maneiras especificas a estmulos iguais ou 
similares. 
Como meio social, a organizao poder criar condies para o desenvolvimento das 
caractersticas psicolgicas de seus membros ou impedir o seu 
230 



desenvolvimento. O desenvolvimento da criatividade, da inteligncia, das aptides etc. 
necessita ser adequadamente estimulado. A ausncia de condies estimuladoras na 
organizao bloqueia o desenvolvimento do potencial humano de seus membros e 
impede a liberao de suas energias. 
A inteligncia 
Das caractersticas psicolgicas, a inteligncia  talvez a que se considere de maior 
importncia e  qual se atribui maior valor. Dizer que uma pessoa  inteligente ou pouco 
inteligente  conferir-lhe, de certo modo, uma posio no grupo social em que vive. A 
inteligncia, como as demais caractersticas mentais, , entretanto, um conceito em que 
se tem dificuldade de chegar a um ponto comum. As definies so diferentes, e no se 
tem a mesma compreenso do que  inteligncia quando a consideramos como uma 
caracterstica mental ou como um trao psicolgico. Binet a define como a habilidade de 
julgar bem, entender bem e raciocinar bem. Terman a define como a capacidade de 
pensar de forma abstrata. No entanto, a maioria dos psiclogos que tentam trabalhar com 
os testes de inteligncia aceitam a noo de que inteligncia  aquilo que os testes de 
inteligncia medem. Apesar de todas essas dificuldades, foram desenvolvidos diferentes 
testes para medir a inteligncia, entendendo-se os testes como situaes padronizadas, 
cujo intento  refletir a amostra de determinado aspecto do comportamento individual 
(Tyler, 1978). 
QI 
Binet, um psiclogo francs, elaborou em 1905 uma escala utilizada nas escolas de Paris, 
para distinguir crianas que necessitavam de ensino especial daquelas que poderiam 
freqentar escolas regulares. Ao elaborar o seu teste, Binet afirmava que a inteligncia  
uma caracterstica inerentemente complexa. No pode ser considerada como a soma de 
muitas caractersticas de natureza mais simples. Para medi-la, so necessrios meios de 
avaliar como os indivduos enfrentam tarefas que requerem raciocnio, discernimento e 
capacidade de resoluo de problemas. Binet introduziu o conceito de idade mental (IM), 
que representa a capacidade de uma criana responder a itens de um teste a que 
crianas normais de certa idade responderam corretamente. O conceito de idade mental 
criou condies para medir o crescimento mental. O quociente de inteligncia (QI)  o 
indicador do crescimento mental de uma criana por referncia  sua idade cronolgica 
(IC). Calculava-se o QI dividindo-se a idade mental da criana pela sua idade cronolgica, 
multiplicando-se o quociente obtido por cem. Uma criana cuja IM fosse 12 e cuja IC fosse 
10 teria um QI de 120, M12: CiO X 100 = 120.!M12 X 100 = 120. O QI indica apenas 
                                                 !C 10 
o ndice de crescimento mental da criana no momento em que foi testada. Se uma 
criana tem 8 anos e um QI de 120, isto significa que a sua idade mental 
231 



 a idade mental mdia encontrada entre grupos representativos de crianas de 12 anos 
de idade. O teste de Binet tem como caracterstica principal a apresentao de uma 
medida global da inteligncia geral. Ele no mede as capacidades especiais. Em 1916, 
E. M. Terman, da Universidade de Stanford, fez uma reviso do teste de Binet, 
examinando trs mil crianas brancas de pais de lngua inglesa. Esse teste revisto foi 
denominado Stanford-Binet e sua padronizao foi realizada para uso nos Estados 
Unidos. Passou ainda por duas outras grandes revises, uma em 1937 e outra em 1960. 
Nesta ltima reviso, o clculo do QI j no foi feito da forma anterior: passaram a ser 
utilizadas tabelas que mostram diretamente a diferena entre a contagem obtida por uma 
criana e a mdia de um grupo representativo de crianas de sua idade. O que o QI 
individual realmente diz  a quantos desvios-padro acima ou abaixo da mdia uma 
pessoa est. Uma das grandes dificuldades encontradas no uso do QI  que ele no  um 
mtodo adequado para descrever a inteligncia adulta, pois o crescimento mental dos 
adultos no apresenta a mesma regularidade que o torna previsvel nas crianas. Por 
outro lado, o QI no  o ndice mximo de capacidade intelectual. Ele no  a medida de 
uma quantidade de qualquer coisa, mas to-somente o meio de indicar qual foi o ndice 
de crescimento mdio de uma criana (Tyler, 1973). As pesquisas indicaram tambm que 
o QI no  uma medida fixa da inteligncia das pessoas, pois se modifica, e no pode ser 
tomada como uma medida exata. 
Wechsler, em 1939, fez outra tentativa para medir a inteligncia. Ele construiu duas 
escalas: uma para a medio da inteligncia adulta (WAIS) e outra para medir a 
inteligncia de crianas (WISC). Essas escalas so constitudas por provas verbais e 
provas de execuo. Nas provas h uma influncia bastante grande do grau de 
informao que as pessoas testadas possuem. Em 1949 e 1955 as escalas foram 
revisadas, passando a denominar-se Wechsler-Bellevue. As escalas so organizadas em 
subtestes separados, com normas separadas para cada uma, o que permite verificar as 
contagens de cada subteste. Em alguns subtestes o escore  o nmero de respostas 
corretas; em outros  determinado pelo tempo gasto para resolver os problemas ou 
completar a tarefa. Os escores desses subtestes so convertidos num escore ponderado, 
e o nmero total de escores ponderados  somado para obter o QI. Esse QI expressa 
quantas unidades de desvio-padro um individuo possui em relao  mdia 
estabelecida para a sua idade. 
O teste Wechsler-Bellevue tem como caracterstica a avaliao do nvel intelectual. Mede a 
inteligncia geral. 
O uso da estatstica veio contribuir para o aprimoramento dos testes de inteligncia, e 
muitos outros testes se desenvolveram, alm dos aqui analisados. 
Alm dos testes de inteligncia, desenvolveram-se testes de aptides e testes de 
realizaes. Os testes de aptides medem talentos especiais e pressupem que as 
diferenas encontradas entre os indivduos estejam baseadas em diferenas inatas ou 
na hereditariedade. Os testes de realizao medem as diferenas encontradas entre 
pessoas devido s suas experincias e s diferentes aprendizagens. Os testes de 
realizao medem o que os individuos aprenderam. 
232 



Contradies e dificuldades 
Apesar dessas divises, os psiclogos que se dedicam ao desenvolvimento de testes 
psicolgicos apontam a dificuldade em separar potencialidades inatas de experincias 
educacionais. Com o desenvolvimento dos testes surgiram normas, padres e princpios 
que no s orientam a elaborao de novos testes, como tambm fornecem bases para 
selecionar dentre os j existentes. 
Tyler indica, dentre as normas ou padres mais importantes para a anlise dos testes: a) 
a validade, isto , at que ponto o teste est medindo aquilo que ele se prope medir, ou 
o que exatamente o teste mede. Para validar um teste  necessrio identificar o critrio 
comparvel com as contagens obtidas no teste. O critrio de validao do teste  a 
caracterstica psicolgica sobre a qual o teste est fazendo a previso. Se um teste  de 
aptido mecnica, os resultados alcanados pelos indivduos que a ele se submeteram 
devem ter uma alta correlao com o desempenho desses indivduos em tarefas que 
envolvam habilidade mecnica. Por outro lado,  necessrio que essa correlao seja 
encontrada em um grupo representativo da populao testada. 
Antes de ser adotado, o teste dever ser validado na situao especifica em que vai ser 
empregado. Isso exigir uma pesquisa no prprio local, antes que se comece a usar o 
teste. Desta forma, quando se pretende selecionar secretrias executivas,  necessrio 
ter certeza de que o teste a elas administrado tenha sido anteriormente aplicado a um 
grupo semelhante e representativo de secretrias executivas, e que os resultados obtidos 
apresentem correlao com o desempenho posterior desse grupo. Os coeficientes de 
validade so obtidos atravs das correlaes das contagens de testes com as medies 
de critrios. A validade de um teste significa, portanto, o grau em que um teste mede 
aquilo que se prope medir. Tyler, entretanto, ao analisar a validade do teste, mostra que 
ela s poder ser conseguida atravs de um longo processo, no qual se correlaciona o 
teste a uma variedade de critrios. Mostra que, ao se estudar um teste de aptido 
mecnica, pode-se demonstrar, na realidade, que ele mede a capacidade para realizar 
movimentos delicadamente controlados e hbeis, o que nada tem que ver com a 
capacidade para aprender as complexas relaes de peas ou elementos mecnicos. 
Portanto, poder ser relacionado, em grau bastante elevado, com classificaes obtidas 
numa marcenaria, mas no com as classificaes obtidas numa oficina mecnica. Poder 
selecionar operrios competentes para uma marcenaria, mas no para uma oficina 
mecnica. Tyler aponta a idoneidade dos testes e sua imparcialidade como normas que 
tambm devem ser analisadas para selecionar os testes antes de adot-los. Esses 
conceitos so complexos e de dificil verificao. De qualquer forma, o ponto central  
verificar at que ponto o teste no desfavorece grupos diferentes daqueles em que foi 
validado. Se isto acontecer, especialmente no caso de testes de seleo, ser importante 
reconhecer que aquele teste no  um instrumento adequado para aquele grupo. Para ser 
usado em diferentes grupos com certo grau de certeza de sua imparcialidade e 
idoneidade,  necessrio que o teste tenha sido anteriormente aplicado nesses grupos. 
Os resultados obtidos em um teste validado em grupo especifico dificilmente sero os 
mesmos quando se tratar de outros grupos. 
233 



A depresso econmica americana e a Primeira Guerra Mundial foram fatores que 
influenciaram largamente o desenvolvimento dos testes psicolgicos como instrumento de 
seleo de pessoal. A excessiva mo-de-obra no mercado forou o surgimento de 
processos mais elaborados de selecionar os candidatos mais promissores. Por outro 
lado, a necessidade de descobrir os mais aptos para as atividades militares durante a 
guerra tambm levou os psiclogos a esforos maiores para tornar seus processos 
psicolgicos de seleo mais tcnicos e mais cientficos, a fim de prever, com maior 
probabilidade, qual tarefa o individuo selecionado realizaria melhor. 
Seleo de pessoal e os pressupostos dos testes psicolgicos 
A seleo de pessoal atravs dos testes psicolgicos fundamenta-se no pressuposto de 
que a boa realizao de uma tarefa est relacionada com a presena de certas 
caractersticas mentais. Essas caractersticas mentais de vem ser identificadas pelos 
testes psicolgicos, que so seus instrumentos de medida. Como ponto de partida no 
processo de seleo, o psiclogo dever analisar as tarefas de forma a identificar as 
caractersticas conducentes  sua boa realizao. Somente depois os testes psicolgicos 
podero ser definidos e selecionados.  medida que os testes psicolgicos foram 
integrados ao processo de seleo de pessoal nas organizaes, sua aplicao passou a 
integrar as funes dos psiclogos industriais. No entanto, conforme as tarefas se tomam 
mais complexas, aumenta a dificuldade de identificar as caractersticas conducentes  
sua boa realizao.  fcil identificar a boa viso como caracterstica necessria para ser 
piloto; a motricidade, para ser desenhista; a inteligncia verbal, para ser vendedor; mas 
no  simples identificar que caractersticas so importantes para ser um executivo de alto 
nvel ou um gerente. Por outro lado, a rpida mudana tecnolgica torna mais complicada 
a anlise das tarefas, mesmo aquelas consideradas simples. As tarefas de um contador 
que usa recursos convencionais so totalmente diversas daquelas enfrentadas por outro 
que se apoia na computao eletrnica. As caractersticas necessrias para a boa 
realizao da tarefa de contabilidade, na primeira situao, sero muito diferentes 
daquelas requeridas na segunda situao. Outro fator que torna vulnervel o uso dos 
testes como instrumento de medida de inteligncia  e previsor de uma boa realizao 
de uma tarefa   a falta de um consenso quanto aos conceitos das caractersticas 
mentais, como, por exemplo, o da prpria inteligncia. Para que se possa identificar 
alguma coisa  necessrio, antes de mais nada, saber o que  essa coisa. Quando se 
fala em inteligncia, mas se compreende este conceito de forma diferente,  muito difcil 
identific-la como caracterstica e, por conseguinte, medi-la. 
Contradies e dilemas no uso dos testes psicolgicos 
Diante de todas essas dificuldades, o psiclogo ter de selecionar os testes 
mais adequados para medir determinadas caractersticas mentais. A escolha 
234 




correta dos testes no ser resolvida apenas com a soluo dos problemas j analisados. 
A sua validao, a sua imparcialidade e a sua idoneidade so fatores fundamentais na 
definio do teste a ser utilizado. A validao, especialmente,  uma dificuldade que 
todos os psiclogos encontram quando da escolha de um teste especifico. Os testes 
construdos e validados, na sua maioria nos Estados Unidos e na Europa, no so 
validados no Brasil; so traduzidos para a lngua portuguesa. Por isso, seus resultados 
so questionveis quando aplicados em grupos de individuos de cultura e experincia 
diferentes. Infelizmente, os usurios dos testes, isto , as organizaes, no questionam a 
qualidade dos servios que esto usando. No se perguntam se a anlise de tarefas foi 
realizada, se os testes foram validados, e em que populao. O uso dos testes 
psicolgicos na seleo de pessoal assumiu um carter mgico e inquestionvel, e nem 
sempre as organizaes percebem as conseqncias do seu abuso. Scheim (1968), ao 
analisar os testes, procura mostrar que as organizaes podem perder potencial humano 
fundamental  sua sobrevivncia pela subjetividade do processo de seleo de pessoal. 
Do ponto de vista do candidato a emprego, poderamos falar em massacre psicolgico, 
em que as pessoas, quer o desejem, quer no, so obrigadas a se submeter a avaliaes 
psicolgicas quando se candidatam a um emprego. O questionamento do uso dos testes 
psicolgicos no processo de seleo de pessoal torna-se mais grave quando se procura 
entender os fundamentos tericos em que se apoiam. A filosofia dos testes psicolgicos  
a de que as capacidades mentais so determinadas preponderantemente pela 
hereditariedade e, portanto, inatas. Essas capacidades so tomadas como fixas e o 
comportamento individual  considerado como uma resultante dessas capacidades 
mentais. Seus fundamentos so conservadores e tradicionais. Isolam o indivduo do 
contexto em que est inserido, ou seja, a organizao. O teste  aplicado em uma 
situao artificial, muito diferente das condies em que os indivduos iro atuar. No se 
considera a interao individuo meio ambiente. 
Os indivduos so psicologicamente medidos em dado momento e essa medida  
tomada como definitiva e esttica. Procura-se o homem certo para o lugar certo, como se 
ambos existissem. As organizaes so dinmicas, as demandas externas de um 
contexto poltico-social e econmico-dinmico no permitem mais tarefas rigidamente 
definidas, tomadas de forma isolada dentro do contexto organizacional. Por outro lado, a 
Psicologia Social e Organizacional tem trazido uma contribuio cientifica valiosa para a 
compreenso do comportamento individual na organizao. O comportamento dos 
membros da organizao, bem como seu desempenho, s pode ser compreendido  
medida que a organizao  considerada como um sistema social complexo, estudado 
como um sistema total, que influencia o desenvolvimento das caractersticas psicolgicas 
e o comportamento de seus membros. Por outro lado, os estudos e pesquisas 
desenvolvidos na rea da inteligncia mostram a dinmica da interao dos fatores 
hereditrios e ambientais na formao e desenvolvimento das caractersticas mentais, ao 
mesmo tempo que evidenciam o desenvolvimento psicolgico como um processo 
continuo que se d no decorrer da existncia dos indivduos. 
235 



RESUMO 
As organizaes como contexto social tanto podem exercer ao 
estimuladora como bloqueadora do desenvolvimento cognitivo dos indivduos 
membros da organizao. 
Para Piaget o nvel mais complexo e elaborado do sistema cognitivo  o operatrio 
formal. Este nvel no  alcanado por todos os indivduos, apesar de apresentarem 
condies fsicas e intelectualmente normais. Para atingir este nvel  necessrio que o 
meio social em interao possibilite esse desenvolvimento. 
O desenvolvimento cognitivo  um processo individual inserido no contexto social. 
As organizaes explicitam os seus objetivos atravs de normas, regulamentos, 
instrues de trabalho, programas de treinamento que podero ser estimuladores ou 
bloqueadores do desenvolvimento cognitivo de seus membros. Para compreender o que 
realmente a organizao se prope, exige-se uma leitura e anlise desses instrumentos 
por ela utilizados, seguindo os princpios da Psicognese e de Piaget. 
Analisar as instrues de trabalho, mtodos de soluo de problemas, normas 
operacionais e gerenciais torna observveis as padronizaes de raciocnio e a 
estagnao do processo cognitivo nos nveis inferiores. Exemplo: 
CCQ (Circulo de Controle de Qualidade). 
O desenvolvimento cognitivo e o da moralidade se do atravs de processos interativos 
do individuo com o mundo social. A evoluo das estruturas  qualitativa, das mais 
simples s mais complexas. 
No desenvolvimento do pensamento h dois processos que esto presentes em todos os 
estgios fundamentais: processos de assimilao e acomodao. 
O processo de assimilao  a incorporao de conhecimentos novos, O processo de 
acomodao organiza e ajusta novas experincias (conhecimentos) sem destruir as j 
existentes. 
Perodo sensrio-motor (do nascimento at o 2 ano de vida). Estgio de mudanas 
rpidas e fundamentais. No nascimento o beb no tem conscincia da existncia do 
mundo ou de si prprio. Seu comportamento inato  coordenado pelas aes sensrio-
motoras. As necessidades interiores do beb so satisfeitas pelo exerccio de sugar, 
agarrar, soltar objetos etc. 
As condies especficas do ambiente causam uma modificao nos comportamentos 
fazendo com que a criana, atravs de diferentes tipos de ao, elabore novas 
construes, invenes reais. 
No 1 ano de vida a criana j toma conhecimento dos objetos em si prprios e os integra 
num espao que engloba outros. Nesta fase ainda no existe a linguagem, o seu 
conhecimento est ligado s aes,  manipulao de objetos. 
A criana estabelece o que h de comum entre as vrias aes diferentes e anlogas; ela 
consegue relacionar as aes e a coordenao entre esquemas equivalentes, portanto, 
estabelecendo padres de comportamento que Piaget chama de conceito prtico e 
esquema. 
236 



Perodo pr-operatrio (do 2 ano de vida at os 7 anos de idade). Perodo caracterizado 
pela aquisio da funo semitica, que  funo de representao mental (simblica) 
das coisas. A linguagem, a imagem mental, a imitao postergada, o desenho etc. A 
representao de um objeto para si mesma quando ele est ausente. Nesta fase, a 
criana reconstri em termos tericos os padres comportamentais adquiridos em nvel 
de aes. No perodo pr-operatrio, as mudanas se do paulatinamente. 
O nvel operatrio-concreto (dos 7 aos 11 anos de idade). Os processos de pensamento 
operacional concreto comeam a surgir. So aes mentais, derivadas em primeiro lugar 
das aes fsicas, que se tomaram internas para a mente. A principal caracterstica, nesta 
fase,  a possibilidade de reversibilidade, atravs da qual a criana pode voltar ao 
passado em pensamento, e toma-se capaz de comparar a parte com o todo. No nvel 
operatrio-formal (dos 11 aos 15 anos), o individuo faz operaes aplicadas no s s 
coisas mas a hipteses. Ele j faz anlises combinatrias, e relaciona proposies ou 
operaes a outras proposies. O individuo  capaz de efetuar operaes em 
operaes. 
Piaget postula que no h estagnao definitiva no processo de desenvolvimento 
cognitivo e da conscincia moral. A interao do individuo com o seu mundo social  que, 
em grande parte, vai inibir ou estimular este processo. 
A teoria de Piaget  internacionalmente reconhecida pelo meio cientifico, e resulta de 
mais de cinqenta anos de pesquisa. 
A hereditariedade e as condies ambientais em que o indivduo se desenvolve so as 
bases para o desenvolvimento das diferentes caractersticas dos indivduos. Os 
transmissores bsicos da hereditariedade so molculas de DNA, molculas complexas 
de protenas que constituem os cromossomos. O ser humano desenvolve-se por meio de 
um processo de divises pelo qual uma clula d origem a duas, cada uma dessas a 
outras duas, e assim sucessivamente at a completa maturao do organismo. Quando 
da fecundao, os cromossomos se combinam em bases aleatrias, o que explica, por 
exemplo, as diferenas encontradas entre irmos. No entanto, as experincias de vida do 
indivduo no afetam suas clulas, nem alteram as caractersticas dos cromossomos; 
portanto, no se transmitem aos seus descendentes. 
A maturao  o processo de desenvolvimento da estrutura biolgica do ser humano. 
Esse processo depende da hereditariedade, ocorre em etapas e sofre as influncias das 
condies ambientais. Da maturao e da hereditariedade dependem os reflexos e os 
instintos. 
O papel realmente preponderante da hereditariedade no desenvolvimento das 
caractersticas individuais serviu de fundamento  crena na superioridade de 
determinadas raas. No entanto, estudos e experimentos cientficos provaram que tal 
superioridade, quando real, era devida a influncias ambientais, a fatores socio-
econmicos e ao background cultural. 
Anastasi definiu o meio como a soma total dos estmulos que o indMduo recebe desde a 
concepo at a morte; trata-se, portanto, apenas daqueles estmulos que atuam sobre o 
indivduo. O meio influencia o indMduo ininterruptamente; por isso, as caractersticas 
individuais alteram-se constantemente. O meio psico- 237 



lgico do ser humano  constitudo por trs situaes arnbientais: o meio pr-natal, o mejo 
intercelular e o meio social. O meio pr-natal  constitudo pelas condies ambientais no 
tero materno; o meio intercelulai pelas clulas somticas circulantes; o meio cultural, pela 
sociedade onde a criana nasce e cresce. A cultura  o conjunto de valores, expectativas, 
atitudes, crenas e costumes compartilhados pelos membros da sociedade. A cultura 
influencia o desenvolvimento das caractersticas individuais adquiridas atravs dos papis 
sociais ou de comportamentos prescritos para uma classe particular de pessoa dentro de 
uma cultura. Alm disso, a cultura influencia os processos psicolgicos de seus membros 
 motivao, percepo, bem como crenas, valores e normas. A maneira mais objetiva 
de analisar o desenvolvimento das caractersticas individuais   luz da interao dos 
fatores hereditariedade e meio. 
As organizaes sociais so sistemas de fatores em interao e so meios sociais. 
Como meios sociais, as organizaes podem favorecer ou dificultar o desenvolvimento 
das caractersticas psicolgicas de seus membros. 
A inteligncia  definida de vrias formas, mas a maioria dos psiclogos que trabalham 
com os testes de inteligncia aceitam a noo de que a inteligncia  aquilo que os 
testes de inteligncia medem. Diferentes testes j foram desenvolvidos para medir a 
inteligncia. Binet introduziu o conceito de idade mental, criando condies para medir o 
desenvolvimento mental indicado pelo QI. Stanford fez uma reviso do teste de Binet. 
Wechsler construiu duas escalas, a WAIS, para medir a inteligncia adulta, e a WISC, 
para medir a nteligncia jnfantil. Beilevue, por sua vez, reviu as escalas de Wechsler. O 
uso da estatstica contribuiu para o aprimoramento dos testes de inteligncia e abriu 
caminho para os testes de aptides e de realizao. Contudo, os psiclogos dedicados 
ao desenvolvimento de tais testes apontam a dificuldade de separar potencialidades 
inatas de experincias educacionais e reconhecem a dificuldade de valid-los. 
Na rea de seleo de pessoal, a depresso econmica e a Primeira Guerra Mundial 
estimularam o uso e o desenvolvimento dos testes. A seleo de pessoal atravs de 
testes psicolgicos fundamenta-se no pressuposto de que a boa realizao de tarefa est 
relacionada com a presena de certas caractersticas mentais. No entanto, essa forma de 
seleo exige como preliminar a anlise da tarefa a ser realizada, que tende a ser cada 
vez mais complexa. Alm disso, no existe consenso quanto aos conceitos das 
caractersticas mentais. Acresa-se a isso tudo a dificuldade de validao dos testes. 
Mais grave que tudo, a filosofia dos testes psicolgicos tem fundamentos conservadores e 
tradicionais: os indivduos so vistos fora de seu contexto e as caractersticas mentais so 
consideradas como determinadas preponderantemente pela hereditariedade. 
Termos e conceitos a serem lembrados 
Operao mental: a maneira pela qual a atividade mental ocorre. Ao executada pela 
mente ou, de maneira mais precisa, um conjunto de aes 
correlatas que formam um todo integrado. Assim uma operao no tem um 
238 



grupo de propriedades mais um grupo de propriedades, cada uma das quais depende de 
cada uma das outras propriedades, e  necessria a ela. 
Atividade mental: qualquer ao da mente. 
Estrutura cognitiva: conjunto organizado de fatos, conceitos e generalizaes que o 
indivduo aprendeu.  formada e transformada no decorrer da vida do indivduo. 
Processo de cognio: forma pela qual as pessoas adquirem conhecimentos e 
desenvolvem seus sistemas de cognio.  integrado pela percepo, pela memria, 
pelo raciocnio ou pensamento, pela imaginao e pela soluo de problemas.  um 
processo consciente que visa a aquisio de novos conhecimentos. 
Desenvolvimento cognitivo:  um processo individual de desenvolvimento de percepo 
de raciocnio, e se d atravs de processos interativos do indivduo com o mundo social. 
Assimilao:  o processo de desenvolvimento atravs do qual o indivduo incorpora 
novos conhecimentos. 
Acomodao:  o processo de desenvolvimento pelo qual o individuo organiza e ajusta 
novas experincias (conhecimentos) em destruir as j existentes. 
Esquema em conceito prtico: estabelecer o que h de comum entre as vrias aes 
diferentes e anlogas. 
Semitica: representao mental (simblica) das coisas. Exemplo: as palavras, a 
linguagem. 
Reversibilidade: processo mental que possibilita  criana voltar ao passado em 
pensamento, e comparar a parte com o todo. 
Perodo sensrio-motor: estgio de desenvolvimento do pensamento sensrio-motor da 
criana, que vai do nascimento at os 2 anos de idade. Estgio de mudanas rpidas e 
fundamentais. A criana operacionaliza padres de comportamento inatos no ambiente e 
estes comportamentos podem ser modificados pela natureza das coisas sobre as quais 
ela age. A criana no tem conscincia de si mesma e do mundo, tem apenas, no 
decorrer do desenvolvimento dessa fase, um conhecimento prtico da maneira pela qual 
as coisas se comportam quando lida com elas, mas no tem a menor concepo dos 
motivos pelos quais se comportam assim. 
Perodo pr-operatrio: estgio de desenvolvimento do pensamento simblico e da 
linguagem, vai dos 2 anos at os 7 anos de idade. A criana usa suas representaes 
sensrio-motoras antigas em outros contextos. Usa objetos substitutos no ambiente para 
ajudar a manipulao simblica mental. Nesta fase a criana reconstri em termos 
tericos os padres comportamentais adquiridos no nvel das aes. 
Nvel operatrio-concreto: estgio que vai dos 7 aos 11 anos de idade. A criana realiza 
processos de pensamento operacional concreto, que so aes mentais, derivadas em 
primeiro lugar de aes fisicas internalizadas. A principal caracterstica, nesta fase,  a 
reversibilidade, que permite  criana comparar a parte com o todo. 
239 



Ne opeal&do-ormal: ultimo estgio de desenvolvimento, vai dos 11 aos 15 anos. O 
indivduo faz operaes mentais aplicadas no s s coisas mas a hipteses. Ele faz 
anlises combinatrias, e relaciona proposies em operaes a outras proposies. O 
indivduo  capaz de efetuar operaes mentais em operaes. 
Criatividade: capacidade de criar algo, idias com coisas que no tinham possibilidade 
de ser criadas a partir do que j existia anteriormente. 
Crenas: conjunto de percepes e de conceitos mantidos pelos membros de uma 
cultura. 
Cultura: conjunto de valores, expectativas e atitudes, crenas e costumes compartilhados 
pelos membros de um grupo, nao ou religio. 
Hereditariedade: rea de estudo da Biologia que trata da transmisso de caracteres de 
uma gerao a outra. 
Inteligncia: caracterstica mental ou trao psicolgico. Habilidade de julgar bem, 
entender bem e raciocinar bem (Binet). 
IM-idade mental: indica a idade de uma criana caracterizada pelo desempenho de um 
grupo de crianas de uma idade cronolgica especifica: IM 9 significa que uma criana se 
encontra, em seu desenvolvimento mental geral, na mdia de crianas de nove anos de 
idade cronolgica. 
Meio cultural: sociedade em que o indivduo nasce e cresce. 
Meio intercelular:  constitudo pelas clulas somticas circulantes.  nesse meio que as 
clulas individuais se desenvolvem. 
eio pr-natal: condies ambientais anteriores ao nascimento. 
Meio psicolgico: soma total dos estmulos que o indivduo recebe desde a concepo at 
a morte. 
Processo de interao dos fatores hereditariedade e meio ambente: processo atravs do 
qual as caractersticas individuais se desenvolvem. No h determinismo biolgico nem 
ambiental. Esses fatores interagem e influenciam-se mutuamente. 
QI  Quociente de inteligncia: indicador de em quantos desvios-padro, 
acima ou abaixo da mdia, uma pessoa se encontra. 
Sociedade: grupo de pessoas dependentes umas das outras, que desenvolveram 
padres de organizao capazes de lhes tornar possvel viver juntas e sobreviver como 
grupo. 
Teste: situao padronizada cujo intuito  refletir a amostra de determinado 
comportamento. 
Validade do teste: capacidade de o teste medir aquilo a que se prope. 
Valores: categoria geral, mais ampla, de objetivos que muitos membros de uma 
sociedade procuram alcanar. 
WAIS: escala de inteligncia adulta. 
WISC: escala de inteligncia infantil. 
TRABALHO PRTICO 
Para Piaget, o desenvolvimento cognitivo poder ser barrado se no houver uma ao do 
individuo no seu meio social. O desenvolvimento da capaci-
 240 



dade mental  resultante de um processo de interao indivduo x meio social, portanto, 
depende do indivduo e do meio social. 
Os grupos participativos, como um dos elementos do meio social, so 
apresentados pelas empresas como um instrumento de aprimoramento e aumento da 
capacidade mental do indivduo. 
Observa-se, entretanto, que: 
1. O que pensar  delimitado pela organizao. 
2. O raciocnio causa-efeito  estimulado e as operaes mentais se do no nvel do 
concreto. 
3. O pensamento  centrado nos objetos e na ao (oposto ao levantamento de 
hipteses). 
4. O todo ou total no  apresentado. O sintoma  apresentado de forma seqencial para 
se descrever ou se separar todas as fases ou partes. 
5. H planejamento e controles preestabelecidos sobre o que pensar e como pens-lo. 
1. Analise estas caractersticas dos grupos participativos tendo como parmetro o 
processo de desenvolvimento cognitivo proposto por Piaget. 
2. Identifique por que os grupos participativos no podem ser considerados instrumentos 
de desenvolvimento cognitivo e estimuladores da capacidade mental de seus membros. 
3. Explique por que eles funcionam: 
a) como instrumentos de padronizao do pensamento; 
b) como barreiras ao desenvolvimento cognitivo e  criatividade. 
QUESTES 
1. Seguindo os princpios da teoria psicogentica de Piaget, quando as organizaes 
atuam sobre os indivduos estimulando o seu desenvolvimento? Especifique os elementos 
organizacionais e explique por qu. 
2. Especifique de que forma a organizao pode se tornar um meio social inibidor do 
desenvolvimento cognitivo de seus membros. Explique por 
qu. 
3. Elabore um plano de desenvolvimento de pessoal fundamentado na teoria 
psicogentica de Piaget e justifique esse plano. 
4. Justifique a aplicao dos princpios da teoria psicogentica (desenvolvimento 
cognitivo), em funo da melhoria da qualidade dos produtos, melhoria das relaes de 
trabalho dos indivduos-empresa. 
5. Quais os fatores que devem ser analisados quando se estudam as caractersticas 
individuais? 
6. Por que  fundamental a sua anlise? De que forma essa anlise deve ser realizada? 
7. Qual o papel da hereditariedade e dos fatores ambientais na formao e no 
desenvolvimento das caractersticas individuais? 
241 



8. Em que se fundamentam as concluses de que a hereditariedade  o fator 
preponderante a formao das caractersticas individuais? Explique por que essa teoria 
foi cientificamente rejeitada. 
9. Explique o conceito de meio psicolgico. 
10. Explique o que  um teste psicolgico. 
11. Quais so os fundamentos tericos e valorativos dos testes psicolgicos? 
12. Por que se questiona a validade dos testes psicolgicos como instrumentos de 
previso de comportamento na organizao? 
13. Explique o conceito de inteligncia. 
14. Explique os conceitos de quociente intelectual (QI) e de idade mental 
(IM). 
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243



10.PERSONALIDADE E FALSA 
CONSCINCIA NAS ORGANIZAES 
Ao terminar a leitura deste capitulo, voc dever ser capaz de: 
1.Compreender o conceito de personalidade. 
2.Compreender a dinmica de interao personalidade-meio ambiente. 
3.Identificar as situaes de stress e suas conseqncias sobre a personalidade dos 
membros da organizao e sobre a organizao. 
4.Analisar,  luz do conceito de personalidade, as vantagens, desvantagens e limitaes 
da avaliao de personalidade na seleo de pessoal. 
5. Identificar os problemas relacionados com os direitos humanos que podem ser 
levantados diante da utilizao de testes psicolgicos pelas organizaes. 
Ao estudar o background do comportamento humano, estudamos tambm o modo como 
se formam e desenvolvem as caractersticas psicolgicas dos indivduos: elas so 
resultado da interao entre os fatores hereditariedade e meio ambiente. Essas 
caractersticas psicolgicas, entretanto, desenvolvem- se continuamente no decorrer da 
vida do indivduo,  medida que se processa a sua interao com o meio.  recproca e 
constante essa influncia que liga, de um lado, o indivduo com suas caractersticas 
psicolgicas e, do outro, o meio ambiente. Nessa interao podem ser modificadas as 
prprias caractersticas individuais, no s nas suas propriedades especificas, mas 
tambm na forma como estas caractersticas (ou traos psicolgicos) esto estruturadas. 
Personalidade 
 um conjunto de traos psicolgicos com propriedades particulares, relativamente 
permanentes e organizadas de forma prpria. Ela se revela na interao do indivduo com 
seu meio ambiente e individualiza a maneira de ser, de pensar, de sentir e de agir de 
cada pessoa. O conhecimento das caractersticas da personalidade do individuo permite 
uma certa previso da manei-
 245 



ra pela qual ele poder sentir, pensar, ser e agir em determinadas circunstncias. No 
entanto, o comportamento do indivduo resulta no apenas das foras da personalidade, 
mas tambm de uma interao dele (caractersticas psicolgicas, com uma forma prpria 
de organizao) com o meio externo. A complexidade das foras que geram 
determinados comportamentos torna-se maior quando se observa que determinados 
traos psicolgicos de um indivduo so mais relevantes em algumas situaes do que 
em outras, e que a prpria organizao desses traos tambm pode ser modificada  
medida que o indivduo interage com o meio. Portanto, o estudo da personalidade no 
nos possibilita rotular os indivduos e predizer seus comportamentos com certeza 
absoluta. A personalidade pode ser modificada por fatores externos e internos. 
Caractersticas da personalidade 
O estudo da personalidade permite concluir que: 
1. duas pessoas no so iguais; cada pessoa tem um padro nico de caractersticas 
psicolgicas; 
2. cada pessoa mantm certa consistncia psicolgica que permitir sua identificao, e 
que perdurar no decorrer do tempo; 
3. para se compreender a personalidade no basta identificar traos psicolgicos;  
importante tambm entender como eles esto relacionados e como interagem uns com os 
outros, isto , como esto organizados; 
4. a personalidade (caractersticas psicolgicas, a organizao dessas caractersticas e 
suas propriedades)  um constructo inferido do comportamento observvel. 
Os hbitos, capacidades, motivos, necessidades, percepes pertencem  
personalidade. 
Desenvolvimento e ajustamento da personalidade 
Embora a personalidade se mantenha relativamente estvel ao longo do tempo, ela no 
deixa de sofrer a influncia do meio ao interagir com ele. Os traos psicolgicos podem 
ser desenvolvidos e modificados. A organizao desses traos psicolgicos pode ser 
profundamente afetada pelo contexto em que o indivduo vive. O meio pode favorecer ou 
impedir o ajustamento do indivduo. As frustraes, as presses, quer fisicas, quer 
psicolgicas, e o stress sob o qual o indivduo vive so alguns fatores que podem levar  
desintegrao da personalidade e, portanto, a um desajustamento emocional. 
A fonte mais comum de frustrao  uma barreira ou impedimento  
satisfao de um motivo. Podem-se distinguir trs tipos principais de barreira: 
1. situacional; 
2. interpessoal; 
3. intrapessoal. 
246 



Barreiras situacionais 
Podem ser de dois tipos: o primeiro deles  a barreira fsica, como, por exemplo, a 
ausncia de uma ponte que impede a travessia de um rio ou a perda da chave por uma 
pessoa que quer entrar em casa; o outro tipo de barreira situacional  a ambigidade, 
caracterizada por uma ausncia de indicadores claros, que impede o indivduo de realizar 
um objetivo. Por exemplo, o motorista que se encontra numa cidade desconhecida cujos 
sinais de trnsito no so bem claros perde-se e no consegue atingir o seu objetivo. 
Outro exemplo  a definio de tarefas e do espao organizacional do indivduo dentro de 
uma empresa. Quando tarefas e espao organizacional no so bem definidos, toma-se-
lhe difcil atingir seus objetivos, isto , a sua realizao profissional. A situao de 
ambigidade tambm se caracteriza quando uma pessoa  punida e recompensada pelo 
mesmo tipo de comportamento, em condies semelhantes. 
Barreiras interpessoais 
So as constitudas por uma pessoa ou grupo de pessoas que impedem a satisfao do 
motivo. Esse tipo de barreira pode ser observado quando um chefe impede um indivduo 
criativo ou com uma experincia mais ampla de usar sua experincia e de colaborar mais 
ativamente no trabalho. Outro exemplo ocorre quando membros de um clube impedem a 
participao de uma pessoa pertencente a outro grupo minoritrio. 
Barreiras intra pessoais 
Compreendem dois tipos. O primeiro pode ser observado quando a pessoa no pode 
atingir seus objetivos devido a alguma deficincia fisica ou mental, ou  ausncia de uma 
habilidade especifica. O segundo  caracterizado pela existncia de motivos conflitantes 
da prpria pessoa. Exemplos: o indivduo que quer comer doces e no quer engordar; o 
indivduo que deseja manter sua independncia intelectual, mas acha necessrio 
subordinar-se s idias de seu chefe para fazer carreira. 
As condies que produzem frustraes so uma combinao de motivos e de desejos 
em direo a determinados objetivos, acompanhada de uma incapacidade de perceber 
os meios para alcanar esses mesmos objetivos. As diferentes barreiras so 
impedimentos para que se alcancem os objetivos. As reaes psicolgicas s situaes 
de frustrao manifestam-se geralmente por meio de agresso, da tentativa de sair da 
situao ou de uma ansiedade difusa. Entretanto, nenhuma dessas reaes leva a 
mudana na situao de frustrao propriamente dita. Freud mostrou que certas 
distores em alguns aspectos do pensamento constituem uma forma de diminuir a 
ansiedade, e chamou-as mecanismos de defesa. Quando a situao de stress  muito 
intensa, os me-
247


 
canismos de defesa no so capazes de operar. Nessas circunstncias, as energias 
psicolgicas diminuem, e o individuo  levado ao desajustamento. 
A agresso e a raiva so outras reaes imediatas a situaes de frustrao. Tais 
reaes, entretanto, envolvem problemas e conflitos de outra natureza. O indivduo que 
agride passa a ter medo da punio. 
A tentativa de abandonar a situao de frustrao  uma outra reao que no leva  
soluo do problema propriamente dito, porque a ansiedade gerada resultou de 
inabilidade do indivduo para atingir seus prprios objetivos. 
O medo e a ansiedade so tambm reaes  situao de frustrao. Eles criam 
situaes difceis para o individuo porque, alm de enfrentar uma situao real de 
incapacidade para resolver um problema, ele passa a viver um outro tipo de dificuldade, 
ou seja, ele sente que sua integridade psicolgica, sua auto-estima e sua competncia 
esto em risco e necessita proteg-las. 
Assim, suas energias psicolgicas so canalizadas para uma defesa e uma proteo 
contra seu estado de ansiedade. E se esse estado se prolonga muito, pode levar a um 
colapso psicolgico grave. 
Tipos ou dimenses de personalidade 
Inicialmente, ao se estudar a personalidade, houve uma tendncia de caracteriz-la de 
acordo com os tipos mais marcantes. Essa tipologia de personalidade envolvia uma viso 
unilateral: a personalidade passava a ser abordada como se fosse constituida por um 
nico trao psicolgico. Como exemplo, podem ser citados tipos de individuo como o 
agressivo, o introvertido, o emocional etc. No entanto, a abordagem por meio de traos 
psicolgicos tem-se mostrado mais adequada. Nessa abordagem, a personalidade  
tomada como uma constelao de traos psicolgicos organizados de uma maneira 
nica. O individuo possui diferentes traos que, em determinadas situaes, so mais ou 
menos predominantes. Na verdade, rotular as pessoas como agressivas, introvertidas ou 
emocionais  voltar  abordagem tipolgica da personalidade. O que realmente ocorre  
que, em certas situaes, determinados traos tomam-se mais relevantes. 
Assim, para a avaliao da personalidade do indivduo, mais uma vez manifesta-se a 
importncia da interao do indivduo com o meio ambiente, ou seja, com o contexto 
social no qual est inserido. Dependendo do grupo social a que o individuo pertence, 
determinados traos psicolgicos so considerados negativos ou positivos. Um exemplo 
 a agressividade na nossa cultura. O individuo agressivo significa para muitos um caso 
de desajustamento ou de patologia. A agressividade, entretanto,  importante e 
necessria desde que adequadamente canalizada; ela implica enfrentar novas situaes 
e correr riscos. Essa caracterstica psicolgica dos individuos em determinadas 
situaes, principalmente em certas organizaes,  muito importante. Por outro lado, a 
agressividade pode vir a ser um fator de desajustamento e de conflito individuo-
organizao, quando a organizao no d espao para inovao, 
248 



criatividade, participao e colaborao inteligente. Em decorrncia de suas frustraes, 
a pessoa agressiva passa a ser um gerador de conflitos. 
Por outro lado, as prprias caractersticas psicolgicas so influenciadas pelo meio, 
podendo ser modificadas e desenvolvidas. O indivduo pode adquirir novas necessidades 
e motivaes; ele desenvolve suas capacidades e sua estrutura de personalidade, isto , 
a forma pela qual essas caractersticas psicolgicas se organizam, podem ser 
modificadas, assim como a dinmica de sua interao em funo do relacionamento com 
o meio externo. 
Muitos estudos da personalidade foram realizados, especialmente por Eysenck, Cattell, 
Guilford French e outros. As principais dimenses da personalidade, segundo eles, so 
estabilidade emocional-neuroticismo, realismopsicotismo, independncia-dependncia, 
extroverso-introverso, agressividade-ansiedade, rigidez-honestidade etc. 
Personalidade e organizao 
At agora vimos a interdependncia entre personalidade e meio ambiente, seja na 
prpria formao e desenvolvimento das caractersticas psicolgicas, seja na sua 
estrutura e dinmica. Vimos que, por outro lado, as caractersticas de personalidade dos 
membros da organizao influenciam a estrutura da organizao. Essa influncia ser 
tanto mais forte quanto mais altas forem as posies que os indivduos ocupam na 
hierarquia organizacional. 
 impossvel a total compreenso de um indivduo sem compreender a organizao na 
qual ele est inserido e vice-versa. Por outro lado, toda ao oficial dentro da organizao 
 determinada, segundo Merton (1966), por normas e regras preexistentes. A formalidade, 
segundo ele,  explicitada por meio da distribuio da autoridade, pela distncia social 
entre os diferentes ocupantes das posies da organizao. A formalidade, enfim, se por 
um lado facilita a interao dos ocupantes das diferentes funes na organizao, por 
outro lado favorece maior conformismo e uma tendncia para maior adequao das 
caractersticas psicolgicas do individuo s demandas da organizao, denominadas por 
Merton formao profissional. 
As estruturas burocrticas tendem a enfatizar a preciso, a eficincia, em detrimento da 
eficcia e dos objetivos da organizao. Merton mostra que as estruturas burocrticas 
exercem uma constante presso para tomar seus membros indivduos metdicos, 
prudentes e disciplinados. Para Merton, essas estruturas exigem alto grau de 
conformidade com os padres de comportamento estabelecidos. A eficcia dessas 
estruturas sociais depender, de certa forma, do seu sucesso em desenvolver em seus 
membros atitudes e sentimentos apropriados. Essa poltica confunde disciplina com 
integrao.  medida que se conformam s normas da organizao, s idias e 
pensamentos dos superiores, os indivduos so recompensados como membros que 
melhor se integram na organizao. Merton chama tambm a ateno para o perigo de a 
nfase na conformidade s normas e regras interferir na consecuo dos objetivos da 
organizao: os processos passam a ser mais importantes que os fins. Como 
249 



conseqncia, pode-se observar o desenvolvimento de caractersticas conformistas nos 
membros da organizao. Confrontos e divergncias de idias passam a ser tomados 
como reaes emocionais ou confronto no ringue, especialmente quando esto 
envolvidos membros organizacionais hierarquicamente superiores. A independncia 
intelectual e afetiva dos membros passa a ser considerada uma ameaa  integridade da 
organizao e dos grupos de trabalho. 
No entanto, a influncia da estrutura organizacional sobre a personalidade dos individuos 
ser maior ou menor, dependendo de suas prprias caractersticas de personalidade: os 
individuos mais comprometidos com o poder e o status conformam-se mais, pois seus 
valores e motivos bsicos os levam ao conformismo,  adaptao de seus sentimentos, 
pensamentos e aes s de mandas do contexto social. So considerados os elementos 
jeitosos mais maduros, que geralmente adquirem status e poder mais rapidamente no 
sistema organizacional. 
O impacto das foras da estrutura social na personalidade, entretanto,  menos 
significativo e profundo quando os individuos centram seus objetivos e valores individuais 
na independncia intelectual, na sua auto-realizao profissional, na sua liberdade afetiva. 
Esses indivduos tomam-se membros mais crticos da organizao. Trabalham mais para 
mudar a estrutura organizacional do que para acomodar-se e adaptar-se a ela. Procuram 
resguardar seus valores e traos individuais. 
Levinson (1966) sintetiza a interao organizao-personalidade mostrando que a 
estrutura social representa foras poderosas, que influenciam a personalidade do 
indivduo em direo a certas formas de adaptao, da mesma maneira que a 
personalidade representa certas foras internas que levam o indivduo a selecionar, criar, 
sintetizar certas formas de adaptao mais do que outras. Essas foras internas que 
emanam da personalidade representam a tentativa do individuo para estruturar sua 
realidade social, definir seu lugar dentro dela e guiar sua busca de sentido e de 
gratificao. Levinson denomina realizao do ego a essas foras internas que, segundo 
ele, refletem a capacidade do indivduo de resolver demandas conflitivas, de utilizar as 
oportunidades existentes e de criar novas oportunidades, de encontrar equilbrio entre 
estabilidade e mudana, entre conformismo e autonomia, entre o ideal e o possvel num 
ambiente complexo. 
Avaliao da personalidade 
A avaliao da personalidade tem sido um dos problemas mais complexos encontrados 
pelos psiclogos. Essa complexidade manifesta-se at na impossibilidade de medir as 
caractersticas da personalidade, ao contrrio do que ocorre com as capacidades 
individuais, que podem ser, ou pelo menos tm sido, medidas. 
O nmero de palavras utilizadas na descrio da personalidade  muito grande. Somente 
na lngua inglesa encontram-se dezoito mil. Esta multiplicidade verbal reflete a 
multiplicidade de traos de personalidade observados e d a 
250 



medida da dificuldade do psiclogo em identificar um nmero opervel de traos teis 
para descrever o indivduo e predizer o seu comportamento. Por outro lado, considerada a 
personalidade como uma constelao de traos psicolgicos organizados de maneira 
nica, s podemos inferir esta realidade psicolgica a partir do relacionamento 
interpessoal dos indivduos em diferentes situaes sociais. Alm disso, os traos 
psicolgicos assumem dimenses e relevncia diferentes, dependendo da situao que o 
indivduo vive em cada momento determinado. Essa mobilidade poderia sugerir 
desajustamento ou desintegrao da personalidade. Mas, em principio, nada mais  do 
que a prpria dinmica da personalidade que as tentativas de avaliao psicolgica 
pretendem inutilmente apreender. 
Na verdade, dificilmente se poder reproduzir e isolar diferentes situaes sociais a fim 
de identificar os traos psicolgicos que predominariam em cada uma delas. 
Como forma de tentar viabilizar tais tentativas, substitui-se o comportamento observado 
pelo comportamento comunicado. Os questionrios e inventrios de personalidade so 
resultado dessa tentativa. 
Os testes projetivos, ou seja, a apresentao de um estimulo ambguo, so uma outra 
abordagem de personalidade. Pressupe-se que, ao reagir quilo que v, o indivduo est 
refletindo sua orientao pessoal e seus motivos mais profundos. 
Os testes de personalidade no constituem meio mgico de revelar as complexidades da 
pessoa. So mtodos de provocar comportamentos em situaes mais ou menos 
controladas. O valor preditivo dos testes de personalidade depende em grande parte da 
validade da teoria que relaciona o comportamento no teste com o comportamento que se 
tenta prever. 
Inventrio de personalidade (entrevistas e questionrios) 
A forma mais simples de obter informao sobre uma pessoa  a entrevista. As 
entrevistas psicolgicas apresentam algumas vantagens sobre outros tipos de tcnica 
de avaliao de personalidade. So mais flexveis e possibilitam o estabelecimento de 
uma relao amigvel entre o entrevistador e o entrevistado. Assim, podem levar  
obteno de maiores informaes da pessoa entrevistada, at pela observao das 
reaes do indivduo aos diferentes aspectos abordados. No entanto, as entrevistas so 
contaminadas pela percepo do entrevistador, pelos seus valores e pelo seu prprio 
estado emocional. Alm disso, a entrevista no possibilita a reao da pessoa em 
diferentes situaes. 
Os questionrios so instrumentos de avaliao de personalidade; neles, o indivduo 
responde a questes sobre ele prprio, marcando alternativas apropriadas num formulrio 
que lhe  apresentado. Um questionrio de personalidade pode ser caracterizado como 
uma tcnica de obteno de amostras verbais de comportamento em resposta a 
estmulos verbais. Os indivduos indicam verbalmente um comportamento como o seu 
comportamento na situa- 
251 



o descrita. Para diferentes psiclogos, os questionrios de personalidade apresentam 
algumas vantagens; so mais fceis de aplicar e seus resultados podem ser tambm 
facilmente verificados. Permitem o estabelecimento de normas e a comparao de 
indivduos e grupos. Alguns exemplos desses testes: 
MMPI, constitudo de 550 questes (Minesota Multiphasic Personality Inventory). Teste de 
Fator de Personalidade Cattel, Inventrio Psicolgico da Califrnia (California 
Psychological Inventory  CPI) e Formulrio de Interesses Vocacionais de Strong (Strong 
Vocational Interest Blanc S1VB). A principal limitao dos inventrios de personalidade  
a tendncia de certas pessoas em concordar ou discordar de qualquer opinio, 
independentemente de seu contedo. Isto leva a uma distoro nos resultados do teste, se 
o psiclogo que os interpreta no levar em considerao esse aspecto. Outro problema 
que poder ser encontrado  o de o entrevistado camuflar suas respostas, dando de si 
prprio uma imagem diferente, mais negativa ou mais positiva que a real. 
Os testes projetivos baseiam-se no principio de que o indivduo revelar suas 
caractersticas e sentimentos mais profundos quando no estiver sofrendo limitaes em 
seu comportamento. Pelo fato de utilizarem estmulos ambguos que normalmente 
distorcem menos as respostas, os testes projetivos explicitam mais a motivao, a 
aprendizagem anterior e outros fatores individuais. Os testes projetivos mais conhecidos 
so o Rorschach e o TAT. 
O Rorschach foi elaborado pelo psiquiatra suo Hermam Rorschach, que desenvolveu os 
cartes individuais. Segundo ele, a forma de o indivduo se expressar diante dos borres 
de tinta revela aspectos subjacentes da personalidade. Para permitir a interpretao do 
teste, foram desenvolvidos mtodos estandardizados de escores. Segundo Rorschach, o 
teste revela algumas dimenses da personalidade, tais como ansiedade consciente ou 
inconsciente, hostilidade e criatividade. As principais dificuldades encontradas so 
normas estatsticas para o teste e sua validao, que no tm sido bem-sucedidas. O fato 
de o teste ser aplicado por um individuo e de os resultados envolverem uma interpretao 
subjetiva de quem os interpreta possibilita a projeo da prpria personalidade do 
interpretador, ou seja, do psiclogo. 
O TAT  Teste de Apercepo Temtica  baseia-se na hiptese de necessidades de 
Murray. Consiste em uma srie de figuras humanas sobre as quais o entrevistado  
solicitado a contar uma histria, explicando cada figura. A interpretao do teste  feita 
partindo do pressuposto de que os temas das histrias refletem os motivos 
predominantes no indivduo. 
A principal dificuldade encontrada na aplicao dos testes de personalidade  sua 
validao. Como instrumentos de predio de comportamento, eles so falhos. Sua 
utilizao tem maior intensidade no setor para o diagnstico de desajustamentos mais 
profundos. De acordo com Leona Tyler, as tcnicas de avaliao de personalidade 
contribuem para o entendimento das pessoas, de ns prprios e dos outros, mas sua 
contribuio  muito pequena como instrumento de predio de comportamento. A 
personalidade, segundo ela, no pode ser medida, mas assim mesmo  importante ter 
meios de avali-la. 
252 



Avaliao psicolgica na organizao 
A avaliao da personalidade por meio de instrumentos psicolgicos tem sido apontada 
como difcil de ser realizada e conducente a resultados no merecedores de confiana. As 
dificuldades so oriundas de diversas fontes. J vimos a dificuldade em isolar as 
caractersticas de personalidade do indivduo do meio externo. A personalidade 
desenvolve-se e modifica-se  medida que o indivduo interage com outros indivduos e 
com o meio social mais amplo. Os mesmos resultados obtidos em um teste de 
personalidade so afetados pela situao do prprio teste. 
Na organizao, a validade da avaliao psicolgica, considerando-se a interao 
indivduo-meio, toma-se muito questionvel. As situaes so diversas daquela em que o 
teste foi aplicado. Por outro lado, os testes so falhos na predio de comportamentos. 
Eles do alguns indicadores que, entretanto, no podem ser tomados como uma medida 
completamente vlida de dada caracterstica psicolgica. Entretanto, as avaliaes de 
personalidade so utilizadas nas organizaes geralmente como um instrumento cuja 
validade no se questiona, e do qual se servem para classificar as pessoas, rejeit-las ou 
aceit-las. Alguns problemas surgem deste posicionamento das organizaes em face 
das avaliaes psicolgicas, especialmente a avaliao de personalidade. A avaliao 
de personalidade indica certos sintomas negativos da personalidade, muito mais do que 
os aspectos positivos, muitas vezes desconhecidos pelo prprio indivduo, que passam a 
ser do domnio pblico, ou seja, da organizao, que poder us-los como instrumento de 
manipulao do indivduo. O outro problema  o uso da avaliao de personalidade como 
um instrumento discriminatrio entre diferentes indivduos quando ela indica apenas 
alguns aspectos clnicos de cada indivduo, no podendo, portanto, ser usada como um 
instrumento capaz de retratar o individuo na sua totalidade e complexidade. 
RESUMO 
As caractersticas psicolgicas dos indivduos so resultado da interao entre os fatores 
hereditariedade e meio e se desenvolvem continuamente no decorrer da vida. A 
personalidade  um conjunto de traos psicolgicos com propriedades particulares, 
relativamente permanentes e organizados de for ma prpria. Determinados traos 
psicolgicos de um indivduo so mais relevantes em algumas situaes que em outras, e 
por isso no se podem predizer comportamentos com certeza absoluta. Cada pessoa tem 
um padro nico de caractersticas psicolgicas que perdura no tempo. As caractersticas 
psicolgicas e sua organizao (personalidade) so constructos, so inferidos do 
comportamento observvel. 
Embora relativamente estvel no tempo, a personalidade sofre a influncia do meio, que 
pode ser profunda. Frustraes, presses, stress podem levar 
at  desintegrao da personalidade e a um desajustamento emocional. A 
253 



fonte mais comum de frustrao  uma barreira ou impedimento  satisfao de um 
motivo. Distinguem-se trs tipos principais de barreira: situacionais, interpessoais e 
intrapessoais. As barreiras intrapessoais podem consistir em uma deficincia ou carncia 
pessoal, ou em conflito de motivos dentro da prpria pessoa. 
As reaes psicolgicas s situaes de frustrao manifestam-se por meio de raiva e 
agresso, por medo ou por uma ansiedade difusa, ou pela tentativa de fugir  situao 
geradora de frustrao. Tais reaes, porm, no levam  mudana da situao e, 
portanto, no resolvem a frustrao. Freud mostrou que certas distores em alguns 
aspectos do pensamento constituem uma forma de diminuir a ansiedade e chamou-as 
mecanismos de defesa. 
Inicialmente, caracterizava-se a personalidade por tipos marcantes (agressivo, 
introvertido). No entanto, tem-se mostrado mais adequada a abordagem por traos 
psicolgicos, algum ou alguns dos quais predominam em cada situao diferente. 
Dentro da organizao, a situao de formalidade, por um lado, facilita a interao dos 
ocupantes das diferentes funes e, por outro, favorece o conformismo e a tendncia  
adequao das caractersticas psicolgicas do indivduo s exigncias da organizao. 
No entanto, tal influncia da estrutura organizacional ser maior ou menor, dependendo 
das caractersticas de personalidade do prprio indivduo. 
A avaliao da personalidade  um problema complexo, pela impossibilidade de medir as 
caractersticas de personalidade (as capacidades individuais podem ser ou pelo menos 
tm sido medidas). Milhares de traos de personalidade j foram referidos na tentativa de 
descrever a personalidade. Mas essas descries pouco parecem ajudar, uma vez que a 
realidade psicolgica pode apenas ser inferida do relacionamento interpessoal em 
diferentes situaes, e que os traos psicolgicos assumem dimenses e relevncia 
diferentes, conforme a situao do momento. Para tentar superar essas dificuldades, 
substituiu- se o comportamento observado pelo comportamento comunicado atravs de 
vrios instrumentos. Os testes de personalidade provocam comportamentos em situaes 
mais ou menos controladas. As entrevistas possibilitam o estabelecimento de uma 
relao amigvel entre entrevistador e entrevistado. Os questionrios so uma tcnica de 
apresentar estmulos verbais para obter amostras verbais de comportamento. Os testes 
projetivos, finalmente, utilizam estmulos ambguos para que o indivduo, no se sentindo 
internamente devassado, revele suas caractersticas mais profundas. Os testes de 
personalidade so falhos como tcnicas de predio do comportamento, pois so dificeis 
de validar. Sua utilizao  mais larga no diagnstico de desajustamentos profundos. Na 
organizao, ressurge o problema de a situao na qual o individuo opera ser diversa 
daquela em que foi feito o teste, o que torna seus resultados questionveis. Alm do mais, 
os testes revelam facilmente aspectos problemticos (negativos) da personalidade e mais 
dificilmente aspectos positivos, que o prprio individuo submetido ao teste pode 
desconhecer. 
254 



TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Barreiras interpessoais: pessoas ou grupos de pessoas que impedem a 
satisfao de um motivo. 
Barreiras intrapessoais: 1. Deficincias fisicas ou mentais; 2. motivos 
conflitantes da prpria pessoa. 
Barreiras ou fontes de frustrao: impedimento  satisfao de um motivo. 
Barreiras situacionais: impedimentos fsicos (ausncia de uma ponte num 
rio) e ambigidade (falta de clareza nos objetivos e nas responsabilidades). 
Caractersticas da personalidade: constructos inferidos do comportamento observvel que 
caracterizam o indivduo como ser nico. Inteligncia, percepes, necessidades, motivos 
etc. 
Estrutura da personalidade: organizao dos traos ou dos componentes 
da personalidade. 
Personalidade: conjunto de traos psicolgicos com propriedades particulares, relativa 
mente permanentes e organizadas. Forma de perceber, sentir 
e agir de cada indivduo. 
Stress: situaes fsicas ou psicolgicas que pressionam os indivduos, gerando alto grau 
de tenso. Podem levar ao desajustamento emocional e 
mesmo  desintegrao da personalidade. 
APLICAO 
1. Estudo de caso 
O Sr. X  engenheiro metalrgico, com cursos de ps-graduao no exterior e grande 
experincia na sua rea de trabalho. Dirigiu vrios projetos, todos 
eles bem-sucedidos.  uma pessoa dinmica, agressiva e sensvel. 
Chefiava um dos setores da diretoria de produo de uma companhia siderrgica quando 
foi mudada a direo dessa companhia. O novo diretor de produo, um antigo 
engenheiro da companhia, no se entendia com o Sr. X e solicitou ao presidente da 
companhia o desligamento do Sr. X da diretoria de produo. O Sr. X foi colocado na 
assessoria da presidncia com funes puramente administrativas. O seu grau de 
agressividade e de tenso era crescente. O presidente da companhia alegava que sua 
volta  rea tcnica ocorreria no momento em que ele conseguisse o equilbrio emocional. 
O seu retomo  rea tcnica s foi possvel aps a queda dessa diretoria, depois de ele 
exercer atividades administrativas pelo perodo de quatro anos. Reencontrou ento o 
equilbrio emocional e vem desempenhando suas atividades tcnicas com xito. 
1.1. Identifique os fatores que influenciaram o desajustamento emocional do Sr. X. 
255 



1.2. Justifique suas concluses, fundamentando-se nos conceitos e teorias discutidos 
neste capitulo. 
2. Estudo de caso 
O Sr. N foi contratado pela firma X, que considerou, na contratao, a sua competncia 
profissional, comprovada pelos trabalhos j realizados. Com seu dinamismo e 
necessidade de realizao profissional, o Sr. N passou a apresentar idias e sugestes, 
chegando at mesmo a realizar algumas inovaes em suas atividades especificas, o que 
o projetou aos demais membros da organizao, passando a influenciar os demais 
tcnicos de seu setor. Dentro. desse contexto, o Sr. N passou a ser considerado pela 
chefia um elemento contestador, capaz de criar cises dentro da organizao, j que os 
demais membros da equipe, aps a chegada do Sr. N, passaram tambm a levantar 
problemas, questionar e dar sugestes  chefia. Diante dessa realidade, a chefia superior 
decidiu limitar o campo de ao e de influenciado ST. N, que passou a receber ordens 
diretamente da chefia superior e teve suas tarefas definidas, at na forma como deveriam 
ser realizadas. Os contatos com os demais membros da organizao foram de certo 
modo impedidos pelas novas atividades que passou a realizar. Nas poucas 
oportunidades que o Sr. N teve de realizar atividades que o projetavam ao grupo de 
tcnicos, a chefia superior procurou mostrar os pontos negativos e as falhas de seu 
trabalho. Diante dessa realidade organizacional, o Sr. N adaptou-se ao sistema. No 
questionava as chefias superiores. Realizava tarefas de acordo com as orientaes 
recebidas, tendo sido, posteriormente, promovido pela direo da empresa pela sua 
integrao ao sistema organizacional. 
1. Analise do ponto de vista de Merton o processo de adaptao organizacional do Sr. N. 
2. Identifique as conseqncias desse processo de adaptao do Sr. N para sua 
personalidade e para a organizao. 
QUESTES 
1. Qual a relao existente entre personalidade e meio ambiente? 
2. Explique o conceito de personalidade. 
3. Como a personalidade pode manter-se relativamente estvel e ao mesmo tempo 
desenvolver-se? 
4. Que so barreiras situacionais, interpessoais e intrapessoais? 
5. Como se explica, do ponto de vista da personalidade, que uma pessoa possa 
comportar-se de maneiras diferentes e no ser considerada desajustada? 
6. Por que  importante conhecer a organizao em que trabalha o individuo para 
compreender a. sua personalidade? 
256 



7. Qual a influncia da estrutura organizacional sobre a personalidade dos seus 
membros? 
8. Quais as formas de reao a esta influncia? 
9. Quais os problemas da avaliao da personalidade encontrados pelos psiclogos? 
10. Quais os perigos da utilizao da avaliao da personalidade como instrumento de 
seleo de pessoal? 
TRABALHO PRTICO 
1. Analise a organizao como meio social. e enquanto contexto interativo onde a vivncia 
e experincia do Sr. N se desenrolou. 
2. Explique o fenmeno de acomodao como processo patolgico, relao com 
contextos organizacionais (objetivos, valores, cultura, propostas, papis, recompensas, 
prescries) e suas conseqncias para o Sr. N e para a organizao. (Estudo de caso 
apresentado neste capitulo.) 
3. Proponha caminhos para que as organizaes possam vir a ser um meio social que: 
a) crie as condies necessrias para o pleno desenvolvimento da personalidade do 
individuo, do respeito a sua identidade, enquanto individuo nico e pessoa humana. 
b) Possibilite o desenvolvimento do processo cognitivo e da formao da conscincia 
moral de todos os individuos seus membros. Portanto, possibilitando a sua auto-
realizao e autodeterminao. 
c) Reflita sobre as conseqncias para a empresa ao nvel da criatividade. 
d) Identifique a questo tica que se coloca em face das organizaes quando buscam 
atuar, no nvel psicolgico do indivduo, por meio de presses, punies, recompensas, 
treinamento, envolvimento emocional, mudana de cultura, padronizao de sentimentos e 
de comportamentos. 
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258



11.PROCESSO PERCEPTIVO E O 
CONTEXTO ORGANIZACIONAL 
Ao terminar a leitura deste captulo, voc dever 
ser capaz de: 
1. Compreender os processos perceptivos. 
2. Identificar os fatores que influenciam a percepo. 
3. Compreender a influncia do processo perceptivo nos demais processos cognitivos. 
4. Compreender a influncia dos diferentes fatores organizacionais no desenvolvimento 
cognitivo de seus membros. 
5. Compreender os mecanismos de controle mental utilizado pelas organizaes. 
6. Compreender o processo de falsificao da conscincia nas organizaes. 
Hipteses sobre a percepo 
Inicialmente, os estudos da percepo levantaram a hiptese de que os objetos emitiriam 
cpias deles prprios, as quais se transmitiriam ao crebro. 
Os estudos da Fsica vieram contribuir para o abandono dessa hiptese ao mostrar que 
os objetos no emitem cpias. Na realidade, a maioria dos objetos limita-se a refletir 
ondas que os atingem. No caso da percepo visual, o objeto percebido reflete ondas de 
luz. Algumas dessas ondas atingem a retina, onde causam mudanas fsico-qumicas. 
Essas mudanas estimulam os nervos visuais, provocando impulsos nervosos, que so 
transmitidos ao crebro. Embora a percepo dependa da atividade nervosa no crebro, 
temos a percepo de que os objetos esto fora de ns. 
Esse processo envolve uma srie de operaes de codificao, ao longo das quais a 
informao  traduzida em diferentes padres de energia. H, portanto, mudanas na 
energia, mas a informao se mantm durante todo o processo perceptivo, desde o 
objeto at a percepo do observador. Um exemPIO usado para ilustrar esse processo  
o da secretria que anota uma mensagem ditada pelo chefe. Aps anot-la ela telefona 
para o operador de telex e repete a mensagem para ele. O operador de telex recebe a 
mensagem, anota
259 



a por sua vez e a transmite para outro operador de telex. O segundo operador recebe a 
mensagem, anota-a e a retransmite para o destinatrio. Em todo este processo, a 
mensagem no mudou. O que mudou foi a forma de transmiti-la nas diferentes fases do 
processo. 
Esse exemplo mostra como os receptores traduzem uma variedade de tipos de energia 
fsica em padres de impulsos nervosos. Assim, os diferentes rgos sensoriais recebem 
diferentes tipos de energia que afetam de maneiras diversas o sistema nervoso. E cada 
rgo sensorial transforma a energia recebida em impulsos nervosos que so 
transmitidos a uma rea especial do crebro. 
No entanto, os eventos precisam ter certas propriedades para serem traduzidos em 
impulsos nervosos pelo sistema nervoso. necessrio, particular mente, que eles ocorram 
com um mnimo de intensidade para serem captados pelo sistema nervoso. Este ponto a 
partir do qual o evento  percebido denomina-se limiar de percepo. Cada indivduo 
apresenta um limiar diferente e cada rgo sensorial possui seu limiar especifico. 
Os estudos do processo perceptivo tm mostrado que a percepo de um evento ocorre 
geralmente mediante diferentes rgos sensoriais ao mesmo tempo. A depender do 
objeto percebido, haver a preponderncia de um ou outro rgo sensorial no processo 
perceptivo. Mas dificilmente a percepo de um evento envolver um rgo sensorial 
isolado. Quando se assiste a um concerto, a audio  o sentido sensorial predominante; 
mas ouve-se melhor quando se v a orquestra. Assistir a um filme envolve a viso e a 
audio, havendo maior ou menor predominncia da viso, conforme haja ou no 
legendas na tela. Assistir a uma pea de teatro  outro exemplo onde viso e audio se 
combinam para uma percepo acurada. 
Importncia do contexto dos estmulos percebidos 
A percepo apresenta-se mais complexa quando se observa que os estmulos no so 
percebidos isoladamente ou fora de um contexto. No percebemos um homem com uma 
batuta, mas um maestro em frente  orquestra. 
No percebemos um homem de p em frente de um grupo de pessoas sentadas num 
auditrio, mas um conferencista realizando uma conferncia. 
 medida que os estmulos so percebidos integradamente, eles provocam reaes 
diferentes: reage-se de forma diferente s peas de um quebra- cabea, vistas 
separadamente e percebidas no seu conjunto. Uma frase fora do seu contexto pode gerar 
uma percepo muito diferente daquela que se tem ao ser ouvida num contexto mais 
amplo. 
A organizao dos estmulos, portanto, confere aos eventos propriedades diferentes das 
que neles se reconheceriam, quando percebidos isoladamente. Essas propriedades 
tampouco so passveis de previso com base em um estimulo isolado.  medida que se 
 capaz de situar um acontecimento ou evento dentro de um contexto mais amplo, 
considerando-se no s a dimenso de espao, mas tambm a de tempo, obtm-se dele 
uma percepo mais adequa-
260




da. Um maior nmero de informaes sobre os fatos que antecedem o fenmeno, bem 
como sobre o tempo em que ele ocorreu, poder modificar sua percepo, tornando-a 
mais correta. O estimulo do qual se toma conscincia passa a ser fonte de outros 
estmulos: ouvem-se palavras e no simples sons; vem- se figuras em vez de simples 
borres. 
O processo perceptivo envolve, como j foi dito, outros processos mentais. Na percepo, 
a memria  o processo mental de armazenamento das experincias passadas 
identificveis. Esse mundo individual de coisas identificveis est  disposio de cada 
pessoa, quando a ele desejar recorrer. 
As coisas percebidas no passado podero ser lembradas, embora no da mesma forma 
que foram percebidas anteriormente. Essa capacidade de memorizar imagens enriquece 
o campo perceptivo e permite ao ser humano uma estabilidade e uma amplitude 
perceptiva muito grande, garantindo a continuidade e a integrao do processo de 
percepo. 
Limitaes da capacidade de perceber 
 limitada a capacidade da pessoa humana para apreender a realidade exterior a si 
prpria, designada pela palavra mundo. Esta limitao decorre, em primeiro lugar, da 
imensa complexidade e do carter dinmico do mundo, que tornam impossvel conhec-lo 
de modo integral. Em segundo lugar, decorre da prpria natureza da percepo, um 
processo psicolgico que envolve outros como o pensamento e a memria, sujeitos a 
variadas perturbaes. E decorre, finalmente, das limitaes dos rgos sensoriais, que 
so os canais por meio dos quais a pessoa humana entra em contato com o mundo e por 
onde se inicia o processo perceptivo. Atravs dessas variadas mediaes de processos 
seletivos, fisiolgicos e psicolgicos, chega-se a uma percepo inevitavelmente parcial 
do mundo, embora este nos apresente uma certa estabilidade, o que nos d 
freqentemente a iluso de uma realidade acabada. 
Conceito ou categoria 
Por outro lado, o indivduo no armazena no crebro simples imagens do objeto. Ele 
abstrai suas propriedades, e a partir dai ganha condies para classificar objetos e 
eventos. O conjunto de propriedades abstradas  denominado conceito ou categoria. No 
entanto, a capacidade do crebro humano para processar estmulos  limitada e, em 
interao com o meio externo, o individuo tem contato om um nmero maior doque 
poder processar. Por isso, existe uma defasagem entre o nmero de estmulos que 
atinge o ser humano e o nmero de estmulos que o seu crebro transforma em 
informao. Essa defasagem caracteriza o fenmeno da limitao da ateno. O limite de 
ateno varia de pessoa para pessoa e poder variar de momento a momento na mesma 
pessoa, dependendo de seu estado emocional. O individuo s consegue prestar ateno 
a parte do ambiente que o rodeia e, conseqentemente, s conseguir captar um nmero 
limitado de estmulos; por outro lado, a prpria capacidade de processamento de estimulo 
do crebro humano  limitada. O 
261 



ser humano seleciona o que percebe. Esta seleo dos estmulos a serem percebidos  
influenciada por diferentes fatores; a ateno, um fator bsico,  por sua vez influenciada 
por outros fatores, tais como o estado emocional, a necessidade, os motivos e as 
caractersticas de personalidade do indivduo que percebe. A percepo  influenciada 
pelo limiar de percepo e pelas caractersticas do ambiente. Os estmulos e suas 
propriedades no so os determinantes exclusivos da percepo. O indivduo seleciona o 
que percebe. A percepo , portanto, dinmica. 
A experincia passada e a percepo presente 
Estudos desenvolvidos na rea da percepo tm demonstrado que a experincia 
passada do indivduo tambm estimula a percepo presente; a percepo de objetos, 
pessoas e eventos no presente  contaminada pela experincia passada. O indivduo, 
portanto, projeta o seu mundo interior naquilo que est percebendo. Por esta razo, diz-se 
que as pessoas percebem o que querem e no o que realmente existe. 
A projeo e sua influncia no processo de percepo 
As figuras ambguas so um exemplo de projees de experincias passa das no 
estimulo presente. As pessoas percebem figuras diferentes ao observar a mesma figura. 
Quanto mais ambguas so as figuras, mais subjetiva se toma a percepo e maiores 
sero as influncias da experincia passada, dos motivos, do estado emocional, das 
necessidades bsicas e das caractersticas de personalidade do indivduo sobre a sua 
percepo. 

Figura 9.1. Experimento de Leeper: estmulos usados. Em (a) percebe-se ou o rosto de 
uma moa (b) ou o de uma velha (e). 
262 



Contraste e a percepo 
A influncia das caractersticas do ambiente na percepo foi estudada, tendo sido 
mostrado que tais caractersticas podem ser determinantes da mudana de ateno. Os 
objetos mais brilhantes, os sons mais agudos e as cores mais fortes so geralmente mais 
notados. A predominncia desses fatores indica a intensidade como um dos 
determinantes da ateno. Estmulos diferentes dentro de um conjunto de estmulos 
semelhantes tambm so normalmente mais percebidos. O contraste , portanto, outro 
fator de reteno da ateno. 
Ampliao do limite de ateno 
A tendncia de organizar os estmulos atravs de agrupamentos  uma tentativa de 
ampliar o limite de ateno.  medida que se agrupam os estmulos de acordo com certos 
critrios, diminui-se o nmero de estmulos percebidos e, por conseqncia, amplia-se o 
limite de ateno. Exemplo .de agrupamento de estmulos  o fenmeno figura-fundo, 
caracterizado pela separao do campo perceptual em duas partes, sendo uma 
dominante e unificada e outra mais homognea e difusa. Os estudos dos determinantes 
do fenmeno figura-fundo indicam que os fatores continuidade, proximidade, incluso, 
similaridade, contraste e destino comum so os que mais diretamente o influenciam. 
Esses fatores so conhecidos como os princpios da Gestalt. 
A melodia de uma sinfonia  um exemplo de continuidade. Outro exemplo  dado pela 
Figura 9.2 

Figura 9.2. Exemplo de continuidade 
A proximidade caracteriza-se por estmulos apresentados muito prximos, 
que tendem a confundir-se, como na Figura 9.3. 

Figura 9.3. Exemplo de proximidade 
263



Figura 9.4. Exemplo de camuflagem 
O fenmeno da similaridade ocorre quando as coisas tendem a ser percebidas como um 
grupo,  medida que apresentam caractersticas semelhantes, 
como na Figura 9.5.  

Figura 9.5. Exemplo de similaridade 
O contraste faz ressaltar a forma diferente em relao ao todo. Um nico tringulo, por 
exemplo, destaca-se entre vrios crculos. Na Figura 9.6. pode-se observar outro exemplo 
de contraste. 

Figura 9.6. Exemplo de contraste 
Iluses. Os estudos de percepo (Mueller-Lyer, entre outros) indicaram que a 
organizao das figuras em todos pode levar a certas distores na percepo das 
propriedades das partes. Ao se avaliar, por exemplo, o comprimento de duas linhas 
iguais, com setas em diferentes posies nas suas extremidades, h uma tendncia para 
perceber as linhas (Mueller-Lyer) como de tamanhos diferentes. 

A camuflagem, considerada um exemplo de incluso, dificulta a percepo de uma coisa, 
destruindo sua configurao por meio de uma figura mais inclusiva. 
264 



Figura 9.7. Iluses de tamanho 
Figura 9.9. Iluses: linhas que se interceptam. As linhas horizontais parecem curvas? 
Uma rgua mostrar que so retas. 

Figura 9.8. Iluses de contexto. (a) Qual o crculo central que parece maior? Na realidade, 
ambos so do mesmo tamanho. (b) Qual a figura que parece maior? Ambas so do 
mesmo tamanho. 

265 





Constncia 
Um dos problemas mais importantes apresentados pelo estudo da percepo dos objetos 
 o fenmeno da constncia, isto , a tendncia para perceber um objeto como sendo o 
mesmo em diferentes condies, apesar de produzirem diferentes imagens perceptivas. 
O fenmeno da constncia  observado quanto ao tamanho,  cor,  forma e s 
tonalidades. Exemplos de constncia podem ser observados quando um objeto de cor 
preta, visto em diferentes intensidades de luz, continua sendo percebido como objeto de 
cor preta. O mesmo fenmeno  observado quando um objeto  visto em diferentes 
ngulos e mantm a sua forma. Exemplo: ao olhar uma mesa retangular de diferentes 
ngulos, a percepo de que a mesa  retangular  mantida. Outro exemplo de constncia 
da forma  observado quando se apresenta um objeto da mesma forma, constitudo de 
elementos diferentes, conforme mostra a Figura 9.10. 

Figura 9.10. Exemplo de constncia da forma 
Constncia e distoro visual 
Os experimentos que melhor comprovam o fenmeno da constncia so aqueles em que, 
apesar de ocorrer uma distoro do campo visual, os individuos continuam mantendo 
constante a percepo dos objetos observados. O exemplo mais marcante do fenmeno 
da constncia foi encontrado com sujeitos que usavam lentes que invertiam 
completamente o campo visual e, apesar disso, comunicavam sua percepo do objeto 
de uma forma no invertida. O fenmeno da constncia explica em grande parte a 
estabilidade que os individuos atribuem ao mundo exterior. 
Motivao e sua influncia na percepo 

Os estudos realizados por psiclogos sobre a influncia da motivao no processo de 
percepo identificam os fenmenos denominados vigilncia e defesa. A esses 
fenmenos esto ligadas as dificuldades que os individuos tm para perceber estmulos 
geradores de ansiedade, de tenses e de angstias. As expectativas de desprazer ou 
sofrimento podem diminuir a probabilidade de uma percepo, apesar de os estmulos, 
situaes ou eventos constiturem uma 
266 



clara indicao de suas propriedades. Muitas vezes as situaes esto claras para os 
outros e permanecem obscuras para o indivduo emocionalmente envolvido, porque ele 
no se permite perceb-las. A percepo de uma situao ou objeto complexo exige que 
a ateno seja voltada para os seus diferentes aspectos. O fato de se dar ateno a um 
aspecto particular de um objeto ou de uma situao complexa limita sua percepo. At 
certo ponto, a seletividade perceptual explica as diferenas individuais na percepo de 
uma mesma situao ou objeto. Na mesma situao, pessoas diferentes percebem 
objetos e situaes de formas diferentes e, em situaes diferentes, a mesma pessoa 
poder perceber objetos, pessoas e a prpria situao de maneiras diversas. 
Decodificao 
Segundo Newcomb (1965), outro aspecto importante do processo perceptual  a 
decodificao, isto , a tentativa de integrar s informaes j recebidas no passado e 
armazenadas a informao que se recebe no presente, dando a elas um significado 
prprio. Decodificao e seleo perceptiva no so inteiramente independentes; a 
decodificao sofre influncias dos mesmos fatores que influenciam a seleo perceptiva. 
Newcomb observa que, embora existam diferenas tanto no processo de seleo 
perceptiva quanto no processo de decodificao, a maioria das pessoas geralmente 
seleciona e decodifica de forma semelhante, o que garante a intercomunicao e a 
colaborao humanas. Ainda segundo Newcomb, as diferenas no processo de 
decodificao so ocasionadas, na maioria das vezes, primeiro pelas caractersticas das 
informao e segundo pelas caractersticas da pessoa que recebe a informao. 
As dificuldades ligadas  informao podem ser geradas pela ambigidade e pela 
redundncia. A informao ambgua pode apresentar-se de forma pouco definida e pouco 
estruturada. Considera-se a informao redundante quando se repete o mesmo contedo 
informativo dentro de uma mesma mensagem. Quando a informao  ambgua, a 
decodificao toma formas diferentes para as diversas pessoas. Um exemplo de 
ambigidade que leva  diversificao das percepes  a ambigidade da figura-fundo. 
Figura 9.11. Figuras ambguas ou reversveis. Podem-se ver um vaso ou duas faces. 
267 



Percepo social 
O processo perceptivo que envolve outra pessoa como objeto de percepo tem 
caractersticas prprias e complexas. Difere do processo perceptivo de objetos e eventos 
porque o objeto percebido, ou seja, a pessoa, tambm percebe. Como pessoa, tem 
atitudes, motivos prprios, caractersticas de personalidade e outras caractersticas 
individuais relativamente estveis. A pessoa percebida est, juntamente com a pessoa 
que a percebe, percebendo a si prpria. A pessoa que percebe, por sua vez,  tambm 
objeto de percepo da pessoa que ela percebe. Por outro lado, a pessoa percebida e a 
pessoa que percebe modificam-se durante o processo da percepo. No s a pessoa 
que percebe influencia a percepo do outro, mas a outra, a pessoa que est sendo 
percebida, tambm influencia o processo de percepo de quem a percebe. 
interao social e percepo social .
A percepo social, mais do que qualquer outra, envolve processos transacionais entre a 
pessoa que percebe e o objeto de sua percepo. O processo perceptual e interpessoal 
ocorre no inicio da interao das pessoas e continua no curso dessa interao. H uma 
dinmica e uma influncia mtuas entre a pessoa que percebe e a que  percebida. 
Segundo Newcomb, duas pessoas em interao possuem os mesmos estados 
psicolgicos. Isso quer dizer que ambas esto conscientes uma da outra e da matria de 
interesse comum imediato. Ambas tm conscincia de que cada uma possui seus 
motivos, suas atitudes e caractersticas individuais, que no so as mesmas. As 
diferenas e as similaridades de motivos e atitudes, segundo Newcomb, so comumente 
preocupaes das pessoas no processo de inter-relacionamento. 
Problemas da pessoa que percebe e da que  percebida. 
No processo de percepo social pode-se observar problemas relativos  pessoa que 
percebe e  pessoa percebida. Newcomb e Converse, ao identificarem esses problemas, 
indicam que a pessoa que percebe tem a necessidade de procurar na pessoa percebida 
uma constncia similar quela que tm os objetos no tocante  cor, forma e tamanho. As 
atitudes, as capacidades e as caractersticas de personalidade da pessoa percebida so, 
de certo modo, as constncias que a pessoa que percebe procura identificar e organizar 
de tal forma que se constituam numa representao organizada da outra pessoa. 
Para formar esta representao, no entanto, a pessoa que percebe segue certos 
indicadores e, ao selecionar esses indicadores na pessoa percebida, no escapa  
influncia de alguns fatores extrapessoais. Entre estes, Newcomb considera trs como 
principais: primeiro, a impresso que se tem da pessoa percebida; segundo, as 
caractersticas que sobressaem em conseqncia do contexto em que a pessoa 
percebida est inserida; e, finalmente, aquilo que mais 
268 



freqentemente a pessoa percebida apresenta (estado emocional, comportamento etc.). 
Por outro lado, afirma que a pessoa que percebe  influenciada por fatores intrapessoais 
ao selecionar aquilo que percebe no outro: a sensibilidade do indivduo a certos tipos de 
indicadores varia segundo seu estado psicolgico. As atitudes e opinies formadas sobre 
determinados assuntos tambm influenciam o que se vai perceber. 
A tendncia a perceber certas caractersticas de personalidade como agrupadas  outro 
fator da natureza da pessoa que percebe, que influencia sua percepo interpessoal. 
Essa tendncia leva geralmente a perceber de forma semelhante pessoas do mesmo 
grupo racial ou social. 
As caractersticas de personalidade mais estveis da pessoa que percebe so tambm 
consideradas como fatores que influenciam sua percepo. 
interao de fatores intra e extrapessoais no processo de percepo social 
Em suma, o processo de percepo social  para Newcomb um processo em que fatores 
intra e extrapessoais se interpem e se influenciam mutuamente. Segundo ele, a pessoa 
que percebe  afetada tanto por suas prprias caractersticas quanto pelas circunstncias 
fora dela, incluindo o objeto de sua percepo, isto , a outra pessoa. 
Cantril (1972), ao analisar a percepo, enfatiza a sua dependncia dos pressupostos 
que cada um de ns leva para qualquer situao particular. Isto, segundo ele, significa que 
os sentidos e os significados atribudos s coisas, aos smbolos, s pessoas e aos 
eventos so construdos na experincia passada das pessoas e no so inerentes ou 
intrnsecos ao estmulo propriamente dito. 
A Figura 9.12 sumariza a interao de fatores na percepo interpessoal, descrevendo a 
interao entre dois indivduos denominados pessoa e outro. Os dois crculos inferiores no 
diagrama representam o mundo interior de cada um e a parte superior representa o 
contexto da interao, como realmente . Referir-se s coisas como realmente so, 
porm,  assumir a suposio simplista de que existe uma realidade objetiva. O que 
existe pode ser chamado realidade consensual, isto , uma situao como  vista por 
vrias pessoas. 
Nota-se que os comportamentos da pessoa e do outro so partes da situao real e 
podem ser observados. O comportamento no foi mostrado como parte da situao real, 
de modo que a Figura 9.12. pudesse ser focada mais claramente. Quando se refere s 
coisas como elas realmente so, est-se partindo de uma suposio simplista de que 
existe uma realidade objetiva. Essa realidade, entretanto, poder ser chamada mais 
corretamente de realidade consensual, isto , a situao vista por vrias pessoas. As 
setas n 1 representam influncia dos elementos conscientes e inconscientes, um no 
outro. As setas ns 2, 3 e 4 mostram os diferentes nveis de interao nos quais o 
comportamento e os estados interiores de uma das pessoas  modificado pelo 
comportamento da outra. A seta n 2 representa as trocas que possam ocorrer entre a 
269 



pessoa e o outro, no nvel do consciente. Essas trocas envolvem elementos que a pessoa 
envia conscientemente e o outro recebe conscientemente, e vice-versa. Essas trocas so 
relativamente claras para ambas as partes, mas podem ser fontes de dificuldades. As 
setas n 3 so trocas entre o nvel consciente de uma das pessoas com o nvel 
inconsciente da outra. Isto mostra a possibilidade de a pessoa enviar conscientemente 
informaes ao outro que, por sua vez, no tem conscincia de a estar recebendo. A seta 
n 4 representa trocas entre os nveis inconscientes, O mundo interior da pessoa, afetado 
pelas aes do outro, influncia essa que no  reconhecida nem pela pessoa nem pelo 
outro. As setas n 5 influenciam em ambas as direes porque, ao mesmo tempo em que 
o contexto influencia a pessoa e sua percepo, o seu mundo interior tambm contribui 
para a sua viso do contexto. 
Figura 9.12. Modelo de percepo interpessoal. (Adaptado de Hadley Cantril em Walter 
Nord. Concepts and Controversy in Organizational Behavior. p. 21.) 
270 



Cantril relaciona a aquisio da percepo aos objetivos e ao que  importante para cada 
pessoa. Portanto, nossa percepo est fundamentalmente influenciada no s pela 
experincia passada, mas tambm pelos nossos motivos, valores e atitudes. Por outro 
lado, mostra a subjetividade de nossas percepes. Para ele, a percepo  em grande 
parte uma questo de pesar probabilidades, de fazer adivinhaes, de conjecturar acerca 
do que est l e de qual deveria ser nossa reao em relao quilo para que 
possamos proteger-nos, ou preservar nossas satisfaes, ou aument-las. Esse processo 
envolve uma busca de constncias. Procura-se atribuir certas caractersticas consistentes 
e passveis de serem repetidas. E atravs dessas constncias que se cria o nosso 
prprio mundo de realidade. O estudo do processo perceptivo pode levar-nos a concluir 
que cada um de ns cria o seu mundo prprio de realidade, e que este mundo prprio da 
realidade, tal como o sentimos, inclui nossos medos e esperanas, nossas frustraes e 
aspiraes, nossas ansiedades e a nossa prpria f. 
Processos cognitivos 
A palavra cognio vem do latim cognare, que significa conhecer. A cognio implica um 
processo consciente visando  aquisio de novos conhecimentos. Isto significa que 
apenas o comportamento racional  de natureza cognitiva. As pessoas possuem sistemas 
de cognio que representam aquilo que elas sabem sobre si mesmas e sobre o mundo 
que as rodeia. Os sistemas de cognio so desenvolvidos atravs dos processos de 
cognio. Esses processos abrangem a percepo, a memria, a imaginao, o 
raciocnio ou pensamento e a soluo de problemas. 
 Tenso 
 Presso grupal 
 Interao 
 Papis 
 Grupos de referncias (profissionais, sindicais etc.) 
 Cargo e atividade na organizao 
 Sistema de remunerao 
Figura 9.13. A formao da percepo e sua influncia no comportamento. Fonte: 
Joseph A. Litterer. Anlise das Organizaes. So Paulo, Atlas, 1977, p. 90. 
271



Percepo  Os estmulos externos captados pelo processo perceptivo e transformados 
em imagens mentais so os elementos bsicos para a aquisio de novos 
conhecimentos. 
Memria  A memria tambm desempenha um importante papel na aquisio de 
conhecimentos. O sistema da memria  um conjunto de mecanismos comuns para 
armazenar a informao. Os estudos realizados na rea do pensamento dividem a 
memria em dois vastos sistemas, que constituem os tipos de memria. O primeiro  a 
memria ativa, isto , a que contm os itens ou representaes mentais em estado ativo. 
Esse sistema  muito limitado porque a prpria natureza humana estabelece um limite  
sua capacidade de manter ativas essas representaes. O segundo  a memria a longo 
prazo, onde se localiza o restante da capacidade humana da memria. No h uma 
distino absoluta nem precisa entre um sistema e outro, ou seja, entre a memria ativa e 
a memria a longo prazo. O importante, porm,  a distino de funo dos dois 
sistemas: enquanto a memria a longo prazo  mais esttica, a memria ativa permite o 
relacionamento de percepes novas, ou seja, imediatamente adquiridas. A memria 
ativa pode ser de dois tipos. Pode-se constituir de novos itens que so apresentados a 
um dos sentidos, ou de representaes mentais e itens elaborados e armazenados 
anteriormente. A limitao de memria ativa representa uma restrio na capacidade de 
resolver problemas. O mais importante da memria  o que se denomina codificao de 
itens, que se refere  forma qualitativa da informao. O termo imagem refere- se a uma 
representao interna, que apresenta uma correspondncia muito prxima  experincia 
que a provoca. 
As imagens podem ser visuais, tambm chamadas cdigos icnicos ou 
auditivas, denominadas cdigos ecicos. 
O pensamento ou raciocnio 
Os estudos do pensamento mostram que h uma diferena entre a percepo de 
informaes e a imaginao. Os mecanismos usados para perceber 
informaes so diferentes dos usados para imaginar. 
A abstrao, elemento fundamental do pensamento, difere da recordao, que  o trazer 
de volta as imagens anteriormente armazenadas. Abstrair no  reproduzir eventos 
anteriores, mas identificar a forma geral dos eventos.  essa abstrao que permite, por 
exemplo, falar em revoluo russa e em revoluo industrial como coisas que possuem 
uma caracterstica comum. 
A abstrao da forma geral dos eventos permite que sejam representados 
de uma forma capaz de possibilitar uma ao inteligente das pessoas. 
O processo de memria tem, alm das funes de isolar e de preservar imagens, a 
funo de abstrair e de estabelecer relaes, possibilitando com esta funo as bases 
para o trabalho intelectual. Essa capacidade abstrativa  denominada formao de 
conceito. O pensamento  definido como uma atividade rigorosa e altamente reflexiva, por 
meio da qual se tenta resolver um problema 
272 



complexo. Pensamento , para Posner (1973), a consecuo de uma nova representao 
atravs da realizao de operaes mentais. A representao na memria das 
informaes percebidas no , afirma ele, uma base suficiente para o pensamento. Deve-
se ser capaz de reorganizar a informao a fim de resolver problemas, desenvolver novas 
estruturas e de interpretar o mundo que nos rodeia. Para que isto seja conseguido,  
necessrio operar sobre as estruturas armazenadas na memria de maneira anloga  
do carpinteiro transformando a madeira. A operao mental  uma transformao interna 
da informao de uma para outra forma. 
Operaes mentais 
As operaes mentais representam importantes elementos do processo do pensamento. 
O pensamento envolve a capacidade de pensar, manipular ou organizar elementos no 
ambiente por meio de simbolos. Os simbolos usados pelos seres humanos so inmeros. 
Entre eles, podem ser identificados as palavras, os nmeros, as figuras, os gestos etc. H 
diferentes tipos de pensamento, que se apresentam de formas diversas. 
O fato de o pensamento envolver a manipulao de simbolos internamente, sem 
estimulao externa, caracteriza-o como a atividade superior e .mais complexa que o 
homem realiza. Segundo Piaget, o pensamento desenvolve-se  medida que se elaboram 
as estruturas cognitivas, isto ,  medida que se organizam os conjuntos de fatos, 
conceitos e generalizaes que foram aprendidos por cada indivduo.  formada e 
transformada no decorrer da vida do indivduo. O reconhecimento por parte da criana de 
que a massa total ou a quantidade de matria de um objeto permanece a mesma quando 
a forma do objeto se modifica implica uma certa estrutura cognitiva. O reconhecimento de 
que o peso permanece inalterado implica a mesma estrutura (Flavell,1975). 
Desenvolvimento cognitivo 
Para Piaget, h uma evoluo qualitativa das estruturas cognitivas, isto , da mais simples 
 mais complexa. O processo de assimilao e de acomodao  fundamental no 
desenvolvimento do pensamento. Estmulos externos so assimilados e acomodados na 
estrutura cognitiva. A atividade inteligente  sempre um processo ativo e organizado de 
assimilao do novo ao velho e de acomodao do velho ao novo, afirma Piaget. Para ele 
(Piaget), nem todos os seres humanos normais conseguem desenvolver estruturas 
cognitivas capazes de elaborar pensamentos superiores, ou seja, desenvolver sua 
capacidade humana integralmente. A elaborao das estruturas cognitivas ocorre atravs 
da interao indivduo-meio e depende do desenvolvimento neurolgico e da estimulao 
adequada do meio. Sem essa estimulao, muitos individuos jamais atingiro 
integralmente sua realidade mental. O pensamento , portanto, compreendido como 
aprendizagem do emprego de categorias abstratas ou conceitos. 
273 



O desenvolvimento intelectual (Flaveli, 1975) , portanto, um movimento que vai do 
desequilbrio ao equilbrio das estruturas mentais. 
 um processo de organizao, onde operaes intelectuais ativas so organizadas; sua 
organizao em sistemas com estruturas bem definidas  o sine qua non para que haja 
uma boa cognio, ou seja, uma cognio evolutivamente mais madura. O estudo do 
processo do pensamento aponta trs tipos fundamentais: 
1. o raciocnio dedutivo, em que basicamente se combinam conhecimentos previamente 
obtidos, retirando-se deles uma concluso; 
2. o raciocnio indutivo, que parte do conhecido, formulando-se novas hipteses acerca do 
que as observaes futuras podem revelar; 
3. o raciocnio avaliativo ou crtico, que , em ltima anlise, o julgamento de uma idia ou 
de um produto. 
Soluo de problemas 
A soluo de problemas como um dos processos cognitivos tem sido conceituada como a 
busca de uma resposta em uma situao nova, em que o individuo  motivado a alcanar 
determinado objetivo, sendo bloqueado por um obstculo. Os estudos de soluo de 
problemas como um processo cognitivo tm demonstrado a importncia da 
representao inicial do problema e do uso sistemtico das operaes mentais 
orientadas por um plano fundamental na sua soluo. Posner, ao estudar os processos de 
soluo de problemas e de produo de criaes cientificas e artsticas, mostra que tais 
processos so usados por individuos em diferentes estgios. A interpretao do 
problema, a elaborao de um plano de solues e a escolha entre as vrias solues 
so os estgios indicados por ele. Para ele, esses estgios so muito mais importantes 
na fase da organizao da discusso da soluo do problema do que na fase da soluo 
do problema propriamente dito. Posner enfatiza como ponto importante para a 
interpretao do problema a representao que  usada. Essa representao pode ser 
influenciada pelo prprio enunciado do problema e/ou pelas caractersticas da pessoa 
que est tentando resolv-lo. 
Um fator importante que tem sido apontado na soluo de problemas  a sua prpria 
representao: tem sido mostrado que certos problemas, aparentemente difceis de 
serem resolvidos quando representados de determinada forma, podem ser solucionados 
facilmente quando se muda a representao. Outro fator no processo de soluo de 
problemas considerado importante  a qualidade e a quantidade de informaes sobre os 
mesmos. Muitos problemas s podem ser resolvidos  medida que outras informaes 
sejam adicionadas s j existentes. Posner indica que essas informaes podem ser 
oriundas da prpria memria do individuo ou do meio externo. O processo de soluo de 
problemas  tambm influenciado pelo fenmeno denominado incubao, ou seja, 
perodo de desligamento emocional ou retardo da soluo do problema. Os indivduos, ao 
se desligarem emocionalmente dessa preocupao, podem, em algumas situaes, 
encontrar a soluo procurada. 
274 



Influncia dos fatores individuais 
Vrios fatores tm sido apontados como os que influenciam, positiva ou negativamente, o 
processo de soluo de problemas. Mental set, ou sej a, o momento particular do 
indivduo, em que ele  capaz de captar determinados tipos de percepes e 
pensamentos mais do que outros,  um dos fatores apontados como influenciador na 
soluo de problemas. Esta tendncia perceptiva e de raciocnio poder dar uma grande 
contribuio  soluo do problema,  medida que se enquadrar na natureza do problema 
a ser resolvido. Se isto acontecer, ela ser um empecilho para sua soluo. Essa rigidez 
mental impede o indivduo de ver o problema sob ngulos diferentes e  por esta razo 
que muitas vezes a participao de terceiros contribui para a soluo mais adequada do 
problema. Outro tipo de dificuldade apontada no estudo do processo de soluo do 
problema  a fixao funcional. Esse tipo de dificuldade  caracterizado pela 
incapacidade de a pessoa usar instrumentos ou elementos conhecidos para resolver o 
problema. A experincia passada  outro fator que pode tanto contribuir para a soluo do 
problema como prejudic-la. A utilizao da experincia passada, transpondo-a de uma 
maneira simplista para a situao presente, torna-se um fator negativo, mas a utilizao 
de conceitos e de generalizaes formada em situaes passadas, como instrumentos 
potenciais para situaes similares, dar melhores condies para solues mais 
adequadas do problema. O contexto pessoal do individuo, seus valores, suas crenas e a 
relao destes com o problema a ser resolvido, conforme se tem demonstrado, so 
fatores predominantes na sua soluo. Quanto maior for a identificao de valores e 
crenas do indivduo com a natureza do problema, mas fcil resolvlo. O envolvimento 
emocional  um dos fatores que dificultam a soluo do problema, por aumentar a 
subjetividade e bloquear o raciocnio, e por gerar frustrao e stress, que bloqueiam a 
identificao de solues cognitivas. 
Criatividade 
A criatividade tem sido confundida com a irrealidade. Tem-se tomado como criativo algo 
no operacional. Criatividade, entretanto, do ponto de vista psicolgico,  a ocorrncia do 
que no  comum ou usual, mas que  apropriado, que  prtico e capaz de ser aplicado 
e operacionalizado. A possibilidade de aplicao de inovao  uma das caractersticas 
da criatividade, assim como a originalidade. Outra caracterstica da criatividade  que ela 
 de natureza adquirida e no hereditria. A criatividade  uma capacidade que pode ser 
adquirida e desenvolvida. Por outro lado, a criatividade tem sido desenvolvida como uma 
caracterstica dos gnios, o que  uma abordagem elitista e no verdadeira. Como a 
prpria conceituao da criatividade indica, ela  uma capacidade adquirida que envolve 
inovar, criar, no sendo necessrio ser dotado de inteligncia privilegiada. As pessoas de 
inteligncia normal podem ser criativas. A criatividade distingue-se muito mais pelos 
interesses, atitudes e motivos das pessoas do que pelas suas habilidades intelectuais. As 
pessoas 
275 



criativas demonstram, geralmente, uma preferncia cognitiva pela complexidade. So 
pessoas que manifestam independncia em suas atitudes e comportamentos e no se 
preocupam acentuadamente com as opinies e impresses dos outros sobre elas. So 
mais sensveis e geralmente explicitam mais freqentemente seus sentimentos e 
emoes. Pelo fato de serem mais sensveis ao mundo e s coisas e de explicitarem 
emoes e sentimentos mais abertamente, podem ser marcadas, dentro do contexto mais 
amplo, como pessoas emocionalmente desajustadas. 
Os processos cogntivos e o comportamento humano na organizao 
A percepo  bsica para a compreenso do comportamento porque  por meio do 
processo perceptivo que as pessoas constituem sua realidade.  com base no que  
percebido que elas raciocinam, tomam decises, agem. A percepo  influenciada, 
como j foi discutido, por fatores internos de cada indivduo e por fatores ambientais. Na 
organizao observa-se uma constante interao entre os valores, atitudes, motivos e 
caractersticas da personalidade dos indivduos com fatores ambientais como estrutura da 
organizao, valores e objetivos, diviso do trabalho, grupos organizacionais, tecnologia, 
cargo e atividades, sistemas de remunerao, poltica e diretrizes, grupos de referncia 
etc. O simples fato de um indivduo ocupar determinada posio no espao organizacional 
limita o seu acesso  organizao como um todo e  quantidade e qualidade de 
informaes que poder receber. A limitao da informao, conseqentemente, afetar 
seu campo perceptivo, restringindo-o. Este fenmeno de limitao perceptiva  
denominado por Kartz e Kahn (1967) como centrismo de sistema dos membros da 
organizao. A posio organizacional, portanto, influencia o que o indivduo percebe. A 
natureza e a intensidade das tenses organizacionais so fatores que tambm podem 
modificar a percepo dos membros de uma organizao,  medida que geram estados 
emocionais; estes, por sua vez, influenciam a percepo de outras pessoas e situaes. 
Presses grupais e percepo 
A presso grupal pode tambm limitar a possibilidade de o grupo integrar as diferentes 
energias ou informaes que seus membros possam trazer para o mesmo.  medida que 
o sistema organizacional permite maior interao entre os membros das diferentes 
unidades organizacionais, o campo perceptivo de seus membros ser ampliado. Se, ao 
contrrio, a interao for confinada no interior de unidades organizacionais, o processo 
perceptivo dos individuos ser limitado, especialmente se tratar de pessoas com a 
mesma formao e/ou experincia profissional. 
A percepo seletjva atravs de identificao com grupos de referncia pode ocorrer de 
duas formas. Na primeira situao, as pessoas pertencem a grupos profissionais ou 
ideolgicos. Esta afihiao influencia a sua percepo 
276 



de problemas e do mundo. Na segunda, so grupadas num mesmo espao 
organizacional e desempenham papis semelhantes. Em ambas as situaes, reforam-
se mutuamente na manuteno de um quadro de referncia comum em relao aos 
problemas e percepes. Os grupos profissionais, quer seja dentro, quer seja fora das 
organizaes, geralmente exercem uma influncia nas percepes de seus membros. O 
importante  reconhecer a sua influncia. 
Diviso do trabalho e percepo 
A diviso do trabalho na organizao e a atividade de cada um de seus membros so 
fatores que tambm afetam a informao que estes recebem. Essa diferenciao de 
informao contribui para a distoro das percepes do ambiente, mesmo antes de 
estas serem influenciadas pelas caractersticas individuais das pessoas. Cada membro 
da organizao v uma parte diferente do mundo organizacional. 
Caractersticas individuais e percepo 
Os valores individuais, os sentimentos, as emoes, os medos, os desejos inconscientes, 
a experincia passada, o nvel de desenvolvimento cognitivo e o grau de maturidade 
psquica so fatores individuais que influenciam o processo perceptivo de cada indivduo. 
Isto significa que existem mecanismos internos que impedem ou distorcem a percepo 
de determinados fatos, situaes e idias. A barreira  percepo poder ser ocasionada 
pela rejeio ao desprazer; isto se d pela fuga, pela negativa inconsciente do indivduo 
em perceber a sua realidade interna e a externa. 
Em situaes ameaadoras, de abandono, de medo da morte fisica e psquica o indivduo 
se afasta da realidade e perde sua objetividade. 
Entretanto, as caractersticas individuais podero ser afetadas por mecanismos externos 
de represso que atuam no nvel psicolgico do indivduo. 
Elementos repressores como o mito da excelncia, o da produtividade, as exigncias de 
metas a serem cumpridas, atuam sobre os desejos inconscientes (de ser amado, de 
busca do poder, de segurana etc.) levando-o a distorcer a sua percepo da realidade, 
quer interna, quer externa. Ele passa a acreditar na fantasia criada por ele que a sua 
realizao e segurana esto no alcance das metas da organizao, na adequao s 
normas e padres de conduta por ela estabelecidos. A fuga da realidade e o refgio na 
fantasia resulta do mecanismo de distoro e falsificao da percepo e da formao da 
falsa conscincia, portanto da atuao de mecanismos exteriores (represso) e de 
mecanismos internos do indivduo (defesa). 
A concluso que se pode tirar  que existe uma estreita relao entre caractersticas 
individuais e meio social, quando se tenta compreender o processo perceptivo. A forma 
pela qual o contedo e o contexto no qual ele  passado so componentes que atuam 
diretamente no indivduo e sobre os seus mecanismos internos. 
277 



As condies externas podem, portanto, prejudicar ou facilitar o processo perceptivo do 
indivduo. 
A formao de imagens perceptivas, a formao de conceitos, o armazenamento de 
informaes, o desenvolvimento do pensamento e a ao inteligente dependem do 
processo perceptivo e de suas caractersticas que, como foi discutido, sofrem influncias 
das caractersticas do indivduo e do meio social no qual est inserido. 
A organizao, a maturidade psquica e o desenvolvimento mental 
H um dinamismo interno, individual e especifico a cada indivduo no seu processo de 
desenvolvimento cognitivo e de maturidade psquica. Entretanto, o individuo, como ser 
social, no vive no vcuo. Sua relao com o meio social  inerente  sua prpria 
existncia. Como foi analisado anteriormente, o indivduo no  feito pelo meio, como 
tambm no se pode dizer que no necessita do meio social para seu desenvolvimento 
psquico, no  feito pela hereditariedade. Na realidade ele, indivduo, se desenvolve no 
processo de atuar sobre o meio social. E este ltimo, o meio externo, poder ser um 
elemento facilitador e incentivador, ou torna-se um inibidor e mesmo uma barreira ao seu 
desenvolvimento (do indivduo). 
 correto, portanto, dizer que as mudanas qualitativas das aes humanas representam 
um ato de vontade individual, portanto do individuo, da pessoa, mas dependem das 
condies do meio social que podem impedi-las, barrlas ou facilit-las. O indivduo 
deveria ter a possibilidade de realizar operaes mentais diferenciadas, capazes de no 
seu processo de desenvolvimento cognitivo, lev-lo a estruturas cognitivas 
qualitativamente superiores. 
Retomando o raciocnio anterior, poder-se- perguntar: por que, para melhorar a 
qualidade de um produto, o individuo necessita ter uma complexa estrutura mental e uma 
compreenso to ampla? O exemplo dado tenta relacionar uma ao consciente e em 
que contexto se d, onde se sabe o que  e por que . A mudana de conduta  uma 
mudana inteligente (l-se consciente). A conscincia resultante de um processo cognitivo 
superior est correlata  conscincia moral autnoma e  responsabilidade individual. A 
qualidade poder ser compreendida como uma responsabilidade moral, um dever do 
cidado, do individuo enquanto funcionrio de uma organizao e enquanto membro de 
uma sociedade. A qualidade no ser resultante da percepo induzida dos objetivos de 
lucro da empresa como sendo a prpria realizao do indivduo (deslocamento de desejo 
individual) nem porque existem prmios. 
Organizao como meio social e sua funo 
Na sociedade atual, em que os individuos passam cada vez mais a maior 
parte do seu tempo nas organizaes, estas passam a exercer uma influncia 
no desenvolvimento da capacidade mental do indivduo. 
278 



O desenvolvimento econmico e social de um pais, o exerccio democrtico do governo 
(voto consciente) dependem em grande parte da capacidade mental e do nvel de 
maturidade psquica de seus membros. No se pode ignorar que o nvel intelectual e 
cultural dos indivduos tem seus pressupostos nos estgios cognitivos e de maturidade 
psquica em que estes indivduos se encontram. 
A modernizao das organizaes, o alcance dos seus objetivos de lucro, de 
produtividade, o seu nvel de qualidade e de sua competitividade requerem um repensar 
da funo da organizao enquanto meio social facilitador ou bloqueador do 
desenvolvimento mental do individuo. 
Quando se fala na conscientizao do indivduo para a qualidade, dever-se- ia estar 
pensando num indivduo capaz de perceber e compreender o significado da qualidade 
para ele, para a empresa e para a sociedade, a sua relao com a empresa e com a 
sociedade e vice-versa. Em outros termos, ele no deveria ser movido na sua ao por 
meio de incentivos para a melhoria da qualidade oferecidos pela organizao ou pelo 
medo da demisso e da represso externa. A competncia mental, a possibilidade de 
realizar operaes mentais e complexas vem atrelada  maturidade psquica,  
capacidade de se ver e de perceber a realidade externa e de agir adequadamente 
enquanto indivduo, pessoa nica. 
As estruturas cognitivas desenvolvidas so necessrias para que, com que foi percebido, 
o individuo possa relacion-lo, estrutur-lo, elabor-lo.  um processo individual mas num 
contexto social. 
E este contexto social, a organizao, tem um papel importante nesse processo. 
Para que se possa entend-lo, a organizao ter de ser abordada enquanto realidade 
prtico-concreta: seus objetivos, sua cultura, seus valores polticos, suas diretrizes, sua 
estrutura, seus membros, a diviso hierrquica, a estrutura de poder, seus sistemas 
gerenciais de produo, de salrios, de incentivos, seu ambiente fisico e social. Ela  
uma instituio, uma realidade concreta e dinmica em interao interna e externa. 
A melhoria da qualidade na organizao se transformar num mecanismo da prpria 
melhoria da capacidade mental se permitir o espao para o desenvolvimento mental dos 
indivduos num processo de reflexo autnomo, livre de coao externa. 
Mecanismos de represso 
Os mecanismos de represso (externa) mais comuns nas organizaes so os padres 
culturais impostos compulsoriamente, os controles emocionais via tcnicas participativas; 
normas e procedimentos; objetivos e metas da organizao (introjetados pelos individuos 
como desejo individual de poder e sucesso); sistema gerencial coercitivo (administrao 
por objetivos, gerncia de excelncia, gerncia situacional, team-building, grupos 
participativos etc.); treinamento gerencial e operacional direcionados para padronizao 
cognitiva, induo e manipulao emocional. 
279 



Caractersticas da organizao 
O modelo atual, nas organizaes, est centrado na premissa do controle mental, via 
padronizao de pensamento, distoro da percepo da realidade interna e externa.  o 
modelo da dominao psquica. Este modelo, entre tanto, resulta num comprometimento 
emocional do indivduo com a organizao. 
Conseqncias para o indivduo 
Esse comprometimento  forjado na cegueira psquica e na estagnao mental. O 
indivduo se ilude quanto  sua realizao pessoal e se impede de desenvolver suas 
capacidades mentais. 
Conseqncias para a organizao 
A organizao obtm como resultado uma grande massa de seguidores obedientes com 
seu potencial e energia psquica bloqueados. A organizao, para manter o poder 
inquestionado, busca mecanismos ilegtimos de controle psquico; ao faz-lo, entretanto, 
deixa de canalizar um potencial criativo e inteligente que viria benefici-la na sua 
modernizao, nos seus lucros, na sua competitividade, na sua qualidade enquanto 
produtora de bens e/ou servios. 
Percepo e falsificao da conscincia 
Na distoro da percepo certas caractersticas dos fatos em objetos, o individuo no 
consegue captar. 
Outra fonte de distoro da percepo  retirar o objeto ou o fato do seu contexto e isol-
lo. O individuo no capta as relaes existentes entre o objeto ou fato e os demais 
elementos que o rodeiam. Por outro lado ele pode deixar de captar determinados 
elementos significativos das situaes, coisas ou fatos. 
A teoria freudiana aponta o Principio do Prazer, ou seja, a busca da satisfao do prazer 
e a fuga ao desprazer como um fator importante no processo de distoro da percepo 
do indivduo. Para Freud, significa que a percepo como elemento bsico da elaborao 
do conhecimento e da formao da conscincia interna e da realidade externa, impulsiona 
em direo de uma ao coerente com esta conscincia. 
Explica-se a fuga  conscincia da realidade, tanto interna quanto externa, por meio da 
distoro das percepes quando estas possam vir a representar algum risco ou conflito 
entre a satisfao do prazer e uma possvel perda deste prazer. 
Nas organizaes, a percepo de que os desejos individuais foram substitudos pelos 
desejos que a organizao impe e manipula poder levar o individuo a uma ao de 
busca da satisfao de seus desejos pessoais e um conflito entre ele e a organizao. 
280 



A organizao, a partir dos desejos humanos de uma forma mais generalizada, como o 
desejo de ser amado, reconhecido, e o desejo de poder, passa informaes e manipula a 
fantasia do indivduo. Dar sentido  vida passa a ser, para ele, vencer profissionalmente, 
ter uma capacidade de trabalho sempre maior, atingir objetivos organizacionais cada vez 
maiores: Este dar sentido traz implcita a fantasia de que vai ser reconhecido, amado e 
obter sucesso, portanto foge da sua realidade e assume como sua realidade os objetivos 
da organizao. Foge do abandono, da morte e, paradoxalmente, vai ao seu encontro. 
A partir dessa realidade interna onde a sua realizao pessoal se deslocou para ser 
amado pela organizao, o indivduo  impulsionado a agir de forma coerente com os 
objetivos da organizao. Max Pags chama a esse processo de deslocamento em nvel 
psicolgico, onde a organizao cria mecanismos repressores, inclusive a mudana 
cultural compulsria, atravs de estratgias participativas. 
Esse processo de distoro da percepo, estrategicamente manipulado pela 
organizao, tem repercusso direta sobre a cognio. O conhecimento, tanto em seu 
contedo como na forma pela qual  elaborado,  falsificado. Conseqentemente, fecha-
se o ciclo do controle mental exercido pela organizao: distorce-se a realidade interna. 
Enrijece-se o processo de conhecimento e desloca-se desejos instigando-se  sua 
realizao; o individuo introjeta um rgido EGO e um SUPEREGO  imagem e 
semelhana da organizao, bloqueando o relacionamento entre as diferentes esferas da 
personalidade, ou seja, o EGO, o SUPEREGO e o ID [valores e julgamento moral, 
conhecimento e desejos (libido)j. Nega a sua realidade interna distorcendo-a. Cria 
mecanismos internos de defesa (fuga ao desprazer) e se impede de ver e de pensar 
acerca de si mesmo e da realidade externa. 
Mecanismo de facifitao 
Na sociedade atual, em que as pessoas vivem a maior parte do seu tempo nas 
organizaes, estas passam a exercer uma influncia no desenvolvimento cognitivo, na 
maturidade psquica das mentes dos indivduos e, conseqentemente, no nvel dos 
membros da sociedade para que seja possvel ao indivduo desenvolver o seu processo 
cognitivo e alcanar a sua maturidade psquica exigindo da organizao a criao de 
condies adequadas a este processo.  importante adotar polticas e diretrizes 
compatveis com o desenvolvimento do raciocnio, com a ao inteligente e com a 
possibilidade do alcance pelos individuos da sua maturidade psquica. 
A centralizao do poder, o processo de deciso centralizado, o sistema gerencial 
autocrtico, a introduo compulsria de padres culturais, as normas e procedimentos, a 
automao, as condies fisicas insalubres, a padronizao e o elitismo na seleo de 
pessoal, os mtodos e tcnicas de treinamento direcionados para uma aprendizagem que 
limita o prprio processo de desenvolvimento cognitivo e psquico (Piaget, Freud). 
281 



 necessrio reverter o processo de dominao psquica (emocional e cognitiva) 
adotando uma pedagogia emancipatria que possibilite a auto determinao, o 
desenvolvimento cognitivo em nvel superior. Esta pedagogia trar, sem dvida, retornos 
positivos em todas as esferas da organizao. 
Substituir o adestramento de um processo que possibilite o desenvolvimento cognitivo do 
indivduo  substituir a induo e a manipulao por um processo de respeito  dignidade 
do outro enquanto pessoa.  a verdade e a sinceridade substituindo a manipulao e a 
induo emocional. Isto supe, tambm, que os objetivos da organizao sejam expostos 
de uma forma explicita, honesta e transparente, possibilitando a compreenso. 
Condies econmicas e desenvolvimento cognitivo 
O capitalismo selvagem gera a pobreza, pelos baixos salrios e pelo desemprego. A 
pobreza  anti-humana; cria seres subumanos, atrofia seus crebros e limita sua 
capacidade mental. Enfraquece a fora de trabalho do pais e gera a debilidade da nao. 
Impede a participao consciente de grande parte da populao no processo de 
desenvolvimento socio-econmico do pais e, mais grave ainda, no permite que essa 
parcela da populao usufrua dos seus benefcios como seres inteligentes e como 
cidados. 
Um determinado pas ser mais ou menos capaz de desenvolver-se econmica e 
socialmente  medida que as condies de crescimento mental forem favorecidas a todos 
os seus cidados. As organizaes, quer pblicas ou privadas, tm uma funo muito 
importante nesse processo. Para que se possa compreender mais claramente,  
necessrio analisar a organizao como um todo, isto , objetivos, cultura, valores, 
polticas e diretrizes, estrutura, tecnologia, estrutura de poder, sistemas de salrios, de 
incentivos, gerencial, ambiente fsico etc. Esses fatores interagem uns com os outros e 
com o ambiente mais amplo, criando as condies organizacionais. 
Entretanto, algumas questes podero ser levantadas no que tange s condies que 
possibilitam o crescimento mental dos membros de uma organizao. 
Falsificao da percepo 
Processo interno do indivduo, geralmente de defesa  inconsciente, pelo qual falseia a 
realidade percebida quando esta se torna ameaadora  realizao de seus desejos; 
fuga ao desprazer. 
A organizao poder atuar atravs de mecanismos repressores como os padres 
culturais (eficincia, nunca repetir erros, alcance cada vez maior de objetivos e metas etc.) 
sobre os indivduos, levando-os a uma falsa percepo da sua realidade interna (os seus 
desejos, aspiraes, necessidades etc.) e da sua prpria realizao enquanto pessoa. 
282 



RESUMO 
 limitada a capacidade da pessoa humana para apreender o mundo exterior devido  
complexidade e ao carter dinmico deste,  complexidade da prpria percepo e s 
limitaes dos rgos sensoriais. Os estudos da Fsica vieram mostrar que, ao contrrio 
do que supunham os primeiros estudos da percepo, os objetos no emitem cpias, 
mas apenas refletem ondas perceptveis por nossos rgos, os quais as transformam em 
impulsos nervosos transmitidos a reas especiais do crebro. Os eventos precisam ter 
certas propriedades; particularmente, precisam ter um mnimo de intensidade para serem 
captados. Limiar perceptivo  o ponto a partir do qual o fenmeno  perceptvel. Os 
estmulos no so percebidos isoladamente, mas dentro de um contexto. So diferentes 
as reaes provocadas diante do estimulo isolado e do mesmo estimulo integrado em um 
contexto. A percepo envolve tambm outros processos mentais e  influenciada pela 
prpria experincia passada do indivduo, que o leva a concentrar a ateno em certos 
aspectos do que pode perceber. As caractersticas do ambiente tambm podem ser 
determinantes de mudana de ateno.  possvel ampliar o limite da ateno diminuindo 
os estmulos percebidos pelo agrupamento dos estmulos, de acordo com certos critrios, 
como no fenmeno figura-fundo. No entanto, a percepo de tamanho, cor, forma e 
tonalidade no varia, apesar de mudarem as condies da observao:  o fenmeno da 
constncia. J os fenmenos de vigilncia e defesa, ligados s dificuldades que os 
indivduos tm para perceber estmulos geradores de ansiedade, tenses e angstia, 
limitam a influncia da motivao nas percepes. Outro aspecto importante do processo 
perceptual  a decodificao, atravs da qual a informao recebida no presente  
integrada s informaes j armazenadas. As dificuldades ligadas  informao podem 
ser geradas pela ambigidade e pela redundncia. 
O processo perceptivo que envolve outra pessoa como objeto de percepo difere dos 
demais porque o objeto percebido  tambm uma pessoa que percebe, o que leva a 
recprocas influncias nas percepes de ambos. Na organizao, as pessoas se 
comportam com base no que percebem em um contexto de mltiplas interaes de 
valores, atitudes, motivos e caractersticas de personalidade, de um lado e, de outro, 
fatores organizacionais. 
A cognio implica um processo com vistas  aquisio de novos conhecimentos. Os 
processos de cognio abrangem a percepo, a memria, a imaginao, o raciocnio ou 
o pensamento e a soluo de problemas. Os estmulos externos captados pelo processo 
perceptivo so os elementos bsicos para a aquisio de novos conhecimentos. O 
sistema de memria  um conjunto de mecanismos comuns para armazenar a 
informao. A memria compreende dois vastos sistemas: a memria ativa, que permite 
o relacionamento de percepes novas, e a memria a longo prazo, que  mais esttica. 
J os mecanismos usados para imaginar so diferentes dos usados para perceber 
informaes. 
A funo mais importante do sistema humano de memria  abstrair e estabelecer 
relaes (formao de conceitos). O pensamento  a atividade rigo-
 283 



rosa e altamente reflexiva pela qual se tenta resolver um problema (Posner) caracterstico 
do processo humano de aquisio do conhecimento  o uso de smbolos. Segundo 
Piaget, o pensamento se desenvolve  medida que se elaboram as estruturas mentais. H 
trs tipos fundamentais de pensamento ou raciocnio: o dedutivo, o indutivo e o avaliativo 
ou critico. 
A soluo de problemas tem sido conceituada como a busca de uma resposta a uma 
situao nova, na qual o indivduo  motivado a alcanar um objetivo, sendo bloqueado 
por um obstculo.  importante na soluo de problemas a sua representao inicial e o 
uso sistemtico das operaes mentais orientadas por um plano fundamental na sua 
soluo. Tambm importantes so a qualidade e a quantidade das informaes sobre os 
problemas, bem como a incubao, ou seja, perodo de desligamento emocional em 
relao aos problemas. Vrios fatores tm sido apontados como os que influenciam o 
processo de soluo de problemas: o mental set, momento particular do indivduo em que 
ele  capaz de captar determinados tipos de percepes e pensamentos mais que outros; 
a fixao funcional, caracterizada pela incapacidade de a pessoa usar instrumentos ou 
elementos conhecidos para resolver problemas; a experincia passada; o contexto 
pessoal do indivduo; o envolvimento emocional e outros. 
A criatividade, freqentemente confundida com a irrealidade, , do ponto de vista 
psicolgico, a ocorrncia do que no  comum mas  apropriado e operacionalizvel. A 
criatividade  uma capacidade que pode ser desenvolvida. 
A funo social das organizaes foi analisada de forma a mostrar seu papel como 
estimuladora ou bloqueadora do desenvolvimento cognitivo e do processo de maturidade 
psquica do indivduo. 
A represso nas organizaes  feita por meio de um processo permanente que envolve 
os indivduos membros da organizao de forma compulsria. A mudana de cultura, com 
a introduo compulsria de valores, o deslocamento de valores, a estimulao do 
surgimento de necessidades individuais, que na realidade atendem s necessidades e 
objetivos da organizao, so desenvolvidos com a utilizao de mecanismos que atuam 
no nvel psicolgico do indivduo, falsificando sua conscincia e impedindo-o de atingir 
sua maturidade psquica. A falsificao de conscincia  um processo que correlaciona a 
defesa interna do indivduo (fuga ao desprazer)  represso externa da organizao, 
levando-o (indivduo)  falsificao da percepo da sua realidade interna e da realidade 
externa. O conhecimento que elabora e a forma pela qual (indivduo) o faz so 
contaminados. As suas verdades so aquelas que a organizao definiu para ele. No 
so as suas. Seu nvel de maturidade psquica  atrofiado e se observa o fenmeno do 
infantilismo psquico. 
Termos e conceitos a serem lembrados 
Conceito ou categoria: conjunto de propriedades abstradas dos eventos ou objetos 
percebidos. 
Conceito ou constructo: propriedades abstradas de eventos ou coisas. 
284 


Conhecimento: aquilo que as pessoas sabem sobre si e sobre o mundo em 
Constncia: tendncia para perceber um objeto como sendo o mesmo em diferentes 
condies, apesar de o objeto apresentar diferentes imagens perceptivas. 
Decodificao: tentativa de integrao das informaes recebidas no passado e 
armazenadas s informaes que o indivduo recebe no presente, dando-se a elas um 
significado prprio. 
Estrutura cognitiva: conjunto organizado de fatos, conceitos e generalizaes que o 
indivduo aprendeu.  formada e transformada no decorrer da vida do indivduo. 
Fatores extrapessoais: fatores que no pertencem  pessoa que percebe. 
Fatores intrapessoais: fatores que pertencem  pessoa que percebe. 
Figura-fundo: fenmeno de percepo em que o campo perceptual, os estmulos que uma 
pessoa  capaz de perceber em dado momento,  separado em duas partes; uma 
dominante e unificada e a outra mais homognea e difusa (fundo). 
Iluses: distores na percepo das propriedades das partes de uma figura quando esta 
 organizada em um todo pelo sujeito que a percebe. 
Imagens mentais: estmulos externos captados pelo processo perceptivo. So os 
elementos bsicos do processo de aquisio de conhecimentos. 
Incluso: destruio da configurao de um figura ou coisa por meio de uma outra mais 
inclusiva. Os tanques de guerra camuflados com folhagens so um exemplo de incluso 
denominado camuflagem. 
Informao ambgua: informao pouco definida e pouco estruturada. Informao 
redundante: repetio do mesmo contedo informativo dende uma mesma mensagem. 
Interao social: interao entre dois ou mais indivduos. 
Limite de ateno: defasagem entre o nmero de estmulos com que o individuo entra em 
contato e o nmero de estmulos que ele  capaz de processar. 
Limiar de percepo: lintensidade mnima necessria para que um evento seja captado 
pelo sistema nervoso. Cada individuo apresenta um limiar especifico, assim como cada 
rgo sensorial. 
Memria: processo mental de armazenamento das experincias passadas identificveis. 
Memria ativa ou a curto prazo: constitui-se de itens ou representaes mentais em 
estado ativo. Permite o relacionamento de percepes novas entre si e com percepes 
anteriormente elaboradas e armazenadas. 
Memria a longo prazo:  constituda pelas representaes mentais adquiridas pelos 
indivduos e que no esto sendo usadas por ele, mas que podero ser ativadas a 
qualquer momento. 
Operao mental: transformao mental que cada indivduo realiza da informao 
percebida por ele. A informao sofre transformaes, tomando formas diferentes. 
285 



H diferentes tipos de operaes mentais, que apresentam graus diversos de 
complexidade. A soma, a diviso, a multiplicao e a subtrao so exemplos 
de operaes mentais, assim como a percepo de um evento, situao ou coisa. 
Pensamento ou raciocnio: abstrao das propriedades dos eventos e estabelecimento 
das relaes entre eles.  a consecuo de uma representao mental atravs da 
realizao de operaes mentais. Envolve a percepo, a memria e o uso de smbolos. 
 uma atividade interna do ser humano. 
Percepo: processo psicolgico em que a pessoa apreende a realidade exterior a si 
prpria. Envolve outros processos psicolgicos, como o pensamento e a memria. Sofre 
as limitaes dos rgos sensoriais, alm de outras limitaes. 
Percepo social: processo perceptivo que tem outra pessoa como objeto da percepo. 
Apresenta caractersticas prprias.  mais complexo do que o processo de percepo de 
outros objetos no humanos por causa da natureza psicolgica do objeto percebido, que 
interage com quem o percebe. 
Processo de cognio: forma pela qual as pessoas adquirem conhecimentos e 
desenvolvem seus sistemas de cognio.  integrado pela percepo, memria, 
raciocnio ou pensamento, imaginao e pela soluo de problemas.  um processo 
consciente que visa  aquisio de novos conhecimentos. 
Proximidade: estmulos muito prximos uns dos outros. Leva a percepo a confundi-los. 
Realidade consensual: situao como  vista por vrias pessoas. 
Similaridade: estmulos com caractersticas semelhantes. Influenciam o processo de 
percepo, provocando a percepo de grupos em vez de estmulos individuais. 
Sistema de memria: conjunto de mecanismos comuns para armazenar a informao. 
Este sistema  integrado pela memria ativa e pela memria a longo prazo. 
Vigilncia e defesa: fenmenos psicolgicos que influenciam a percepo de estmulos 
geradores de angstia, de ansiedade e de tenses. 
TRABALHO PRTICO 
Estudo de caso 
Mudana de cultura e padronizao da percepo dos indivduos 
Empresa multinacional elaborou um plano de mudana de cultura com o objetivo de 
retomar parte do mercado perdido com a entrada de duas grandes concorrentes tambm 
internacionais em seu setor. 
Seminrios de mudana de cultura iniciados na diretoria e desenvolvidos em todas as 
reas e nveis hierrquicos da empresa. A participao nos seminrios e nas reunies de 
grupos especficos de cada nvel hierrquico (team buildingl era compulsria. 
286 
Os objetivos e metas para cada setor j haviam sido definidos pela presidncia. Os 
grupos participativos tinham como objetivo referendar esses objetivos e adequar as 
estratgias  sua realidade especifica. Detalhamento e estabelecimento de um plano 
operacional para sua execuo. 
Foi desenvolvido um amplo programa com seminrios, cursos, sesses onde tcnicas de 
aperfeioamento pessoal e de adequao aos novos padres culturais propostos pela 
empresa foram exaustivamente trabalhadas. Um novo credo foi criado na empresa: o da 
excelncia e do compromisso com os objetivos de produo, vendas, custos e lucros. A 
empresa passou a divulgar a sua situao financeira para seus gerentes e assessores. 
O novo perfil de funcionrio foi sendo conscientizado especialmente pelas tcnicas de 
aprimoramento e adequao perceptiva. Os individuos eram sujeitos a uma tcnica de 
treinamento onde os demais participantes diziam a ele como o percebiam. Ele tinha de 
justificar aquela imagem passada aos demais. 
O nvel de stress foi muito grande. Alguns funcionrios, inclusive gerentes, abandonaram a 
empresa. Houve entretanto uma mudana de cultura, obedecendo-se aos novos padres 
estabelecidos pela empresa. Esta mudana vem sendo sedimentada por meio de 
reunies regulares, seminrios de avaliao interna dos diferentes grupos, grupos 
participativos com atuao regular nos vrios nveis e setores da organizao. 
 comum dizer-se na empresa que ao funcionrio cabe no mais vestir a camisa da 
empresa, mas vestir a sua cabea, ou seta, pensar da forma por ea estabelecida e agir 
de acordo com a nova cultura comprometida com a excelncia, qualidade, baixos custos e 
lucros. A permanncia na empresa, a promoo salarial e hierrquica so apresentadas 
como implicitamente vinculadas  adeso aos novos padres culturais. 
QUESTES 
1. Identifique e explique os mecanismos de represso externa dos indivduos adotados 
pela empresa. 
2. Explique as conseqncias:  para a empresa  para os individuos 
3. Por que a mudana cultural compulsria  um processo de controle mental do 
individuo? 
4. Proponha uma alternativa de modelo de cultura partindo do pressuposto da empresa 
como meio social facilitadora do processo de desenvolvimento cognitivo do indivduo, 
bem como de maturidade psquica. 
5. Os grupos participativos so mecanismos de distoro perceptiva, padronizao 
cultural e falsificao de conscincia.  Discuta esta afirmativa fundamentando-se em 
Jean Piaget e Freud. 
6. Qual a funo dos rgos sensoriais no processo perceptivo? 
7. Explique por que o processo perceptivo  um processo psicolgico. 
8. Explique a influncia dos fatores ambientais e dos fatores individuais na formao de 
percepes. 
287 



9. Explique a diferena entre a percepo de objetos e a percepo de pessoas. 
10. Identifique e explique os processos cognitivos. 
11. Explique por que o processo perceptivo possibilita bases para as atividades mentais. 
12. Explique o processo de memria e as suas funes na aquisio de conhecimentos. 
13. Explique o pensamento como processo cognitivo. 
14. Explique de que forma as operaes mentais so efetuadas. 
15. Explique o processo de formao de conceitos ou constructos. 
16. Explique o que  criatividade. 
17. Identifique os fatores organizacionais que mais influenciam a percepo dos membros 
da organizao. 
18. Explique por que as condies das organizaes, isto , objetivos e valores, polticas 
e diretrizes, cultura, estrutura formal, diviso hierrquica, diviso de trabalho, normas e 
procedimentos, tecnologia e tarefas, sistema gerencial etc., influenciam o 
desenvolvimentobcognitivo dos individuos. 
19. De que forma as organizaes podem estimular o crescimento mental de seus 
membros? 
20. Explique o que se quer dizer com funo da organizao. 
21. Explique o processo de distoro de percepo do individuo na organizao. 
22. Identifique os fatores que, na organizao, atuam como repressores externos sobre o 
processo perceptivo do individuo. 
23. O que significa quando se diz que a organizao exerce um controle sobre o indivduo 
atuando no nvel psicolgico? 
24. Explique por que e como a organizao pode controlar o processo perceptivo do 
individuo. 
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289



12.MOTIVAO E A ORGANIZAO 
Ao terminar a leitura deste captulo, voc dever ser capaz de: 
1. Compreender a ideologia que fundamenta as diferentes teorias motivacionais e suas 
conseqncias sociopolfticas. 
2. Compreender o processo motivacional. 
3. Compreender a relao entre motivao e desempenho no trabalho. 
Ao estudar a motivao humana, especialmente a motivao no trabalho, no se pode 
deixar de expor o problema do trabalho e da sua funo na vida do indivduo e na 
sociedade. 
Diferentes posicionamentos podem ser observados tanto em relao ao seu conceito de 
trabalho, quanto em relao  funo, quer seja no nvel do indivduo, quer no nvel da 
sociedade. 
O capitalismo enfatiza o trabalho como um meio de acumulao de capital. No h 
acumulao de capital sem trabalho. Produzir mais significa possibilitar maior 
acumulao de capital. Portanto, o controle do conjunto de processos de trabalho , para 
o capitalismo, um elemento fundamental do seu processo de desenvolvimento que, ao 
desenvolver a ideologia do trabalho, o identificou com a atividade humana, criando ao 
mesmo tempo a religio do trabalho. 
No socialismo industrial, o trabalho  a mola fundamental da sociedade e da felicidade 
humana. Saint-simon considera o socialismo como sociedade trabalhadora. Proudhon 
afirma que o trabalho  a base da nova sociedade. 
 o criador do homem e da sociedade, gerador da economia e promotor da justia.  
atravs do trabalho que a riqueza e a sociedade so desenvolvidas. 
O humanismo e a religio do trabalho so fatores fundamentais para o socialismo 
industrial. 
Marx toma o trabalho como um processo humano de transformao de matria em 
produto. O ser humano  tomado como coisa que possui fora de trabalho, fora esta 
despendida no processo de transformao da matria em produto de uso, onde h 
dispndio produtivo dos crebros, msculos etc. 
Como gerador de valor de uso, trabalho intil, afirma ele, o trabalho  indispensvel  
existncia do homem.  necessidade natural e externa de efetivar o intercmbio entre o 
homem e a natureza, portanto, de manter a vida humana. O trabalho  o setor essencial da 
realizao do homem e da formao 
291 



da sociedade. Para Marx, o homem no s  um produto do trabalho, mas tambm produz 
a sociedade no seu ato de trabalhar. O trabalhador  a fora de trabalho em ao. 
A partir da natureza do trabalho humano, Marx define a alienao e a explorao. Para 
Marx, dentro do capitalismo o trabalho perde sua funo criadora e libertadora porque no 
permite que o trabalhador controle os instrumentos de produo, o produto e o processo 
de trabalho. 
Na concepo marxista do trabalho,  mantida a confuso entre atividade humana e 
trabalho. O ser humano s se realiza no trabalho. O ser humano  um possuidor de fora 
de trabalho e sua realizao s se concretiza no prprio ato de trabalhar. A justia e a 
igualdade, segundo a viso marxista, so fundamentadas no trabalho. 
Tanto a ideologia socialista do trabalho quanto a ideologia burguesa do trabalho propem 
uma sociedade construda sobre o trabalho. Para ambas, a realizao do ser humano 
est centrada no trabalho ( certo que de formas diferentes). As questes, entretanto, que 
vm sendo colocadas so: at que ponto a atividade humana poder ser reduzida 
somente ao ato de trabalhar, e at que ponto a realizao do ser humano se d 
exclusivamente no ato de trabalhar. Essas questes no negam que o trabalho, o seu 
contedo e o seu ambiente influenciam cada vez mais a vida do ser humano, mas 
questionam o trabalho como fim ltimo. 
Voltando ao ponto inicial, isto , ao fenmeno da motivao humana no trabalho,  
necessrio ressaltar que, para compreender esse fenmeno e a forma pela qual as 
teorias motivacionais o abordam,  fundamental o conhecimento do conceito da natureza 
humana, da definio de trabalho e da funo, quer seja no nvel do indivduo, quer seja da 
sociedade mais ampla adotada por cada uma delas. A compreenso das teorias 
motivacionais exige a anlise de seus pressupostos valorativos e de suas propostas 
fundamentais.  importante ressaltar que as teorias estudadas so limitadas por esses 
fatores e que a sua contribuio deve ser avaliada considerando-se tais limitaes. 
A motivao como problema individual 
 muito comum ouvir de executivos e chefes que a maior parte de seus subordinados no 
se motiva, que h problemas de integrao, que as pessoas tm problemas emocionais e 
que no foram atingidas a produtividade e a contribuio que deles se esperava. Nessas 
queixas, os termos motivao integrao, problemas emocionais so usados para 
designar problemas do indivduo isolado. Est implcito nessa abordagem que as causas 
da motivao, o ajustamento ou desajustamento, da baixa ou alta produtividade esto nos 
indivduos, nas suas caractersticas de personalidade. A motivao no trabalho  uma 
tarefa cuja responsabilidade nica e total pesa sobre o prprio indivduo. A organizao 
espera que seus membros se motivem. Por outro lado, essa abordagem do processo 
motivacional na organizao sugere que as pessoas 
292 



respondam a recompensas e punies. Esse posicionamento predomina nas 
organizaes e fundamenta as polticas organizacionais no que se refere  seleo, 
avaliao, promoo e demisso de seus funcionrios. 
No entanto, o fenmeno motivacional como processo psicolgico no  to simples 
assim. Sua compreenso e abordagem dependero da concepo que se tem da 
comp1edtXade da natureza 1numana e das condies que a influenciam. Para 
compreender a motivao no trabalho  necessrio responeter a algumas questes 
bsicas que tm sido objeto de estudos por parte dos psiclogos. A primeira grande 
questo refere-se s causas pelas quais o organismo  ativado, ou seja, quilo que leva 
os indivduos a agir. Ao tentar responder a essa questo, procura-se identificar as 
condies que determinam a durao ou a persistncia da ao do indivduo, assim como 
as condies que o levam a interromper sua atividade ou ao. Outra questo 
fundamental para a compreenso da motivao refere-se  forma da ao e  sua 
direo. Para responder a essa questo  necessrio identificar as condies que de 
terminam a forma das atividades.  preciso saber por que o indivduo escolher 
determinada forma de agir, ou por que se move em determinada direo e no em outra. 
Comportamento motivado, comportamento no motivado 
Entretanto, alguns psiclogos, ao tentarem estudar o problema da motivao, 
estabelecem uma distino entre o comportamento que no est sob o controle voluntrio, 
portanto no motivado, e aquele sob controle voluntrio, ou comportamento motivado. 
Quando se aceita que a maioria dos comportamentos, especialmente no trabalho,  
voluntria, aceita-se tambm que o principal problema da motivao ser explicar as 
escolhas, que os indivduos fazem entre diferentes respostas voluntrias possveis. 
Motivao e hedonismo 
Entre as abordagens da motivao, algumas fundamentam-se no principio do hedonismo. 
Esse principio postula que os indivduos buscam o prazer e afastam-se do sofrimento. 
Segundo esse princpio, em cada situao com que as pessoas se deparam elas 
selecionam alternativas de ao que podem maximizar o prazer e minimizar o sofrimento. 
Portanto, pressupe-se que as pessoas se comportam de forma a maximizar certos tipos 
de resultados de suas aes, como por exemplo recompensas de diferentes formas, 
satisfaes, reforos positivos, e a minimizar resultados como punies, insatisfaes etc. 
Por outro lado, o estudo da motivao tem sido objeto de pesquisas de diferentes grupos 
de psiclogos que, por sua vez, se orientam conforme diferentes abordagens tericas. 
Essas orientaes podem ser identificadas, de uma forma ampla, como behaviorista e 
cognitivista. 
293 



Os behavioristas e a motivao 
Os behavioristas do nfase  aprendizagem. Para eles, sempre existem relaes entre o 
comportamento de um indivduo em determinado momento e os acontecimentos ocorridos 
em momentos anteriores. Isto significa que a resposta dada pelo indivduo no presente  
uma conseqncia dos efeitos das respostas emitidas por ele no passado. Os 
behavioristas postulam um determinismo do passado. Sua abordagem , portanto, 
histrica, porque o que motiva o comportamento so as conseqncias dos efeitos 
produzidos pelo comportamento passado do individuo, ou seja, a recompensa ou punio 
recebidas. 
Os cognitivistas e a motivao 
Os cognitivistas, por outro lado, pressupem que os individuos possuam valores, opinies 
e expectativas em relao ao mundo que os rodeia e, portanto, possuem representaes 
internalizadas do seu ambiente. Para eles, estas so as foras que impelem os indivduos 
para a ao. Os individuos possuem objetivos e lutam para atingi-los, quer sejam objetos, 
quer sejam acontecimentos.  medida que objetos e acontecimentos so atrativos para o 
individuo, ele se empenhar em atingi-los e da mesma forma tentar afastar-se quando 
forem negativos. 
Kurt Lewin 
Dentre os cognitivistas,  um dos que trouxeram maior contribuio ao estudo da 
motivao. Sua abordagem terica difere da abordagem behaviorista no s na sua 
posio cognitivista, como tambm quanto ao efeito do passado sobre o comportamento 
presente. Para ele, a escolha feita por uma pessoa em determinada situao  
ocasionada pelos motivos e cognies prprios do momento em que faz essa escolha. O 
comportamento  visto como algo dependente de eventos que existem .para o individuo 
no momento em que o comportamento ocorre. 
A abordagem de Freud 
Freud aborda a motivao de forma dinmica, pressupondo foras internas que 
direcionam o comportamento. Segundo Freud, as foras internas que motivam o 
comportamento humano so representadas pelos instintos, que fornecem uma fonte 
continua e fixa de estimulao (ID). Os instintos visam a objetivos prprios, mas que 
podem ser modificados. Para ele, os seres humanos podem derivar diferentes 
motivaes de um motivo original. A energia do instinto deve ser liberada e os individuos 
podem aprender a atingir certos objetivos que possibilitam a liberao dessa energia. Ao 
colocar nos instintos 
294 



(libido) a fonte de estimulao humana, Freud explicita o determinismo biolgico, isto , 
para ele os instintos que so herdados determinam o comportamento humano. Ao 
analisar a abordagem freudiana da motivao, Bolies (1975) mostra que a teoria 
freudiana pode ser considerada a teoria dos objetivos do comportamento humano, pois, 
na sua essncia, lida com a identificao desses objetivos e com a forma como eles se 
tornaram objetivos. 
Freud e o inconsciente 
Freud, entretanto, no acredita que as motivaes das aes humanas sejam todas 
conscientes. Ao relacionar a motivao do comportamento humano com os instintos, ele 
mostra que nem sempre as pessoas esto conscientes das motivaes de suas aes, 
muitas vezes comandadas pela necessidade de liberao de satisfao dos instintos. 
Teoria psicanaltica e determinismo biolgico 
Por outro lado, ao abordar a motivao do comportamento humano, Freud d grande 
nfase  dependncia que o comportamento adulto mantm em relao s experincias 
da infncia. A nfase no passado do indivduo e nos instintos como foras motivadoras 
realmente caracteriza a abordagem histrica e o determinismo biolgico da teoria 
psicanaltica. 
Comportamento como forma de liberao de tenses 
Lewin, por outro lado, afirma tambm que as aes humanas devem ser explicadas como 
uma forma de liberao de tenses. Os indivduos percebem formas e meios de liberar 
certas tenses. As atividades percebidas como capazes de liberar as tenses do 
indivduo o atraem. A esta atrao Lewin denomina valncia positiva. A fora interna que o 
indivduo experimenta e que o move para a ao  causada pela valncia positiva. J as 
valncias negativas geram foras repulsivas e afastam o indivduo de certas atividades. 
Para Kurt Lewin, todo comportamento intencional  motivado:  impulsionado por tenses, 
movido por foras, dirigido por valncias (que explicitam os valores dos indivduos) e 
encaminhado para objetivos. O comportamento , para Lewin, sujeito s influncias das 
percepes, sentimentos e pensamentos do indivduo. As tenses originam-se nas 
intenes voluntrias do indivduo de realizar determinadas aes. A tenso s 
desaparece  medida que a ao  realizada. 
Os behavioristas consideram dois tipos de estimuladores do organismo: 
os drves, ou impulsos no direcionados, e os motivos que direcionam o comportamento. 
Os motivos so adquiridos por meio da aprendizagem, que se d atravs da aplicao de 
reforo positivo ou negativo. 
295 




Comportamento direcionado 
Ao analisar as abordagens tericas da motivao, pode-se concluir que tanto os 
cognitivistas quanto os behavioristas concordam em que o comportamento  direcionado: 
os cognitivistas postulam foras internas intencionais (valores); os behavioristas indicam 
os estmulos externos ou reforos como fora diretiva do comportamento e Freud fala em 
jnstintos (foras internas hereditrias). Para os cognitivistas, a motivao do 
comportamento humano  um processo psicolgico complexo em que esto envolvidos 
outros processos psicolgicos, tais como a percepo, o pensamento etc. Para os 
behaviorstas, os indivduos respondem a condicionamentos positivos e negativos. Tais 
abordagens traam uma linha divisria entre aqueles que abordam o ser humano como 
prisioneiro de sua hereditariedade e de seu passado e/ou de seu meio, de um lado, e, do 
outro, aqueles que o respeitam como um ser atuante que busca sua autodeterminao e 
sua auto-expresso. Para Freud, a motivao humana  a busca da satisfao dos 
instintos inatos. 
Teoria da motivao humana de Maslow 
A teoria da motivao humana desenvolvida por Maslow tem suas origens na sua 
experincia clinica e nos fundamentos tericos do funcionalismo de James e Deway, no 
holismo da psicologia gestltica e no dinamismo de Freud, Reich, Jung e Adler. A teoria 
da motivao humana de Maslow , portanto, marcadamente uma teoria que considera o 
ser humano na sua totalidade, dando nfase  integrao dinmica dos aspectos 
biolgicos, psicolgicos e sociais. 
Hierarquia das necessidades humanas 
A hiptese central da teoria de Maslow  a existncia de uma hierarquia das 
necessidades humanas, constituda pelas necessidades biolgicas, psicolgicas e 
sociais. Somente  medida que as necessidades inferiores de hierarquia so satisfeitas, 
pelo menos em parte,  que surgiro as necessidades superiores da hierarquia. As 
necessidades humanas foram divididas em necessidades fisiolgicas, de segurana, de 
affliao e de amor, de auto-estima, de auto-realizao e estticas. 
Predominncia das necessidades fisiolgicas 
As necessidades fisiolgicas so consideradas as necessidades bsicas do ser humano 
e as mais preponderantes de todas as necessidades humanas, assim como os 
comportamentos consumatrios que envolvem servem de canais para as demais 
necessidades. Isto significa que quando a pessoa est carente de tudo na vida, em uma 
situao extrema,  muito mais comum que as necessidades fisiolgicas sejam sua 
motivao principal. Uma pessoa, afirma ele, 
296 



que est sem comida, sem segurana, sem amor e auto-estima provavelmente procurar 
alimento mais do que qualquer outra coisa. Quando todas as necessidades esto 
insatisfeitas, o organismo  dominado pelas necessidades fisiolgicas. Quando um 
indivduo est com fome, todas as suas capacidades so empregadas a servio da 
satisfao da fome; a organizao dessas capacidades  quase que totalmente 
determinada pelo objetivo de satisfazer a fome. Nessas circunstncias, os receptores e 
efetores, a inteligncia, a memria e os hbitos podem ser definidos simplesmente como 
instrumentos de gratificao da fome. As capacidades que no so teis para esse 
objetivo permanecem inativas e todos os desejos e interesses so esquecidos ou 
colocados em plano secundrio. 
Interdependncia das necessidades humanas 
Dominado por uma necessidade fisiolgica, o organismo humano modifica a filosofia 
mais ampla do seu futuro. A sua vida tende a ser definida em termos daquela 
necessidade fisiolgica. Extremas privaes fisiolgicas impedem a emergncia de 
necessidades superiores no ser humano. O domnio da privao  um dos fatores que 
impedem o surgimento dos objetivos sociais dos seres humanos. Por outro lado, a 
gratificao dessas necessidades toma-se to importante quanto a sua privao, porque 
libera o organismo da dominao de necessidades relativamente mais fisiolgicas. 
Necessidades de segurana 
As necessidades de segurana surgem  medida que o individuo tem suas necessidades 
fisiolgicas relativamente satisfeitas. As necessidades de segurana envolvem a 
estabilidade, a proteo, a ausncia de medos e de ameaas e a ausncia de 
ansiedade. Quando essas so as necessidades no satisfeitas (de nvel mais baixo), elas 
dominam o indivduo, cujas capacidades se voltam para sua satisfao. O indivduo passa 
a procurar a segurana, colocando-a como o objetivo principal de sua vida. Quando as 
pessoas se sentem ameaadas de alguma forma na sua segurana, regridem dos nveis 
superiores de necessidade e concentram-se nas necessidades de segurana. Algumas 
pessoas sentem-se particularmente perturbadas pelas ameaas de autoridade, de 
legalidade e por representantes da lei. Essas pessoas, geralmente, centram suas 
motivaes nas necessidades de segurana. 
Necessidades de afiliao e amor 
As necessidades de relacionamento, de pertencer, de intimidade, de amor e de afeio 
so de grande importncia para os seres humanos e podem, em determinado momento, 
ser preponderantes, mpedindo a emergncia de outras necessidades. A 
supermobilidade forada pela industrializao dificulta a satisfao dessas necessidades. 
297 



A solido, o ostracismo, a rejeio e a ausncia de razes comuns com grupos sociais 
so situaes que evidenciam a no-satisfao dessas necessidades. Maslow considera 
que a no-satisfao dessas necessidades provoca um sofrimento que pode ter a mesma 
intensidade do sofrimento fsico de uma pessoa faminta. 
Necessidade de estima 
A necessidade de estima  integrada por necessidades cuja satisfao est diretamente 
relacionada  prpria pessoa e tambm por necessidades cuja satisfao exige 
fundamentalmente uma ao externa. No primeiro caso, encontram-se as necessidades 
de realizao, de adequao, de capacidade e de competncia, de confiana em 
enfrentar o mundo, de liberdade e de independncia. No segundo caso, encontram-se as 
necessidades de reputao ou prestigio, de status, de dominao ou poder de 
reconhecimento, de ateno, de importncia e de dignidade ou apreciao. A 
necessidade ou o desejo de uma avaliao de si prprio, de auto-respeito, de auto-
estima e de estima dos outros so, segundo Maslow, necessidades fundamentais de 
todos os seres humanos. A satisfao das necessidades de auto-estima levam a 
sentimentos de autoconfiana, de fora, de adequao e de ser til e necessrio no 
mundo. A ausncia de satisfao dessas necessidades gera sentimentos de 
inferioridade, de fraqueza e de desencorajamento. 
Necessidade de auto-atualizao 
Esta necessidade somente surge  medida que as demais so relativamente satisfeitas. 
Elas se referem ao desejo que as pessoas tm de desenvolver seu potencial. 
Essas necessidades esto relacionadas  curiosidade humana e envolvem de certo 
modo as necessidades de auto-realizao e de segurana, englobando o desejo de 
compreender, de sistematizar, de organizar, de analisar e de procurar relaes e 
significados, assim como de construir um sistema de valores. 
Necessidades estticas 
Maslow indica as necessidades estticas, ou seja, a busca do belo, como aquelas que 
completam a pirmide das necessidades humanas. 
Apesar de propor uma hierarquia de necessidades, onde as necessidades superiores 
emergem  medida que as inferiores so satisfeitas, Maslow no supe que as 
necessidades bsicas sejam totalmente satisfeitas de modo a permitir a emergncia das 
necessidades superiores, O que existe  uma relativa satisfao das necessidades 
bsicas. 
298 



Figura 10.1. Hierarquia das necessidades humanas. (Adaptado de A. H. Maslow, in 
Motivation and Personality, Harper and Row, 1970, p. 35..58.) 
Abordagem humanista 
A teoria das necessidades humanas proposta por Maslow representa uma abordagem 
humanista na Psicologia. Afirma que o homem no  redutvel  sua fisiologia, no  um 
respondente mecnico ou mesmo cognitivo a estmulos e no  dominado por impulsos 
destrutivos sexuais e agressivos. A natureza humana  complexa e constituda por fatores 
biopsicossociais.   medida que a pessoa  capaz de integrar estes fatores e de 
desenvolver o seu potencial biopsicossocial que ela se torna mais integralmente ser 
humano e mais coerente com a sua prpria natureza. O homem se realiza  medida que 
tem condies de desenvolver-se fisica, psicolgica e socialmente. Esse desenvolvimento 
vai beneficiar no s o ser humano individualmente, como tambm as organizaes e a 
sociedade em geral; isto porque,  medida que os indivduos se tomam mais capazes, 
tanto fisica como mentalmente, as suas realizaes passam a ser qualitativamente 
superiores. Entretanto, as organizaes devem possibilitar condies de trabalho que 
permitam esse desenvolvimento. 
A teoria das necessidades humanas tem sido criticada tanto pelos psiclogos de 
orientao behaviorista, quanto pelos de orientao cognitivista. Essas criticas so 
fundamentadas no fato de que, segundo eles, o mtodo cientifico no pode ser 
rigorosamente adotado no estudo das premissas tericas propostas por Maslow. Por 
outro lado, essa critica tem sido contestada  medida que os cientistas do 
comportamento vm-se desligando da orientao positivista e buscando novos mtodos e 
tcnicas de estudo cientifico dos fenmenos comportamentais, sem negar, contudo, a 
importncia da objetividade cientifica nesses estudos. 
Entretanto, o fato ressaltado  que poucos estudos cientficos foram at o presente 
desenvolvidos, o que torna a teoria das necessidades humanas carente de suporte 
emprico para sua credibilidade cientifica. 
Necessidade de realizao (N-achievement, Mcclelland) 
A teoria da necessidade de realizao (N-achievement) tenta relacionar essa 
necessidade com o desenvolvimento econmico. Segundo Mcclelland a necessidade de 
realizao tem suas origens na tica protestante, que enfatiza o esforo do indivduo e a 
importncia e o compromisso com os resultados do seu prprio trabalho. O indivduo 
realiza-se naquiloque faz e no nas possveis 
299 



recompensas ou efeitos decorrentes do trabalho realizado. A necessidade de realizao 
parte da hiptese de que os indivduos estabelecem para si um padro de excelncia de 
seu desempenho e tentam alcan-lo por diferentes meios. Eles procuram o nvel de 
excelncia e so persistentes na sua busca. , portanto, uma teoria que justifica o 
individualismo e o egosmo. Tudo se justifica  medida que o indivduo se realiza. 
Mcclelland e seus colaboradores desenvolveram pesquisas com grupos de adolescentes 
e com grupos de executivos em diferentes culturas, inclusive no Brasil. Os resultados 
desses estudos indicam que os indivduos tm necessidade de realizao, de poder e de 
afihiao em graus diferentes. A necessidade predominante, entretanto,  a que influencia 
mais diretamente seu comportamento. Os individuos com necessidade de realizao so 
mais capazes de apresentar maior rendimento dentro de determinadas situaes. 
Situaes de rotina ou situaes em que so oferecidas recompensas ou outro tipo de 
satisfao no promovem satisfao de realizao e, portanto, no criam condies para 
o realizador (indivduo com necessidade de realizao) apresentar um bom desempenho 
e um bom ajustamento no trabalho. Para eles, o importante  uma realizao cada vez 
melhor, de forma diferente e especifica, o que lhes possibilitar satisfao na realizao 
do que esto fazendo. Por tanto, enquanto para outros indivduos o importante  fazer 
dinheiro, conseguir status e poder, para o indivduo com necessidade de realizao o 
motivo fundamental  o padro de excelncia por ele definido, e buscado  sua maneira. 
Os indivduos com alto grau de necessidade para realizao buscam de maneira 
persistente o seu prprio aperfeioamento. Os indivduos com alto grau de necessidade 
de poder orientam-se para a satisfao dessa necessidade. Estabelecem como metas e 
objetivos pessoais o alcance do poder e a obteno de status. Os seus padres de 
realizao no trabalho so geralmente baixos e pouco importantes para eles. 
Constelaes de necessidades psicolgicas 
Foram encontradas, tambm, certas constelaes de necessidades que se integram com 
o objetivo de permitir a realizao da necessidade predominante. Os indivduos com 
preponderncia da necessidade de realizao (achievement) apresentam geralmente 
alto grau de necessidade de poder e grau moderado de necessidade de afiliao. O 
poder nesta situao,  tomado como um pr-requisito ou uma condio para a 
realizao. 
O poder, quando surge como necessidade preponderante, poder pelo poder, com o 
objetivo de dominao ou de imposio de uma ideologia especifica, geralmente se 
encontra associado com a necessidade de afiliao, que permite o estabelecimento das 
relaes sociais, a integrao, a sua aceitao pelos diferentes grupos e/ou indivduos, 
necessrias at certo ponto  prpria manuteno do poder. 
300 



Necessidade psicolgica predominante e integrao na organizao 
A predominncia de determinada necessidade favorecer ou dificultar a integrao dos 
indivduos na organizao. Os indivduos, cuja necessidade dominante  a de realizao, 
desajustar-se-o mais facilmente nas organizaes burocrticas, pois dificilmente 
conseguiro atingir, nessas organizaes, um nvel de excelncia de realizao criativa. 
Ao contrrio, os indivduos cuja necessidade predominante  de poder so os que mais 
facilmente se ajustam e se integram s organizaes burocrticas. Da mesma forma, 
observou-se que os indivduos com fortes necessidades de afihiao limitaro seus 
padres de realizao em beneficio de sua aceitao por grupos ou indivduos. 
Fatores higinicos: fatores motivacionais (Herzberg) 
A teoria da motivao no trabalho de Herzberg faz a distino entre satisfao no trabalho 
e motivao no trabalho. Os fatores que levam  satisfao no trabalho so denominados 
fatores higinios. Esses fatores esto relacionados com as condies em que o trabalho 
 realizado. Os fatores motivacionais so aqueles que esto diretamente relacionados 
com a tarefa ou o trabalho, e influenciam diretamente a produtividade dos membros da 
organizao. 
Herzberg define como fatores higinicos a superviso, as relaes interpessoais, as 
condies fsicas no trabalho, salrio, poltica organizacional, processos administrativos, 
sistema gerencial e benefcios, e segurana no trabalho. Como fatores motivacionais so 
indicadas a liberdade, a responsabilidade e a criatividade, e a inovao no trabalho. Os 
fatores higinicos so necessrios, mas no suficientes para promover a motivao e a 
produtividade dos membros da organizao. Quando houver deteriorao de qualquer 
dos fatores higinicos abaixo do nvel aceitvel pelo membro da organizao, surgir a 
insatisfao no trabalho, levando  formao de atitudes negativas. A melhoria dos fatores 
higinicos servir para remover os empecilhos  formao de atitudes positivas. 
Herzberg, entretanto, enfatiza que mesmo o contexto organizacional caracterizvel como 
timo (salrios, segurana, benefcios, polticas e normas administrativas adequados e 
aceitas) no leva necessariamente a atitudes positivas em relao ao trabalho. 
Auto-realizao e motivao 
Os fatores (1-lerzberg) que realmente levam  formao de atitudes positivas no trabalho, 
ou seja, os fatores que motivam os indivduos, so aqueles que possibilitam a satisfao 
da sua necessidade de auto-realizao no trabalho. Herzberg relaciona os fatores 
higinicos da organizao com a necessidade que tm os indivduos de se afastarem de 
situaes desagradveis. 
Salrios adequados, salubridade das condies fsicas do trabalho, polticas 
organizacionais e procedimentos administrativos coerentes e aceitos possibilitam um 
sentimento de bem-estar aos membros da organizao, enquanto a deteriorao de 
qualquer um desses fatores levar ao desprazer e ao malestar. Por outro lado, relaciona 
os fatores do trabalho propriamente dito com as 
301 



necessidades de desenvolvimento do potencial humano e com a realizao das 
aspiraes individuais.  na realizao da tarefa, afirma ele, que o indivduo dever 
encontrar a forma e os meios de desenvolver sua criatividade, de assumir a 
responsabilidade de ser independente e livre.  na tarefa, por tanto, que o indivduo ser 
motivado. 
Condies higinicas e satisfao no trabalho 
Ao relacionar as condies higinicas do trabalho com a satisfao, e a realizao da 
tarefa ou do trabalho com a motivao humana, Herzberg mostra que os dois fatores 
atendem a necessidades diferentes dos membros da organizao e no podem ser 
confundidos. O principal problema, segundo ele,  a dificuldade de distinguir fatores 
higinicos e fatores motivacionais. Para Herzberg, quando se trabalha com fatores 
higinicos, manipulam-se salrios, promoes, normas administrativas, polticas 
organizacionais e segurana do trabalho. Ao lidar com estes fatores, a organizao 
possibilita melhores condies de trabalho. As conseqncias sero, portanto, o aumento 
da satisfao dos membros para com a organizao, uma maior aceitao da 
organizao e de seus lderes, a diminuio da rotatividade e a manuteno de um 
padro de produtividade estvel, embora relativamente baixo. Os incentivos 
organizacionais baseados nos fatores higinicos no resultaro automaticamente em 
aumento da motivao e, portanto, da produtividade dos membros da organizao, mas 
criam condies necessrias para que as pessoas venham a ser motivadas. 
Motivao e produtividade 
Segundo Herzberg, os fatores motivadores do trabalho so aqueles que se referem  
tarefa e  sua execuo, mostrando uma relao direta e uma dependncia entre 
produtividade e motivao. Para ele, os fatores motivadores dos membros da 
organizao so aqueles ligados  forma de realizao de sua tarefa. Fatores tais como a 
liberdade de criar, de inovar, de procurar formas prprias e nicas de atingir os resultados 
de uma tarefa constituem basicamente os fatores motivadores na organizao. Como 
conseqncia, a organizao, ao criar condies motivadoras, estar basicamente 
fundamentando-se na capacidade tcnico- profissional de seus membros e na sua 
responsabilidade diante da tarefa e de seus resultados. O controle do comportamento 
deixa de ser funo do chefe ou da organizao.  assumido pelo prprio individuo. O 
resultado da tarefa, isto , a produtividade,  a medida avaliativa do membro da 
organizao. 
Produtividade versus integrao 
No entanto, os estudos de Herzberg mostram que tanto a produtividade quanto a 
motivao so objeto de interpretaes diversas. Confunde-se produ-
302



tividade com grau de integrao dos indivduos s normas e procedimentos da 
organizao, e motivao com a sua capacidade de integrao a essas polticas, normas 
e procedimentos administrativos. Em outras palavras, toma-se como fatores 
motivacionais a aceitao das condies de controle na organizao. A produtividade de 
seus membros passa a ter como referncia ou parmetro o seu grau de aceitao e de 
acomodao ao sistema organizacional, confundida, portanto, com seu comportamento e 
suas caractersticas de personalidade que, na maioria das vezes, no esto diretamente 
relacionadas com a tarefa nem exercem influncia sobre seus resultados. Dentro dessa 
perspectiva a organizao, ao avaliar a produtividade dos seus membros, toma por 
produtividade o grau de acomodao organizacional desses membros e no a 
capacidade tcnico-profissional, a responsabilidade e o compromisso com a qualidade 
dos resultados da tarefa, o que envolveria liberdade, criatividade, inovao, 
responsabilidade e compromisso com a prpria realizao tcnico-profissional. No 
entanto, dificilmente os membros de uma organizao podero apresentar contribuio 
tcnico-profissional e serem produtivos sem que a organizao lhes possibilite as 
condies bsicas necessrias no somente para ter satisfao na organizao, como 
tambm condies motivadoras do trabalho. A pr- :A pria avaliao dos membros da 
organizao torna-se complexa desde que envolve a capacidade das chefias em 
organizar e planejar o trabalho de seus subordinados, de forma a dar-lhes as condies 
necessrias para a sua realizao, bem como o espao organizacional para realiz-lo de 
forma nica e criativa, ou seja, a capacidade de criar condies motivadoras na 
organizao e a segurana pessoal para assumir a capacidade tcnico-profissional de 
seus subordinados. Diante desse contexto, as organizaes costumam fazer uma 
inverso de seus objetivos, que passam a ser predominantemente a sua auto-
perpetuao e a manuteno de um sistema de poder estabelecido. Consequentemente, 
as chefias mudam o objeto de seu controle, que passa a ser o comportamento dos seus 
subordinados, ou seja, sua capacidade de aceitar e adotar normas e procedimentos 
estabelecidos pela organizao e pelas chefias, independentemente da sua capacidade 
tcnico-profissional. 
Conformismo versus produtividade 
O comportamento conformista, cauteloso, pouco criativo, geralmente manipulador,  
tomado como comportamento integrador e maduro. Esses indivduos so reforados. Os 
individuos integrados so os que mais recompensas recebem na organizao, ou 
mediante promoes, reconhecimento, status ou outras vantagens. Adota-se uma 
avaliao dos membros da organizao baseada nas suas caractersticas de 
personalidade. J o membro da organizao cujo comportamento  independente, 
inovador e criativo  punido, e muitas vezes considerado gerador de conflitos e causador 
de desintegrao da organizao. Sua necessidade de auto-realizao  confundida com 
contestao  autoridade e tentativa de usurpar o poder da chefia. 
303 



Avaliao do grau de integrao ou adeso ao sistema versus produtividade 
Em funo dos critrios estabelecidos pelas chefias, os membros da organizao so 
avaliados no que se refere  sua integrao na organizao, sua capacidade de se 
relacionar com os demais membros e sua capacidade de aceitao das polticas e 
procedimentos administrativos. A aceitao das formas de execuo das tarefas 
(definidas e determinadas pelos seus superiores)  outro fator positivo na avaliao dos 
membros da organizao. Estes so avaliados pela sua capacidade de adeso s 
normas e  autoridade superior. Herzberg observa que esse tipo de avaliao de 
desempenho no se dirige na realidade ao desempenho tcnico-profissional do indivduo, 
nem leva em considerao sua capacidade. Os fatores psicolgicos tomados como base 
para tal avaliao tm pouca ou nenhuma relao com a realizao da tarefa 
propriamente dita e com a produtividade do indivduo. 
Sistemas de incentivos e manipulao de comportamento na organizao 
Assim, a organizao passa a manipular o comportamento de seus membros 
diretamente, por meio de recompensas e de punies (reforo positivo e negativo): 
salrios, promoes, reconhecimento etc. Ao utilizar os incentivos salariais, a organizao 
no est, na maioria das vezes, trabalhando no nvel das motivaes humanas ou da 
produtividade organizacional. Na realidade, busca o controle e a padronizao do 
comportamento de seus membros, condicionando e reforando respostas por ela 
definidas como adequadas. 
Desta forma, as organizaes levam seus membros a aprender a viver num mundo onde 
os meios passam a ser fins, onde os fatores higinicos: salrios, promoes, segurana 
etc., que seriam meios, passam a ser fins para a existncia. Um mundo onde o individuo 
nega o direito de tornar-se o que ele seria pela sua prpria natureza biopsicossocial ao 
mesmo tempo que limita sua contribuio  sociedade mais ampla. 
interao indivduo-organizao 
Motivao e produtividade, portanto, dependem da organizao e dos individuos. Ao 
estabelecer uma poltica motivacional centrada na capacidade tcnico-profissional dos 
seus membros, a organizao deve criar condies para a expresso dessa capacidade. 
Produtividade e motivao, portanto, s podem ser compreendidas dentro de um contexto 
dinmico, onde os fatores organizacionais e a capacidade individual de seus membros 
esto em contnua interao. 
Motivao e problemas emocionais 
O problema dos desajustamentos emocionais nas organizaes passou a ser observado 
 medida que essas comearam a exercer um papel mais pre-
304


 
ponderante na vida dos indivduos, como fator de sua manuteno financeira e de sua 
auto-realizao e auto-expresso. O trabalho exerce hoje uma funo mais ampla na vida 
das pessoas  proporo que passou a integr-la como uma forma de desenvolvimento 
do seu potencial humano. Isto ocorreu quando as pessoas passaram a dedicar mais 
tempo e a despender grande parte de suas vidas nas organizaes de trabalho, quer seja 
nos escritrios, nas empresas, nas fbricas, nas instituies pblicas etc. 
Problemas emocionais e autocracia 
As organizaes no se modificam de forma a atender s demandas de auto-realizao e 
auto-expresso de seus membros; mantm-se, em geral, dentro de padres autocrticos, 
onde o direito de pensar, de criar e de assumir responsabilidades est centralizado na 
direo superior e nas chefias. Esse grupo pensante estabelece normas e 
procedimentos e exerce o controle sobre os membros da organizao por meio de 
manuais, de regulamentos ou de normas. Pune ou recompensa (salrios, promoes, 
demisses, suspenses etc.) pelo comportamento considerado adequado ou no  
organizao. 
Dentro deste contexto, os individuos tero uma nica alternativa, a saber: 
aprender a responder corretamente ao sistema de punies e recompensas, restringindo-
se  satisfao de suas necessidades de segurana, em detrimento de suas 
necessidades de auto-expresso e auto-realizao. 
Graus diferentes das necessidades bsicas 
Ao analisar seus estudos de N-achievement (necessidade de realizao, necessidade de 
poder e necessidade de afiliao), Mcclelland mostra que os individuos tm 
necessidades bsicas em graus diferentes. A predominncia de uma necessidade em 
relao a outra caracteriza a maior ou menor adequao de um indivduo em situaes 
diferentes. Pessoas, por exemplo, com alto grau de necessidade de realizao 
estabelecem para si prprias um padro de excelncia e lutam para alcan-lo na sua 
vida profissional. O objetivo que predomina na vida dessas pessoas  a excelncia e a 
competncia profissional. Essas pessoas so as que mais facilmente se desajustam nas 
empresas burocrticas. Ao contrrio, os indivduos cujas necessidades predominantes 
so o poder ou a afiliao encontram-se mais facilmente nas condies organizacionais 
burocrticas, tm suas necessidades predominantes mais facilmente satisfeitas, 
integram-se mais no contexto organizacional e so, conseqentemente, mais 
recompensados e beneficiados pelo sistema organizacional. 
Diferena entre doena mental e problemas emocionais 
Herzberg, por outro lado, ao analisar os resultados de pesquisas por ele realizadas, faz 
uma distino entre doena mental e problemas emocionais. 
305 



Indica que grande porcentagem de casos encontrados nas organizaes estudadas  de 
problemas emocionais que, na sua maioria, tinham por causa as condies de trabalho. 
Os fatores apontados como desajustadores foram: 
restrita ou nenhuma liberdade na execuo da tarefa; discusso de idias ou 
apresentao de alternativas de ao consideradas como contestao da autoridade da 
chefia; uso de punies tais como ostracismo dos indivduos contestadores vedando-
lhes a contribuio ou a atuao; congelamento salarial e demisses. O problema de 
sade mental nas organizaes, segundo Herzberg, no ser resolvido somente com a 
melhoria das condies higinicas, ou seja, segurana no trabalho, salrios justos, carga 
horria adequada, salubridade de local de trabalho etc., mas dever incluir a reformulao 
das organizaes no que se refere  maior participao de seus membros nas decises 
e  liberdade na realizao de tarefas, possibilitando assim a auto-realizao e a auto-
expresso. 
Motivao e chefia  o papel do chefe 
A centralizao do poder, a utilizao cada vez maior de instrumentos e mecanismos de 
controle de sentimentos, de valores e do prprio conhecimento, como a mudana cultural 
compulsria, os modelos participativos de administrao e a filosofia japonesa de 
administrao, entre outros, exemplificam as novas formas de barrar a realizao de 
desejos individuais. Nestes processos, a distoro da percepo do individuo, a 
internalizao de objetivos da organizao como seus prprios desejos geram a 
incapacidade dele ter conscincia da sua realidade interna e da realidade externa. Fecha-
se o ciclo da falsificao da conscincia e se estabelece o processo da mentira para si 
mesmo e para o outro. A organizao passa a ter um poder sobre o individuo na medida 
em que passa a ser a sua razo de ser, de realizar-se, de ser feliz. 
Teoria dos fatores higinicos de Herzberg  pressupostos ideolgicos e limitaes 
A teoria dos fatores higinicos de Herzberg aborda o trabalho como uma 
forma de acumulao de capital e a pessoa humana como seu instrumento. 
As necessidades humanas devem ser atendidas  medida que favoream o aumento da 
produtividade e os resultados da empresa. Motivar os membros de uma organizao 
significa criar condies para que os individuos trabalhem mais e melhor em beneficio da 
organizao. Ao limitar a motivao  liberdade, criatividade e responsabilidade na 
realizao de tarefas, delimita o mbito de influncia e de ao dos membros da 
organizao: o seu espao de liberdade limita-se exclusivamente ao mbito da tarefa. A 
realizao humana na sua plenitude concretiza-se para Herzberg na liberdade de criar e 
inovar na tarefa. 
A proposta de Herzberg deixa intacto o sistema capitalista e a organizao 
burocrtica. A democracia proposta por Herzberg limita-se, assim, a uma li-
306 



berdade confinada a um mbito restrito da organizao: a tarefa. Na realidade,  uma 
proposta conservadora e manipuladora que tenta minimizar os efeitos negativos de um 
sistema injusto, sem que sejam efetuadas mudanas profundas nesse sistema. Flerzberg 
jamais questiona o sistema mais amplo, ou prope 
o retorno do aumento da produtividade para aqueles que o geraram. 
Todas as proposies so feitas no sentido de beneficiar o capital e a sua concentrao. 
Reflexes e consideraes 
Ao analisar-se as teorias de Maslow, Herzberg e Mcclelland encontra-se um ponto comum 
entre eles, que  a confuso entre desejos e necessidades. Desejos so indestrutveis, 
esto sempre presentes. O desejo est em funo da ausncia e encontra-se geralmente 
no nvel do inconsciente, da fantasia. J a necessidade se relaciona com o objeto 
concreto. Termina quando satisfeita. 
Maslow simplifica o conceito de motivao ao propor a hierarquia de necessidades 
humanas. No distingue desejos de necessidades e toma por necessidades os desejos. 
No h como explicar a hierarquia estabelecida por ele. Na realidade, as necessidades 
bsicas, fisiolgicas, consideradas por ele, so condies essenciais para a 
sobrevivncia do indivduo. O individuo sem estas condies barra a sua natureza de ser 
desejante. O surgimento de desejos e a forma de busc-los depende em parte do estgio 
do processo de desenvolvimento cognitivo e de formao moral em que se encontra o 
indivduo. As estruturas cognitivas superiores significam um ego expandido, uma 
conscincia maior e mais objetiva dos desejos e da forma de realiz-los. E possivelmente 
uma relao mais intima entre as vrias frentes de personalidade. 
Percebe-se na hierarquia de Maslow uma seqncia de desejos semelhantes s 
estruturas cognitivas encontradas por Piaget no estudo do desenvolvimento psicogentico 
da criana. Mas que no  possvel afirmar como tendo a mesma natureza, os desejos e o 
processo cognitivo. 
Mcclelland tem como pressuposto de sua teoria da necessidade de realizao a tica 
protestante que postula a realizao no trabalho, o sucesso profissional e econmico 
como bnos divinas. Entretanto Mcclelland se aproxima da motivao como resultante 
de pulses internas e determina o meio social, no caso as organizaes, como o contexto 
no qual o indivduo poder encontrar, ou no, as possibilidades de satisfao de seus 
desejos. Trabalho com os desejos mais universais, como poder, auto-realizao, ser 
amado. 
Herzberg, entretanto, toma o meio social, a organizao, como a fonte motivadora do 
indivduo. Toma o individuo como meio e transforma os seus desejos na necessidade da 
organizao. A organizao atravs dos fatores motivacionais manipula o indivduo, 
motiva-o. Reduz a auto-realizao  realizao da tarefa. O individuo se motiva no 
trabalho pelos fatores que se relacionam diretamente com o trabalho. Fundamenta-se na 
razo instrumental e transforma o individuo num meio para se atingir os fins de eficcia. 
Vide Caps. 1, 4, 5 e 7. 
307 




As conseqncias da no realizao das necessidades se aproxima dos mecanismos de 
defesa, a hierarquia proposta enrijece o psiquismo humano, trata-o quase que 
mecanicamente, cataloga necessidades que, na realidade, so desejos. Para Maslow 
existe um mecanismo no explicado de hierarquizao e que por no explic-lo anula a 
prpria hierarquia de necessidades propostas por ele. 
RESUMO 
O termo motivao  usado comumente para designar um problema do indivduo isolado. 
No entanto, para compreender a motivao no trabalho  necessrio conhecer as causas 
pelas quais  ativado, bem como a forma de ao e a direo da motivao. 
Diferentes abordagens da motivao fundamentam-se no principio do hedonismo. 
Entretanto, diferentes grupos de psiclogos adotam diferentes abordagens tericas para 
explicar a motivao. Para os behavioristas, o que motiva o comportamento so as 
recompensas e punies decorrentes do comportamento passado do indivduo. Os 
cognitivistas pensam que os indivduos se empenham em atingir coisas atrativas e tentam 
afastar-se das coisas negativas. Segundo Freud, so os instintos que fornecem uma fonte 
continua e fixa de estimulao: os indivduos podem aprender a atingir certos objetivos 
que possibilitem a liberao de tenses, mas nem sempre tm conscincia de suas 
motivaes reais. Lewin tambm afirma que as aes humanas devem ser explicadas 
como uma forma de liberao de tenses. As tenses originam-se das intenes 
voluntrias de realizar determinadas aes e s desaparecem com a realizao da ao. 
Maslow adota como hiptese central uma hierarquia das necessidades humanas, pela 
qual as necessidades superiores somente surgiriam depois de satisfeitas as 
necessidades inferiores. Herzberg distingue a satisfao da motivao no trabalho. A 
satisfao dependeria das condies de trabalho (fatores higinicos), enquanto a 
motivao estaria relacionada com o prprio trabalho e influenciaria diretamente a 
produtividade. 
A motivao  resultante de pulses internas, de desejos e de necessidades individuais 
que cada pessoa como ser nico busca concretizar. O meio externo, as organizaes, 
no so a origem da motivao humana. A organizao enquanto meio social poder 
facilitar ou barrar a realizao dos desejos e a satisfao das necessidades. Na 
realidade, as frustraes constantes podem levar o individuo  apatia, ao 
descontentamento,  desmotivao. Ela no encontra, no meio social, as condies para 
a sua realizao. H, portanto, uma influncia do meio externo no indivduo. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Drives: impulsos no direcionados, considerados pelos behavioristas como um dos tipos 
de estimuladores do organismo. 
308 



Fatores higinicos tais fatores seriam a superviso, as relaes interpessoais as 
condies fisicas no trabalho, salario politica orgamzacional processos admi nistrativos 
sistema gerencial e beneficios no trabalho So esses fatores que le vam a satisfao do 
individuo no trabalho 
Hierarquia das necessidades considerada como a hipotese central da te 
oria de Maslow; refere-se s necessidades biolgicas, psicolgicas e sociais. 
Motivao (behaviorismo) a abordagem teorica em que a motivao de um individuo esta 
relacionada com as consequncias dos efeitos produzidos pelo comportamento passado 
do mesmo ou seja a recompensa ou punio recebidas 
Motivao (cognitivismo) os individuos possuem valores, opinies e ex pectativas em 
relao ao mundo que os rodeia portanto possuem representa es internalizadas do seu 
ambiente; o que motiva o comportamento do individuo so os objetos e acontecimentos 
atrativos para ele .
Necessidades fisiologicas so as necessidades basicas do ser humano e as mais 
preponderantes de todas as necessidades humanas .
Necessidades de realizao (N-achievement): os indivduos estabelecem para si um 
padro de excelncia de seu desempenho e tentam alcan-lo por diferentes meios 
Procuram o nivel de excelencia e so consistentes na sua busca realizam se naquilo que 
fazem e no nas possiveis recompensas ou efei tos decorrentes do trabalho realizado 
Valncia negativa: foras repulsivas que afastam o indivduo de certas atividades. 
Valencia positiva fora interna que o individuo experimenta e que o move para a ao 
APLICAO 
1  Pesquisa 
1 Visite trs empresas de diferentes setores industriais 
1.1 Identifique os sistemas de incentivos adotados em cada uma delas 
1. 2 Identifique as condies de trabalho em cada uma 
Analise as diferenas encontradas no sistema de incentivos da em 
presa e a fundamentao essas diferenas 
2 Levante junto a trs empresas os seus planos de incentivos 
2. 1 Pesquise as consequncias desses planos no comportamento dos 
membros dessas organizaes 
2 .2 Identifique os pressupostos teoricos que fundamentaram esses 
planos de incentivo 
3. Pesquise no mnimo em trs empresas os sistemas de avaliao de desempenho 
adotados por elas. 
309 



3.1. Analise os critrios adotados em cada sistema de avaliao encontrado. 
3.2. Critique os sistemas de avaliao analisados, fundamentando-se nos conceitos e 
teorias discutidos no capitulo. 
3.3. Analise as conseqncias dos sistemas de avaliao de desempenho pesquisados, 
no comportamento dos membros da organizao e na organizao como um todo. 
Proponha solues alternativas. 
II Trabalho Prtico 
1. Montmollin (1972), psiclogo organizacional francs, faz severas criticas aos sistemas 
de avaliao de desempenho. Suas criticas vo desde os princpios em que se 
fundamentam at a forma e critrios adotados na sua utilizao. Segundo ele, os 
complicados formulrios de avaliao de desempenho so meros instrumentos de 
exerccio de controle do comportamento dos subordinados pelos superiores; retratam 
impresses subjetivas e pode riam ser simplificados da seguinte forma: 
FICHA DE AVALIAO 
Nome: 
Funo: 
 um timo indivduo 
 um indivduo mais ou menos 
No o tolero 
Data :
Assinatura do Superior :
1.1. Analise os sistemas de avaliao encontrados nas empresas pesquisadas. Compare 
os dados levantados s criticas de 
Montmollin. Analise os fundamentos de suas criticas. 
2. Elaborao do plano de incentivos motivacionais. 
2.1. Elabore um plano de incentivos com base nas teorias motivacionais discutidas neste 
capitulo. 
2.2. Justifique a fundamentao de seu plano. 
2.3. Analise as dificuldades de sua implantao e as mudanas necessrias na 
organizao para seu funcionamento. 
III  Estudo de caso n. 1 
Uma grande companhia de seguros estabeleceu, dentro de seu plano de incentivos, um 
prmio de excelncia para seus gerentes. Esse prmio era constitudo por uma quantia 
em dinheiro equivalente a um tero do salrio mensal. A distribuio do prmio era feita 
com base na avaliao realizada pelos su-
310



periores quanto  adequao do gerente  companhia, ou seja, aos seus padres de 
comportamento e normas, e tambm quanto  sua produtividade. A nfase, entretanto, era 
dada  adequao aos padres de comportamento. O prmio de excelncia foi 
implantado durante um ano, sendo observadas as seguintes conseqncias na 
companhia: alto grau de tenso e ansiedade entre os gerentes, tanto naqueles que 
receberam quanto naqueles que no receberam o prmio de excelncia. Entre os 
gerentes beneficiados com o prmio de excelncia no se observou aumento de 
produtividade relevante, e alguns deles abandonaram a companhia. Entre os que 
permaneceram, observou-se uma reao muito critica  poltica de incentivos adotada e  
prpria companhia. 
a) Explique e justifique as causas das conseqncias observadas, fundamentando-se nas 
teorias j estudadas. 
b) Sugira solues e alternativas para esse plano de incentivos. 
Katz e Kahn consideram os padres organizacionais de motivao como fatores de 
direcionamentos e de envolvimento do individuo com a organizao. Eles partem do 
pressuposto de que a motivao o individuo tem como fonte geradora fatores externos: 
1. Padro (A)  Submisso legal: garante a aceitao das prescries do papel e do 
controle organizacional  base de sua legitimidade. As regras so obedecidas porque 
so reconhecidas como vindas de fontes legitimas de autoridades e por que podem ser 
foradas atravs de sanes. As fontes motivacionais desse padro so a fora externa, 
que pode ser mobilizada para a completa obedincia e a aceitao por meio de sanes 
legais. 
2. Padro (B) ou o uso de recompensas ou satisfaes instrumentais para introduzir os 
comportamentos desejados esperando-se que,  medida que as recompensas 
aumentem, as motivaes tambm aumentem. A caracterstica desse padro  a 
transformao das aes em instrumentos para o alcance de recompensas especificas. 
3. Padro (C) ou padro internalizado de autodeterminao e de autoexpresso. As 
satisfaes neste padro decorrem da realizao e da expresso de habilidade e 
talentos. Auto-expresso e autodeterminao so as bases para a identificao com o 
trabalho, porque as satisfaes derivam diretamente da execuo do papel. 
4. Padro (D) ou internalizao de valores da organizao.  aquele que leva  
incorporao dos objetivos e subjetivos do sistema e, conseqentemente,  ativao de 
comportamentos no prescritos no papel. Fatores que facilitam a internalizao de valores 
da organizao: participao em decises na organizao, contribuio para o 
desempenho da organizao e participao em recompensas. 
QUESTES
1.A partir dos padres organizacionais de motivao: 
311 



a) identifique a que estgios de moralidade Kohlberg e Piaget (Cap.l) se referem; 
b) analise as conseqncias do uso desses padres organizacionais de motivao no 
processo de formao de conscincia moral do indivduo; 
c) identifique as conseqncias na auto-realizao do indivduo; d) analise as 
conseqncias na melhoria de qualidade e na produtividade da empresa; 
2. Analise a questo tica apresentada pelo uso dos padres motivacionais (Cap. 1  
Ao Comunicativa e tica Discursiva). 
3. Compare esses padres motivacionais com o trabalho ao nvel psicolgico do indivduo 
(distoro de percepo, falsificao de conscincia  Cap. 8). 
4. Quando um superior alega que seus subordinados no se integram, no se motivam e 
apresentam problemas emocionais, de que forma 
ele est analisando o processo motivacional? 
5. Qual a diferena entre a abordagem behaviorista e a abordagem cognitivista da 
motivao? 
6. Qual  o pressuposto terico central da teoria de Maslow? 
7. Segundo Maslow, quais so as principais necessidades humanas? 
8. Quais so as conseqncias para a organizao da teoria de Maslow? 
9. Qual o pressuposto bsico da teoria da realizao de Mcclelland? 
10. Quais as conseqncias da aplicao dessa teoria na vida da organizao? 
11. Qual a hiptese bsica da teoria da motivao no trabalho de Herzberg? 
12. Quais so os fatores que, segundo Herzberg, aumentam a produtividade na 
organizao? 
13. Qual o papel da chefia no processo de motivao dos seus subordinados? 
14. Quais so os fatores organizacionais que mais diretamente provocam problemas 
emocionais nos membros da organizao? 
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VROOM, Victor H. Work and Motivation. New York: John Wiley, 1974. 
313



13.LIDERANA 
PROCESSOS GRUPAIS E O 
COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL 
Ao terminar a leitura deste capitulo voce devera ser capaz de 
1 Identificar a importancia da abordagem psicossociologica dos grupos na organizao 
2 Compreender as diferentes teorias da liderana e seus pressu postos filosoficos EtA 
3 Compreender a diferena entre lider e ocupante de posio de direo 
4 Identificar as funes de liderana no grupo 
5 Compreender os efeitos dos diferentes estilos de liderana no comportamento do grupo 
e de seus membros 
6 Compreender a influncia da liderana no desempenho do grupo 
Processos grupais e a organizao 
Quando se observa uma organizao e facil verificar a existncia de diferentes grupos A 
alta direo tem objetivos especificos (valores), normas e padres de comportamento 
estabelecidos, alem de uma forma propria de interao entre seus membros Outros 
grupos tm igualmente seus objetivos, valores e 
normas comuns bem como uma forma propria de interao entre seus membros Tais 
caracteristicas podem ser identificadas nos diferentes niveis e areas de qualquer 
organizao.
A importancia e a influncia dos grupos na organizao e no comportamento de seus 
membros tm sido uma preocupao constante de psicologos sociais Estes tem 
realizado muitos estudos sobre os fenmenos grupais, especificamente sobre a maneira 
como se formam os grupos, a natureza de suas foras psicossociologicas a influncia das 
diferentes estruturas grupais e dos canais de comunicao, o poder de influncia e de 
mudana nos pequenos grupos a caracterizao de um hder as funes de liderana e 
seu papel na realizao e no comportamento dos membros dos grupos 
315 



Dinmica de grupo 
O grupo, entendido como uma entidade psicossociolgica, sujeito a fenmenos 
especficos, tais como coeso, estrutura, liderana etc., foi incorporado  Psicologia 
Social e tornou-se objeto de estudos e pesquisas, gerando assim uma contribuio 
cientifica para a melhor compreenso do comportamento humano. Esta rea da 
Psicologia Social tomou-se objeto de estudos cientficos, entre os quais tem especial 
importncia a contribuio de Kurt Lewin. Denominada Dinmica de Grupo, esta rea no 
se confunde com simples tcnicas de trabalho em grupo. A dinmica de grupo  uma rea 
de estudo cientifico que tem por objeto os grupos como entidades psicossociolgicas, a 
natureza de suas foras, os fenmenos e os processos grupais. Cartwright e Zander 
(1959) enfatizam que uma das suposies bsicas da dinmica de grupo  a 
possibilidade de descobrir leis gerais referentes  vida do grupo, e vlidas para grupos 
aparentemente diferentes. Os mtodos de pesquisa adotados incluem desde a 
observao natural at prticas de laboratrio com experincia controlada. 
Orientaes tericas 
Aqueles que estudam os fenmenos grupais adotam diferentes orientaes tericas. 
Entre elas encontra-se a teoria de campo, segundo a qual o comportamento  uma 
conseqncia de um campo de componentes interdependentes (espao vital ou campo 
psicolgico). Os principais representantes dessa orientao so Kurt Lewin, Cartwrigh, 
Zander, Deutsch, alm de outros. 
A teoria de interao, cujos principais representantes so Bales, Homans e White, aborda 
o grupo como um sistema de indivduos em interao. A abordagem do grupo como um 
sistema  encontrada de formas diferentes na orientao de outros psiclogos sociais, 
como Theodore Newcomb, Milier, Stogdffl e outros. 
A abordagem do grupo atravs da teoria psicanaltica  representada pelos trabalhos de 
Freud, Bion, Redi, Stock, Thelen e outros, que desenvolvem os conceitos de identificao, 
de regresso, os mecanismos de defesa e inconsciente no estudo dos grupos. A teoria 
cognitivista, especialmente representada pelos trabalhos de Salomon Asch, Festinger, 
Heider Krech e Crutchfield, ao estudar os grupos, enfatiza a importncia de compreender 
como os indivduos recebem e integram as informaes sobre o mundo social e como 
essa informao influi em seu comportamento. 
Encontra-se ainda entre os estudiosos de orientao dinamicista a abordagem emprico-
estatstica, que postula o uso da estatstica como meio para identificao dos conceitos e 
leis gerais dos grupos. Estes usam a anlise fatorial e os processos desenvolvidos no 
campo dos testes de personalidade. Encontram-se entre esses psiclogos: Cattell, 
Borgotta, Cottrell, Meyer e Hamphil. O estudo do grupo, finalmente, foi abordado por meio 
de modelos formais, com bases na matemtica. Entre os psiclogos desta orientao 
encontram-se: Simon, French, Hays e Busch e Harary entre outros. Cartwright e Zander 
(1968), ao 
316 



analisarem as diferentes orientaes tericas e os mtodos empregados no estudo dos 
grupos, enfatizam a contribuio que esta diversidade terica e experimental empresta ao 
desenvolvimento cientifico dos fenmenos grupais. 
A distino entre uma coleo de indivduos ou um agregado de um lado, e de outro um 
grupo, tem sido feita pelos psiclogos sociais, mas para muitos deles no existe uma 
linha divisria rgida entre um e outro. A mesma dificuldade tem sido apontada quando se 
tenta distinguir um pequeno grupo de um grande grupo. Entretanto, algumas 
caractersticas tm sido apontadas como indicadoras da existncia de pequenos grupos 
(Sherif, 1948): 
1. Os membros compartilham de um ou mais objetivos que determinam a direo em que 
o grupo se locomover. 
2. Os membros desenvolvem um conjunto de normas que estabelecem os limites dentro 
dos quais as relaes interpessoais devem ser estabelecidas, e a atividade desenvolvida. 
3. Se a interao continua, um conjunto de papis se torna estabilizado e o novo grupo 
diferencia-se de outros. 
4. Uma rede de atrao interpessoal desenvolve-se nas bases do gostar ou no dos 
membros do grupo. 
Em sntese, Sherif prope as seguintes caractersticas que diferenciam um grupo de um 
agregado ou coleo de pessoas: interao entre os membros, objetivo e conjunto de 
normas comuns, conjunto de papis e uma rede de atrao interpessoal. 
Kurt Lewin, ao definir o grupo, enfatiza a interdependncia de seus membros para 
caracteriz-los, critrio alis vlido para caracterizar qualquer todo unitrio. Cattell, por 
outro lado, d uma nfase maior aos objetivos do grupo e o define como um agregado de 
organismos em que a existncia de todos  utilizada para a satisfao de algumas 
necessidades de cada membro. 
O termo grupo, entretanto,  tomado para designar dois ou mais indivduos que 
compartilham de um conjunto de normas, crenas e valores, e que, implcita ou 
explicitamente, mantm relaes definidas de tal forma que o comportamento de cada um 
traz conseqncias para os demais. As propriedades do grupo, ou seja, o conjunto de 
normas, crenas e valores comuns e a definio das relaes entre os membros 
emergem da interao desses membros e, ao mesmo tempo, trazem conseqncias para 
a interao dos membros do grupo, comprometidos com um objetivo comum (Proshansky 
e Seidenberg, 1965). Este conceito de grupo enfatiza: 
a) a necessidade de um objetivo comum; 
b) que este objetivo seja capaz de satisfazer s necessidades dos membros do grupo; 
c) a interao entre os membros do grupo como fator fundamental da definio de grupo; 
d) a impossibilidade de conceber um grupo sem interao e a interdependncia de seus 
membros. 
317 



Processos grupais: liderana 
Quando se fala em grupo, imediatamente pensa-se no seu lder, e a maior parte das vezes 
relaciona-se a liderana com a realizao e a produtividade do grupo. 
Para compreender as relaes existentes entre lideranas e realizao do grupo  
importante, antes de mais nada, tornar claros os conceitos de lder e de liderana. Gibb 
(1968), ao analisar os diferentes conceitos de liderana, mostra que diante da pergunta 
quem  o lfder? a resposta mais comumente dada  o ocupante de um cargo de 
direo O lder  confundido com o chefe ou com qualquer pessoa que ocupa 
formalmente uma posio de direo. Essa definio engloba fatores de natureza diversa 
e no distingue a influncia unilateral (comando) da influncia voluntariamente aceita. 
Outro conceito de lder (Redi)  encontrado na tradio psicanaltica, que conceitua o lder 
caracterizando a relao afetiva entre os membros de um grupo e a pessoa central Essa 
relao afetiva entre os membros e a pessoa central leva  incorporao de sua 
personalidade no ego de seus seguidores (o desejo de serem como ele). Esta definio 
de lder sofre as limitaes da teoria psicanaltica e restringe a prpria definio de lder 
ao processo de identificao. A definio de um lder em funo das escolhas 
sociomtricas (Moreno, Jennings e Bales, 1950-1953) mostrou que nem sempre aqueles 
que na percepo do grupo contribuem com as melhores idias so os mais aceitos. Os 
estudos de Bales mostram que,  medida que o membro do grupo est participando 
mais, exigindo mais realizao do grupo, est tambm perdendo na sua aceitao junto 
ao grupo, provocando reaes contrrias. Segundo Bales, os membros que mais 
contribuem em idias e realizaes so mais ou menos aceitos pelo grupo, dependendo 
dos diferentes momentos que o grupo esteja vivendo. Os conceitos de lder de tarefa e de 
lder emocional foram posteriormente estudados, e os resultados dos estudos indicam que 
o predomnio de um ou de outro tipo de liderana depende da importncia atribuda pelo 
grupo  tarefa ou ao processo grupal em dado momento (Marcus, 1960; Turk,1961). 
Fiedler (1958) considera a liderana como um processo compartilhado, mas somente 
considera lder aquele membro que: 
a) foi designado pela organizao da qual o grupo  parte como lder do grupo; b) foi 
eleito pelo grupo; c)  um indivduo que pode ser identificado como mais influente nas 
questes relevantes  tarefa atravs da escolha sociomtrica. 
De acordo com outro conceito, lder  aquele que exerce influncia sobre outros. Esta 
definio implica a idia de que poucos indivduos influenciam os demais membros do 
grupo. A liderana seria ento a capacidade de tomar iniciativa em situaes sociais de 
planejar, de organizar a ao e de suscitar colaborao (The OSS Assessment Staff). 
Aceitao da liderana 
Alm da capacidade de influenciar os demais membros do grupo, a liderana envolve a 
aceitao voluntria dessa influncia. A influncia que carac-
318



teriza o lder  aquela aceita voluntariamente e que assim ajuda o grupo a caminhar em 
direo a seus objetivos. A relao entre empregado e patro e a relao entre diretor e 
subordinado so relaes caracterizadas por uma influncia unilateral, onde uma das 
partes possui poder para se fazer obedecer por meio de punies ou coaes. O lder 
no usa a autoridade para influenciar os demais membros de um grupo; sua influncia no 
emana de sua posio na hierarquia. O ocupante de uma posio de direo comanda 
seus subordinados e estes aceitam sua dominao porque esta  legitimada pelas 
normas da organizao e porque sua rejeio implicaria punies e at desligamento, 
como membro do grupo organizacional. O fato de um indivduo ocupar uma posio de 
direo no o impede de exercer uma influncia voluntariamente aceita. Mas  importante 
esclarecer que o simples fato de ocupar formalmente uma posio de chefia no lhe 
confere as caractersticas de lder. Ao contrrio, os ocupantes de cargos de direo 
geralmente manipulam seus subordinados, fazem-se segui- dos e obedecidos pelo uso 
dos poderes de punir e de recompensar. 
O conceito de lder envolve, portanto, a aceitao voluntria de sua autoridade pelos 
demais membros, assim como o reconhecimento de sua contribuio para o progresso 
do grupo. A autoridade do lder deriva da contribuio que d ao grupo para atingir seus 
objetivos. Cattell (1951) sugere que a existncia de um lder pode ser identificada por dois 
aspectos: 1 pelo exame das relaes internas do grupo (estrutura); 2 pela eficcia do 
seu desempenho. Gibb (1969) destaca que os estudos mais recentes sobre liderana e 
dominao apontam a seguir as diferenas principais: 
1. A dominao ou direo so mantidas atravs de um sistema organizado e no pelo 
reconhecimento espontneo, de parte dos membros do grupo, da contribuio do 
indivduo para a locomoo do grupo (movimento em direo aos seus objetivos). 
2. O objetivo do grupo  escolhido pelo chefe de acordo com seus interesses e no  
internamente determinado pelos membros do grupo. 
3. Na dominao ou direo h pouco ou quase nenhum sentimento comum ou ao 
compartilhada na busca de um dado objetivo. 
4. Na relao de denominao existe uma grande distncia entre os membros do grupo e 
a direo, que luta para manter a distncia social como um meio de coao do grupo. 
5. As duas formas de influncia diferem basicamente no que diz respeito  fonte de 
autoridade exercida. A autoridade do lder  espontaneamente conferida pelos membros 
do grupo. A autoridade do chefe origina-se do poder superior ao grupo, cujos membros 
no podem ser denominados seus liderados. Em vez de segui-lo, eles aceitam a sua 
formao em funo das punies. 
Entretanto,  medida que os ocupantes de cargo de direo so capazes de exercer uma 
influncia e faz-la ser aceita voluntariamente, passam a ser reconhecidos pelos 
subordinados como uma fonte de contribuio positiva para o progresso do grupo, 
assumem a posio de lideres e so capazes de incentivar o desejo espontneo de 
colaborao. 
319 



As distines feitas entre lder e chefe so muito significativas e mostram as 
conseqncias da predominncia de um ou de outro na organizao. O termo liderana  
tambm objeto de controvrsia e permite o desenvolvimento de duas abordagens 
antagnicas: 
1. A liderana como caracterstica de um indivduo. 
2. A liderana como propriedade de um grupo. 
A liderana como caracterstica de um indivduo 
Fundamenta-se na identificao dos traos individuais, fsicos, intelectuais e de 
personalidade que caracterizam os lideres (liderana inata). De acordo com a teoria, 
todos os lideres, em qualquer situao e cultura, revelam os mesmos traos psicolgicos. 
Entretanto, os estudos de liderana no confirmam tal hiptese. Dentro da mesma linha, 
afirma-se que a capacidade de liderana  uma conseqncia de um conjunto de traos 
psicolgicos que variam em situaes diferentes. Essa teoria postula um padro bsico 
de personalidade para os lideres. 
Muitas tentativas foram feitas para desenvolver testes que possibilitassem a identificao 
dos traos de liderana, tendo sido desenvolvidas pesquisas e estudos que procuraram 
definir esses traos. A grande dificuldade encontrada foi a sua mensurao. A 
subjetividade dos testes, a dificuldade da sua validao e a prpria complexidade da 
personalidade criam barreiras quase intransponveis para um estudo cientifico nos termos 
pretendidos; e os resultados das pesquisas no trouxeram a confirmao de suas 
hipteses. Bird e Stogdill destacam que os estudos dos traos apresentam resultados 
conflitantes; alm de indicarem grande nmero de traos entre os lideres, apresentam um 
baixo percentual entre os traos de liderana comuns encontrados nos diferentes estudos. 
Cartwright e Zander (1968), ao analisarem os resultados das pesquisas dos traos de 
liderana, mostram que os pesquisadores desta rea indicam que, embora algumas 
capacidades mnimas sejam comuns a todos os lideres, elas esto amplamente 
presentes nos no-lideres. E, em dada situao, os traos de um lder so totalmente 
diversos dos traos de outro lder em situao diferente. 
A liderana como propriedade de um grupo 
 postulada pela teoria da interao. De acordo com esta teoria, a liderana  um 
fenmeno que surge  medida que o grupo se forma e se desenvolve. O papel que um 
individuo assume dentro de um grupo  determinado pelas necessidades do grupo, como 
tambm pelos atributos de personalidade, capacidades e habilidades que caracterizam 
aquele indivduo e que so percebidos pelos demais membros. Essa definio enfatiza a 
realizao de funes necessrias ao grupo e a adaptabilidade a novas situaes. 
Dependendo da necessidade, desaparece o lder atual e surgem diferentes lideres em 
diferentes situaes e momentos da vida do grupo. Dentro dessa abordagem situacional, 
os 
320 



grupos para serem produtivos, devem ser suficientemente flexiveis e seus diversos 
membros exercer atos de liderana 
Esses atos de liderana caracterizam se pela contribuio na definio _____ dos 
objetivos do grupo pela locomoo do grupo em direo a seus objetivos pela melhoria 
da qualidade da interao entre os membros do grupo pelo aumento da coeso e pela 
colocao de recursos a disposio do mesmo 
(Cartwnght e Zander, 1968) De acordo com a abordagem da liderana como propriedade 
do grupo, a natureza da liderana e os traos dos lideres sero diferentes de grupo para 
grupo e nos diferentes momentos da vida de um mesmo grupo Resultados de pesquisas 
indicam que os aspectos situacionais tais como natureza dos objetivos, estrutura do 
grupo, atitudes ou necessidades dos seus membros e expectativas do meio externo em 
relao ao grupo interagem e *1 influenciam a determinao das funes que o grupo 
dever exercer em certo momento, assim como a seleo de seus membros para exerc-
las. 
A liderana como funo do grupo tem sido adotada por diversos psiclogos sociais, 
entre eles Barnard, Cattell, French, Gibb, Likert, Lippitt, Redl,Stodgill, Cartwright, Zander e 
Kurt Lewin. Embora os psiclogos sociais concordem em que a liderana seja 
caracterizada pela influncia exercida pelo ir. lder sobre o grupo e sobre as suas 
atividades, permanece entre eles a questo do tipo de influncia que seria especifica da 
liderana.
Esta divergencia e caracterizada por duas posies, representadas por uma abordagem 
mais ampla das funes de liderana, abrangendo todas aquelas funes que levam o 
grupo a se locomover, e por uma abordagem que se aproxima mais das funes 
tradicionalmente consideradas proprias do lider de um 
grupo Essa abordagem restringe as funes de liderana no grupo a um numero de 
funes especificas A caractenstica de funcionalidade que e a essncia do conceito de 
liderana mantem se no entanto, em ambas as abordagens.
Cattell (1951) afirma que todo membro de um grupo exerce liderana a medida que as 
propriedades do grupo so modificadas pela sua presena. Assim se ampliam as 
funes de liderana, que passam a abranger todas as aes dos membros do grupo 
capazes de ajud-lo a atingir seus estados desejados, 
estados estes que envolvem as reahzaes das tarefas e a manuteno do pro prio grupo 
enquanto tal nos seus diferentes estagios Ao identificar as funes de liderana Cattell 
enfatiza o relacionamento da liderana com a realizao ou desempenho do grupo Mostra 
que a produtividade depende das aes de liderana realizadas pelos membros de um 
grupo. Ao mesmo tempo, indica uma nova abordagem para identificao das funes de 
liderana que segundo ele deve iniciar se pela determinao dos estados valorizados 
pelo grupo em determinado momento Somente depois da caracterizao desses estados 
e que se podera identificar as funes mais adequadas para atingi lo bem como os 
membros do grupo que esto contribuindo para a realizao dessas funes Krech e 
Crutchfield (1961) considera algumas funes como sendo as 
especificas da liderana Ressaltando que, embora os grupos sejam de naturezas 
diferentes (autocraticos ou democraticos), essas funes, com maior ou menor nfase, 
so exercidas em todos eles e algumas delas so tambem co-
321



muns s organizaes. As funes de liderana consideradas por eles so as seguintes: 
1. O lder como o alto executivo ou como o coordenador das atividades do grupo. Esta 
funo independe da forma pela qual as polticas e os objetivos do grupo tenham sido 
definidas, ou seja, mediante imposio ou com a participao de seus membros. Os 
problemas apontados como geralmente presentes no exerccio dessa funo consistem 
na absoro das atividades pela pessoa no papel de lder e em sua incapacidade de 
delegar autoridade e responsabilidade. Essa centralizao do membro do grupo na 
funo de coordenador impede o desenvolvimento da responsabilidade na execuo das 
tarefas pelos membros do grupo e o prprio envolvimento no trabalho. 
2. lder como planejador: o lder geralmente assume o papel de planejador. Decide os 
caminhos e os meios para atingir os objetivos do grupo. Este planejamento poder 
envolver tanto as atividades a curto prazo quanto a longo prazo. Krech e Crutchfield 
apontam como o principal problema encontrado no exerccio dessa funo o isolamento 
do membro no papel de lder, que se toma o nico dono do plano. Somente ele tem o 
conhecimento geral do plano. Os demais membros so transformados em meros 
seguidores ou executores de tarefas, apresentadas de forma desintegrada; portanto, sem 
possibilitar a viso de conjunto e sua ligao ao plano global pelos membros do grupo. 
3. lder como um definidor de polticas. O estabelecimento de polticas e objetivos  uma 
das principais funes de lideranas. As definies podem ser feitas: 
a) pelas autoridades superiores, ou seja, de cima para baixo; 
b) com a participao dos membros do grupo, ou seja, de baixo para cima; 
c) pelo lder, quando tem autonomia para faz-lo. 
4. O lder como um especialista. O lder  caracterizado pela sua capacidade de fornecer 
informaes e habilidades.  medida que os membros do grupo dependem dos 
conhecimentos tcnicos de um deles, haver uma polarizao de poder em torno dele. 
5. O lder como um representante externo do grupo. E aquele membro que se comunica 
com outros grupos;  o que recebe e envia comunicaes. 
6. O lder como controlador das relaes internas. O lder controla detalhes especficos da 
estrutura do grupo e, ao faz-lo, controla as relaes internas. 
7. O lder como o depositrio de recompensa e punies. O lder tem o poder de aplicar 
recompensas ou punies aos demais membros do grupo. Em alguns casos, as punies 
podem ser a prpria morte do membro do grupo. As recompensas so de natureza 
diversa, desde bens materiais at posies mais importantes na hierarquia do grupo. 
8. O lder como exemplo do grupo. Em alguns grupos, o lder passa a ser o modelo do que 
deve ser e de como se comportar. 
322 



9. O lder como um smbolo para o grupo. A unidade do grupo se constitui, muitas vezes, 
em funo da figura do lder. 
10. O lder como um substituto da responsabilidade individual. Muitas vezes o lder  
investido pelo grupo para assumir responsabilidades que os demais membros no 
desejam assumir. 
11. O lder como o que define a ideologia para o grupo. O lder , em muitos grupos, 
aquele que define a sua ideologia. E a fonte de crenas, valores e normas dos membros 
do grupo. 
12. O lder como a figura paterna. O lder serve como um perfeito focus para os 
sentimentos emocionais positivos. E objeto de identificao e de transferncia, e os 
membros se submetem a ele. 
13. O lder como o bode expiatrio (scapegoat). Da mesma formal que serve para a 
identificao,  objeto da agressividade dos membros do grupo, que canalizam para ele 
as frustraes e desiluses. Em ambas as abordagens das funes de liderana, a 
primeira representada por Cattell e a segunda por Krech e Crutchfield, a natureza 
situacional e interacional de liderana  defendida como funcionamento essencial do 
conceito de liderana. Portanto, a liderana no  privilgio de um membro do grupo. 
Diferentes membros do grupo podem realizar atos de liderana em diferentes momentos 
da vida do grupo, dependendo da situao e dos objetivos do grupo, das caractersticas 
dos seus membros e do contexto em que est inserido. Por outro lado, essas abordagens 
identificam duas naturezas diferentes nas funes do grupo. A primeira  voltada para a 
tarefa ou para a realizao de aes que o levam a atingir seus objetivos  voltada, 
portanto, para a produtividade do grupo. A segunda, voltada para a manuteno do grupo. 
Neste caso, as aes so voltadas para a sobrevivncia do grupo como grupo, para a 
integrao de seus membros, para a soluo de conflitos internos, para a maior coeso 
grupal e para a criao de um clima interno que satisfaa as necessidades emocionais de 
cada um de seus membros. 
Poder social 
No se pode falar em exerccio das funes de liderana no grupo sem se falar no poder 
social. O poder social  a capacidade potencial do individuo de influenciar uma ou mais 
pessoas para agir em determinada direo ou para mudar a direo da ao. Poder 
social , portanto, a capacidade de exercer influncia interpessoal. Lewin, Lasswel e 
Kaplan (1950), Dahl (1955), Cartwright (1965), French e Raven (1959) desenvolveram 
estudos das fontes de poder social. Prench e Raven (1959) consideram como base do 
poder: 
a) o poder de recompensa, isto , a capacidade de recompensar; 
b) o poder de coao: a capacidade de um indivduo aplicar punies; 
c) o poder legitimo: o poder que emana de valores internalizados, de acordo com os quais 
um indivduo tem o direito de mandar, sendo que os demais tm de obedec-lo (para 
French e Raven, as bases do poder legitimo so os valores culturais, a aceitao da 
estrutura social, especialmente da hierarquia de autoridade, e a nomeao por uma 
autoridade legitima); 
323 



d) o poder de referncia: tem suas bases na identificao de um indivduo com outro; 
desejo de ser semelhante ou igual ao outro; 
e) o poder de especialista, que se fundamenta nos conhecimentos do indivduo e na 
percepo desses conhecimentos pelos demais. No basta o indivduo possuir 
conhecimentos especializados,  necessrio que os demais os percebam. 
Ao relacionar, entretanto, exerccio de influncia com a realizao das funes de 
liderana,  fundamental distinguir a influncia que emana da autoridade (poder adquirido 
legalmente), e que se exerce mediante a utilizao de instrumentos coercitivos, da 
influncia livremente aceita, que caracteriza a liderana e a distingue das funes de 
direo ou de chefia. O diretor, o chefe, o coordenador, o supervisor tm autoridade e por 
isso tm poder social. O lder exerce influncia sem a chancela da autoridade legal; sua 
influncia  livremente aceita pelos demais membros do grupo. No entanto, o lder s 
consegue exercer influncia sobre os demais membros do grupo quando seu poder de 
influncia  percebido. Um diretor que tenha reconhecidamente pouca influncia junto ao 
presidente da organizao no ter condies de exercer liderana no seu grupo de 
trabalho. Da mesma forma, quando um especialista no tem o reconhecimento do grupo 
como fonte de conhecimentos especializados, ele no ter nenhuma condio de exercer 
influncia nessa rea, ou de levar o grupo a se locomover em determinada direo. 
A liderana de determinados membros do grupo pode ser impedida de vrias formas 
pelos ocupantes de posies formais de direo. Pelo uso da autoridade, por exemplo,  
possvel mudar as funes dos indivduos, limitar suas atividades, restringir seu espao 
organizacional e tomar outras medidas a fim de retirar de um lder as condies de 
exercer influncias sobre os demais membros. Certos mecanismos psicolgicos so 
tambm utilizados para anular o poder de influncia dos indivduos no grupo: entre os mais 
observados est a desmoralizao do indivduo junto ao grupo, quer seja quanto  sua 
capacidade profissional, quer seja quanto s suas caractersticas individuais. Por outro 
lado, assim como os ocupantes de posies de direo podem impedir a realizao das 
funes de liderana, podero tambm incentiv-la. 
Efeitos de liderana 
Espero que os membros desta empresa, especialmente seu corpo tcnico, 
compreendam a minha deciso de centralizar as decises e usar os instrumentos legais 
necessrios para garantir seu cumprimento. Estamos na fase de implantao de nossa 
empresa, temos pouco tempo e uma grande tarefa a realizar. Se no se institucionalizar 
esta organizao, ela no sobreviver ao impacto da primeira mudana na poltica 
governamental. 
Em nossa cultura, por mais paradoxal que parea, a liderana autocrtica  considerada 
fator negativo. Os ocupantes de posies de direo nas organizaes que centralizam o 
poder adotando um comportamento gerencial autocrtico sentem-se forados a se 
justificarem junto a seus subordinados e  sociedade mais ampla. As justificativas mais 
freqentes so os objetivos mais amplos e o 
324 



Experimentos 
Com base nessa classificao, realizou-se um experimento inicial em que tentaram 
desenvolver tcnicas especiais para criar e descrever a atmosfera social de clubes de 
crianas, assim como registrar quantitativamente os efeitos das diferentes atmosferas 
sociais na vida do grupo e nos comportamentos das crianas. 
O segundo experimento foi realizado com quatro grupos de meninos de dez anos de 
idade. Cada grupo era constitudo por cinco meninos que se encontravam aps as aulas 
para desenvolver atividades. Esses grupo, eram aproximadamente semelhantes em 
padres de relaes interpessoais, em caractersticas fisicas, intelectuais, de 
personalidade e em status socio-econmico. Os lideres adultos, em nmero de quatro, 
foram treinados para exercer os trs estilos de liderana. Os lideres eram mudados de 
grupo e de estilo de liderana ao fim de cada seis semanas, de modo que cada grupo 
experimentasse os diferentes estilos de liderana exercidos pelos diferentes lideres. 
Todos os grupos encontravam-se no mesmo local e desenvolviam atividades similares 
com material semelhante. White e Lippitt (1960) relatam que a anlise das observaes 
registradas nos diferentes grupos, sob diferentes estilos de liderana, tendem a indicar 
que: 
1. Laissez-faire no  o mesmo que democracia; dentro dessas situaes: 
a) havia menos trabalho realizado, e de forma mais deficiente; 
b) os membros do grupo envolviam-se mais com o brinquedo e menos com o trabalho; 
c) os meninos expressaram preferncia pelos lideres democrticos. 
2. A democracia pode ser eficiente: 
a) apesar de que o trabalho realizado na autocracia  quantitativamente um pouco maior 
do que na democracia; 
b) a motivao  maior na democracia, mesmo quando o lder deixa a sala; 
c) a originalidade e a criatividade foram maiores na democracia. 
3. A autocracia pode gerar maior hostilidade e agresso, inclusive agresso contra os 
bodes expiatrios (scapegoats). 
4. A autocracia pode criar descontentamento no explicitado abertamente, mas que, 
mesmo quando a reao  de submisso, manifesta-se de vrias formas, inclusive: 
a) pelo abandono do grupo; 
b) pela preferncia pelo lder democrtico. 
5. Havia mais dependncia e menos individualidade na autocracia: 
a) mais comportamento dependente e submisso; 
b) conversa menos variada e mais limitada s situaes imediatas; 
c) desaparecimento das diferenas individuais entre os membros do grupo pela reao 
de submisso; 
d) perda da individualidade, segundo a impresso dos observadores. 
326 



Diferenas entre as vrias formas de liderana 
Os estudos de White e Lippitt mostraram que os estilos de liderana autocrtica, 
democrtica e laissez-faire so formas diferentes de exercer influncia no grupo. A 
liderana autocrtica no se fundamenta exclusivamente no controle do grupo pela fora 
fisica ou ameaa de punio. O lder autocrtico satisfaz s necessidades psicolgicas 
dos membros do grupo, da mesma forma que o lder democrtico. Ambos controlam 
psicologicamente o grupo. A grande diferena encontra-se na natureza das necessidades 
psicolgicas satisfeitas. O lder autocrtico explora e estimula a dependncia mediante a 
satisfao dessas necessidades, enquanto o lder democrtico desenvolve a 
autodeterminao, a responsabilidade e a criatividade dos membros do grupo. Cattell 
(1951), ao analisar as conseqncias de liderana autocrtica, mostra que ela gera 
necessidades, que originariamente no se manifestavam no grupo, e explora o medo, a 
insegurana e a frustrao, bem como as necessidades inconscientes, primitivas e de 
regresso, tais como a dependncia paterna, a identificao e a projeo do superego 
em vez da conscincia individual. A liderana autocrtica no ajuda o grupo a crescer. 
Cattell mostra a similaridade entre o lder autocrtico e o chefe autocrtico: ambos 
permanecem como centro da ateno do grupo e enfatizam a obedincia de seus 
subordinados s suas ordens. 
Krech e Crutchfield (1962), por seu lado, apontam como uma das caractersticas da 
liderana autocrtica a manuteno da segregao dentro do grupo. A comunicao no 
grupo  mnima e s se faz atravs do lder, e enfocada nele. O lder autocrtico  o centro 
de toda atividade do grupo, e sem ele o grupo no funciona. 
As principais conseqncias da liderana autocrtica apontadas pelos diferentes 
experimentos so as seguintes: 
 Torna o grupo dependente do seu lder. A sada do lder precipita o caos e a dissoluo 
do grupo. 
Reduz a comunicao interpessoal dentro do grupo. Reduz o moral do grupo e o torna 
mais vulnervel aos ataques e presses externas. 
A lidernaa democrtica  a anttese da liderana autoritria. Krech, Crutchfield e 
Balachey (1962) indicam as seguintes caractersticas da liderana democrtica: 
Envolvimento e participao de cada membro nas atividades do grupo e na definio de 
seus objetivos. 
Distribuio da responsabilidade entre os membros do grupo. A concentrao de 
responsabilidade  evitada. 
Incentivo aos contatos pessoais entre os membros do grupo e reforo das relaes 
intergrupais atravs da estrutura do grupo, o que a toma mais forte. 
Busca de reduo das tenses e conflitos intragrupais. 
Tentativa de evitar a predominncia de privilgios e diferenas em status na estrutura 
hierrquica do grupo. 

327 



Gibb (1968), ao estudar o padro de papis do lder democrtico, acentua a diferena 
entre os papis do lder democrtico e os exercidos pelo lder autocrtico. Segundo ele, o 
lder democrtico cria condies para que as satisfaes dentro do grupo sejam 
compartilhadas num clima de respeito mtuo entre o lder e o liderados. Por outro lado, ele 
tem a dificil tarefa de possibilitar aos membros do grupo a satisfao de outras 
necessidades, uma vez que a auto no- mia individual, necessidade bsica de todo ser 
humano,  de certo modo frustrada na vida grupal. O lder democrtico deve, portanto, 
conciliar o interesse de possibilitar a cada membro do grupo a satisfao do indivduo 
como indivduo, e ao mesmo tempo proteger o grupo como grupo. 
Os efeitos dos diferentes estilos de liderana tm sido tambm objeto de pesquisa do 
Instituto de Pesquisa Social na Universidade de Michigan desde 1947. Os resultados das 
investigaes de Likert (1961), um de seus pesquisadores de maior proeminncia, foram 
desenvolvidos em indstrias. Em seus estudos, Likert encontrou a influncia do estilo 
democrtico no aumento da produtividade dos membros da organizao. Suas 
investigaes mostraram que os superiores que centralizavam o poder eram menos 
produtivos do que os supervisores que trabalhavam de forma descentralizada, apoiando-
se nos membros do grupo. 
Os supervisores mais participantes, que trabalhavam de forma descentralizada e centrada 
nos membros do grupo, demonstravam maior interesse pelos seus subordinados e pelo 
prprio trabalho. Conseguiam criar condies mais produtivas e de maior satisfao no 
trabalho. Por outro lado, os estudos de Iowa, ao comparar os efeitos observados no 
comportamento de grupos sob liderana autocrtica com aqueles observados em outros 
grupos sob liderana democrtica, apontam que nos grupos liderados autocraticamente 
h maior quantidade de trabalho realizado, mas menor motivao, maior grau de 
agressividade, especialmente contra o lder e contra os demais membros do grupo, maior 
descontentamento, comportamento mais submisso e dependente, menor grau de amizade 
entre os membros do grupo e menor sentimento de grupo. Os estudos desenvolvidos por 
Fiedler sobre a influncia da liderana, ou do comportamento do lder no desempenho dos 
grupos na organizao, procuravam identificar que traos de personalidade ou atributos 
individuais seriam indicadores e poderiam ser previsores de uma liderana eficiente, ou 
seja, da capacidade do lder de exercer influncia e poder sobre os membros do grupo de 
forma a levar o grupo a um bom desempenho. Fiedler toma como caracterstica de 
personalidade a forma pela qual o lder percebe os membros de seu grupo. Esta forma de 
perceber leva-o a reagir ou a comportar-se de uma forma especifica em relao a cada 
membro do grupo. Um lder se comportar de forma bastante diferente em relao a um 
membro do grupo quando perceblo competitivo e pouco amigo, ou hostil. 
As percepes que o lder tem dos diferentes membros do grupo refletem as suas 
atitudes em relao a cada um deles. O comportamento do lder em relao a cada 
membro do grupo influenciar, por sua vez, o comportamento dos membros do grupo e a 
sua produtividade. Fiedler e seus colaboradores 
328



desenvolveram instrumentos de medida de percepo dos lideres na forma de escalas 
em que os lideres eram solicitados a descrever as caractersticas das pessoas com quem 
mais gostavam de trabalhar e as caractersticas daquelas com quem no gostavam de 
trabalhar. O denominado ASO (Medida da Similaridade Assumida) era obtido pela 
comparao dos escores obtidos nas duas escalas, podendo verificar-se at que ponto 
ou em que grau o lder fazia distino entre a pessoa que considerava mais agradvel e 
menos agradvel para trabalhar. Uma pessoa que percebe as pessoas mais e menos 
preferidas de forma semelhante tem um alto ASO, enquanto as pessoas que percebem, 
grande diferena entre o mais preferido e o menos preferido para trabalhar tm um baixo 
ASO e, portanto, uma discrepncia maior. Por outro lado, as pessoas que percebem o 
indivduo menos preferido para trabalhar de uma forma relativamente favorvel 
apresentam um alto LPC (Potencial de Liderana). Um lder com alto LPC  capaz de 
julgar uma pessoa como inteligente, competente e responsvel, apesar de no ser uma 
pessoa com quem gostaria de trabalhar. Por outro lado, um lder com baixo LPC julga de 
forma muito desfavorvel as pessoas com quem no gostaria de trabalhar. 
As pesquisas realizadas por Piedier com diferentes grupos organizacionais e de 
laboratrio mostraram que ASO e LPC, ou seja, as medidas de caractersticas de 
personalidade, isoladamente, no eram previsores de eficincia de liderana, mas 
quando outros fatores situacionais eram considerados, previses do bom desempenho do 
lder poderiam ser feitas. Em outras palavras, os resultados dos estudos mostraram que 
no  a caracterstica da personalidade do lder que determina a sua capacidade de 
liderana, mas a interao de fatores de personalidade com fatores situacionais. ASO ou 
LPC eram previsores de capacidade de liderana,  medida que outros fatores 
situacionais eram considerados. Os fatores situacionais considerados por Fiedier como 
mais relevantes e que interagem com as caractersticas de personalidade do lder so: a 
relao do lder com os membros do grupo, a natureza da tarefa do grupo, o poder 
inerente da posio do lder na organizao, a capacidade tcnico-profissional do lder, a 
situao ou contexto no qual o grupo atua e o grau de stress provocado por esse 
ambiente, a motivao dos membros do grupo e a sua capacidade tcnico-profissional. 
Fiedier mostra, entretanto, que esses fatores interagem, so interdependentes e se 
influenciam mutuamente. 
Os estudos realizados com diferentes grupos apresentaram resultados significativos. Os 
grupos de execuo (linha) realizavam de forma mais eficiente o seu trabalho e 
apresentavam melhor desempenho sob a liderana de um lder com ASO baixo (que 
percebe de forma desfavorvel aqueles com quem no gostaria de trabalhar), mas com 
aceitao do grupo. Os grupos de toma das de deciso e de formulao de polticas 
apresentaram, entretanto, melhor desempenho quando liderados por indivduos aceitos 
pelo grupo, mais permissivos e menos diretivos, que apresentavam maior considerao 
pelo grupo e com alto ASO. Nas tarefas criativas, os experimentos indicaram que os 
lideres mais permissivos, menos diretivos, com maior aceitao pelo grupo e com alto 
LPC conseguiram maior eficincia de seus grupos quando a situao organizacional, 
329 



comparada a outras situaes, era de menor stress. Os lideres controladores e pouco 
permissivos, com baixo LPC, conseguiram melhor desempenho do grupo quando as 
situaes de trabalho eram menos agradveis, de maior tenso e de maior stress 
organizacional. 
Fiedier, ao considerar as relaes do lder com os membros do seu grupo (especialmente 
com os membros-chave do grupo) como um dos fatores situacionais mais importantes, 
mostra que a aceitao do lder pelo grupo garante-lhe suporte alm daquele que poder 
obter por meio do uso das sanes e punies que poder aplicar em funo do poder 
que sua posio formal na organizao garante. Os estudos de Fiedler indicam, 
entretanto, uma diferena entre bom relacionamento com os membros do grupo e 
envolvimento emocional do lder com os membros do seu grupo. O lder deve ser capaz de 
manter uma distncia psicolgica entre ele e os membros do grupo.  esta distncia 
psicolgica que lhe permite separar suas emoes e seus sentimentos da avaliao que 
faz dos membros do seu grupo; isto lhe possibilita basear-se em critrios fundamentados 
no trabalho e na tarefa que o grupo executa, quando avalia seus membros. Os lideres que 
conseguiram maior desempenho dos seus grupos foram aqueles que mantiveram uma 
distncia psicolgica adequada entre eles e os membros de seu grupo de trabalho. 
Fiedler, ao tomar a aceitao do lder pelo grupo como uma das variveis situacionais de 
maior relevncia para uma adequada liderana e conseqente desempenho eficiente do 
grupo, ressalta que a aceitao do lder pelo grupo em si no afeta a eficincia do grupo, 
mas indica que um canal de comunicao entre eles existe;  atravs desse canal que o 
lder pode transmitir suas atitudes e exercer sua influncia. Um lder no aceito pelo grupo 
no conseguir exercer influncia, a no ser que use o seu poder das sanes e punies 
que a sua posio formal na organizao lhe garante. O lder que se sente aceito pelo 
grupo, e na realidade o , torna-se mais capaz de agir decisivamente e com maior 
segurana do que aquele lder no aceito pelo seu grupo. 
A clareza ou ambigidade da ou o seu grau de estruturao (mais ou menos definida)  
outro fator que exerce um papel importante na determinao do comportamento 
adequado do lder. Tarefas mais estruturadas, mais definidas, tornam o trabalho do lder 
mais fcil. Tarefas pouco estruturadas tomam o trabalho do lder mais complexo e difcil, 
mesmo quando o lder possui considervel poder formal. O poder da posio que o lder 
ocupa, ou o poder inerente  posio de liderana na organizao,  outro fator 
situacional que exerce influncia no seu comportamento ou no estilo de liderana. O uso 
de sanes e recompensas, a autoridade sobre os membros de seu grupo e o grau de 
autoridade que a organizao lhe confere influenciam seu comportamento  medida que 
usa este poder para influenciar ou exigir a aceitao dos membros de seu grupo. 
A percepo pelos membros do seu grupo do poder inerente  posio ocupada pelo 
lder , por si s, um fator que influencia tanto o seu comportamento quanto o do grupo. A 
capacidade tcnico-profissional do lder, por sua vez, influencia seu comportamento e seu 
estilo de liderana: um lder tcnica e profissionalmente seguro usa menos o poder formal 
porque sua influncia se 
330 



faz sentir no grupo pela sua capacidade individual de envolver as pessoas. Sua aceitao 
se d pelo reconhecimento de sua contribuio  tarefa do grupo e no pelos 
instrumentos coercitivos que poder usar. IFiedier mostra, por outro lado, que a motivao 
dos membros do grupo influencia o comportamento do lder, mas , em grande parte, 
conseqncia do comportamento desse lder. A motivao dos membros depende em 
grande parte das condies que o lder proporciona aos membros de seu grupo. 
Estilo de liderana na organizao 
Como se pode observar, os resultados das pesquisas sobre os efeitos do estilo de 
liderana democrtica e do estilo de liderana autocrtica sobre o comportamento dos 
indivduos e do grupo no nos permitem responder qual dos dois estilos  o melhor na 
organizao sem que se faam algumas consideraes em torno do termo melhor. 
Antes de mais nada, no se pode falar em melhor estilo de liderana, mas no estilo de 
liderana mais adequado aos objetivos do lder ou da organizao. O que o lder 
pretende alcanar ir definir o estilo de liderana a ser adotado. De fato, a liderana no  
um fim em si mesma, mas uma forma de exercer influncia que gera certas 
conseqncias. A utilizao de um estilo, quer seja autocrtico, quer seja democrtico, ir 
depender dos objetivos de quem exerce a liderana e das conseqncias desejadas por 
ele. Os lideres organizacionais, cujo objetivo principal  a manuteno do poder prprio 
ou de um grupo do qual so representantes, adotaro a liderana autocrtica como mais 
adequada a seus objetivos. A liderana autocrtica favorece a centralizao do poder, 
enfraquece as iniciativas individuais e promove o comportamento dependente e submisso 
dos membros do grupo. A qualidade do trabalho realizado  inferior, mas os resultados 
quantitativos podem ser superiores aos atingidos nos grupos liderados 
democraticarnente. 
Por seu lado, a liderana democrtica ser mais adequada quando o lder tem por 
objetivo a autodeterminao do grupo, o desenvolvimento das habilidades e capacidades 
de seus membros, a qualidade do desempenho e a integrao dos individuos no grupo. O 
grande problema do estilo de liderana democrtica nas organizaes  a transferncia 
de poder e de influncia para outros membros do grupo. O chefe, o que legalmente possui 
autoridade sobre seus subordinados, transfere poder de influncia e abre espao 
organizacional para que seus subordinados exeram influncia sobre os demais membros 
do grupo, sobre seus objetivos e atividades. Essa equalizao de poder  ameaadora, 
especialmente para aqueles tcnica ou profissionalmente inseguros e/ou cuja 
competncia profissional  inferior  de seus subordinados. A liderana democrtica 
exige daqueles que dirigem segurana tcnico-profissional e um compromisso maior com 
os direitos humanos dos membros da organizao e com a qualidade das realizaes do 
que com o status e o seu poder na organizao. 
A discusso sobre estilo democrtico ou estilo autocrtico de liderana torna-se 
questionvel quando se aborda a liderana como uma propriedade do grupo. A situao 
que o grupo vive, o contexto em que est inserido, os objetivos do grupo e as 
caractersticas de seus membros so fatores que devem determinar 
331 



no somente qual dos membros do grupo exercer liderana, como tambm que estilo de 
liderana ser adotado. Esse conjunto de fatores, entretanto, no e esttico. Existe uma 
dinmica no s na interao dos fatores, como tambm na sua prpria natureza que se 
modifica no processo de desenvolvimento das atividades do grupo. Estabelecer um estilo 
especifico para a liderana na organizao  esquecer a dinmica, a flexibilidade e a 
organicidade da vida organizacional. Tannenbaum e Warren (1958) sugerem um contnuo 
de comportamento de liderana em que existam diferentes padres de liderana 
gerencial, com maior ou menor grau de participao dos membros da organizao, 
dependendo dos objetivos, da situao e dos componentes do grupo a cada momento. O 
continuo de liderana, apesar de ser aparentemente o mais adequado  organizao,  o 
que traz mais dificuldades para ser adotado. Os ocupantes da posio de direo nas 
organizaes nem sempre so suficientemente dinmicos e sensveis para captar a 
necessidade de flexibilidade e o estilo adequado de liderana para as diferentes 
situaes. Alm disso, muitas vezes a flexibilidade  confundida com instabilidade por 
aqueles que dirigem. Mais ainda, a ausncia de parmetros para identificar o espao 
organizacional e o grau de liberdade de participao concedido pela chefia poder ser 
um fator altamente destrutivo na vida de um grupo organizacional. Por Outro lado, os 
prprios subordinados sentem-se mais seguros quando um estilo nico de liderana  
adotado pelos superiores. Selvin (1960), nos estudos em indstrias, verificou que o 
mesmo estilo de liderana adotado nos nveis superiores da organizao era adotado nos 
demais nveis organizacionais. O mesmo fenmeno foi observado nas pesquisas 
realizadas por Aguiar (1970), desenvolvidas em organizaes privadas brasileiras. O que 
parece existir  a predominncia de um estilo de liderana nico, especifico, que se 
incorpora  cultura da organizao. 
Figura 10.1. Srie contnua do comportamento de liderana. (Robert Tannenbaum e 
Warren H. Schmidt, How to Choose a Leaclership Pattern. Harvard Business Review, 
maro-abril de 1958, p. 96.) 
332 



No e demais lembrar mais uma vez que e frequente a confuso entre 
autoridade e poder de influenciar ou capacidade de liderana. A autoridade  
formal legalmente conferida a um membro da organizao A liderana ou o poder de 
influenciar o grupo nos seus objetivos, nas suas atividades, no seu comportamento e no 
comportamento de seus membros no so conferidos formalmente ou impostos ao grupo. 
A liderana no se rouba, no se perde, nem se impe. Os individuos so ou no capazes 
de exercer liderana sobre determinados grupos, em determinadas situaes. A liderana 
 exercida  medida que um dos membros do grupo  capaz de lev-lo a locomover-se 
em direo a seus objetivos A incapacidade de perceber a diferena entre autoridade e 
liderana, entre a natureza situacional e temporria da liderana como propriedade do 
grupo e a natureza permanente da autoridade do chefe tem levado muitos ocupantes de 
posies de direo a bloquear e impedir a contribuio de seus subordinados, a quem 
acusam de tentativas de apropriao do seu poder. 
A liderana na organizao 
Se observarmos o que acontece nas organizaes, no ser surpreendente constatar a 
predominncia do conceito de liderana como propriedade do individuo.
A liderana como propriedade do grupo e dificilmente aceita nas organizaes. O 
comportamento dos dirigentes explcita a crena nos dons ou faculdades especiais que 
eles prprios ou determinados individuos possuem. 
As razes para a predominncia do conceito de grande homem, do lder que nasceu 
hder do lider pelas suas caractensticas de personalidade, so de diferente natureza .A 
tradio cientifica em que predominam o pensamento aristotlico a influncia das 
cincias biologicas e o determinismo darwiniano, 
 uma delas. O comportamento humano  explicado como sendo determinado por um 
fator especifico, cuja natureza tambem identificada, e a hereditarieda de biolgica. Os 
fatores biolgicos determinam, segundo esta abordagem tradicional da liderana, o 
destino do individuo Por outro lado, a tradio psica 
nahtica que enfatiza a influncia predominante da infncia na determinao das 
caractersticas de personalidade sugere que os individuos so feitos nesta fase de sua 
existncia e que se comportaro de uma forma unica em consequncia de seus traos de 
personalidade formados e estruturados. O pressuposto 
de que os individuos so e que dificilmente se modificam contribui para a aceitao da 
liderana como caracteristica de personalidade. Entretanto se tentarmos uma anlise 
mais profunda das razes pelas quais a liderana  : 
tomada como uma caractenstica de personalidade, iremos encontrar outros fatores que 
possivelmente estaro mais diretamente relacionados com a rejeio da liderana como 
propriedade do grupo. A liderana como caracterstica : 
de personalidade suporta a teoria das elites pensantes, dos crebros da organizao. 
Enfatiza o privilgio de poucos comandarem o destino de muitos. 
Enfatiza a importancla de os controles externos e de as grandes maiorias se 
333 



tornarem simples seguidoras, tendo seu comportamento planejado e controlado pelos 
seus superiores. Garante e justifica a deteno do poder pelos lideres, ou seja, por 
aqueles dotados das caractersticas de personalidade prprias de um lder. A liderana 
como propriedade do grupo, por outra parte, enfatiza atos de liderana e no o lder. 
Diferentes grupos necessitam de diferentes estilos de liderana e diferentes membros do 
grupo podem exercer a liderana em momentos e situaes diferentes no mesmo grupo. 
O poder e a capacidade de influenciar o grupo e o comportamento de seus membros no 
 privilgio de um lder, mas de qualquer um dos membros do grupo que seja capaz de 
levar o grupo em direo a seus objetivos, O exerccio da liderana ou o exerccio de 
influncia no grupo, de forma a lev-lo a um desempenho adequado e ao alcance de seus 
objetivos, no se apoia exclusivamente nas caractersticas de personalidade do lder. A 
interao indivduo-meio  uma constante. A liderana  uma conseqncia dessa 
interao. Por outro lado, a liderana como propriedade do grupo dificulta o controle de 
tipo tradicional na organizao,  medida que possibilita e integra a contribuio e, 
conseqentemente, a influncia de diferentes membros da organizao. Os controles 
organizacionais passam a ser fundamentados e exercidos com base nos resultados ou no 
desempenho que o grupo apresenta. A liderana como propriedade do grupo, ou 
liderana contingencial, mostra o dinamismo e a organicidade da organizao, ao mesmo 
tempo que oferece meios para que o lder identifique qual estilo de liderana  mais 
adequado nas diferentes situaes grupais. 
Definir liderana 
Os estudos da influncia do estilo de liderana no desempenho dos grupos 
organizacionais, desenvolvidos durante os ltimos trinta anos em diferentes contextos 
organizacionais, trouxeram uma valiosa contribuio para a compreenso da natureza e 
da importncia dos estilos de liderana no desempenho do grupo. Os resultados desses 
estudos comprovam a teoria contingencial da liderana. Situaes diferentes exigem 
comportamentos diferentes do lder: 
liderana no  caracterizada pelas caractersticas de personalidade do lder 
isoladamente, mas depende de fatores de personalidade e de fatores situacionais que 
interagem. 
Ao identificar os fatores de personalidade do lder, os fatores situacionais que influenciam 
seu comportamento e o desempenho do grupo, Fiedler (1967) mostra a possibilidade de 
mudana do estilo de liderana, ou comportamento do lder, atravs do seu treinamento, 
desde que se entenda por treinamento a capacidade do lder de diagnosticar a realidade 
de seu grupo e a sua capacidade de mudar fatores ou condies, comportando-se ou 
reagindo de forma mais adequada ao bom desempenho do grupo. 
A mudana da percepo que o lder possui dos membros de seu grupo  um dos fatores 
fundamentais para a melhoria do desempenho do grupo, apesar de ser um dos processos 
mais difceis de serem alcanados. A percepo  sub-
334


 
jetiva, j que envolve valores, sentimentos, emoes e experincias passadas. Torn-la 
mais objetiva  uma tarefa muito dificil, mas sumamente importante para aqueles que 
pretendem levar o grupo que lideram a um bom desempenho. 
As variveis situacionais, quando diagnosticadas, indicam que tipo de comportamento o 
lder dever ter, de forma a levar o grupo a um melhor desempenho. Esse comportamento 
poder ser trabalhar na melhoria de suas relaes com o grupo, clarificar a tarefa, dar 
maior liberdade de ao ou orientar mais o trabalho do grupo, possibilitando inclusive que 
outros membros do grupo exeram a liderana em diferentes momentos da vida do 
grupo etc. 
RESUMO 
O grupo, compreendido como entidade psicossociolgica prpria, foi incorporado  
Psicologia Social. Como objeto de estudos cientficos, ganhou especial importncia com 
a contribuio de Kurt Lewin e a dinmica de grupo, rea de estudo cientifico que tem por 
objeto os grupos. 
O grupo  visto de formas diferentes pelas vrias teorias que de algum modo o abordam, 
mas de maneira geral o termo  tomado para designar dois ou mais indivduos que 
compartilham de um conjunto de normas, crenas e valores, e que mantm relaes 
definidas, de tal forma que o comportamento de cada um tem conseqncias sobre os 
demais. 
No grupo, o lder  entendido comumente como aquele que ocupa o cargo de direo. Na 
tradio psicanaltica, a relao lider-liderado caracteriza a relao afetiva entre os 
membros do grupo e a pessoa central. A definio do lder em funo das escolhas 
sociomtricas mostrou que nem sempre os que na percepo do grupo contribuem com 
as melhores idias so os mais aceitos. De acordo com outro conceito, lder  aquele que 
exerce influncia sobre outros. A liderana envolve tambm a aceitao dessa influncia. 
 medida que isto ocorre, os lideres passam a ser reconhecidos como uma fonte de 
contribuio positiva para o progresso dos grupos. 
A liderana como caracterstica de um indivduo fundamenta-se na identificao de traos 
fsicos, intelectuais e de personalidade que caracterizam os lideres. A teoria da interao, 
porm, apresenta a liderana como propriedade de grupo: a liderana surgiria  medida 
que o grupo se forma e se desenvolve. Diversos psiclogos sociais tm adotado a 
liderana como funo do grupo. 
O exerccio das funes de liderana no grupo est estreitamente relacionado com o 
poder social, com a capacidade do indivduo de influenciar uma ou mais pessoas para 
agir em determinada direo ou para mudar a direo da ao. A forma de exercer a 
liderana permanece assunto controverso. White e Lippit investigaram os efeitos de trs 
atmosferas sociais, denominadas autocrtica, democrtica e de laissez-faire, sobre o 
comportamento dos indivduos e do grupo. Com base nessa classificao, realizaram-se 
experimentos com o objetivo de registrar quantitativamente os efeitos das diferentes 
atmosferas sociais na vida do grupo. Krech e Crutchfield, por seu lado, apontam como 
uma das caractersticas 
335 



da liderana autocrtica a manuteno da segregao dentro do grupo. De acordo com 
experimentos realizados, a liderana autocrtica toma o grupo dependente do lder, reduz 
a comunicao interpessoal dentro do grupo, reduz a moral do grupo e o torna mais 
vulnervel. E a liderana democrtica contribui para o envolvimento e aparticpaF p 
JoJpJpo para a drstufbuio da responsabilidade entre eles, para o incentivo aos 
contatos pessoais entre os membros do grupo, fortalecendo a estrutura do grupo e para a 
reduo dos conflitos, assim como para evitar a predominncia de privilgios. 
No se pode falar em estilo de liderana melhor ou pior, mas em estilo de liderana mais 
ou menos adequado. A liderana autocrtica  mais adequada para a manuteno do 
poder; a liderana democrtica  mais adequada para a autodeterminao do grupo e o 
desenvolvimento das habilidades e capacidades de seus membros. Tannenbaum e 
Warren sugerem um continuo de comportamento da liderana, no qual existem diferentes 
padres de liderana gerencial, com maior ou menor grau de participao dos membros 
da organizao, dependendo dos objetivos, da situao e dos componentes do grupo a 
cada momento. Na prtica, porm, o continuo de liderana exige uma flexibilidade difcil 
de conseguir. 
Nas organizaes, constata-se a predominncia do conceito de liderana como 
propriedade do indivduo. A teoria contingencial da liderana (Fiedler) prope estilos 
diversos de liderana como conseqncia da interao dos fatores situacionais, 
individuais e grupais. 
TERMOS E CONCEITOS A SEREM LEMBRADOS 
Dinmica de grupo: rea de estudo cientifico que tem por objeto os grupos como 
entidades psicossociolgicas, a natureza de suas foras, os fenmenos e os processos 
grupais. 
Estilo de liderana: autocrtica, democrtica e laissez-faire: so formas diferentes de 
exercer influncia no grupo. 
Liderana: capacidade de tomar iniciativas em situaes sociais de planejar, organizar a 
ao e de suscitar colaborao. 
Liderana como caracterstica do indivduo: fundamenta-se na identificao dos traos 
individuais, fsicos, intelectuais e de personalidade que caracterizam os lideres (liderana 
inata). Os lideres, em qualquer situao e cultura, revelam os mesmos traos 
psicolgicos. Teoria no comprovada por estudos e 
pquia cintiflca. 
Liderana como uma propriedade de grupo: postulada pela teoria da interao, a 
liderana  um fenmeno que surge  medida que o grupo se forma e se desenvolve. O 
papel que um indivduo assume dentro de um grupo  determinado pelas necessidades 
do grupo, como tambm pelos atributos de personalidade, pelas capacidades e 
habilidades que caracterizam aquele individuo, e que so percebidos pelos demais 
membros. Comprovada por pesquisas e estudos cientficos. 
336 



Liderana e chefia: a chefia tem autoridade, dai o seu poder social; sua influncia emana 
da autoridade, exerce-se mediante a utilizao de instrumentos coercitivos. O lder exerce 
influncia sem a chancela da autoridade legal; sua influncia  livremente aceita pelos 
demais membros do grupo, desde que seu poder de influncia  percebido. 
Liderana Situacional: depende de fatores de personalidade, de fatores ambientais que 
se influenciam. Um membro do grupo se toma lder  medida que suas caractersticas 
individuais (conhecimentos, experincia, inteligncia ,etc.) so adequadas a determinada 
situao e contribuem para que o grupo . atinja seus objetivos.
APLICAO 
Estudo de caso 
A Empresa de Engenharia foi fundada em 1989 por um grupo de engenheiros e arquitetos 
e, desde essa poca, vem atuando no mercado nacional e flCA internacional de 
construo civil. Suas atividades expandiram-se e a empresanos ltimos anos, 
desenvolveu projetos como planejamento e construo de . .. rodovias e pontes usando 
tecnologia das mais modernas, assim como outras :. obras tanto na area privada quanto 
na publica A expanso da Empresa de 
Engenharia ocorreu tambem em outras areas do mercado transformando a em um Grupo 
integrado tambm por uma empresa de computao de dados, por uma imobiliria, por 
uma empresa de importao e exportao de equipa- :. mentos e materiais de construo 
civil poi uma industria de artefatos e ferra 
gens para construo e por uma indstria de vidros para construo. 
O Dr. Paulo, engenheiro civil, havia assumido a diretoria do Grupo de 
Engenharia h quatro anos e todo o processo e expanso da empresa se deu durante os 
dois primeiros anos de sua gesto. O Grupo, entretanto, vinha pas- . .. sando por srias 
dificuldades nos ltimos dois anos. Os contratos tornavam-se . . . . cada vez mais dificeis, 
os projetos no estavam sendo terminados nos prazos . plevistos as empresas 
apresentavam deficits e havia uma grande desmotivao entre os funcionrios, 
especialmente no grupo especializado de engenheiros e . . arquitetos. A rotatividade de 
pessoal nos ltimos dois anos vinha crescendo de forma assustadora. Coincidentemente, 
algumas srias modificaes estavam sendo verificadas no mercado: a crise de mo-de-
obra na construo civil, a refoimulao da politica governamental no setor de construo 
civil e a implantao pelo Banco Nacional de Habitao, da nova poltica que estabelecia . 
grandes restries no setor habitacional do pais. Essas restries levaram algu- . mas 
empresas da construo civil a um processo de fuso numa tentativa de soma de 
esforos, mas, ao mesmo tempo, criou um novo tipo de mercado, com concoirentes mais 
poderosos e em menor numero 
A crise internacional de combustivel levou o governo a atuar em outios setores 
especialmente nos de exportao e importao o que afetou direta-
337 



mente uma das empresas do Grupo de Engenharia. Os projetos no exterior tornaram-se 
tambm mais difceis em conseqncia da crise internacional de combustvel. Diante 
dessa situao, o presidente do Grupo de Engenharia decidiu solicitar ao Banco Nacional 
de Desenvolvimento Econmico um financiamento que possibilitaria vencer as 
dificuldades mais prementes. 
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico, depois de um estudo da situao, 
negou o financiamento. No parecer encaminhado ao presidente do Grupo, os tcnicos do 
BNDE informavam-no de que a deciso negativa tinha sido dada pela falta de estrutura do 
Grupo de Engenharia. Diante desse parecer, o presidente do Grupo de Engenharia 
contratou uma empresa de consultoria organizacional, numa tentativa de atender s 
exigncias do BNDE, ou seja, dar uma estrutura organizacional adequada ao Grupo. 
A consultoria deparou-se com a seguinte situao organizacional: os diretores e gerentes 
apontavam como um dos problemas mais graves do Grupo a personalidade do 
presidente, pessoa muito inteligente, dinmica, com grande conhecimento e experincia 
no setor de construo civil, mas sumamente autocrtico e centralizador. O presidente era 
considerado quase por unanimidade como um inibidor de lideranas. A participao de 
seus subordinados era impedida por ele e a maioria dos diretores e gerentes sentia-se 
como simples executores de suas ordens. A colaborao inteligente raramente era 
permitida. 
As decises eram lentas porque, com o crescimento do Grupo, no houve uma 
descentralizao adequada. O presidente comportava-se como se o Grupo fosse ainda 
aquela pequena empresa de engenharia que ele encontrou dois anos antes. Tudo tinha de 
passar por ele, desde a contratao de uma secretria at o fechamento de um contrato 
que envolve alguns milhes de reais. Muitas decises importantes e imediatas eram 
retardadas, com conseqente prejuzo para o Grupo e vantagens para os concorrentes. A 
interferncia do presidente nas atividades tcnicas, especialmente nos projetos de 
engenharia e arquitetura, criava constantes conflitos e mal-estar. Os engenheiros 
tecnicamente mais capazes e com maior experincia gerencial no permaneciam por 
muito tempo no Grupo. Houve situaes em que alguns deles abandonaram os projetos 
antes de seu trmino, em conseqncia da interveno do presidente nos aspectos 
tcnicos e gerenciais. Desta forma, os projetos se atrasavam e a qualidade dos trabalhos 
se tomava questionvel. 
Outros problemas que consideravam da alada do presidente, como contatos com a rea 
governamental, com bancos e com o mercado, no estavam sendo solucionados. Os 
diretores alegavam tambm que no se sentiam seguros para tomar decises, por mais 
simples que estas fossem, devido, entre outros fatores,  constante interferncia do 
presidente na rea das diferentes diretorias, o que criava situaes sumamente 
embaraosas, pois era comum os diretores serem surpreendidos com decises 
referentes a suas reas. Isto fazia com que agissem com maior cautela e se 
assessorassem mais freqentemente com o presidente. Outra razo pela qual sentiam 
dificuldade de tomar decises era a falta de polticas e metas para o Grupo. No se sabia 
onde e como atuar. 
338



Por outro lado, o presidente percebia a situao da seguinte maneira: o rpido 
crescimento e a expanso do Grupo exigia lideranas mais dinmicas e eficientes. Os 
diretores eram de sua inteira confiana, mas faltava-lhes a capacidade de liderana 
necessria e adequada para as suas funes. Por esta razo, ele vinha assumindo cada 
vez mais as decises e a gerncia geral do Grupo. Isto estava se tornando sumamente 
difcil, pois estava trabalhando 18 horas dirias, inclusive em fins de semana e feriados, e 
o Grupo ia mal. Vinha pensando seriamente em modificar o quadro de diretores, pois j 
havia tentado delegar poderes e, quando o fez, os diretores no souberam como agir e 
voltaram, pedindo-lhe que tomasse decises. 
Diante desses dados, a consultoria reuniu-se com o presidente para a apresentao e a 
discusso da percepo do problema, do ponto de vista dos diretores e gerentes, 
procurando evitar a identificao das opinies particulares. O presidente inicialmente 
mostrou-se muito irritado, tentando justificar-se junto aos consultores. Segundo ele, os 
diretores eram os responsveis pelo seu comportamento. A diretoria o forava a agir 
daquela forma. Quando delegava, no assumiam. Procurou-se mostrar ao presidente que 
no h uma nica forma de perceber uma situao; as pessoas percebem problemas e 
fatos de formas diferentes. O importante para a produtividade da empresa naquele 
momento seria analisar as duas percepes do problema cuidadosamente e procurar 
identificar quais os fatores mais relevantes indicados nas duas percepes e quais 
atitudes poderiam ser tomadas para levar os membros do Grupo a um desempenho mais 
adequado s demandas do momento. 
No haviam erros, nem culpa, mas formas diferentes de perceber o problema e, 
conseqentemente, diferentes atitudes e formas de reagir a ele. Voltou-se a discutir o 
problema e foram analisados alguns pontos considerados de maior importncia, entre 
eles a definio de metas e polticas para o Grupo. Uma semana aps a discusso do 
problema com a consultoria, o presidente encaminhou a todos os diretores e gerentes do 
Grupo o relatrio do diagnstico fornecido pela consultoria, onde se apresentava a 
percepo da situao do ponto de vista dos diretores e gerentes, solicitando a cada 
diretor que se reunisse na sua rea, com suas equipes, para anlise dos problemas e 
apresentao de solues alternativas. Foi marcada ao mesmo tempo uma reunio com a 
presidncia, para dentro de oito dias. 
A primeira reunio foi realizada, tendo sido discutida a situao do Grupo e as possveis 
solues para os diferentes problemas. O diretor de projetos no exterior sugeriu contatos 
com outras empresas nacionais que atuavam no exterior e o desenvolvimento de projetos 
conjuntos, ao mesmo tempo que sugeria um trabalho mais integrado entre esta diretoria e 
a indstria de materiais de construo, que poderia orientar-se mais em funo das 
necessidades de mercado exterior. A diretoria da imobiliria sentia a necessidade de um 
estudo de mercado e de uma anlise mais profunda das novas polticas governamentais 
do setor para planejar sua atuao. A diretoria de processamento de dados via a 
possibilidade de expandir seus servios, mas necessitava aumentar sua equipe de 
analistas de sistemas e de vendedores. O presidente autorizou a cada 
339 



diretoria que elaborasse os planos de ao sugeridos e, nas reunies seguintes, foram 
discutidos e aprovados. Os diretores passaram a atuar rapidamente, tendo sido possvel, 
num tempo recorde, traar as principais metas do Grupo e suas polticas. Uma nova 
estrutura organizacional foi emergindo dessas reunies e um novo estilo de liderana ficou 
estabelecido no Grupo. Sua produtividade aumentou de forma surpreendente e, como 
conseqncia, os lucros e a motivao dos membros da organizao. 
Questes pertinentes ao caso 
1. Identifique os fatores que determinam o estilo de liderana do presidente nos primeiros 
dois anos de sua gesto. 
2. Diagnostique as dificuldades que o presidente estava tendo para identificar o melhor 
estilo de liderana, a partir do segundo ano de sua gesto. Que fatores estavam 
influenciando sua percepo dos membros do Grupo? Explique a relao entre o 
comportamento do presidente e o comportamento dos diretores. 
3. Identifique o processo de mudana de estilo de liderana do presidente. Quais os 
fatores que ocasionaram ou provocaram esta mudana? 
De que forma o processo de mudana foi realizado? 
TRABALHO DE CAMPO 
Identifique, em pelo menos trs empresas que atuem em reas diferentes, 
o seguinte: 
1. Qual  o processo de seleo dos lideres dos grupos de trabalho? 
2. De que forma descrevem um lder? 
3. Como avaliam a eficincia do lder? 
4. Desenvolvem treinamento para lideres? Que tipo e de que forma? 
5. Quais so os conceitos de liderana encontrados? Que conseqncias voc pode 
observar para o grupo e para a organizao? 
Trabalho prtico 
Trabalho em grupo 
Discuta a seguinte situao: 
O Senhor X  administrador de empresas e trabalha na assessoria da presidncia no 
setor de Recursos Humanos de uma empresa de projetos de engenharia. Foi designado 
pelo presidente da empresa para ser coordenador de um grupo de trabalho que deveria 
planejar a seleo e o treinamento dos lideres de projetos. 
No grupo constitudo, surgiram duas orientaes quanto ao conceito de 
liderana: liderana como caracterstica de personalidade e liderana como 
propriedade do grupo. 
340 



1. Discuta os argumentos da liderana como caracterstica de personalidade, 
apresentando as suas inadequaes e conseqncias para a organizao. 
Identifique as diferenas de planos de seleo e treinamento de lideres fundamentados na 
liderana como caracterstica de personalidade e como propriedade do grupo. 
Elabore um plano de seleo e treinamento de lideres fundamentando-o nos conceitos de 
liderana contingencial. Discuta. 
QUESTES 
Qual  a importncia do estudo dos grupos como entidades psicossociolgicas para se 
compreender o comportamento organizacional? 
2. O que significa processo grupal? 
3. Quais so as principais caractersticas que indicam a diferena entre grupo e um 
agregado de indivduos? 
4. Quais so as principais abordagens tericas e qual a sua influncia no estudo dos 
processos grupais? 
5. Qual  a diferena entre os conceitos de lder e de liderana? 
6. Quais so as caractersticas da liderana? 
7. Quais so as diferenas entre liderana e chefia ou comando? 
8. Em que pressupostos tericos se fundamenta a teoria da liderana como caracterstica 
de personalidade? 
9. Em que pressupostos tericos se fundamenta a teoria contingencial da liderana? 
10. Quais so as conseqncias, na seleo e treinamento de pessoal, da abordagem da 
liderana como uma caracterstica de personalidade, e da abordagem da liderana como 
uma propriedade do grupo, ou teoria contingencial? 
11. Qual  a influncia da conduta do lder ou do seu estilo de liderana no comportamento 
do grupo e no seu desempenho? 
12.  possvel dizer que existe um melhor estilo de liderana? Por qu? 
13.  possvel treinar lideres? Justifique sua resposta. 
TRABALHO DE PESQUISA 
1.Pesquise os novos conceitos de liderana divulgados nos ltimos 5 (cinco) anos 
(internet, seminrios, publicaes cientificas Best sellers, livros recentes de Administrao 
e de Psicologia). 
2.Faa a distino entre teorias de liderana e tipos de liderana.
 3.Identifique em que teorias os conceitos pesquisados foram desenvolvidos. 
Analise a fundamentao cientifica destas e destes conceitos.
341




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